1.
hoje. dia do pai. faz vinte e sete anos que o meu
pai desceu ao ventre da terra – é dia de recordá-lo – nenhuma homenagem é
suficiente para um pai – mas eu dei o meu melhor para que os meus filhos o
recordem. digo. para que nunca o esqueçam. porque era um homem bom – e como
fazem falta homens bons neste mundo
2.
o algodão doce dissolve-se aos poucos. e nas mãos resta
apenas um pauzinho despido de açúcar – os olhos percorrem a romaria. os
carrosséis giram. e eu de mão dada com o açúcar. sem saber ainda que por cada
balão solto no céu. partia um dia de infância – e os lábios sugando vida. e o
céu ainda azul. e os olhos a girar como os carrosséis. e os sonhos presos ao
destino: um dia quero ser grande e ter um carrossel só meu – o açúcar na mão. efémero
como as nuvens no céu. e a boca a sorrir. as mãos a pedir primavera. o corpo
deitado para o dia seguinte. imaginando que tudo é eterno. que o que é dos
olhos fica guardado para sempre. porque cada dia parece apenas um dia – os
lábios presos ao algodão. e eu preso à mão que julgava eterna – até o açúcar
azeda. até a doçura se esgota nas mãos que fogem para um destino que não
controlamos. e o que era para sempre são agora memórias que me recuso a perder
– hoje é o dia do pai e os carrosséis continuam a girar dentro de mim. e eu a
girar em torno do algodão doce. sou o filho pedindo ao pai de hoje que não
esqueça o pai das romarias. sou o pai pedindo aos filhos de hoje que não
esqueçam o avô do algodão doce – eu cresci em festa – quando somos crianças. não
sabemos que o açúcar. tal como os balões. sobe ao céu e nunca mais volta – tudo
gira. os carrosséis. os romeiros. o homem dos balões. e a criançada garante à
candura que o açúcar sem balão não chega ao céu – e as palavras a girarem de
boca em boca enquanto os altifalantes gritam música que ninguém sabe quando
termina – não há festa sem ruído. e não há ruído que o silêncio não acabe por
engolir – ninguém quer saber de que árvore nasceu aquele pauzinho. ninguém quer
saber que fruto deu. ninguém quer saber quem foi o lenhador que a cortou.
ninguém quer saber da clorofila. ninguém quer saber de nada. mas aquele
pauzinho é mais do que madeira. é mais do que um resto. são todos os filhos que
recordam o seu pai. cada um tem a sua árvore. e cada árvore com o seu pedaço de
terra sagrado – o meu pai escondeu-se de mim há vinte e sete anos. era dia do
pai. hoje continua a sê-lo. porque todos os dias são dele. e a memória já não
tem a certeza de quanto pesa um dia perdido no vazio do universo – quero
acreditar que o tempo só conta para os que resistem. só vale para os que
sobrevivem à dor – um dia. noutra dimensão. os anos serão apenas um sopro. o instante
de uma chama acesa. e a luz iluminará para sempre o dia em que os carrosséis
giravam sem pressa. sem rumo. porque. por mais voltas que dessem. o ponto de
partida e chegada era sempre o mesmo – ali. naquele instante onde um filho se torna
estrela aos olhos de um pai – esta luz que trago não é minha. é a dele. iluminando
o caminho que ainda me falta percorrer para voltar ao seu lado – porque o
caminho em falta é o nosso caminho – e assim continuará a ser: a família é uma
âncora que nos prende à terra e à memória – feliz dia do pai!