mantenho-me acordado e
enrodilhado em mim. recuso-me a dormir. fixo o relógio e hipnotizo-me com o
bater do coração – não tarda nada nasce o dia – mergulho na imaginação e revolvo-me
mais uma vez à procura do que nunca encontrei. atiro o corpo de um lado para o
outro e mantenho-me esperto. só o cansaço me dobrará – sussurro para ter a
certeza de que estou acordado. não quero ser sonho. tenho medo dos sonhos.
tenho medo dos sonhos felizes e medo de acordar dos sonhos que me fazem feliz –
o vento corre veloz pelas frinchas e as portas replicam-no em mais barulho. estremecem
imitando gente a sair. só a sair. porque não ouço ninguém a caminhar em minha
direção. faço silêncio dentro do meu silêncio. escuto o pavor em mim e no vento.
arrepio-me. e a pele que me cobre lamenta-se de tudo. é um tudo que desconheço e
que me ocupa o quarto todo – fico inquieto e. como não sei rezar. protesto contra
o divino. se soubesse talvez o fizesse. mas não sei. estou por minha conta. sempre
estive por minha conta. nasci e cresci por conta do que sou e tornei-me senhor
de todas as noites – cansado. resisto. agarrando-me ao luar intermitente que trespassa
os intervalos da persiana. resgato-me da escuridão. a luz do luar é tudo o que me
resta para sobreviver. e logo hoje que é lua minguante – estou esgotado e
desapareço de mim a cada noite que passa. não gosto do que guardo no corpo.
pesa chumbo. pesa morte e pesa dor – volto-me. mais uma volta. volto-me sem parar.
e invento soluções para o que não tem solução – distendo-me num espasmo
espontâneo. os tendões estalam e o corpo altera-se entre o medo e a resignação.
se o coração encravar que se lixe – a noite é cada vez mais desumana – o corpo
amarga. remorde-se vezes sem conta e a alma-que-sente cada vez mais acordada faz
justiça pelas próprias mãos: mata uma mágoa – mas logo encontra outra ainda
maior. tal como a matrioska russa. as mágoas nascem umas dentro das outras e.
quando uma desaparece. há sempre outra maior a chamar-nos pelo nome – respondemos
presente. um homem não se acobarda. morre de pé como as árvores e também que importa
mais dor ou menos dor – nem sempre se grita com a estropiação – e mais uma
volta na cama e as voltas do corpo são as voltas da vida. de dia e de noite
tudo igual. tudo incerto. tudo a magoar e a balança tombada para o lado que não
entendo – o passado não é piedoso. o que guarda nunca se alterará – quero
dormir. fecho os olhos. mas não consigo fechar a memória. rebolo-me de um lado
para o outro e não me encontro em nenhuma dos lados. estou só. completamente só
e sem uma única palavra para me confortar – a memória consumida à medida do meu
desespero. respiro a antecâmara da morte. sufoco. o coração aperta e os pulmões
recuam. barricam-se na
escuridão. e o ouvido já não
quer socorro. quer silêncio. só silêncio e uma mão para não morrer sozinho de
tudo – estendo a passadeira negra para o mal que me tocou. abro a porta do
inferno e passa o impossível. de seguida o inacreditável. acompanhado de perto
pela dúvida que traz consigo a incerteza e o desprezo. para logo depois. em
gargalhada. aparecer a descrença abraçada à injustiça e. finalmente. vestida de
preto. a renúncia a tudo o que resta do mundo – e o travesseiro vazio implora
por uma cabeça que não pense. porque não há dor maior do que uma cama sem sono
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
18/03/2018
matrioska das mágoas
frida-khalo
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário