.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

05/11/2018

conto e contar


caspar friedrich


nem sei se respiro ou deito a alma ao lixo – estou assim. os dias a contar dentro de mim e eu sem saber que gaveta abrir – conto. conto tudo o que pode ser contado: os botões da camisa. os dedos das mãos. as lâmpadas acesas e as que se fundiram com o passar do tempo. conto pernas e sapatos gastos de tanto caminhar. conto dias em que sorri e outros em que desapareci – estou assim. pesaroso. arrependido e perdido. procuro-me nas razões. no azar. na sorte. e no destino. às vezes sozinho. outras. junto companhia como quem não quer a coisa – passo o tempo entretido a contar. a vida não é uma conta que se faz de cabeça baixa. tudo o que conto hoje não sei ainda o poderei contar amanhã. é tudo tão volátil. tão fácil de quebrar – o futuro corre sempre tão depressa – conto cada abril honrado. cada natal vivido. e março como se fosse ontem – conto os vivos. os que já não estão vivos e os que. estando vivos. se fingem de mortos – um corpo aflito só resiste ao descanso eterno pela saudade – conto pelos dedos para não me enganar nem enganar o mundo. onde as contas se fazem e desfazem ao ritmo da vida – e eu defronte das minhas gavetas sem saber contar o tempo que me resta para abrir cada uma delas – conto comigo e quem comigo me ajudou a fazer as contas do tempo. as contas não se fazem sozinhas. dentro das minhas contas há contas de outras contas que nunca poderei compensar – conto as vezes que amei sem saber que o amor é também um conto: era uma vez uma princesa linda. tão linda que é impossível contar a sua formosura – tudo o que conto está ligado por nós que não sei desatar. e os dedos gigantes enrodilham-se em contas que não têm fim – conto as noites que passei sem dormir. conto os fantasmas que inventei e outros que por serem invisíveis não sei contar. conto estrelas. conto gaivotas. conto as rugas de um rosto cansado. gasto. a chamar a morte. o destino. o horror – e as luzes do sótão acesas. a iluminar o mundo das contas. e a faca entalada na garganta grita em desespero: noves fora zero. zero. igual a nada 



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