.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

01/04/2011

fotolitografia: a imagem do tempo







nota introdutória: existência – não imaginava que os objetos simples estivessem assim gravados na retina. tudo. afinal. é vida

 

a lã nunca pesou à ovelha. coisas que o povo diz. e que posso aplicar ao dia primaveril que invade o meu nostálgico corpo – arrefeceu. estou com frio – visto um casaco de inverno. ainda à mão – o tempo arde nos olhos. tal como os objetos que me rodeiam. palpitam calor – guardo-os junto ao umbigo. como brasas que nunca se apagam – guardo-os junto ao umbigo. sinto-os meus. estimo-os. protejo-os no futuro com tudo o que tenho e o que não tenho. amealhei-os dentro de mim ao longo da vida. agora. fazem parte do corpo. são a minha marca no tempo: bolas de vidro com cidades dentro. quadros com cores paradas. estátuas de papel. lápis com os dentes cravados. pastas de arquivo. dicionários. clipes. agrafadores capazes de unir para a eternidade o que sempre esteve separado. fotos com vida. livros. livros grossos. livros de uma folha só. livros sós e até livros acompanhados de tesouras. estes. um dia. serão tiras de papel. uma forma de coação que encontrei para o que exerce poder sobre mim – só a dor da perda mantém o corpo em vigília sobre tudo o que nos rodeia – há muitas coisas dentro do meu tempo. coisas feitas com gente – não quero ser de ninguém. nem de nada. nem sequer de um dia de sol chamado primavera – quero ser livre. completamente livre. quero ser descuidado como o vento. quero ser um ponto naqueles para quem conto. quero ser um corpo que atravesse o tempo que farei acontecer em sorte. ou azar – este tempo penderá sempre para o mesmo lado. para a frente. para o fim. para o fim de todas as coisas – coisas escondidas pelas paredes. pelos lugares. pela posição da cadeira. dos olhos. e até da forma como deixo cair o cabelo para a frente do que não quero ver mais – tenho tanta coisa à volta. imagens de quem já foi importante. alguns. até amigos – tanto peso. e as costas sempre a vergar – um dia vou escrever mais sobre todas as coisas que já foram importantes. coisas que estão para além de mim. para além da minha vontade. coisas que um dia foram o próprio tempo. mas agora são ecos vazios. sombras desfeitas na maré do esquecimento. ficaram os nomes – destes nomes que um dia foram enormes. já não tenho mais medo. não me doem mais. não me influenciam. não dizem que sabem o que não sabem. não acenam. não irritam. não chamam mais pelo meu nome. há coisas agora que já não têm voz. faz outro tempo dentro do que ouço – mesmo no lado visível ouço apenas as coisas que quero. tenho tanta coisa à frente: paredes. olhos. sol. portas – há dias em que comunicam silenciosas. e eu escuto também em silêncio. outros há em que gritam para se fazerem ouvir. gritam por todas as pessoas distraídas com o sol. e eu no meio dele. surdo – é assim o novo tempo. gosto de me sentir distraído. perdido cá dentro. tenho ainda tanta coisa por descobrir – olho a janela. ainda há um sol do outro lado. deixo-me ficar onde há sempre agasalho. deixo-me ficar perdido nas coisas que vivem comigo – chego mesmo a acreditar que estou louco. mas não. estou apenas entretido com o tempo. ainda quero trazer o sol para este lado da janela. um sol que aqueça todas as coisas que guardo dentro de gavetas. gavetas perdidas num emaranhado de espaços que construí para deixar esconder a vida – o sol queima as orelhas e as pontas dos dedos. queima ainda mais os olhos que espreitam à janela – já não há tempo para o sol saber o meu nome completo – estou cansado do inverno. cansado da hora de inverno. ando ainda cansado das medidas de austeridade com que o meu país se debate. e ainda mais do maremoto do japão que engoliu a central nuclear - cansado de desgraças. só há desgraças onde há gente e coisas – quer dizer que um dia pode haver uma desgraça no meu lugar. no lugar que tem dentro de si as minhas coisas e o meu corpo. isto é. tem o meu tronco. porque as pernas e os olhos andam pelas calotes polares. andam de trenó com os esquimós numa terra onde nunca há noite – não quero saber de mais nada. já que hoje acordei doido não quero falar de mais nenhum sol. não mereço que termine abruptamente o meu passeio dominical. tenho agora uma única preocupação: trazer a lã que me protegerá em definitivo da bipolarização das temperaturas primaveris e das ideias. não posso ficar doente com as minhas coisas ainda vivas dentro de mim. sou crente. dizem. todos os domingos pertencem a de deus. mas aposto que já desistiu dos meus – se não amanhar a lã em cima da alma. pode ser um domingo dos diabos – irei então atear o borralho e acender a ignomínia da gula dominical. morrer do prazer dos homens comuns. comida. álcool. mulheres. anedotas porcas e mentiras – assim gira o mundo. embalado nos domingos de sol que brilham lá fora. indiferente às minhas coisas – essas. fiéis guardiãs do meu caos. permanecem dentro da minha janela. caladas. mas sempre mais pesadas do que o meu próprio tempo



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