.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

03/10/2019

eu. o che e a revolução








com o sol de volta renasce a manhã – ergo-me das trevas. espreguiço-me. chego-me à janela. olho o céu como quem quer medir a distância entre o chão e os milagres. sorrio… e por ali fico a existir sem querer saber nada do que dizem os astros para o dia de hoje – apetece-me unicamente viver. aceitar o destino e respirar o mundo – adoro estas manhãs em que olho para o futuro sem me preocupar com o destino e. tal como disse nelson mandela. “Seja qual for o Deus, eu sou mestre do meu destino e capitão da minha alma.” – hoje. também eu me sinto mestre e capitão da minha alma – a imensidão do céu azul liberdade de tomie ohtake disputa a luz com o castanho infantil dos meus olhos. atrás de mim a juventude e a cama por fazer. para a frente. o que me sobrou dos sonhos revolucionários e o fim das camas por fazer – a linha do horizonte é sempre ténue e dolorosa para quem acaba de acordar para o erro. para o sacrifício. para a resiliência e para o combate diário corpo a corpo. não fosse eu um sobrevivente da revolução de abril – olho o fim do mundo que os meus olhos alcançam e digo para mim que estou a acordar: se o mundo é assim tão enorme como dizem. porque será que me sinto sempre tão apertado. tão acanhado. a sufocar. como se o céu a todo o momento me pudesse cair em cima da cabeça – agora percebo bem o medo do obelix. também ele andava sempre apavorado que “le ciel lui tombe sur la tête” – não nasci nem vivo em gália e também sinto que o céu me pode cair a todo o momento sobre a cabeça – sorrio num jeito de deixa andar. hoje não me quero aborrecer. afinal o dia até está bonito – sei e sinto que mereço este dia – para me despedir deste céu que me guarda o infinito. espreguiço-me até tocar com as pontas dos dedos nas fronteiras do mundo e parto em direção ao polibã a cantarolar grândola vila morena. do nosso amado zeca afonso – atiro-me para debaixo da água “muy caliente”. digo uma dúzia de palavrões e reafirmo: fascismo nunca mais.  o povo é quem mais ordena – eu sou esse povo – lavo-me dos pesadelos da noite e prometo a mim mesmo enfrentar o meu destino com briga. “é melhor morrer pelo fogo. em combate. a morrer em casa. pela fome” [fidel castro] – enrolo-me num toalhão estampado com um cravo vermelho de abril. dou duas lufadas de bafo quente para o espelho e desapareço – às vezes não me suporto. mas não é o caso de hoje – limpo-o com a ponta da toalha e dou comigo a brilhar. a sorrir e com a barba a dançar de um lado para o outro – é a minha barba revolucionária da manhã. um pelo virado à esquerda e outro à anarquia – um homem lavado é sempre bonito – sinto-me enorme. poderoso e pergunto-me: será que é hoje o dia certo para vestir a t-shirt do che guevara – penso duas vezes. olho para mim novamente… e. tudo como dantes: sorridente. barbudo. enorme e poderoso – com convicção digo para o gajo do espelho: é hoje que vais vestir o raio da t-shirt – sei muito bem o que vale uma revolução. já vivi as suas mentiras. paradoxos e promessas quebradas – a democracia chegou à minha adolescência exatamente como chegavam os propagandistas às romarias: carregados de quinquilharias para vender ao preço da uva mijona – eram os famosíssimos vendedores da banha da cobra e na verdade. tudo o que impingiam. era muito mais do que produtos de baixa qualidade. era magia.  era o ressurgimento do milagre da multiplicação no mundo contemporâneo. um truque de ilusionismo onde uma nota dava lugar a um saco cheio de nada – tal como os políticos - a ladainha era sempre a mesma. com uma voz firme e uma oratória treinada. tomava conta da vontade do cliente que. como serpente hipnotizada. ficava imóvel e rendido. a sua única motivação era deitar a mão às pechinchas – estes homens subiam para cima das suas caminhetas. levantavam o tolde de lona e logo apareciam umas quantas “rumas” de cobertores. bem empilhados. com as cores organizadas num degradê harmonioso e mais outros mil e tantos produtos que ninguém sabia para que servia cada um deles – ajustavam à boca um micro preso ao peito. protegiam-no com um lenço de mão para absorver os perdigotos. davam três pancadinhas e começavam os testes: um dois três. um dois três. um dois três quatro cinco… seis mil cobertores vendidos. e logo de seguida. para não perder nenhum romeiro. numa voz poderosa a imitar os primeiros locutores da rádio. começava a propagandear os seus produtos com a arte dos grandes mestres da oratória – eram homens cansativos. não se calavam um único segundo e o romeiro nem tempo tinha para se questionar porque estava ali estacado. e quando despertasse do encantamento. estava sem a nota de mouzinho da silveira – o propagandista era um homem astuto e matreiro. e para que os romeiros se sentissem mais tranquilos e confiantes. apontava-lhes o dedo em riste. percorria-os um a um. agora numa locução meiga e doce e. benzia-se com um olho na fé e outro nas notas de quinhentos – comunicar com doçura era a sua arma secreta para apanhar na sua teia comunicacional os clientes mais difíceis e desconfiados – era chegado o momento para juntar à doçura uma laracha inofensiva e quebrar pelo humor o gelo dos mais resistentes:

-- estamos nesta romaria também a pedido do seu santo padroeiro… não fiquem espantados! sim!… é verdade… santo também tem as suas necessidades – o nosso querido s. judas tadeu. mais uma vez. aproveitará a nossa presença nesta gloriosíssima celebração em ação de graças para suprimir muitas das suas necessidades – podem não acreditar. mas os santos também têm frio – por isso é que aqui estamos todos mais uma vez. para agradecer. para louvar e proclamar a obra salvífica de deus. que protegidos pela sua imensa bondade nos permite. mais um ano. estarmos neste convívio religioso. alegrados pelos seus feitos e sempre fiéis ao seu chamamento misericordioso – mais uma vez obrigado meu deus por poder tirar o frio aos teus fiéis. amém

o suor caía-lhe em bica ensopando a camisa em nome da paixão. de arte e do sacrifício – tanto palavreado. tanta gesticulação. tanta imaginação só para vender um cobertor – este sujeito não parava um minuto. talvez use pilhas duracel –

-- mas como vos dizia. este é também o momento para que o nosso querido s. judas tadeu. possa adquirir os nossos fantásticos produtos. que. como sabem. são os mais baixos do universo – já não há milagre que faça baixar o preço destes maravilhosos produtos – só deus e eu sabemos que este é o preço justo para a excelência do que trazemos nesta carrinha que é o nosso ganha pão de quatro rodas – vejam só -apontando para os cobertores- podem dar a volta ao mundo duas vezes que. não encontrarão cobertores com esta qualidade – saibam que com um cobertor fabricado com esta magnifica lã nunca mais terão que ter medo às frentes frias que nos chegam da sibéria – o senhor sabe que falo verdade e porque sou um homem grato aos seus desígnios a “minha boca anunciará todos os dias vossa justiça e vossas graças incontáveis” (Sl 70,14-15) amém – este cobertor será a minha ruína – senhores e senhoras. o que vos peço por este fantástico cobertor será muito menos do que um automóvel. um barco. um avião. uma viagem ao brasil. um jantar no pedro dos leitões… este cobertor… este cobertor vai custar a módica quantia de…

e a multidão em desordem emocional comprime-se para ficar o mais perto possível do mestre das vendas – é importante ver bem esse incrível cobertor que desafia os frios gélidos siberianos – e lá continuava com a ladainha sem anunciar o preço do cobertor – era assim que prendia a atenção dos romeiros

-- senhoras e senhores. meninas e meninos casadoiros. vejam só a qualidade deste cobertor de pura lã virgem – com este cobertor vindo diretamente das conceituadíssimas fábricas da serra da estrela. os vossos invernos nunca mais serão enregelados – adeus frio para sempre. e atenção senhoras e senhores!... para levarem este fantástico e único cobertor para vossa casa… sim. vocês vão querer levar o cobertor para vossa casa. não vai pagar mil escudos. não vai pagar novecentos. não vai pagar oitocentos e seiscentos também não. vai pagar uma miserável nota de quinhentos escudos – por apenas quinhentos escudos terá no seu inverno o insuportável calor deste mês de agosto. será como se vivessem na ilha selvagem das caraíbas. como se embrulhassem num casaco de vison – uma pechincha… e mesmo que viva mais duzentos anos. nunca mais terá a oportunidade de comprar um cobertor com esta qualidade a este miserável preço de uma nota de quinhentos paus

e sem deixar esmorecer o desassossego numa multidão que não parava de aumentar. de se empurrar. o mestre das vendas embriagado com a exaltação dos romeiros não parava de pinchar de um lado para o outro. de gesticular. como se os braços a todo o momento quisessem desprender-se do corpo – já pouco espaço restava à sua volta. tinha captado. definitivamente. a atenção dos romeiros – este homem saltava quilómetros inteiros em cima da sua caminheta. ninguém ficava indiferente à sua resistência física: pernas. braços. olhos e a língua em perpétuo movimento – vender era o seu sustento. dava tudo o que tinha. e até o pouco que já não tinha. nada nem ninguém o desalentava e. se sentisse desânimo num ou outro possível comprador. a solução era falar-lhe olhos nos olhos – e ele fazia-o. arregalava os olhos de tal forma que era como se dissesse: sair daqui sem o cobertor é pecado – o suor caia-lhe testa abaixo. a luta era corpo a corpo. romeiro a romeiro. cada cobertor vendido era um dia de sustento

 

-- e atenção caríssimos senhoras e senhores. saibam que com o cobertor ainda levam uma faca de cozinha em aço inox mil e noventa e cinco. usada pelos famosos ninjas na china antiga. e ainda… e ainda… mais uma dúzia de copos em cristal da mongólia. e mais… hoje estou mãos-largas… e só porque estou aqui nesta terra abençoada. e porque estou tocado pela emoção… quero que saibam que com este maravilhoso cobertor… levam esta fantástica faca. estes deslumbrantes copos. e ainda. e ainda… e ainda… mais um saca rolhas com um design singular do excêntrico magasin printemps parisiense – hoje é o vosso dia de sorte

e uma série de milagres extra pela mesma módica quantia de quinhentos escudos – e o povinho romeiro ali de volta a babar. inquieto. a aconchegar-se o mais à frente possível. não fosse acabar a mercadoria – todos querem ser os primeiros a receber o cobertor da serra da estrela e todas as fantásticas quinquilharias pela insignificância de uma nota de quinhentos escudos – é um grande negócio. o propagandista ganha a vida e o romeiro leva para casa a ilusão de que fez o negócio da sua vida. e mesmo não necessitando de nada do que mercou. sente que foi uma pechincha de ocasião que nunca mais se voltará a repetir – todos felizes: o propagandista. o povinho e também o santo padroeiro. afinal de contas é mais um milagre registado no seu livro de milagres. acabando por subir uns pontos no ranking dos santos e. obviamente.  agradar a deus – ele sabe que ninguém gosta mais de milagres do que deus em pessoa – e quando anunciava o começo da distribuição dos produtos não se cansava de avisar. em voz ainda mais encorpada. que a graça era finita e o stock sagrado era limitado – a agitação era total. empurrões e mais empurrões e as notas de quinhentos no ar em preces desesperadas – era o black friday dos nossos dias

-- e mais um conjunto para aquele cavalheiro. e outro para esta menina casadoira e ainda mais outra para esta bonita família. e esta senhora quer dois cobertores e quem levar dois cobertores não leva uma faca. leva duas. não leva um saca-rolhas. mas sim dois

e o homem a desfazer-se em simpatia e as notas de quinhentos em pilha. pousadas num cobertor com um paralelepípedo em cima não fosse o vento armar-se em democrata e espalhar a fortuna pelos menos abastados – foi mais ou menos assim que chegou a democracia ao meu país. uns quantos políticos subiram para cima do palanque e começaram a vender-nos a banha da cobra gesticulando não só os braços. mas também as idiotices – e o zé povo a viver um momento único e histórico. eufórico. inculto. desprevenido e sem malícia para perceber que estava a lidar não com propagandistas. mas com charlatões – esta raça escabrosa de políticos camaleónicos não troca cobertores por notas de quinhentos. trocava votos por cadeiras numa casa que fingem ser da democracia – mas não. não é a casa do povo nem de coisa nenhuma.  é o esconderijo legalizado de um grupo de malfeitores que a coberto do voto democrático duvidoso sonegam o erário público com a maior hipocrisia e desfaçatez. tornando os pobres mais pobres e os ricos ainda mais ricos e poderosos – é a toca onde duzentos e trinta bandidos. sem escrúpulos. ano após ano. nos afogam em mentiras e sangram a esperança – infelizmente ainda não inventaram uma nova ordem política mais competente e justa – temos que nos aguentar com estes malfazentes. temos que votar nos menos maus. nos que nos roubam com mais discrição e revolta – e o povo iludido na revolução gritava palavras de ordem como se também eles tivessem derrubado a ditadura – a nossa democracia acabou com mais de mil privilégios. mas depressa criou outros que. de tão abundantes. perderam-se na contagem  – o mundo das revoluções está repleto de contradições – uma sociedade livre é uma sociedade desigual. injusta e discriminatória – mais liberdade é igual a mais horror nas desigualdades – e é assim que aparecem os desarreigados. os inconformados. os que precisam de revoluções diárias para aceitar as suas contradições – a revolução de hoje retificará os erros da revolução de ontem – eu vivo numa revolução contínua. também eu retifico hoje os erros de ontem e. amanhã. noutra revolução. já sei que retificarei os de hoje – liberdade. fraternidade e igualdade são conceitos sustentados pela retórica política porque em boa verdade nenhuma destas palavras sobreviveria ao produto final das revoluções – mas como diz nelson mandela: “não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos” – é por isso que eu vivo num mundo de revoluções. o meu vale da morte é diário. e a luta para o ultrapassar é o meu grito de guerra – mas o importante é que mesmo nesta democracia imperfeita o meu país ficou mais justo depois da revolução de abril – o meu lamento vai apenas para o tipo de gentalha que tem comandado o destino desta fantástica nação de gente boa e bonita – na verdade. os políticos que nos impingiram a democracia não foram nada diferentes dos propagandistas da minha adolescência. prometeram-nos um cobertor e não sei mais quantas coisas que depressa percebemos que não correspondia à verdade – mas quem for sério não pode nunca dizer que a sua vida não melhorou depois da revolução de abril. melhorou e muito – estou imensamente grato a todos aqueles que de uma maneira ou de outra contribuíram para que aquele movimento das forças armadas rompesse naquela madrugada de abril – confesso que ao fim destes anos todos sou ainda um resistente de abril. faço parte do povo unido jamais será vencido; “da força. força. companheiro vasco. nós seremos a muralha de aço; do trabalho dá pão. repressão não; da terra a quem a trabalha; medo nunca mais; da paz. pão. habitação; e viva a liberdade e o MFA [movimento das forças armadas]” esse punho de abril que rompeu a madrugada – e eu a crescer com a velocidade dos cometas. feliz. como se as revoluções existissem para sempre. como se a adolescência se eternizasse em manifestações e reivindicações e o corpo nunca parasse de gritar: fascismo nunca mais – mas “adelante adelante”. que a saudade também mata – amarro nas jeans e enfio-as até que nada reste das pernas de abril. aperto o fecho e o botão numa correria. enfio a t-shirt do che. calço uns calcantes tipo charlie chaplin. viro-me para a porta no mundo que sustenta os astros e questiono-me: vais a correr ou levas o que te pesa pela mão? saio a correr. corro como se a revolução me perseguisse. olho o céu novamente. o azul já não é de liberdade e as nuvens ficaram mais pesadas. mais nuvens do que nunca – será que o mau tempo está por aí a chegar? talvez não seja má ideia resgatar o guarda-chuva do bengaleiro – volto atrás. contrariado. nas revoluções a chuva não molha. reabro a porta da minha única casa. olho para dentro à minha procura e só encontro ausência: o mais certo é ter ido para a concentração da CGTP [confederação geral dos trabalhadores portugueses] na avenida central – pego no guarda-chuva do 007 não vá a chuva trazer com ela um fascista tresloucado. na gabardina do detetive colombo. nunca se sabe se a PIDE [polícia internacional e de defesa do estado] ainda está operacional.  no chapéu e bengala do poirrot. a vida sorri sempre para quem usa a massa cinzenta. e por último. a lupa do holmes. envelhecer obriga-nos a ver tudo ao pormenor – e fui pelo mundo fora como se tivesse acabado de me tornar num revolucionário da LUAR [liga de unidade de acção popular] – passa por mim. em sentido contrário o zé povinho com um dinossauro político preso a um cordel. um pato bravo a fazer quá quá e um elefante branco num show de trapézio. equilibra-se numa só pata em cima de uma cigarra que não para de gemer. o peso um dia destes parte-lhe a coluna – atrás. em passo lento e de vara na mão. o destino a tocar tudo para o dia seguinte vai gritando: sem cultura não há caminho. nem liberdade – ninguém se mete com o destino. mas eu sou um revolucionário de abril e trago o che ao peito. sem medo disse-lhe: estás a caminhar para o lado errado. a cultura com liberdade é para o lado oposto – olhou-me com ar de poucos amigos. aproximou-se. sacou de uma faca de ponta e mola e encostou-ma ao pescoço. e numa voz rouca-intranquila. disse-me: cresce. vai-te foder – sorri e disse-lhe: outra vez tu?!!!... – virei as costas. olhei para a t-shirt e pensei: sou mesmo um revolucionário não só de abril. mas de todos os meses – e segui rua abaixo cantarolando "hasta siempre comandante che. hasta sempre comandante che" – e lá foi o destino à sua vida e eu à minha – agostinho da silva dizia que a liberdade só existe quando todos os nossos atos concordam com todo o nosso pensamento – não. minha vida nunca foi um reflexo pleno do meu pensamento. mas uma coisa sei. sempre escolhi o caminho que pisei e sempre em total liberdade – “hasta siempre”


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