.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

23/07/2014

narrativa na primeira pessoa



horace pippin

 
escrever é um desafio perigoso. digo eu. que quase não escrevo – as palavras mergulham num vazio quase imenso. quase branco. quase tecido por linhas desenhadas para se tornarem numa espécie de céu – infelizmente. o quase sempre desagua num caminho real para o inferno – tudo agora é ardor que arde sem se ver – enlaço a palavra nunca lida e aconchego-a num leito peregrino. como quem sabe que o fim da ilusão está para breve – a almofada deslumbra-se. finalmente. novos sonhos. acomoda-se nos lençóis e entrega-se por inteiro à luxúria do caminhante. é agora tomada pela loucura dos sinónimos – nem sempre as palavras dizem o que querem dizer. a ambiguidade arrasta-se de parágrafo em parágrafo. buscando o arco-celeste – não tarda e tudo é papel – o momento é do peregrino e da almofada. reflexão – gosto de palavras. são graciosas. harmoniosas. refinadas. as palavras são um eu em três dimensões – fazem abraços. alguns apertados. para toda a vida. ou apenas por um dia. um instante. ou a valer uma eternidade – há palavras que nascem com o corpo. não as aprendemos. são nossas. como a carne que se amarra aos ossos. como os olhos que as sentem. e as mãos que as escrevem. depois. depois basta uma almofada revigoradora. atravancada de penas do arcanjo gabriel. e tudo se converte em esperança – todas as palavras querem dizer algo. mesmo quando se calam – há palavras que são portas abertas. abismos que não morrem. vomitam profecias de guerra que duram para sempre – há quatro coisas na vida que não se recuperam: a pedra atirada. a palavra proferida. a ocasião perdida. e o tempo que já passou – o que está dito. está dito. nenhuma almofada pode mudar o rumo das palavras lançadas ao papel – o peregrino é o dono das palavras. do caminho. dos seus pés. do papel. o fiel depositário – nada do que está escrito é fruto da árvore que deu papel – o papel guarda a vida que acontece no interior do peregrino – se tens um livro na mão. o papel guarda. se tens uma folha. o papel guarda. se tens um lenço de papel. o papel guarda. até num  post-it. o papel guarda. o papel não é eterno. mas as palavras quando lidas passam milagrosamente à narrativa em primeira pessoa – eu li – sempre dás a eternidade ao peregrino – perfilam-se. armam-se. e como numa estratégia militar. marcham sobre os mais incautos leitores. e a narrativa em primeira pessoa cresce. cresce sem parar – de palavras algemadas. à carne em prisão. passam a palavras gaivota. livres. destemidas. audazes. palavras com alma – nunca me canso de falar de palavras. também não tenho mais nada para vos oferecer. são elas que traçam o meu destino – estas palavras não temem a luz. não temem a clarividência de outros saberes. não temem o julgamento da imperfeição. e eu. mais gaivota a cada dia. voo. cada vez mais narro em primeira pessoa
 

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