.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

22/01/2014

não é escritor quem quer



fabian perez



não é escritor
quem quer


escrevo prosa. não sei escrever poesia – prefiro prosa. porque gosto de falar com pessoas. imagino-as a escutar o que escrevo. acenando a cabeça para cima e para baixo. dizendo sim. sim. como quem entende o que as palavras não conseguem dizer – as palavras nunca dizem tudo – quando escrevo. falo muito.  sempre mais do que o necessário – sou assim. o corpo pede e as palavras aparecem. acontecem – tenho muito medo de dizer pouco. escrevo. e o medo faz eco: estás a falar muito. estás a falar muito. centenas de ouvidos encolhem-se nas palmas das mãos em agonia – escrevo. escrevo mais. mais. resisto com palavras guardadas num pavor-silêncio. meu – e se não me entenderem? escrevo. escrevo como se andorinhas poisassem em mãos mascaradas de cabos de alta tensão. sacodem a penugem como eu sacudo letras – para elas não há inverno. cantam primavera em dias de chuva molha-tolos. esperança – sou tolo por gostar de escrever? não sei. palavra de honra. talvez seja – talvez a minha tolice derive de um conflito existencial: um corpo dividido em dois – de um lado o destino. do outro a fé de que todos os caminhos vão dar a roma – não é verdade. há caminhos para o nada. para um fim do mundo que nunca se alcança – haverá castigo pior do que saber que metade do corpo não descobre a sua outra metade cuidada? – não há – punição que não merece nenhuma das metades – talvez um dia alguém diga que a verdadeira obra de arte nasce da comparação entre o belo e o monstro. talvez – aceitação. as metades olham-se em compaixão. e as palavras lutam com a imobilidade do corpo. nada acontece às mãos – ali fico. estático. de olhos parados no nada. a gozar a antecâmara da morte num silêncio interior inimaginável – o que de mim resta guarda-me nos noturnos. tocados em acordes de notas graves. com arranjos de desilusão – só escrevo com música. é uma questão de ritmo. dizem que a música obedece a fórmulas matemáticas. talvez seja esta a única ocasião de me encontrar com a lógica – às vezes. não encontro nenhuma fórmula capaz de me atirar ao futuro. nem sequer uma insignificante regra de três simples. triste – tenho tantos dias onde não existo. tudo a permanecer no escuro. com tanta coisa sem nome. e o coração a bater ao ritmo de uma porta açoitada por vento tirano – um dia destes. apunhalo-me com uma palavra qualquer. ordinária – estou cansado. os dias estão mais rápidos. e a mobilidade torna-se mais difícil. estou a ficar com as costas tombadas. mais para a terra – os invernos chamam cuidados. frio. sempre que escrevo fico enregelado. e os brônquios a chiar. pingo no nariz e eu sem o lenço de mão – o pingo suspenso. fungo. escrevo. fungo. escrevo. repito – hoje tenho um adjetivo qualificativo importante para rabiscar: a minha escrita é uma palhaçada – e também um superlativo absoluto sintético: sinto-me sapientíssimo quando escrevo – contradição lunática. fungo – confesso que por cada dia de escrita o medo duplica e o desespero multiplica-se numa equação de resultado infinito – quem sabe hoje é o meu dia da sorte. e as palavras constroem-se numa primavera-abril sem águas mil – gracejo levemente. como se fosse uma daquelas pinceladas minúsculas de van gogh. colho o ramo de flores da sua jarra. girassóis brancos. e ato-as com dois verbos fortes: sou o que fui – escrevo. aligeiro mais duas linhas ao pensamento. se soubesse escrever com arte talvez o livro da minha vida estivesse no último capítulo. não sei – trago nas mãos palavras que não são minhas. ouvi algumas. li outras. senti muitas mais. e sem saber qual das partes do corpo resiste à incerteza – mas é nos silêncios da noite que encontro outras que não sou capaz de descrever. quer dizer. escrever – destino – paz à sua alma. luto eterno para um homem que nunca deixou de ser órfão – crueldade. ninguém deveria nascer com um destino já escrito – só quero que depois de morto não me roubem palavras da boca. peço – enfrento o que sou com o que fui. belisco-me. e parto ao futuro navegando à bolina numa agitação norte que nunca parou de anunciar desordem – agora. agora faço estas páginas de palavras para espalhar entre os justos. dizem que há muitos. e que basta procurá-los nos murais da modernidade – todos temos que ser qualquer coisa – o que sou eu quando não sou o que sou por obrigação? talvez um carpinteiro* de palavras. operário de palavras. soletradas por uma boca putrificada por uma inquietude autobiográfica 

 

– onde é que já ouvi isto –

passo tanto tempo a ouvir-me. e o corpo repete: desiste. desiste. o destino já está traçado – nunca compreendi a resistência dos órgãos ao suicídio – não me compreendo – talvez a palavra compreender não seja a mais indicada para definir esta coisa de querer dizer o que não pode ser dito por quem gosta de falar – não sei escrever. não sei falar. não sei ler o futuro. vivo num silêncio de barulho. sobrevivo – escrevo então com este barulho dos dedos a bater as teclas. dou-lhe com força para fingir que não estou apenas na companhia de um silêncio silêncio. e ganho coragem para escrever a palavra “graal”: aceito-me – aceito-me assenta melhor num corpo dividido – aceito-me. gosto da palavra. alivia a dor que nego àqueles que insistem na soma das partes – sei que existo porque me obrigo a escrever – aceito-me. é a palavra mais que perfeita – a palavra de quem escreve para implorar compaixão por uma dor sem nome – escrevo prosa porque gosto de falar

 

[*] – antónio lobo antunes -

 

2 comentários:

  1. Boa noite
    Foi bom ler e ver nas entrelinhas o reflexo de sua alma

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  2. boa noite,
    sonho sem verso - agradeço a leitura e o comentário simpático

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