o dia está triste. o sol não aquece e
as palavras não amarram o papel – desesperado. ato uma corda ao pescoço. aperto-a.
sem folga. olho a janela. que guarda um som distante. sem nome. encho o peito
de ar. peço perdão ao tempo e atiro-me contra o relógio – o momento parecia
perfeito para mudar de rumo. passava o décimo terceiro minuto – mas o
treze já não tem a força do passado. já não traz o azar dos de outros tempos. talvez
por lhe faltar a sexta-feira. afinal. hoje é um dia miserável. segunda-feira.
feriado católico – sobrevivi. o ponteiro dos segundos não aguentou o peso de um
louco obstinado pela escrita – as letras partiram para mais um fim de semana
alargado – agora. para ser franco com os leitores. estou preocupado. regredi e.
sem compreender a razão. estou supersticioso – deitei sal no canto das mãos. e pendurei
dentes de alho ao pescoço – na mão esquerda. uma cruz aponta para um céu de cuja
existência desconheço. e na boca. uma dúzia de ladainhas contra o mau-olhado. tirei-as
do livro de são cipriano. dizem que é o
único capaz de fazer regressar as almas penadas às profundezas do inferno – não
sei se é verdade. no inferno vivo eu e nunca vi nenhuma dessas almas errantes –
pode ser coincidência não apanharmos o mesmo autocarro. não fazermos compras no
mesmo supermercado. nem partilharmos a FNAC na procura do último
best-seller – talvez seja tudo treta e a
culpa seja unicamente da imaginação. que não para de me meter medo. repete-me a
cada segundo que não sou capaz de escrever um texto com princípio. meio e fim –
estúpida. em vez de valorizar o que é seu. não senhor. deixa-me pendurado de
cabeça para baixo num ponteiro que nem é importante. pequeno. frágil. contando
o tempo como se este não servisse para coisa nenhuma – segundos serão sempre
segundos – bem que merecia um ponteiro de horas. grande. grosso. e imponente. capaz
de mudar a vida a cada movimento – talvez isto seja mesmo obra do diabo. talvez
pela manhã volte a escrever alguma coisa com pés e cabeça. vou reunir as letras
que se extraviaram e. quem sabe. organizá-las de forma que possa voltar a amá-las.
possuí-las e engravidá-las de mim
para
a minha amiga f: por saberes dar aos meus segundos a
eternidade do teu carinho tempo que
nunca acaba – estímulo. ânimo e bondade
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