esta crónica é dedicada a uma
pessoa muito especial para a nossa família: a lurdes não merecia este
vírus
I.
chega mais uma
vez aquele momento odioso dos números da tragédia das últimas vinte e quatro
horas – e ali estou eu. a olhar para a tv. silencioso. cabisbaixo. triste e com
medo. o covid19 não para de se manifestar. nenhuma família está completamente a
salvo da dor – não é a primeira vez que o mundo está em maus lençóis. e também
não será a última. a história produziu imensas tragédias e também as guarda
para servir de aviso. mas não adianta. o ser humano é coisa complicada. e nem o
saber dos provérbios populares o acautela na ambição: lê o passado e ficarás
preparado para o futuro – para não me perder nas crises e tragédias do mundo.
vou apenas focar-me nas mais marcantes deste século: sofri a primeira incursão
de terror com o ataque terrorista às torres gémeas no 11 de setembro de 2001.
não foi fácil lidar com aquele limbo de indefinição das primeiras horas. mas
logo percebemos que a guerra era inevitável – nunca conheci uma guerra boa para
as mães – de seguida prendi-me ao pânico da falência do lehman brothers nos
estados unidos. o colapso desta instituição financeira deu origem a uma crise
económica mundial. acabando por afetar todos os continentes – foi a maior crise
desde o crash de wall street de 1930 – este pedaço de terra plantado à
beira-mar. mesmo sendo um país periférico e minúsculo do sul da europa. tantas
vezes esquecido e ignorado. foi mais uma vez capaz de espantar o mundo – desde
o tempo das descobertas e. com a chegada a lisboa das naus carregadas de ouro
do brasil. nunca mais perdemos a mania das grandezas – o banco de portugal. que
alegadamente tinha mecanismos para supervisão. garantindo a estabilidade e a
solidez do nosso sistema financeiro. e deste modo. certificar a sua boa saúde e
respeitabilidade. surpreendentemente. ou não. foi incompetente – o banco com o
nome desta nossa nação imortal. não foi capaz de perceber os sinais de alerta
que vinham da banca. não apenas de uma parte da banca. mas de forma geral. do
nosso ecossistema financeiro – claro que os portugueses ainda hoje se interrogam
como foi possível tal coisa acontecer – o que ficamos a saber. é que os nossos
bancos eram geridos por pessoas pouco idóneas. digo. por mafiosos – os nossos
“banqueiros”. com raiva do que se passava fora de portas. fizeram questão de
mostrar ao mundo. que apesar de pequenos e pobres. estávamos ao nível do que
melhor se faz nos grandes países. não lhes faltou arte. e de uma penada.
tivemos o BPN. BES. BANIF em bancarrota e assim. milhares de portugueses
ficaram sem as poupanças de uma vida – um país inteiro enganado. em falcatruas
somos capazes até de superar as grandes potências mundiais. mas ao contrário de
outros países. onde os prevaricadores foram a tribunal e pagam com cadeia as
trafulhices. no nosso adorado portugal. tudo continuou como dantes. os banqueiros
ficaram nas suas casas e os depositantes na pobreza – por fim. com o país na
bancarrota. com falências em série no tecido empresarial e desemprego a roçar
os 15%. deram-nos a estocada final. trouxeram a troika como a derradeira
solução para a salvação do pouco que ainda detínhamos verdadeiramente nosso: as
pequenas e médias empresas – estes cavalheiros chegados de países frios e
escuros como breu. de poucos sorrisos. óculos escuros. gabardine preta e pasta
de cabedal preta. não quiseram saber de quem era a culpa. e para expiação dos
nossos pecados. uma dúzia de credos diários e jejum absoluto. como no tempo da
inquisição. pão. água e fé no centeno que é outra forma de dizer centeio. ou outra
coisa para matar a fome – de lâmina afiada. foi cortar a eito. e não importa
que seja velho ou doente. com ou sem medicamentos. uma barbárie com o selo da
CE – tenho muitas dúvidas sobre a possibilidade de contabilizar as mortes
associadas a estas tragédias. mas se fosse possível. por arte de um qualquer
nobel de contas. tenho a certeza que o saldo final destes falecimentos
violentos. suplantaria em muitos os contabilizados pelo covid19 – mas enfim.
esses mortos nunca foram contabilizados – têm. no entanto. algo em comum com os
que morrem com o covid19: morrem ambos asfixiados – a diferença é que para uns
a falência do corpo aconteceu por culpa de um vírus importado da china que
ataca o sistema respiratório. e para os outros. a falência do corpo aconteceu
por culpa de um vírus económico importado de banqueiros sem escrúpulos. que
ataca de igual modo o sistema respiratório. sufocando as pessoas pela fome e
pelo desgosto – o mundo em geral e os portugueses em particular. sempre viveram
em agonia e na corda bamba – em rodapé do meu pensamento corre em passo
acelerado uma esperança desmiolada: hoje vai ser melhor do que ontem. a curva
não vai subir tanto – é a isto que se chama fé desmiolada. todo mundo sabe que
será pior. mas todos continuamos pregados à televisão. numa espera angustiada.
amarrados a fátima e às orações – somos uma nação de gente boa que está
habituada a sorrir e a abraçar. queremos acreditar num milagre. que se sabe que
não irá acontecer – felizmente que este fenómeno tresloucado e de pouco juízo é
comum à maior parte dos meus conterrâneos. o que me deixa mais sossegado. ainda
não apresentou sinais relevantes de um esgotamento nervoso – é reconfortante
saber que não estamos sozinhos nos nossos devaneios – contudo. há uma diferença
enorme entre a minha fé desmiolada e a de um grande número de portugueses pouco
ajuizados: eu tenho fé de que o número de infetados e de mortes seja menor. e
os meus conterrâneos pouco ajuizados acreditam que o vírus só ataca o vizinho –
por via dessa fé pouco ortodoxa. podem continuar a passear. podem ir à praia.
formar grupos de cavaqueira à porta dos cafés fechados. e os mais novos podem
continuar a galhofar com este vírus estúpido que só mata velhos – como sei que
a maioria dos jovens tem pais. avós. tios e outras almas em final de vida. o
que eles querem mesmo acreditar é que a doença só ataca pessoal da família dos
vizinhos – pois bem. até pode ser uma doença de velhos. até me podem jurar a pé
juntos que ninguém com menos de setenta anos será afetado por este vírus. podem
dizer o que quiser. mas o que me revolta. não é o que a nossa juventude
inconsciente diz. isso perdoo-lhes porque em boa verdade a culpa não creio
mesmo que seja deles. é mais um problema da nova sociedade. e da forma como
relativiza a importância da família – mas isso levava-me a outra viagem. que
nesta conjetura parece não ser relevante. o que me custa imenso. imenso mesmo.
é que as notícias nos nossos principais órgãos de comunicação social. escrita e
falada. associem a tragédia das mortes pelo covid19 à idade das vítimas.
induzindo os espectadores mais novos a uma desresponsabilização emocional – sei
bem que essa é uma verdade do covid19. sei também que é verdade que são os
idosos as principais vítimas deste vírus. sei também que a maior parte deles
está bastante debilitada devido a quadros clínicos muito complicados. mas todas
essas verdades. não justificam que a dor ou as lágrimas de uma morte sejam
menores e diferentes de quando acontece com pessoas mais novas – os velhos
dominam o mistério da vida. são eles que dominam a magia do tempo. são eles que
dão sentido à juventude para que possam perceba mais rapidamente que não devem
desperdiçar um único segundo das suas vidas – não podemos facilitar com as
palavras. mesmo quando por mais que tentes elas digam o que não queres dizer. a
morte não tem idade. nem nunca saberemos quem merece viver mais um dia. se um
velho de oitenta anos que ainda toma conta dos netos para que os seus filhos
possam sobreviver com os ordenados miseráveis. ou um jovem que com a sua má
formação de carácter se transformará num breve espaço de tempo num criminoso
sem escrúpulos – mas tentarei explicar melhor na segunda parte desta crónica o
enredo das nossas televisões na caracterização das mortes nesta tragédia do
covid19… e claro. com a nossa lurdes
II.
bem sei que é
inevitável essa associação. mas fico com a sensação de que há. por vezes. uma
comunicação descuidada com as palavras. pouco trabalhada. pouco cuidada. por
vezes feita em estado de pânico. que nos chega emparelhada. mesmo que de forma
ténue. a sobreviver à custa da original. encriptada disfarçada de alívio. parasitária.
mas também um género de bálsamo anestesiante para as dores da alma. um
relaxador de medo. um perdoa-me do comunicador. e que diz mais ou menos assim:
caros ativos deste país. pagadores de impostos. gente que usa as autoestradas.
gente que faz filas de trânsito. gente que leva filhos aos infantários. gente
que corre atrás de uma bola. gente que faz o mundo andar à velocidade dos
aviões. gente que compra moda. que compra excentricidades e coisas que não
servem para coisa nenhuma. gente que faz política e ainda outros que se
encaixam em perfeição no liberalismo selvagem. gente do lucro. das grandes
cadeias mundiais de produção. das ações de wall street. da distribuição de
dividendos. dos ricos cada vez mais ricos. e daqueles que são escandalosamente
menos ricos. humildes. modestos sem saberem o porquê. talvez por causa do
alimento. da sobrevivência. da dignidade do nome. da descendência. e do rir. do
fingir para esquecer… e viramos as costas aos que tudo querem. e planeamos uma
eternidade feliz que jamais será nossa – relaxem… só morre
malta acima dos oitenta. sem velocidade. sem filhos. com fraldas e novelas –
descontraiam. isto é doença de quem arrasta os pés. nós temos é que fazer o
país andar. quem paga as contas no fim do mês – pois bem. não tenho oitenta
anos. estou até ainda longe dessa idade de risco. mas confesso-vos. este
momento que estamos a atravessar está a deixar-me amedrontado – estou farto de
pensar no quanto a juventude pode ser traiçoeira. fumei durante trinta anos e
nunca imaginei que um dia seria capaz de envelhecer – palermices que só os
velhos conseguem compreender – apesar de já ter abandonado o vício há mais de
quinze anos. as mazelas da nicotina são como vulcões adormecidos. que acordam
sem aviso prévio. e sempre com mau feitio – os invernos infernizam-me os
brônquios. causando-me desconforto no peito. e só não se torna grave porque um
dia o escocês alexander fleming. reparou que as suas culturas de staphylococcus
estavam contaminadas por mofo – infelizmente. no covid19. ainda ninguém reparou
em nada que nos valesse nesta aflição. talvez apareça um galês. ou quem sabe…
um português descendente do egas moniz. e me retire deste medo horrendo – mas
não quero falar de mim. bato três vezes numa superfície preta e rumino entre
dentes uma ladainha contra os males chineses que nos acercam: diabo do vírus
seja cego. surdo e mudo – agora que já me sinto completamente protegido.
confesso: estou cansado de andar da sala para o escritório e do escritório para
a sala – já ouvi dizer que o vírus atacou o vizinho do quarto andar.
apanhou-lhe as entranhas e nem tempo teve para dizer ai – ouve-se pela caixa do
elevador que passa o dia a espirrar e a coçar-se – pobre homem. já não saía de
casa desde que o covid19 surgiu na china. e ninguém entende como aquilo lhe foi
parar ao quarto andar – uma calamidade nesta nossa comunidade vertical – há
quem diga na vizinhança que viu um vulto a esgueirar-se pelas paredes do
prédio. em farrapos e com os olhos em bico. a tossir. com uma coroa na cabeça.
e abeirar-se da janela com meneamentos de dragão oriental – é o diz que disse.
a questão é ninguém sabe quanta verdade há numa mentira – confesso que estou em
pânico. e também eu decretei uma cerca sanitária em redor da minha casa. já não
me bastava a pandemia mundial e ainda ter que aguentar uma pandemia no prédio –
é por isso que me mantenho em estado de alerta total. mais vale prevenir do que
remediar – desde o dia em que um chinês me impingiu um guarda-chuva com a mola
quebrada. nunca mais fui capaz de confiar nessa malta do império do meio –
ninguém está preparado para esta barbárie. mas se por um lado o medo é
fundamental para sobreviver. alerta-nos para perigos reais. faz-nos ficar em
casa. lavar as mãos duzentas vezes ao dia. usar máscara. e outros cuidados
excêntricos que até há bem pouco tempo eram impensáveis. por outro lado. o
terror amarra-se à cabeça como sanguessuga ao corpo. e o bom senso fica em
aflição. numa ansiedade dolorosa e sem controle emocional – o inferno deve ser algo
parecido com isto. imagino eu. só que sem a possibilidade de ouvir música do
hauser. ver filmes na netflix. ler um bestseller e partilhar o isolamento
social com a mulher da nossa vida – acredito que ter acesso a informação
credível. sabedoria. atitude positiva. confiança nas autoridades e no nosso
serviço nacional de saúde. é o melhor antídoto contra o medo – para aliviar
este stress a que estou sujeito diariamente. como milhões de pessoas em todo o
mundo. e também para vos mostrar como este covid19 pode ser muito velhaco. vil.
má e traiçoeira. uma pulha da pior espécie. ao escolher como alvo principal os
mais débeis e doentes. gente no limite das forças. cansada. gasta pela vida: os
idosos – resolvi tirar do anonimato uma dessas pessoas com muita idade. mas
muito especial para mim [que deus me ajude em palavras e a minha arte
exalte o seu nome] tenho o prazer de vos apresentar uma pessoa que serviu
a nossa família durante quatro gerações: lurdes. oitenta anos. diabética.
hipertensa. graves dificuldades de locomoção e ainda outros problemas que. apesar
de menores. a impossibilitam de ter uma vida normal – a ua. como carinhosamente
é tratada no nosso meio familiar. chegou à casa dos meus bisavós maternos aos
catorze anos com a missão ingrata de ajudar a tratar a minha avó de um mal terrível.
como era normal dizer na época para as doenças oncológicas – com o falecimento
da minha avó viajou para braga. veio servir para casa dos meus progenitores. e
ali se fez mulher a partir dos seus dezasseis anos – com o tempo acabou por se
tornar na “criada” de confiança dos meus pais e também a inveja de outras
serventes nas redondezas – tratava das compras para alimentação diária da
família. da limpeza da casa. da roupa. dos meus irmãos e mais tarde de mim. e
por último. num upgrade às suas funções menos nobres. era também um género de
terapeuta para situações de crise da minha mãe que. tomada pelos nervos ao cair
da noite. iniciava uma série de ais aflitivos. desorietando o meu pai que
ficava sem saber o que lhe fazer com os afrontamentos ruidosos – a solução
passava pela lurdes: postava-se aos pés da cama. alevantava a voz. puxava o
ânimo até á cabeceira da cama. e desenrolava histórias e segredos da
vizinhança. arrancados com paciência às colegas de profissão… sabe-se lá a que
custo – bem… tal como uma exorcista expulsa os espíritos maus do corpo. a
lurdes. também expulsava os ais da minha mãe – com o avançar dos enredos a
trama das fofocas começava a produzir expectativas elevadas sobre o final. um
género de telenovela com personagens conhecidas nas redondezas. e que mantinha
a minha mãe com a atenção focalizada na narrativa. fazendo-a esquecer todos os
males de aflição – os ais começavam rapidamente a espaçar. a perder vigor. e
com a adição de um chá bem quentinho. bebido em tragos lentos. permitia que sua
senhora deixasse escapar uns arrotos mais ou menos fortes sempre que o enredo
esmorecia – estava dado o sinal para o fim da crise. a maleita estava em
completa remissão – às doze badaladas os anjos dormiam. e eu agradecia por
termos em casa uma curandeira com dons especiais – acreditem. as histórias da
lurdes tinham o efeito de um valium. talvez até de algum ansiolítico mais
forte. diria que nos nossos dias não se poderia adquirir sem receita médica – o
que é certo é que a minha mãe ao romper do sol apresenta-se ao trabalho como um
general. com a alma revigorada e pronta para comandar as suas funcionárias –
com o casamento da minha irmã vieram as minhas sobrinhas. sandra e bárbara.
também ficaram entregues aos cuidados da ua. e o lar voltou a ter alegria e
barulho – foram anos de muita paz e sorrisos. os avós tinham novamente crianças
em casa. a lurdes novas preocupações. as miúdas não lhe saiam do pé e isso
agradava-lhe. e eu deixei de fazer parte das preocupações dos mais velhos.
estava tudo perfeito – não há dúvida que as crianças têm poderes curativos
inimagináveis – os anos passaram e a lurdes ganhou direito natural a pertencer
à nossa família. sem necessidade de invocar direitos de usucapião – para mim
que nasci com a sua presença ao meu lado. que dormi na sua cama até a escola me
chamar. que lhe fazia rolinhos no cabelo para adormecer. que me vestia.
alimentava. acarinhava e aturava a minha vontade indomável de ser livre. dizem
que não era fácil segurar-me. era mais do que óbvio que estava em nossa casa
desde o tempo da pré-história – a lurdes era estimada por toda a família e
mesmo com a chegada de novos membros. genros e noras. nada se alterou. o apreço
por esta senhora era unânime – o tempo. infelizmente. também passou por mim. e
um dia. o meu pai. perguntou-me por que razão não me casava – achei que tinha
razão. os meus dias sempre tiveram o dobro das horas. estou até convencido. que
com as cismas dos progenitores nos dias de hoje. o mais certo. era enfiarem-me
pela goela abaixo umas quantas pílulas para a hiperatividade – fiz a vontade ao
meu pai e também a mim. e casei com a companheira que resiste estoicamente a
meu lado. confirmando a promessa de que era para sempre. para o bem e para o
mal. com vírus ou sem vírus – um pouco antes da boda. com grande tristeza para
a família. e sobretudo para a minha mãe. a lurdes informou que iria voltar à
aldeia dos meus ascendentes para tomar conta da mãe. senhora glória. com
setenta e cinco anos. do pai. senhor barreto. com sessenta e quatro. e da tia.
senhora marquinhas. com oitenta e nove. que depois da minha avó falecer. casou
com o meu avô – estamos não só a falar de gente idosa. gente que viveu
como escrava. com marcas no corpo de um passado repleto de dificuldades. de
miséria. de trabalho no campo sem descanso. de fome. e que para além da idade
avançada. também padeciam de uma saúde frágil. limitando a sua mobilidade. e
incapazes de se valerem a eles próprios – a lurdes percebeu que só com a sua
ajuda seria possível dar mais algum tempo de vida com qualidade aos seus
familiares. mas isso implicava a sua presença junto dos idosos em permanência –
foram momentos dramáticos em casa dos meus pais. para lá de se perder uma
pessoa que já era da família. perdia-se uma governanta verdadeiramente insubstituível
– infelizmente comprovou-se que era mesmo impossível a sua substituição. nunca
conseguimos acertar com as novas promessas. acabámos por desistir de encontrar
uma outra governanta e recorremos ao take away – muito bem. o texto está a
complicar-se com a quantidade de páginas. o melhor é centrar a história
definitivamente na personagem principal: a lurdes – esta alma de deus merece
cada linha desta pequena eternidade que lhe escrevo – é ela a razão porque acho
o covid19 um vírus muito estúpido e injusto – peço-vos que apreciem por favor
esta história. para além de ser a história da lurdes é também a minha
III.
a maria de lurdes
correia. nossa ua. frequentou a escola de s. mamede de escariz. aldeia onde
nasceu no concelho de vila verde. até completar a segunda classe – naquela
época. existisse escolaridade obrigatória. esta não era efetivamente
implementada. frequentava o ensino escolar apenas filhos de famílias mais
abastadas – é sempre bom lembrar que nos primeiros anos da república. o
analfabetismo rondava os 70% – também a lurdes foi resgatada da escola contra
sua vontade. os pais precisavam de ajuda no cultivo dos campos – as relações de
amor e afetos familiares. como os beijos. os abraços. as expressões verbais de
ternura. só se generalizaram no último terço do século passado. primeiro nos
grandes centros urbanos. e só muito mais tarde nas comunidades rurais – a
criança ao longo dos séculos sempre foi olhada como um pequeno adulto em
crescimento. qualquer demonstração de carinho era muito mal-entendida pela
comunidade. entendia-se nesse tempo de escureza. que as manifestações de afeto
prejudicavam seriamente o crescimento. não ficando estes suficientemente fortes
para resistir às borrascas da infância – a criança aos sete anos era
referenciada por [quase] toda a comunidade rural como parte integrante da
capacidade produtiva da família – aprendia caminhando ao lado dos pais. não
tinha juventude nem tempo de aprendizagem. a resistência e a força para
executar tarefas determinava o fim de um ciclo e o começo de outro: a criança
tornava-se adulta – os seus progenitores trabalhavam de sol a sol. num esforço
mal pago que mal alimentava a família – as semanas eram muito longas. com
cargas horárias alinhadas à luminosidade solar. não havia semana inglesa. eram
seis dias de padecimento e sacrifício. sobejando um único dia para se cumprir a
vontade do senhor: ao sétimo dia descansar e glorificar o criador – assim era.
pela manhã bem cedo. em júbilo pelo sossego do corpo. a família vestia com
cuidados a roupa domingueira: ora puída. ora remendada. contudo. asseada e
limpa. iluminando o corpo com luz. numa nobreza à existência dos pés à cabeça.
dignos de tudo – esperavam o chamamento do sino que. em batimentos ritmados e
possantes. chegava a todos os cantos da freguesia num apelo aflitivo:
despachem-se – as manhãs de domingo despertavam imperiosamente com a primeira
eucaristia do dia na igreja paroquial da freguesia – o padre e o senhor são
sempre pontuais – era o sinal para partir. ainda tinham de caminho uns bons
quinze minutos em passo acertado – o domingo servia para asseverar a fé.
recuperar as graças do senhor e renovar o pedido de socorro e proteção – o
senhor era seu pastor e seu conselheiro – era ali. na casa de deus. que lhe
rogava encarecidamente proteção divina. que não abandonasse a sua família. que
os guiasse e iluminasse pelo caminho da virtude – no fim da eucaristia.
enquanto o pai saía para o adro da igreja. a mãe. trajada de preto com o lenço
a cobrir-lhe a cabeça em respeito. obediência. e com as crianças a seu lado.
aproximavam-se de são mamede. santo protetor da aldeia. ajoelhavam-se com os
olhos baixos em clemência. e devoção. renovavam a fé no espírito santo: pai
todo o poderoso e salvador do mundo – por fim. despediam-se relembrando-lhe
humildemente que a oferenda continuava válida: se as colheitas recebessem a sua
graça. oferecer-lhe-iam meia rasa de milho e uma vela de parafina branca. pois
a palavra do senhor é certa. cobre a terra e traz salvação – os dons e o
chamado de deus são irrevogáveis – infelizmente. mesmo o dia do senhor não
ficava sem trabalho. o regresso era igualmente feito em andamento de quem tem
pressa: os animais também ruminam aos domingos. não apresentando qualquer tipo
de respeito e gratidão para com o seu criador – o que sobrou da escola à lurdes
foi uma assinatura trémula do nome. e umas quantas palavras que aprendeu a
juntar. nem sempre da forma mais assertiva. mas o suficiente para dar as boas
novas a sua mãe sobre o estado de saúde do seu único irmão internado no
sanatório do caramulo com tuberculose – a lurdes nasceu em mil novecentos e
trinta e nove. uma época complicadíssima. não havia ameaça pandémica. eram
tempos difíceis. sem estado social ou cuidados de saúde básicos. o que
realmente abundava no nosso portugal era muita miséria – vivíamos os efeitos da
II guerra mundial e ainda o impacto da recém-terminada guerra civil espanhola –
a fome. a pobreza. e as guerras no mundo levaram as pessoas daquela época a
preocupar-se apenas com a sobrevivência. a comida era escassa e difícil de
encontrar – vivia-se um momento calamitoso. a guerra agravava ainda mais a
crise económica – para agravar a situação em que o país. salazar. estadista
português e condutor dos destinos do império. decidiu partilhar os escassos
recursos com a vizinha espanha – é portugal que alimenta com cereais a máquina
de guerra fascista de franco. e mesmo depois da guerra civil terminar. é também
salazar. mais uma vez. que evita a morte à fome de milhões de espanhóis. não
interrompendo o envio de mantimentos – no entanto. salazar manteve portugal
neutro na guerra. evitando maiores tragédias – só não evitou a fome. a miséria
e o atraso tecnológico em relação a outros países da europa – não se podia ter
tudo. tivemos paz – a tia da lurdes. senhora marquinhas. que cheguei a conhecer
muitíssimo bem. foi trabalhar para o meu bisavô. e por necessitar de ajuda.
acabou por chamar a lurdes para a sua companhia – tinha. como já disse. catorze
anos – como também referi anteriormente. aos dezasseis anos. veio servir para a
casa dos meus pais em braga. e ali ficou até cerca dos quarenta e cinco anos.
quando foi obrigada a regressar à aldeia dos meus avós. parada de gatim. no
concelho de vila verde. para cuidar dos familiares idosos – foram os anos mais
difíceis da sua vida. isolamento. solidão e muito sacrifício. foi como se
tivesse sido desterrada. privada completamente de toda a liberdade – a casa.
digo. o barraco. era composto por um quarto com duas camas onde dormia a lurdes
e as duas velhotas. mais um quarto no exterior. que nas casas da aldeia. era
vulgarmente designado pelo quarto dos defuntos e usado para os velórios sempre
que alguém falecia – nesse quarto estava instalado o seu pai – sobrava uma
cozinha e um “quarto de banho” feito às três pancadas onde mal cabia a sanita e
nada mais – acrescentava-se o negrume nas paredes pelo fumo da lareira e uma
lâmpada de casquilho grosso enfarruscada de fumo negro – não era uma casa
portuguesa. como cantarolava a amália rodrigues. era. sim. uma casa miserável.
extremamente pobre. a sua única riqueza era a humanidade com que a lurdes
tratava os seus idosos – exilada do mundo. do conforto. do bem-estar. combatia
a solidão e as horas com um rádio a pilhas que permitia à renascença levar
diariamente a eucaristia aos velhinhos. uma tv portátil a preto e branco
inundada de granulado cinza que. em boa verdade. ninguém percebia muito bem o
que de lá saía – a sua única preocupação era cuidar do corpo dos velhinhos.
levando-lhes a comida à boca. fazendo-lhes a higiene diária e quando acamados.
mudando-lhes a posição de hora em hora. para evitar as escaras – nunca faltaram
cuidados ou afetos àqueles idosos. e quando chegou a sua hora. partiram em paz
e com a certeza de que não encontrariam ninguém com a dimensão espiritual da
lurdes que os tratasse melhor – a lurdes renovou a necessidade de uma nova
conciliação com o ser humano. uma outra forma de estar. de proceder. outra
dimensão social para promover o amor e bem-estar. mostrando-nos que o que
importa não é o que se espera da vida. mas sim. o que a vida espera de nós. que
é como quem diz. aceitar a obrigação de responder às necessidades de cada
individuo na exigência de cada momento – a lurdes abdicou da sua vida para
responder às necessidades dos seus familiares no momento mais débil das suas
vidas: a velhice – mahatma gandhi afirmava que “o amor é a força mais subtil do
mundo”. uma verdade incontestável – foi preciso muito amor para abdicar de uma
vida confortável. citadina. com todas as condições de civilidade onde era
estimada e reconhecida – depois das cerimónias fúnebres. e de um luto que fez
questão de consagrar à sua prole. já nada a ligava àquele pedaço de terra
longínqua de tudo. estava na hora de regressar a casa – regressar não para
servir. regressar porque a nossa casa. também era a sua casa – mas como diz o
papa francisco: quem não vive para servir. não serve para viver – a lurdes vive
para servir – vivíamos na família um momento muitíssimo complicado. o meu pai
encontrava-se em estado terminal de uma doença destrutora – foram cinco anos
devastadores. cinco anos para o corpo chegar à miséria – a maldição do relógio
não parava de contar tempo. os dias de luz ficavam cada vez mais escassos. e
esperávamos. sem que já nenhum milagre pudesse acontecer. que a doença lhe
tomasse definitivamente as forças – estava na hora do meu pai encontrar o céu
porque tanto rezou – mais uma vez a lurdes esteve a seu lado dia e noite. tentando
aliviar dores que já não cediam com nenhum tipo de medicação – foi quase um ano
de uma angústia lacerante. a situação era muito crítica. a degradação física
chegou a limites que nunca imaginei que fosse possível. já quase nada restava
daquele corpo imponente. só o nome o ligava às fotos que ainda viviam pelos
cantos da casa – estou convencido que a chegada da lurdes evitou que também
tivéssemos que enterrar a minha mãe. estava completamente exausta ou já sem condições
físicas e psicológicas para continuar a prestar os cuidados paliativos –
finalmente. a dezassete de março. de mil novecentos e noventa e oito. o meu pai
desistiu de si. e foi ao encontro do seu deus. levou com ele a nossa saudade e
nas mãos a ternura dedicada à sua família – tenho agora uma profunda convicção
que. com a chegada da minha mãe ao reino dos céus [dezembro de 2018]. o meu pai
tenha encontrado a outra parte da vida que deixou para trás – hoje. com os meus
quase trinta e cinco anos de casamento. sei que o meu pai gostava imenso da
minha mãe – a casa dos meus pais era muito fria. quase uma espécie de casa
siberiana. tetos de estuque. imensas clarabóias. enorme em tamanho e correntes
de ar. e com frinchas nas janelas maiores do que as guritas das sentinelas – assentava
na perfeição aquela expressão popular de trás-os-montes: nove meses de inverno
e três de inferno. ninguém melhor do que eu sabia o que era viver naquela casa
feita de frio – era demasiado grande para duas mulheres desaparecidas no
negrume do luto. quando o verão deu lugar ao outono foi o frio que tomou posse absoluto dos corpos – a minha mãe
confinava-se ao seu quarto para evitar que as correntes gélidas lhe entorpecessem
os membros. e a lurdes arrastava-se pelo corredor chumbada de agasalhos à
procura de sorrisos que há muito tinham desaparecido – a minha mãe não se
conformava com a amargura solitária do luto. continuava mergulhada em memórias
e saudade que a deixavam sem vontade de viver – com o tempo ganhou uma tristeza
que me parecia mais um presságio de morte. o que me levou a pensar seriamente na
necessidade de copiar a prática suíça e criar os cafés da morte – espaços para
que as pessoas possam falar abertamente dos seus medos relacionados com a mortalidade.
“entre goles de café e mordidas em bolinhos” – a morte do meu pai transformou por
completo a minha visão sobre a morte. se no passado me perguntassem se tinha
medo de morrer o mais certo era ter dito que não. tudo se resumia a fechar os
olhos. ou como diz fernando pessoa. a morte é a curva da estrada – pois bem. já
não é assim. mudou tudo. a resposta alterou-se pelo sofrimento que fui forçado
a atravessar – agora tenho verdadeiro pavor de morrer – já se sabe que o
cérebro tem ferramentas que evitam que pensemos na morte. é a sua forma de se
proteger da ansiedade – no entanto. com a forma horrenda e bárbara como o meu
pai. dia a dia. passo a passo. dor a dor. foi perdendo o controle de viver.
deixou em todos nós um estado de profunda revolta e mágoa. e sobretude um
transtorno de ansiedade grave – passamos a projetar a nossa morte no mesmo cenário
de sofrimento e horror. o que ainda hoje é cruz que carrego e me faz caminhar
pelas veredas da injustiça – estávamos todos completamente devastados e tudo
demorou muito tempo a voltar aos sorrisos. a viver sem medo – para a minha mãe
tudo foi mais espinhoso. para além da idade tinha perdido o seu amor de quase
cinquenta e dois anos. e um companheirismo muito além da vida conjugal. havia
em comum a edificação de um património profissional erguido com muito
sacrifício – foi uma daquelas mulheres emancipadas do pós-guerra. que pela sua
capacidade de trabalho e liderança se destacara no mundo dos homens – às vezes
não é fácil admitir que aqueles que lideraram as nossas vidas também
envelheçam. principalmente uma mãe. sempre tão imperiosa. robusta. dinâmica. e
agora tão frágil. vulnerável e desprotegida. a morte de meu pai envelheceu-a
vinte anos – a minha família estava apertada para o apartamento. três filhos
para três quartos. a solução passava por encontrar um apartamento próximo. um
género upgrade e depois criar uma espécie de apoio e cuidados: alimentação e
afetos – assim foi. surgiu uma oportunidade. e merquei um outro T3 mesmo ao
lado do meu. dupliquei o número de quartos passando todos a viver à larga e à vontade
– com esta oportunidade inesperada consegui juntar à minha volta as três presenças
femininas mais importantes da minha vida – foram anos bons para a nossa
família. reinava finalmente a serenidade. e com a ajuda dos médicos fomos
adiando o que sabemos ser inevitável – passaram-se vinte anos. e a lurdes na
sua infinita vocação de servir os outros. continuou a auxiliar a minha mãe como
se ainda pudesse enganar a idade. reinventando rotinas e escondendo as
fragilidades de saúde – não era assim. as contrariedades já eram muitas.
via-se perfeitamente que as debilidades estruturais do corpo estavam a chegar
ao seu limite natural. entrara em definitivo na velhice dos cuidados – as
viagens do quarto à sala começaram a demorar cada vez mais tempo. o andamento
era cada vez mais lento. depois o passo a passo. e os ais que antigamente não
existiam. agora. acompanhavam a curvatura das costas misturados com o inchaço
dos joelhos a abrir caminho com esforço – a lurdes não podia continuar a
oferecer à minha mãe as mordomias do passado. não era justo manter aquele
esforço extenuante. o corpo era agora um peso carregado de dor – pedi-lhe
várias vezes para que fosse mais contida na sua lida. mas não adiantava. tinha
a teimosia de um carro de mulas bravas – duas coisas que não se podiam pedir à
lurdes: para estar quieta. ou para estar calada – quando a minha mãe acordava o
pequeno almoço estava pronto. o almoço adiantado. e a lida da casa num reboliço
controlado – à tarde o enredo repetia-se com as mesmas protagonistas: o lanche
por volta das quatro e meia. e quando o sol batia nas sete da tarde a lurdes
gritava:
-- senhora. a sopa está na mesa. venha
senão arrefece
acompanhava com uma peça de fruta descascada e uns
quantos comprimidos. todos em fila indiana para que não houvesse lapsos no
cumprimento do receituário – não podia mesmo haver esquecimento. a senhora
minha mãe tinha noventa e quatro anos – o fim do jantar trazia finalmente o
descanso e também a telenovela que não se perdia nem por coisa grave – a minha
mãe recolhia-se no quarto. e a seu lado. para o que desse ou fosse necessário.
sentava-se a lurdes numa senhorinha de veludo mel. que bem merecia ser presenteada
com o nome – a comunicação era escassa. as atenções eram exclusivas para a
meada da novela da SIC. a não ser que um tratante no écran precisasse de um
corretivo verbal. os maus lá por casa não tinham a vida nada facilitada – a
minha mãe teve a lurdes a seu lado até ao dia em que foi internada no hospital.
dia e noite. em nenhum momento a abandonou – sofreu muito com a doença da sua
senhora. todos sabíamos que a minha mãe não era uma pessoa fácil com a doença.
sempre foi assim. uma qualquer dorzinha e era o drama do costume – também eu
sofri imenso em miúdo com os seus males. mas era assim. ainda não havia ciência
para todos os padecimentos. o que não se sabia ou era coisa ruim. ou nervos – a
solução passava sempre por uma cura de águas e muito descanso sem arrelias – a
dor era partilhada pela família em formato de ais de coisa grave – sem nenhum
género de tolerância ao sofrimento. lá vinha o dr. rocha peixoto. com aquela
perna mais curta do que outra. a subir as escadas com uma mão no corrimão e
outra na bengala. em tremeliques promissores de um cai. não cai – atrás. em
estado de alerta vermelho. não fosse o doutor perder a coerência com os
degraus. seguia meu pai com o malote de médico e o estetoscópio que. com
aflição repetia:
cuidado sr. doutor… temos tempo
quem não achava piada nenhuma àquela coisa do…
temos tempo era a minha mãe. que para contrariar deixava escapar um ai agudo
emparceirado com dois suspiros profundos que se ouviam ao fundo das escadas –
de uma penada. o médico. com as duas pernas em prumo. esbaforido. chegava ao
quarto com mais ais do que a doente. virava-se e declarava com solenidade:
-- boa noite dona carolina
-- boa noite sr. doutor
e mais dois ais moribundos. quase desmaiados… o que
deixava antever sérias dificuldades para a cura
-- sr. lopes. arranje-me por favor uma cadeira
sentava-se todo desengonçado. recuperava fôlego.
virava-se para a minha mãe e perguntava-lhe com ar de doutor:
-- minha senhora. então o que a preocupa
é verdade que nos últimos seis meses havia
realmente razões para se queixar. o cancro da mama alastrou primeiro para os
ossos. e logo depois. disseminou-se a outros órgãos vitais. as dores
tornaram-se realmente insuportáveis. a morfina deixou de ser competente no alívio
da dor. apenas o coração e a vontade de viver resistiam – quando a minha mãe
faleceu. logo após as exéquias. tive o cuidado de falar com a lurdes e
dizer-lhe que estava na hora de pensar mais em si. as justificações baseadas na
idade avançada deixaram de funcionar – ou começava realmente a preservar a
pouca saúde que ainda lhe restava ou o seu corpo iria ceder muito mais rápido
do que poderia imaginar – estava na hora de descansar. de estar quieta. de
viver sem preocupações. de viver sem horas – já não seria possível acertar
contas com o passado. mas podia aceitá-lo. e aproveitar o resto dos seus dias
para viver com serenidade pois merecia-o – a promessa ficou feita. tudo
faríamos para a recompensar dos longos anos dedicados à nossa família. não só
eu. mas todos aqueles que tiveram o privilégio de viver a seu lado. um
sentimento de gratidão também reconhecido pelos meus irmãos – não queríamos que
se preocupasse com nada. apenas desejávamos que se sentisse protegida. que se
sentisse viva. em paz e com o seu deus – a lurdes sempre foi uma mulher de
muita fé e com uma correspondência muito próxima com deus e seus discípulos –
tenho a certeza que. quando chegar ao céu. logo a seguir à sua assunção
gloriosa. terá à sua espera as primeiras figuras da igreja – acreditem. falar
da ligação da lurdes com o seu deus levava-me a uma quase interminável crónica
– quem sabe um dia eu ganhe coragem – continuou por isso a viver no mesmo
apartamento. usufruindo de todas as comodidades que pertenciam à minha mãe –
entretanto nos últimos meses o seu corpo debilitou-se imenso. os movimentos
ficaram reduzidos ao espaço onde reside. e para se deslocar a nossa casa. já só
é possível com a ajuda de cadeira de rodas – mas mantemos o bom hábito de que
nos visite todas as tardes: senta-se no sofá. vê a júlia pinheiro. janta
connosco. algo que já não fazia há muitos anos devido às limitações impostas
pela sua senhora – lamento não me ser possível por falta de talento. descrever
a satisfação que lhe encontramos sempre que se senta à mesa. finalmente servida
e sem desassossego – a minha mãe tirava-lhe muito sossego – com o aparecimento
do covid19 tomamos a decisão de a proteger. o que os lares não fizeram
atempadamente. fizemo-lo nós. ainda o vírus não tinha expressão no nosso país e
já a lurdes estava em quarentena rigorosa – ao princípio custou-lhe um pouco.
não entendia o porquê de tanto cuidado. afinal a doença ainda estava em itália
e por aqui ainda eram meia dúzia de casos sem expressão – hoje pensa de maneira
diferente. está há mais de cinquenta dias sem visitas. e não há exceções para
ninguém – uma única pessoa a visita diariamente. a minha companheira. leva-lhe
a alimentação e um pouco de conforto. na medida do possível dada a doença –
pois bem. chegou o momento das questões. como é possível deixar passar a
mensagem que esta doença só mata mesmo pessoas de idade. que é como quem não
diz. mas pensa: em vez de ir mais tarde. vai mais cedo – a comunicação é feita
sempre com a subtileza de que é preferível morrer dez velhos em troca de um
novo – não dizem o que estão a pensar. mas subentende-se: estes velhotes já
viveram o suficiente. ou então. como já não são produtivos. são descartáveis.
não contam mais – estou certo que muita da nossa juventude não sabe que esta
gente velha e feia. que entope os hospitais com gripes. e consome quase a
totalidade do nosso orçamento para o serviço nacional de saúde. foi quem criou.
sustentou e possibilitou com sacrifícios inimagináveis. este estado providência
que nos dá quase tudo: serviço nacional de saúde para toda a população com
custos muito reduzidos. manuais escolares gratuitos durante o período de
escolaridade obrigatória. universidade com propinas diminuídas. bolsas de
estudo para os alunos com dificuldades. transportes urbanos com preço reduzido.
e tantas outras coisas – pois parece que ninguém quer lembrar-se disso – os
noticiários gostam de abrir com o cataclismo de uma morte jovem. ou famoso pela
ciência. ou pelas artes. ou pelo desporto. ou ainda unicamente pelo dinheiro. e
quando o mundo inteiro já está completamente apavorado. amedrontado.
hiperventilado. e em sufoco. chega o alívio para esse cocktail de medos: é
anunciado que apesar do número elevado de mortes. mais de noventa por cento dos
falecidos tem mais de oitenta anos e com outras patologias associadas – esta
voz não informa. esta voz mitiga o mal-estar. o desconforto e desassossego de
quem ainda não chegou à idade de risco – não há diferenciação positiva nas
notícias. estamos a falar de números. estamos a falar de gente que por ter
envelhecido perdeu o direito de ser chorado. de ser condecorado por serviços
relevantes prestados à nação – em boa verdade esta gente idosa já estava morta
muito antes da chegada do covid19 – agora temos esse massacre diário de lares
contaminados. e os idosos infetados às dezenas. a morrerem porque quem tinha
obrigação e a responsabilidade de os proteger não foi competente. e não me
venham com desculpas de que a culpa é do vírus. ou dos funcionários que o
carregaram para o interior dos lares. a culpa é dos seus responsáveis. dos
gerentes. administradores. diretores. provedores e outros incompetentes sem
nome ou nomeação – não consigo perceber como esta malta não deu importância a
um vírus que estava a matar milhares em itália. digo. em toda a europa e ásia.
e era notícia diária em todo o mundo – desculpem. mas não compreendo como essa
gente incompetente não valorizou os seus idosos. o seu ganha pão. aqueles que
depois de sobreviverem a tanta maldade. e que com os seus sacrifícios. permitiriam
que o mundo moderno encontrasse uma resposta social para quem chega à velhice –
a declaração universal dos direitos humanos. diz no seu artigo primeiro. que
todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. em
nenhum dos seus artigos faz referência à idade. e também diz a nossa
constituição no seu artigo 72º. que as pessoas idosas têm direito à segurança
económica. a condições de habitação. convívio familiar e comunitário que
respeitem a sua autonomia pessoal e evitem e superem o isolamento ou a
marginalização social – não diz que a partir dos oitenta anos tem que ceder
ventiladores aos mais novos. a dignidade humana é um valor moral que norteia
toda a diversidade de valores de um indivíduo. idoso ou não idoso – claro que
compreendo o dilema dos médicos quando lhes pedem para fazer o papel de deus. e
também percebo que na dúvida se opte pelo doente que lhe dá mais garantias de
sobrevivência – mas. como se pode atestar pelas inúmeras reportagens dos nossos
meios de informação. que mostra diariamente a recuperação de idosos com idades
muito avançadas. alguns com mais de cem anos. e que contra tudo o que era
espectável. acabam por ultrapassar as graves infeções pulmonares sem sequelas.
o que nos mostra que nem tudo é assim tão linear quando um médico tem que
escolher entre um idoso e um “jovem” – não podemos permitir que estas triagens
se repitam no mundo. temos todos neste planeta que tirar consequências desta
grave crise de saúde. cada idoso tem um pouco da vida que consumimos hoje – o
que vos posso dizer é que para mim. em face das notícias diárias que me
chegavam. primeiro da china. depois da itália. e por último da nossa vizinha
espanha. foi muito fácil perceber o que tinha que fazer. e assim fiz –
felizmente que o fizemos no momento certo – a lurdes foi e será sempre alguém
muito importante para a nossa família e ficará connosco até que deus entenda
chamá-la – rogamos unicamente para que não faltem condições para a mantermos ao
nosso lado – temos apenas uma preocupação. que fique acamada e passe a
necessitar de cuidados continuados e nos impossibilite de cumprir a nossa
promessa. a ua sabe melhor que ninguém que ainda estamos todos a tentar
sobreviver neste país que nos trata tão mal – a lurdes ocupou as nossas vidas
sempre com muita paz e serenidade. e para mim foi sempre muito reconfortante
tê-la por perto – podia contar dezenas de histórias fantásticas da lurdes com a
nossa família. e outras mil de nós os dois. mil histórias boas. porque se
contasse aquelas que me envergonhariam. estou convencido que as poderia
multiplicar por dez – mudando agora para outro tempo e contexto, recordo uma
dessas histórias da minha adolescência: já que estamos em abril vou recordar
uma história da minha adolescência vivida num período complicado para o nosso
país: vivíamos a revolução de 25 de abril de 1974 – pouco tempo após a
revolução. em pleno espírito revolucionário. com o país completamente em convulsão.
perigoso. imerso numa onda de violência. de intolerância. de perseguição a
todos aqueles que de alguma forma estiveram ligados ao antigo regime.
principalmente aos pides - polícia internacional e defesa do estado. seus
informadores. políticos da assembleia nacional. igreja católica e outros
dependentes das benesses do estado novo. todos estavam sujeitos a linchamento
público – esta malta revolucionária. completamente alucinada. a viver uma
liberdade sem regras. próxima do caos. não se ficou apenas por aqueles com
ligação ao estado novo. tudo o que que era patrão. rico ou pobre. com empresas
grandes ou pequenas. coxo ou maneta. tudo era fascista. explorador da classe
operária. e tinha obrigatoriamente que ser saneado. as suas empresas
nacionalizadas. e criadas unidades coletivas de produção para as gerir – tudo
era pertença dos operários. a terra a quem a trabalha. zero de patrões –
coitado do meu pai. um patrão que nem sabia o que era capitalismo quanto mais ser
capitalista – para grandes males. grandes remédios – o meu pai apareceu em casa
armado até aos dentes. uma caçadeira e uma caixa de vinte quatro zagalotes –
não dava para começar um movimento anticomunista. mas criar a ideia de que o
primeiro comunista que tentasse entrar na empresa corria sérios riscos de não
sair com vida – nunca nenhum tentou. não sei bem se por medo aos zagalotes. ou
da minha mãe – estou convencido que nunca tentaram ocupar a empresa porque
sabiam que também tinham que desocupar a minha mãe. o que não me parecia fácil
sem a intervenção das forças motorizadas – só para que fique registado. não
creio que o meu pai matasse o que quer que fosse. primeiro porque não tinha
mira. e em segundo. não tinha uma condição fundamental para ser um vingador:
raiva persistente – o meu pai o que tinha mesmo era uma alma do tamanho do
mundo. não sabia fazer mal a nada. nem a ninguém. e apesar de se dizer da direita.
era mais de esquerda do que os camaradas progressistas – viveram-se momentos
revolucionários únicos. que por nada deste mundo gostaria de ter perdido – com
o começo de um novo ano letivo. em setembro de 1974. o ambiente nas escolas não
era diferente daquele que se vivia nas ruas. a luta pelo controle do liceu sá
de miranda fazia-se com duas fações opostas no espetro político. o MRPP. de
arnaldo de matos. da extrema esquerda revolucionária. e o CDS. de freitas de
amaral e amaro da costa. da direita e democracia cristã – PSD. PS e até o PCP
ainda não tinham expressão no meio estudantil – o problema agravou-se porque
nesta bagunça instalada no liceu o que sobressaía eram os meus sinais
exteriores de riqueza – transportava nos bolsos bastante pilim para um puto da
minha idade. no liceu comecei a ter a fama de menino de papá. o que me
desagradava por não ser verdade. e filho de fascista. neste caso confesso que
já me agradava mais. mesmo não sendo verdade – o problema é que estava a pôr-me
a jeito de um linchamento com motivações revolucionárias e sujeito à cassação
dos bens em transporte – os meus colegas nunca souberam que a minha fortuna
provinha dos descuidos noturnos do meu pai. e como a sua divulgação seria uma
vergonha para os dois. classifiquei-a como informação confidencial de segurança
máxima – juro-vos que preferia que o meu espólio tivesse a sua grandeza num
assalto a uma sede de um partido político – mas já passaram anos suficientes
para libertar essa informação confidencial: o meu pai. ao deitar-se. dobrava as
calças pelas vincas e colocava-as nas costas da cadeira. sempre com muito
cuidado para que no dia seguinte estivessem impecáveis – até aqui tudo bem não
fosse a sua relação descuidada com o dinheiro – nunca mais conheci ninguém com
um comportamento tão desprendido dos bens materiais como o meu pai – com o
envelhecimento percebi que talvez exagerasse um pouco. e com alguma razão a
minha mãe alertava-o para dar mais atenção ao pecúlio familiar. e acrescentava
em modo de ralhete final: até parece que tens uma árvore das patacas – mas não
adiantava. não era uma questão de árvore. era unicamente os seus descuidos
desinteressados. era-lhe indiferente ter mais ou menos. as suas necessidades
mediam-se pelos compromissos assumidos. e nada mais – no entanto. esta aparente
imperfeição do meu pai. era a minha sorte e fonte de rendimento – a minha
galinha de ovos de ouro – ao colocar na cadeira as calças. as moedas que tinha
no bolso caíam para a alcatifa – tudo fácil para mim. de manhã a lurdes ao
arrumar o quarto fazia a recolha e entregava-me o legado – bem. eu sei que é
difícil de acreditar. mas digo-vos que era muito dinheiro. para que possam ter
uma ideia. dava para um catraio viver como multimilionário – a caminho do liceu
parava no quiosque s. vicente. comprava um maço de tabaco ritz. como se fosse
um homem. enquanto os meus amigos compravam dois cigarros para o dia todo.
naquele tempo vendia-se cigarros avulso – como o dinheiro era muito. comprava
uma bola de plástico para jogar com os meus camaradas no intervalo das aulas.
juntava-lhe umas guloseimas e lá ia cantando e rindo. feliz com o sucesso da
vida – logo que chegava ao liceu. e para forrar o estômago. fazia um reforço ao
pequeno almoço de casa. um sumol e um bolo – quem estuda necessita de estar bem
nutrido – no intervalo grande dava uma corrida ao “badalhoco”. uma tasquinha em
frente ao liceu. e que o próprio nome me isenta de entrar em pormenores mais
cuidados. mandava vir um quarto de sêmea de chouriço e mais um sumol para
empurrar. e outra corrida para as aulas que o professor podia não perdoar o
atraso – o regresso a casa era de autocarro. os alunos medíocres não se podem
cansar e sempre era um quilómetro bem medido – o resto do dia era tirado para
retemperar o corpo do desgaste das aulas: às vezes cinema. quando tinha amigos
era nos matrecos do cerqueirinha que mostrava o poder de um capitalista. moeda
atrás de moeda e ali ficava a jogar a tarde toda – já com mais corpo. para lá
dos catorze anos e com mais de 1.75 de altura. a barba num novelo em reboliço
envelhecia-me o suficiente para entrar em salas de jogos de adultos. e lá ia
uma bilharada a dinheiro – para aquela malta mais velha era o franganote do
dinheiro fácil e que os sabidolas adoravam desflorar – mas nem tudo foi mau.
aprendi que o jogo nunca seria um modo de vida. não tinha sorte e também tinha
falta de jeito – resta-me a recordação de umas mistas fantásticas. com duas
pancadas de mostarda que lhes davam um sabor de estalo. e claro. o sumol ou a
laranjina C. nunca foi grande coisa para álcool. ainda mantenho esse handicap
social – naquela época estava ao nível do champalimaud ou mesmo do rockefeller.
nem sabia bem o que fazer com o dinheiro – nunca mais fui rico o suficiente
para voltar a ter o estatuto de capitalista. acredito que foi castigo de deus.
já lhe tentei dizer que a culpa era da lurdes. mas nunca me deu ouvidos. os
cigarros e o vício do jogo ditaram a minha desgraça – e assim. fui vivendo de
vários expedientes mais ou menos no limiar do chico-espertismo em minha casa. e
também com a lurdes a guardar-me as nádegas do meu pai. protegendo-me e
encobrindo todas as minhas travessuras. e foram muitas
IV.
a lurdes por tudo o
que fez pela minha família. merecia viver até aos cem anos – se contarmos ainda
com o bem que me tem feito. bem podia viver mais cem. somando duzentos anos de
merecida existência – os meus netos desde a morte da minha mãe. tratam a lurdes
por bisa. de bisavó. o que me deixa muito feliz – não sei se lhe guardarão
memórias. mas com certeza. um dia. talvez os pais possam ler para eles esta
pequena eternidade que aqui deixo escrita – a lurdes é o derradeiro farol da
nossa família. atravessou connosco os nossos momentos mais difíceis e também os
felizes – é ela que preserva as últimas memórias dos meus antepassados –
prometi que tudo iria fazer para que os últimos anos da sua vida fossem vividos
com serenidade. assim o permita deus. e assim será – a lurdes para nós não tem
idade e o covid19. nascido em 2019. ainda não teve tempo para perceber que
independentemente da idade há pessoas que são estimadas e in substituídas –
tenho a certeza. que apesar da sua crueldade. se conhecesse bem a lurdes… não
teria coragem de tocar numa única vida idosa
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