nem sei se respiro ou deito a alma ao lixo – estou assim.
os dias a contar dentro de mim e eu sem saber que gaveta abrir – conto. conto
tudo o que pode ser contado: os botões da camisa. os dedos das mãos. as
lâmpadas acesas e as que se fundiram com o passar do tempo. conto pernas e
sapatos gastos de tanto caminhar. conto dias em que sorri e outros em que
desapareci – estou assim. pesaroso. arrependido e perdido. procuro-me nas
razões. no azar. na sorte. e no destino. às vezes sozinho. outras. junto companhia
como quem não quer a coisa – passo o tempo entretido a contar. a vida não é uma
conta que se faz de cabeça baixa. tudo o que conto hoje não sei ainda o poderei
contar amanhã. é tudo tão volátil. tão fácil de quebrar – o futuro corre sempre
tão depressa – conto cada abril honrado. cada natal vivido. e março como se
fosse ontem – conto os vivos. os que já não estão vivos e os que. estando vivos.
se fingem de mortos – um corpo aflito só resiste ao descanso eterno pela
saudade – conto pelos dedos para não me enganar nem enganar o mundo. onde as
contas se fazem e desfazem ao ritmo da vida – e eu defronte das minhas gavetas
sem saber contar o tempo que me resta para abrir cada uma delas – conto comigo e
quem comigo me ajudou a fazer as contas do tempo. as contas não se fazem
sozinhas. dentro das minhas contas há contas de outras contas que nunca poderei
compensar – conto as vezes que amei sem saber que o amor é também um conto: era
uma vez uma princesa linda. tão linda que é impossível contar a sua formosura –
tudo o que conto está ligado por nós que não sei desatar. e os dedos gigantes
enrodilham-se em contas que não têm fim – conto as noites que passei sem dormir.
conto os fantasmas que inventei e outros que por serem invisíveis não sei
contar. conto estrelas. conto gaivotas. conto as rugas de um rosto cansado. gasto.
a chamar a morte. o destino. o horror – e as luzes do sótão acesas. a iluminar
o mundo das contas. e a faca entalada na garganta grita em desespero: noves
fora zero. zero. igual a nada
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
05/11/2018
conto e contar
caspar friedrich
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