é noite. vagueio. vagueio por ruas que aos poucos se
fizeram minhas – vagueio porque é noite escura e sei que depois de uma noite
escura nasce a luz. e com a luz renasce a esperança. e sempre que há esperança os
“pássaros de ruy belo voltam a nascer nas pontas das árvores” – é noite. é
março. e é inverno em todo o mundo. em mim também. as noites estão cada vez
mais escuras e eu sem saber o que fazer com tamanha imensidão de negro – é
noite. vagueio porque o corpo continua a mendigar fé. continua a suplicar luz.
e esta só chega quando as manhãs brilham com o canto dos pássaros – com a
escuridão. não se veem as árvores. e sem árvores não há pássaros. e sem
pássaros “as árvores não cantam” e nem a primavera se cumpre – o que faz um
homem sem primavera? não sei. sei que “amo as árvores principalmente as que dão
pássaros” – pergunto. o que é feito das minhas árvores e dos meus pássaros?
calaram-se como se me cala o coração – dizei-me vós senhor. que sois o dono de
todas as coisas do mundo. dizei-me por que razão me levaram as árvores.
dizei-me uma palavra e sei que serei salvo – agora. senhor. em que mundo cantam
os meus pássaros? em que mundo senhor? – se na noite o silêncio me cura. a luz
que me entregas faz-me morrer como morrem os dias de inverno: frios. escuros.
sozinhos e sem um único pássaro – deixa-me poisar na noite como se fosse um
pássaro e quando te encheres de mim deixa-me cair nos teus braços. pois tu
sabes. tal “como pássaros. poisam as folhas na terra quando o outono desce
veladamente sobre os campos” – vagueio triste. desgostoso e amargurado. vagueio
comigo. sozinho. com o passado num relógio a bater o seu termo. e a vida escorrer-se
devagarinho. segundo a segundo. olho-me para matar saudade e não me encontro. já
não me lembro de mim. tenho saudades de ouvir os meus pássaros. acordar com o
doce sabor da primavera mesmo que os campos se cubram de medo e geada – não
quero morrer distante de quem fui. não me posso esquecer das minhas gaivotas e de todas
as árvores que dão pássaros. não posso. ainda necessito de saber “quem é que lá
os pendura nos ramos? e
de quem é a mão. a
inúmera mão?” – e o corpo parado em março como se fosse outono já a anunciar
inverno. e nem um único pássaro a nascer neste mês de morte e primavera – as árvores
sem pássaros é silêncio que mata – só este meu abandono me ocupa com coisas que
não servem para nada – imobilizo-me para ouvir aquilo que não digo. o coração
bate. ouço-o. ouço-o para ter a certeza de que existo. e ele bate para se fazer
sentir no mundo – não existe mais nada entre nós a não ser o bater estardalhado
do coração e o silêncio do corpo. e o mundo despido de tudo o que é meu – “gostaria
de dizer que os pássaros emanam das árvores” tal como eu emano do nome com que
me batizaram – faço de conta de que não estou onde estou. sorrio secretamente.
trinco os lábios enquanto o corpo se mutila num futuro que começou no dia
anterior. e encolho-me até que o corpo volte à posição fetal. escondo-me dentro
de mim porque fora já não existe nada – até os pássaros de ruy belo partiram.
foram ter com o poeta – perdoai-me senhor. perdoai-me se não encontrei no corpo
os desígnios da tua palavra. perdoai-me por não nascerem pássaros nas minhas
árvores. mas sabes. não sou poeta e só os poetas são capazes de domar as
árvores. só os poetas sabem falar com os pássaros. e só “os pássaros fazem
cantar as árvores”. eu não sou nada. não tenho árvores que dão pássaros. não
tenho nada senão o que sobra de mim. e isso já não é nada – “eu [apenas] amo as
árvores. principalmente as que dão pássaros”
este
texto faz referência a algumas passagens sobre pássaros e árvores do poeta ruy
belo. devidamente identificadas ao longo do texto
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