.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

11/03/2018

a noite e os pássaros de ruy belo



gustavo rosa


é noite. vagueio. vagueio por ruas que aos poucos se fizeram minhas – vagueio porque é noite escura e sei que depois de uma noite escura nasce a luz. e com a luz renasce a esperança. e sempre que há esperança os “pássaros de ruy belo voltam a nascer nas pontas das árvores” – é noite. é março. e é inverno em todo o mundo. em mim também. as noites estão cada vez mais escuras e eu sem saber o que fazer com tamanha imensidão de negro – é noite. vagueio porque o corpo continua a mendigar fé. continua a suplicar luz. e esta só chega quando as manhãs brilham com o canto dos pássaros – com a escuridão. não se veem as árvores. e sem árvores não há pássaros. e sem pássaros “as árvores não cantam” e nem a primavera se cumpre – o que faz um homem sem primavera? não sei. sei que “amo as árvores principalmente as que dão pássaros” – pergunto. o que é feito das minhas árvores e dos meus pássaros? calaram-se como se me cala o coração – dizei-me vós senhor. que sois o dono de todas as coisas do mundo. dizei-me por que razão me levaram as árvores. dizei-me uma palavra e sei que serei salvo – agora. senhor. em que mundo cantam os meus pássaros? em que mundo senhor? – se na noite o silêncio me cura. a luz que me entregas faz-me morrer como morrem os dias de inverno: frios. escuros. sozinhos e sem um único pássaro – deixa-me poisar na noite como se fosse um pássaro e quando te encheres de mim deixa-me cair nos teus braços. pois tu sabes. tal “como pássaros. poisam as folhas na terra quando o outono desce veladamente sobre os campos” – vagueio triste. desgostoso e amargurado. vagueio comigo. sozinho. com o passado num relógio a bater o seu termo. e a vida escorrer-se devagarinho. segundo a segundo. olho-me para matar saudade e não me encontro. já não me lembro de mim. tenho saudades de ouvir os meus pássaros. acordar com o doce sabor da primavera mesmo que os campos se cubram de medo e geada – não quero morrer distante de quem fui. não me posso esquecer das minhas gaivotas e de todas as árvores que dão pássaros. não posso. ainda necessito de saber “quem é que lá os pendura nos ramos? e de quem é a mão. a inúmera mão?” – e o corpo parado em março como se fosse outono já a anunciar inverno. e nem um único pássaro a nascer neste mês de morte e primavera – as árvores sem pássaros é silêncio que mata – só este meu abandono me ocupa com coisas que não servem para nada – imobilizo-me para ouvir aquilo que não digo. o coração bate. ouço-o. ouço-o para ter a certeza de que existo. e ele bate para se fazer sentir no mundo – não existe mais nada entre nós a não ser o bater estardalhado do coração e o silêncio do corpo. e o mundo despido de tudo o que é meu – “gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores” tal como eu emano do nome com que me batizaram – faço de conta de que não estou onde estou. sorrio secretamente. trinco os lábios enquanto o corpo se mutila num futuro que começou no dia anterior. e encolho-me até que o corpo volte à posição fetal. escondo-me dentro de mim porque fora já não existe nada – até os pássaros de ruy belo partiram. foram ter com o poeta – perdoai-me senhor. perdoai-me se não encontrei no corpo os desígnios da tua palavra. perdoai-me por não nascerem pássaros nas minhas árvores. mas sabes. não sou poeta e só os poetas são capazes de domar as árvores. só os poetas sabem falar com os pássaros. e só “os pássaros fazem cantar as árvores”. eu não sou nada. não tenho árvores que dão pássaros. não tenho nada senão o que sobra de mim. e isso já não é nada – “eu [apenas] amo as árvores. principalmente as que dão pássaros”

 

este texto faz referência a algumas passagens sobre pássaros e árvores do poeta ruy belo. devidamente identificadas ao longo do texto



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