obrigado. nuno [mário]. o abraço soube a pouco
escrever reconcilia-me com a minha própria vida – se
existir uma tabela de preferências para o que nos leva a escrever e a ler. é
óbvio que os motivos que apresentas estão. sem dúvida. no pódio dessa tabela –
no entanto. no que diz respeito a mim. melhor dizendo. ao escrivão que escreveu
o texto “não é escritor quem quer”. digo. com sinceridade. que as razões que me
levam a escrever não disputariam os primeiros lugares dessa tabela – escrevo
por necessidade – escrevo para fugir da solidão. quando o faço encontro-me –
escrevo porque é com as palavras no papel que a minha verdade se torna eterna.
ganha importância – escrevo para voltar ao passado e. com a lucidez do tempo
que já me consumiu. encontrar razões coerentes para entender o que sou hoje –
escrevo porque a escrita me obriga a ser autêntico – um ato nobre – escrevo
porque sou feliz a guardar-me em papel. eu tenho uma história – sou feliz a
escrever. a escrita recompensa; se assim não fosse. não o faria – dezenas de
vezes escrevi nas minhas crónicas: o meu maior embaraço é não saber falar – quem diria. eu que falo
pelos cotovelos – não sei explicar nada com a oralidade. defeito do DNA – falo
então a escrever. não é fácil. acredita que não. mas um dia. estou em crer. os
meus filhos. mais maduros. na segunda idade dos porquês. terão estes papéis para saberem um pouco mais
do pai que escreve e. quem sabe. sobre eles próprios – quanto não daria eu hoje
por uns papeizinhos escritos pelo meu pai. fiquei com tantas perguntas por lhe
fazer. tantas mesmo – tenho a certeza de que são mais de mil. muitas mais –
percebi tardiamente que o que nos distanciava na minha juventude é. agora. na
meia idade. o que me torna mais parecido – sou tanto dele e não sabia – se mais
nenhuma razão houvesse esta já seria suficiente para me fazer escrever – um dia
os meus filhos também poderão ficar ainda mais próximos de mim – a questão que
coloco muitas vezes é o motivo por que torno pública uma escrita quase sempre
autobiográfica. interrogo-me se o deveria fazer – confesso. estou muito
dividido nas certezas e nas dúvidas – por variadas razões entendi que o melhor
era escrever – uma das muitas razões é esta que me leva a responder ao teu
comentário: falar para ti. dizer o que penso – escrever o que sou. porque o
sou. é para mim uma necessidade tão forte que não basta ser dita da boca para
fora. tem que ser escrita – outra das razões é que só posso melhorar a minha
escrita se a tornar pública – se não vos entregasse os textos não poderia
aspirar a escrever sempre melhor. o esforço por encontrar as palavras certas
deixaria de fazer sentido. bastaria um caderno de notas. cheio de erros. sem
concordâncias. sem metáforas. sem hipérboles. sem sentimento. sem nada que
fosse verdadeiramente meu. genuíno. bom ou mau. não interessa. sendo o que sou
porque cada um é como é – se não me entregasse na escrita. para que serviria o
corretor do word. para que serviria a gramática que tenho em cima da
escrivaninha. os dicionários. para que serviria a voz de um filho a perguntar
se uma qualquer palavra se escreve com um H ou um A – não quero compreensão
para o que sou. nem para o que fui. quero apreço pelo esforço de encontrar as
palavras mais acertadas para o que me proponho a falar – escrevo para marcar o
tempo. como quem traça um trilho numa floresta com pedrinhas para saber o
caminho de volta – quando escrevo. saio da alma. quando leio. entro na alma.
mas. no final. seja na escrita ou na leitura. é para mim que quero voltar.
sempre – escrever para mim não é fácil. não nasci com essa arte. e para cada palavra
procurada a busca é quase sempre extenuante. fico sempre com a sensação de que
nunca deixo ficar na escrita o sentimento que me acontece na alma – e assim
digo: não sou escritor. mas gosto de escrever. gosto de fazer amigos com a
escrita. gosto de saber que quem me lê entende que o faço com prazer. que dou
tudo o que tenho e que sei para me compreenderem. como se lhes estivesse a
amarrar as mãos – quando alguém me diz que sou escritor. está a dizer-me que
gostou de tomar um café na minha companhia. que fomos ao cinema ver um filme
qualquer apenas para estarmos um tempo juntos. que vimos uma partida de futebol
e pulamos de alegria com um golo que não foi o da nossa equipa – quando alguém
me diz que escrevo. diz-me para não desistir. diz-me. vai em frente. diz-me que
já lhe chega ser o que sou. mesmo que nunca possa ser um verdadeiro escritor.
por essas pessoas. já é importante terem-me nessa meia dúzia de palavras –
escrevo para mim. gosto de mim quando escrevo. mas se pudesse mudar o passado
tenho a certeza de que hoje seria muito melhor escritor. no entanto. não estou
certo se seria melhor pessoa – o que não mudaria nunca era as pessoas que
passaram na minha vida. elas são tudo o que sou hoje. não guardo culpados
dentro de mim. sou o que sou porque em momentos da minha vida escolhi caminhar
sem colocar pedrinhas nos trilhos que escolhi – quando nos perdemos por
convicção. demoramos sempre mais tempo a encontrar o caminho certo para o que
somos na verdade – escrevo hoje para que a verdade de amanhã nunca mais me
atormente o passado – sei que o tempo muda o homem. amanhã poderei ser outro.
mas agora tenho estes papéis escritos – quando escrevo. sou o que sou no
momento. mas. em cada momento. nunca deixo de ser o que fui. e acredito nisso –
eugénio de andrade escreveu um dia esta coisa maravilhosa. "Eu nem sequer
gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no
papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha
angústia palavras de profunda reconciliação com a vida." – também eu me
reconcilio comigo a escrever
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