estou no coração da
minha cidade – raramente me desloco ao centro da minha cidade. nunca fui muito
de confusões nem vou muito à bola com multidões – pior. confesso que tenho medo
dos carros que não são conduzidos por mim. das motas com escape livre. dos
polícias com pistolas e das janelas em edifícios que não param de crescer – as cidades já não são como antigamente. são
confusas. impessoais. conflituosas. irritantes. barulhentas. fazem-me nervos. baralham-me
o funcionamento do corpo e o coração começa a bater sem gostar. quando dou
conta o coração descompassa. as pernas entram em desespero. os calcanhares latejam.
perco o discernimento. a paciência. entro numa agitação masoquista. acalento. ruborizo.
fico tresloucado e só me apetece fugir para o que é meu – este cansaço associado
ao nervoso miudinho recorda-me os domingos de verão na minha infância – não
havia domingo de bom tempo que os meus pais não aproveitassem para dar um
pulinho à praia – nessa época. os médicos aconselhavam banhos de iodo para
quase todos as maleitas do corpo e do espírito – os meus pais levavam muito a
sério os conselhos dos senhores doutores. era gente que tinha estudado em
coimbra – no sábado à noite já não havia sossego em minha casa: preparavam-se
os fatos de banho. as toalhas. os bonés. o protetor solar. o prego para o jogo
do espeto. a bola nívea. as cartas para jogar uma bisca lambida e sorrisos que só
apareciam nessa altura do ano. éramos felizes com tão pouco – a noite passava em passo de caracol. mas quando
o dia raiava já a minha mãe e a lurdes [minha segunda mãe] andavam em bolandas a tratar do farnel – neste
farnel não faltava nada. era tudo a multiplicar por dez. o ar do mar incrustado
de iodo puxava um apetite desgovernado – comia-se até chegar com o dedo – a
minha mãe ficava feliz. entendia que crianças bem alimentadas são mais
resistentes às maleitas dos invernos. ficam menos expostas às pontadas de uma
corrente de ar – eu acreditava. naquele tempo. dizia-se que napoleão temia mais
uma corrente de ar do que uma bala de canhão – passei a vida toda com medo das
pontadas de ar e estive quase a morrer atropelado – são coisas do diabo
– o meu pai era o responsável por reunir os apetrechos que garantiam luxo e
conforto à excursão domingueira: guarda-sóis. tapa ventos. mantas. cadeiras e banquinhos
e uma cuba de plástico cheia de gelo para manter as bebidas frescas durante
todo o dia – a questão que se colocava era como meter tudo na mala do carro –
nunca nada ficou para trás – depois dos banhos de sol. sal e iodo
refugiávamo-nos num pinhal a forrar o estômago com as iguarias preparadas pelas
minhas duas mães – eram dias enormes. bonitos. afetuosos. era um abraço que ainda
hoje aperta – chegávamos a casa já com o sol quase engolido pela escuridão – seria
tudo perfeito não fosse eu regressar completamente arrasado de cansaço. sentia
o corpo todo a colapsar. preso por arames. como se estivesse ligado à corrente
elétrica e pudesse implodir os fusíveis a todo o momento – ficava um cangalho. quebrado
e sem forças – a minha mãe dizia que era efeito do iodo. mexia com o meu
sistema nervoso. a transmissão de sinais entre as diferentes partes do corpo
estava em conflito. em rotura e as dores nas pernas completavam a moldura de um
miúdo à beira do colapso – a praia era demasiadamente esgotante para mim – não era nada fácil aguentar
aqueles domingos mergulhados em iodo – o problema piorava com a minha mãe a multiplicar por cem os sintomas.
resultado: overdose quase mortal – mas aos poucos lá me ia acalmando dizendo que
os benefícios destas tomas seriam para toda a vida e que uma noite de repouso traria
tudo à normalidade – assim era. no dia
seguinte acordava novo em folha – em troca destas dores benfeitoras o frio do
inverno não passaria pela lã das camisolas interiores e as gripes e
constipações curar-se-iam com sumos de laranja. vitamina C natural – já não uso
camisola interior de lã. nem ceroulas. nem tenho aquela comichão da lã virgem que
me comia o cérebro o dia todo – só eu e deus é que sabemos o que se sofria com
aquele agasalho. mil vezes pior do que o iodo – toda a comichão acabou quando chegou a
camisola do século XXI: a thermotebe – foi uma bênção de deus – nunca percebi
porque não foi contemplado com um nobel o sr. thermotebe. uma injustiça – o
tempo passou rápido demais. tudo está diferente. trocámos o iodo pelo monóxido
de carbono. comecei a fumar e só parei trinta anos mais tarde. engordei. fiquei
feiíssimo. passei a usar óculos para ler. desisti de correr. de saltar. de ter pressa
pelo dia seguinte. os prédios cresceram. desumanizaram-se. a mercearia do zeca
lacota e a casa de pasto luso-brasileira fecharam. também e à praça do comércio
já não chegam pela madrugada os camiões do algarve carregados com as primeiras
uvas da época – quem a viu e quem vê. não conheço ninguém. ando aqui à meia
hora e nenhum dos meus colegas de liceu passou por mim. estou só numa cidade
que era minha – as portas do comércio despidas de amizade. sem comerciantes
enfarpelados. a sorrir. a dar bom dia. a enviar cumprimentos para os paizinhos.
já ninguém me chama pelo nome. as crianças já não partem vidros a jogar à bola.
nem jogam à macaca. nem há peditórios para as festas de santo antónio. olho
para todo o lado e não encontro nada. nem o mário polícia sinaleiro. está tudo
de pernas para o ar. só os sinos das igrejas batem as mesmas horas – sou um
desconhecido na minha cidade – enquanto caminho vou recusando todas as emoções
saudosistas – um homem tem que ter os olhos postos no futuro. sei ao que vim – vim
ao centro da minha cidade por obrigação. o notário exige a minha presença. com
mais rigor. exige que assine presencial – aqui estou para fazer valer com
verdade o meu nome num papel que deveria ser importante. não estou certo que
assim seja – e o doutor notário confirma que sou mesmo quem diz o cartão de
cidadão – são casas estranhíssimas. povoadas de doutores. de vendedores e
compradores. todos com sorrisos cuidados. os que vendem convencidos que
venderam bem. os que compram inchados de orgulho. atestando o seu poderio
económico e os doutores juram que sem o conhecimento da lei o mundo seria uma selva
– com ar sério só mesmo as funcionárias. estão-se nas tintas para os negócios.
passam-lhes pelas mãos milhões e ganham tostões – já passou o tempo em que era simpaticamente
coagido pelo advogado a entregar voluntariamente uma gorjeta ao funcionário
como reconhecimento de bons serviços prestados – este. agradecido pela
deferência. despedia-se com um aperto de mão que se não fosse o iodo lixava-me
as falanges – subi ao notário para reconhecer uma procuração que permite
alienar. no brasil. uma coisa que nunca rendeu um centavo – que homem de
negócios compreende isto? o melhor é enterrar este ex-negócio no esquecimento
para não me envergonhar – esta coisa dos contratos escritos exige corpos
robustos e bem iodados – o tráfico comercial produz cada coisa mais estranha –
só gente estranha produz coisas estranhas – mas acreditemos no futuro – saí
para a rua feliz. o brasil em breve terá notícias minhas. a minha assinatura
voará sobre o atlântico e me fará representar com tudo que existe em abundância
em mim: imaginação e esperança – creio que este stock de imaginação e esperança
se deve às doses maciças de iodo que apanhei em catraio – a minha mãe tinha
razão. o iodo é para toda a vida – estou de regresso a casa. o tempo passou. os
carros também e os semáforos ordenam ritmadamente o nosso mundo. agora passa a
combustão fóssil para logo de seguida passar a combustão O2 – tudo a consumir
energia que não é renovável e os filhos do criador cada vez mais acelerados e
irritados. afrontam as buzinadelas com movimentos de toureio a pé. e a classe para
sobreviver é a forma como gingamos a coluna vertebral. o joelho metido para
dentro e o corpo a equilibrar a desordem psíquica enquanto o físico acelera
rumo ao inevitável: o fim dos sonhos – vivo nesta confusão que se tornou
sobrevivência. ainda ando com verde. ainda paro com o vermelho – graças ao iodo
ainda conservo o tino – a minha vida é um para-arranca. tanto esticão e
solavanco. um dia fico sem caixa de velocidades – vai-me valendo o iodo para aguentar
esta vida de trampa
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
16/09/2018
eu. a minha cidade. o notário e o iodo
pintura - eugène boudin
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário