.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

16/08/2011

esquizofrenia de um tipo desgovernado





 maurício takiguthi




o dia está triste. o sol não aquece e as palavras não amarram o papel – desesperado ato uma corda ao pescoço. aperto-a. sem folga. olho a janela que cuida de um barulho que não compreendo. encho o peito de ar. peço perdão ao tempo e atiro-me contra o relógio – o momento parecia perfeito para mudar de rumo. passava o décimo terceiro minuto    mas o treze já não tem a força do passado. já não traz o azar de outros tempos. talvez por lhe faltar a sexta-feira. afinal hoje é um dia miserável. segunda-feira. feriado católico – sobrevivi. o ponteiro dos segundos não aguentou o peso de um louco obstinado pela escrita – as letras partiram para mais um fim-de-semana alargado – agora. [para ser franco com os leitores] estou preocupado. regredi e sem compreender a razão estou supersticioso – deitei sal no canto das mãos. pendurei dentes de alho ao pescoço – na mão esquerda uma cruz aponta para um céu que desconheço a razão da sua existência e na boca  uma dúzia de ladainhas contra o mau olhado. tirei-as  do livro de s. cipriano. dizem que é o único capaz de fazer regressar as almas penadas às profundezas do inferno – não sei se é verdade. no inferno vivo eu e nunca vi nenhuma dessas almas errantes – pode ser coincidência não apanharmos o mesmo autocarro. não fazermos compras no mesmo supermercado. nem partilhar a fnac na procura do último best-seller  – talvez seja tudo treta e a culpa unicamente da imaginação que não pára de me meter medo. repetindo a cada segundo que não sou capaz de escrever um texto com princípio. meio e fim – estúpida. em vez de valorizar o que é seu. não senhor. deixa o corpo pendurado de cabeça para baixo num ponteiro que nem é importante. pequeno. frágil. contando o tempo  como se este não servisse para coisa nenhuma. segundos serão sempre segundos – bem que merecia um ponteiro de horas. grande. grosso. imponente e capaz de mudar a vida a cada movimento – talvez isto seja mesmo obra do diabo. talvez pela manhã volte a escrever alguma coisa com pés e cabeça. vou reunir as letras que extraviaram  e quem sabe organizá-las de forma que possa voltar a amá-las. possuí-las e emprenhá-las de mim




para a minha amiga f
por saberes dares aos meus segundos um tempo que nunca acaba – estímulo. ânimo e bondade



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