não escrevo para outros e nada dos outros vos trago a partilhar
– sou assim. sem saber porquê – escrevo com a mão de um outro que me ocupa de
forma selvagem – sou um corpo extorquido em usufruto – uma caução de morada até
à morte – e é este miserável que me entrega com rudez. tal como sou. sem nenhum padrão de gratidão. ignorando o meu apelo sofrido ao
silêncio – para a frente da fala não
existe recuo – a palavra é uma escritura onde o meu corpo se torna avalista no
mundo dos sons – não é fácil.
acreditem – mas um dia serei pó e poderei definitivamente ocupar o lugar à
direita do meu pai. numa eternidade piedosa – o ocupador. selvagem. elementar
hospedeiro de um corpo marcado pela maldição de um deus esculpido em pedra. a ocupação perdura numa simbiose forçada
– ficará para sempre acorrentado ao
peso das palavras. ora em pecado
capital. ora em clemência sofrida –
quanto a mim. quando ando por aí. perdido na minha própria modéstia de
nojo. nunca direi nada a ninguém. o silêncio não me é imposto. é uma forma de vida – a felicidade
chegará com o sacrífico final
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