quando
perdemos um amigo que nunca foi amigo a dor
transforma-se num poema sem delicadeza. é lâmina. é borracha que nada apaga –
quando perdemos um amigo que jamais será inimigo o sofrimento é um poema
necrófago. é putrefação. é uma morte que não é morte porque eu e ele
continuamos vivos – quando perdemos um amigo de uma rua que ainda é a nossa rua.
a raiva é a boca de um lobo. é flecha trespassando a vida por inteiro. é o fim
da ilusão – quando perdemos um amigo o caminho para a frente é sempre solidão
.
perdoa-me
corpo porque estas palavras são de uma alma que nunca quis ser punhal
.
para
um amigo que já não é amigo não há mais palavras garrote. a dor combate-se com
dor. o sangue é para verter até à última gota – nem mais uma palavra fácil.
justificativa. pacifista. indulta. ou cúmplice de meias verdades – sou agora a
favor da pena de morte para as palavras que não dizem a verdade por inteiro –
se não há meias vidas também não pode haver meias palavras – tudo o que vos
escrevo é sufoco. raiva. contrição. e o corpo a resistir ao exorcismo enquanto
o diabo exige sepultura definitiva. fogo. cremação – só o cheiro a carne
queimada confirma que a morte existe – só perdemos um amigo para sempre quando
perdemos o nosso corpo também para sempre – a dor já não é poema: é lápide
Sem comentários:
Enviar um comentário