.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

01/08/2011

escadas: memórias de uma geração em migalhas




jeremy geddes


neste agosto rezarei uma ave maria - bem sei que a fé dos tempos de calções curtos. dos sapatos de couro esburacados pela força dos chutos na bola. do suor das correrias. do tempo que não era tempo. do descanso sentado no beiral de um qualquer passeio voltado para uma rua sem carros. de caricas. de amigos de peito. de raparigas com cabelo entrançado e meia branca até ao joelho. tudo terminou – entretanto cresci. e já não vejo homens como eu. com fé. com esperança. os prédios ganharam altura. as ruas tornaram-se reféns dos carros. a polícia apanha ladrões. e até as árvores caíram. não pela força dos ventos. mas pelas mãos de quem teme tempestades. e é assim que. na roda da vida. a liberdade se apaga pouco a pouco – eu também tenho medo. não das tempestades. mas da incivilidade de quem nos aprisiona no presente – e nós. eu e os amigos de peito. uns já mortos. outros vivem a morrer. e eu assisto a tudo. parado. peço a deus que tenha piedade de mim. e deles também - depois. lembro-me que deixei de acreditar em deus. e já nem pai tenho para pedir proteção. é a morte antecipada de uma geração que nunca soube dizer basta – deixamos que nos impingissem tudo. somos assim. às vezes parvos. outras ingénuos. e de palavra em palavra. de lágrima em lágrima. de crença em crença. deixamos os anos correr. como se fossem semanas. e afinal foi só uma migalha de tempo. que um passarinho levou para alimentar um ninho repleto de asas. repleto de sonhos 



2 comentários:

  1. Boa tarde, Sampaio. É agosto, mas parece que até o tempo começa a esquecer-se de ser quem é. Mas aqui, "de palavra em palavra", é-me possível reencontrar pedaços de mim que o tempo espalhou por aí, de asas quebradas e olhos errantes nos silêncios do céu.
    Obrigada por esta "migalha de tempo". Vou levá-la para um ninho que eu sei. Bj
    Luz

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  2. luz. bem que gostava de escrever sempre mais. sempre melhor – procuro as palavras com sacrifício. quase sempre desesperado por não ter talento para escrever tudo que ouço nos meus silêncios – depois chega um comentário e tudo fica com um fundamento para existir. olho para cada palavra de uma forma diferente. como se fosse minha para sempre e por detrás da pontuação o vosso olhar a dizer que há uma razão para tudo que me acontece na vida - obrigado

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