1.
as longas-metragens cinematográficas quase sempre terminam com o artista a resgatar a amada do tirano malfeitor – é o triunfo do bem sobre o mal – um abraço. um beijo forte nos lábios. e os corpos fundem-se num só para sempre – a plateia em pé cauciona com palmas a felicidade eterna: muitos filhos e só a morte os separará – the end – o mundo da ilusão acabou – o momento é real. os corpos tomam a verticalidade. o conhecimento apruma-se. ergue-se. olha em frente e segue para o mundo inteligível – guardam-se apressadamente os lenços encharcados de sentimento. a condição representa a verdade da ocasião. mas as ideias querem-se enxutas – caminha-se – há de novo razão dentro dos corpos. a felicidade não é eterna. a realidade esculpe-se em microssegundos. alguns fatais – entrar no filme certo da vida requer habilidade. conhecimento. inteligência. e porque não uma pitada de sorte – sempre ouvi dizer que a sorte dá trabalho para caraças. a ventura não nasce para todos. não – é fundamental ter ao nosso lado os atores certos para um filme único. sem ensaios. sem cortes. sem ponto. sem holofotes. sem molière a marcar as pancadas. sem merda. nada do que é feito tem volta atrás – uma arte complicada. ajustável a uma única fórmula matemática de resultado quase sempre incerto e com uma variável aplicada à velocidade com que nos adaptamos ao imprevisto – o homem das cavernas evoluiu. adaptou-se. e agora o fogo é instantâneo: a fricção das pedras substituída pela lixa e o fósforo – atrito. faísca. e a explosão acontece. o calor-luz aparece para dar racionalidade aos corpos. nas paredes as sombras são agora verdades dobradas – para o bem ou para o mal – é indiferente para este mundo aligeirado saber que a verdade permanece em todos os espermatozoides – ninguém quer saber quem é o dono do bem. se é o mal que alimenta a esperança – o homem da vida real esqueceu que só a partilha justa produz harmonia – andamos todos enganados
2.
não esqueças de te portar bem. não
mintas. não faças asneiras. não contraries os teus pais. respeita os mais
velhos. reza sempre ao deitar. e vai à igreja receber o senhor para ficares protegido
dos demónios e das más tentações
–
as recomendações para a felicidade plena continuam
faz
os deveres da escola para um dia seres um homem importante. não queiras ser
como o teu pai. mata-se a trabalhar e nunca tem nada. “põe os olhos no miguelinho”.
agora que é “doutor”. já não lhe faltam companhias – o futuro está nas tuas
mãos. faz-te um senhor para não teres que andar a contar os tostões – receita
para uma felicidade eterna. como no cinema: um artista doutor. fama. espectadores-clientes
e a vida a sorrir – caminha-se – a esta gente ninguém lhes disse que a vida
também pode ser um filme onde as nossas verdades se apagam com o acender das
luzes – embuste. esperança armadilhada para os pais e para os filhos – pai uma
vez. pai para sempre – mataram a fome com livros cheios de saber comprados com
trabalho de sol a sol. e nas mãos a
aspereza do sofrer em alegria. nos olhos a vaidade de ver os filhos crescerem
com sapatos que nunca tiveram. na boca a felicidade feita de carne da minha
carne
– Só
há felicidade se não exigirmos nada do amanhã e aceitarmos do hoje. com
gratidão. o que nos trouxer – a hora mágica chega sempre – hermann hesse
havia
fé até nos nobres da literatura – a hora mágica vai chegar – a idade vai passando
com alegria nos corpos doridos de tudo. fé – talvez haja outro mundo melhor
para quem sofre por amor – os filhos são sempre tão imensos para um mundo tão
apertado – o tempo passa – finalmente vão poder descansar. sentarem-se numa
sala de cinema. e em paz. saborearem com prazer um filme da sua juventude. uma
daquelas velhas películas do western americano. onde mais uma vez o bem derrota
o mal num duelo marcado para o pôr do sol – frente a frente. desta vez. o
artista apesar de estar ferido vence a ganância. saca da pistola com balas feitas
de sacrifício. e num gesto relâmpago. o mais rápido de sempre em filmes de
cowboys. crava uma bala-estaca de tudo que há de bom no corpo do capitalismo
selvagem – o mundo dos que amam incondicionalmente ganhou mais uma vez no
grande ecrã – finalmente justiça
3.
na parede uma luz delicada indica em
forma de seta a saída: exit – a geometria perfeita do espaço perde a estética –
plateia vazia. primeiro balcão vazio. segundo balcão vazio. frisas vazias. tela
vazia. e o que era gáudio é agora um aglomerado de cadeiras perdidas num vazio
cheio de nada – de uma cadeira para outra. difere apenas um número e uma letra
de um abecedário que nunca servirá para dizer o que quer que seja – o ímpar e o
par trespassados por uma passadeira vermelha. cor de sangue sujo. puída por um
vir de imaginário-esperança e um ir de nostalgia-desgraça – há agora um
silêncio que não sei escrever. talvez um silêncio-espera. como se a gravidade terminasse
e o barulho permanecesse parado no ar. numa cena de amor. talvez num beijo do
clark gable na marilyn monroe. ou então. quem sabe. o aparecimento inesperado
do homem-aranha pendurado nas teias da vida – tudo é uma teia. a vida é uma
teia – isso é que era. um herói de carne e osso. a falar a mesma linguagem dos
mortais. com as mesmas mágoas. com os mesmos malabarismos de equilíbrio. deixa
cair das mãos fios de seda pura que não servem para nada – encantamento.
ilusão. magia – há quanto tempo não temos um herói. viriato o mais antigo. d.
joão II nos descobrimentos. camões por ter perdido um olho para um povo que já
quase não existe. e o tempo a passar sem nada. só reis. e um dia uma república
que nunca trouxe fraternidade. igualdade e liberdade. não trouxe nada. o herói
da modernidade é o túmulo do soldado desconhecido. somos todos nós – há um
silêncio-espera que parece não ter fim
[nem
sei bem se este silêncio-espera pode ser escrito – talvez esteja a ficar irracional
– espero que me compreendam]
4.
novas aparições de humanos só na próxima
sessão – tudo que é vida vai nos corredores – os corpos movem-se num caminhar pré-morte.
buscam a luz para apagar dos olhos o testemunho da consciência afetiva – resistem
os fracos. e com escassas provas de humanidade: nariz fungoso. olhos inchados e
a face tomada por feições amenas de mortalidade – todas estas provas num tribunal
não serviriam de nada. qualquer juiz medíocre diria que se tratava apenas de uma
constipação. uma alergia ao pó fabricado por multidões a correr apressadamente para
a indiferença: exit – a consciência afetiva não sobrevive com a chegada dos
corpos à rua – finalmente todos na vida real – só a morte é igual para todos – como
escreve lobo antunes: a arte é longa. a vida breve – tal como a vida também o
belo do cinema não é eterno
Sem comentários:
Enviar um comentário