.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

01/04/2020

excerto da crónica: os velhos. a comunicação e a covid19





fico com a ideia de que às vezes há uma comunicação desatenta com as palavras. descuidada. pouco trabalhada. apressada. às vezes em pânico. que nos chega emparelhada. mesmo que de forma ténue. aos tropeços na sombra da original. travestida de alívio. parasita. mas também um género de bálsamo anestesiante para as dores da alma. um relaxador de medo. um perdoa-me do comunicador. e que diz mais ou menos assim: caros ativos deste país. pagadores de impostos. gente que usa as autoestradas. gente que faz filas de trânsito. gente que leva filhos aos infantários. gente que corre atrás de uma bola. gente que faz o mundo andar à velocidade dos aviões. gente que compra moda. excentricidades. coisas que não servem para nada. gente que faz política e ainda outros que se encaixam em perfeição no liberalismo selvagem. gente do lucro. das grandes cadeias mundiais de produção. das ações de wall street. da distribuição de dividendos. dos ricos cada vez mais ricos. e daqueles que são escandalosamente menos ricos. humildes. modestos sem entenderem porquê. talvez por causa do alimento. da sobrevivência. da dignidade do nome. da descendência. e do riso. do fingimento para esquecer – viramos costas ao que tem mais gula do que olhos. e planeamos tudo para uma eternidade feliz e absoluta que nos escapa sempre – relaxem… só morre malta acima dos oitenta anos. malta sem velocidade. malta das cadeiras de rodas. que não corre. que não paga impostos. que não vai para os infantários. malta estranha. velhos do restelo. estão sempre contra tudo e todos. só sabem ver telenovelas para não falar nas fraldas – descontraiam. isto é doença para quem arrasta os pés. nós temos é que trabalhar. temos que fazer o país andar. quem é que paga as contas no fim do mês

 


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