nota introdutória: existência – não imaginava que os objetos simples
estivessem assim gravados na retina. tudo. afinal. é vida
a lã nunca pesou à ovelha. coisas que o povo
diz. e que posso aplicar ao dia primaveril que invade o meu nostálgico corpo – arrefeceu.
estou com frio – visto um casaco de inverno. ainda à mão – o tempo arde nos
olhos. tal como os objetos que me rodeiam. palpitam calor – guardo-os junto ao
umbigo. como brasas que nunca se apagam – guardo-os junto ao umbigo. sinto-os meus.
estimo-os. protejo-os no futuro com tudo o que tenho e o que não tenho. amealhei-os
dentro de mim ao longo da vida. agora. fazem parte do corpo. são a minha marca
no tempo: bolas de vidro com cidades dentro. quadros com cores paradas.
estátuas de papel. lápis com os dentes cravados. pastas de arquivo. dicionários.
clipes. agrafadores capazes de unir para a eternidade o que sempre esteve
separado. fotos com vida. livros. livros grossos. livros de uma folha só.
livros sós e até livros acompanhados de tesouras. estes. um dia. serão tiras de
papel. uma forma de coação que encontrei para o que exerce poder sobre mim – só
a dor da perda mantém o corpo em vigília sobre tudo o que nos rodeia – há
muitas coisas dentro do meu tempo. coisas feitas com gente – não quero ser de
ninguém. nem de nada. nem sequer de um dia de sol chamado primavera – quero ser
livre. completamente livre. quero ser descuidado como o vento. quero ser um
ponto naqueles para quem conto. quero ser um corpo que atravesse o tempo que
farei acontecer em sorte. ou azar – este tempo penderá sempre para o mesmo lado.
para a frente. para o fim. para o fim de todas as coisas – coisas escondidas
pelas paredes. pelos lugares. pela posição da cadeira. dos olhos. e até da
forma como deixo cair o cabelo para a frente do que não quero ver mais – tenho
tanta coisa à volta. imagens de quem já foi importante. alguns. até amigos – tanto
peso. e as costas sempre a vergar – um dia vou escrever mais sobre todas as
coisas que já foram importantes. coisas que estão para além de mim. para além
da minha vontade. coisas que um dia foram o próprio tempo. mas agora são ecos
vazios. sombras desfeitas na maré do esquecimento. ficaram os nomes – destes
nomes que um dia foram enormes. já não tenho mais medo. não me doem mais. não
me influenciam. não dizem que sabem o que não sabem. não acenam. não irritam. não
chamam mais pelo meu nome. há coisas agora que já não têm voz. faz outro tempo
dentro do que ouço – mesmo no lado visível ouço apenas as coisas que quero. tenho
tanta coisa à frente: paredes. olhos. sol. portas – há dias em que comunicam silenciosas.
e eu escuto também em silêncio. outros há em que gritam para se fazerem ouvir.
gritam por todas as pessoas distraídas com o sol. e eu no meio dele. surdo – é
assim o novo tempo. gosto de me sentir distraído. perdido cá dentro. tenho
ainda tanta coisa por descobrir – olho a janela. ainda há um sol do outro lado.
deixo-me ficar onde há sempre agasalho. deixo-me ficar perdido nas coisas que
vivem comigo – chego mesmo a acreditar que estou louco. mas não. estou apenas
entretido com o tempo. ainda quero trazer o sol para este lado da janela. um sol
que aqueça todas as coisas que guardo dentro de gavetas. gavetas perdidas num
emaranhado de espaços que construí para deixar esconder a vida – o sol queima
as orelhas e as pontas dos dedos. queima ainda mais os olhos que espreitam à
janela – já não há tempo para o sol saber o meu nome completo – estou cansado
do inverno. cansado da hora de inverno. ando ainda cansado das medidas de
austeridade com que o meu país se debate. e ainda mais do maremoto do japão que engoliu a central nuclear - cansado
de desgraças. só há desgraças onde há gente e coisas – quer dizer que um dia
pode haver uma desgraça no meu lugar. no lugar que tem dentro de si as minhas coisas
e o meu corpo. isto é. tem o meu tronco. porque as pernas e os olhos andam
pelas calotes polares. andam de trenó com os esquimós numa terra onde nunca há
noite – não quero saber de mais nada. já que hoje acordei doido não quero falar
de mais nenhum sol. não mereço que termine abruptamente o meu passeio
dominical. tenho agora uma única preocupação: trazer a lã que me protegerá em
definitivo da bipolarização das temperaturas primaveris e das ideias. não posso
ficar doente com as minhas coisas ainda vivas dentro de mim. sou crente. dizem.
todos os domingos pertencem a de deus.
mas aposto que já desistiu dos meus – se não amanhar a lã em cima da alma. pode
ser um domingo dos diabos – irei então atear o borralho e acender a ignomínia
da gula dominical. morrer do prazer dos homens comuns. comida. álcool. mulheres.
anedotas porcas e mentiras – assim gira o mundo. embalado nos domingos de sol que
brilham lá fora. indiferente às minhas coisas – essas. fiéis guardiãs do meu
caos. permanecem dentro da minha janela. caladas. mas sempre mais pesadas do
que o meu próprio tempo
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