.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

11/01/2012

o senhor do pulmão único



théodore géricault



o mar traz no cimo das ondas gaivotas enlouquecidas. até aquela cinzenta que vive dentro do meu único pulmão. a única capaz de transformar o caos em confiança – este pulmão comprei-o a um fidalgo que vagueia dentro de mim – foi com ele que percebi um sofrimento em mim que nunca iria compreender – é um homem distinto. alto. elegante. usa cartola. luvas de pelica e um lenço branco. delicadamente recortado. que escapa do bolso do casaco negro de caxemira. combina com a camisa branca. engomada e de seda pura. na extremidade das mangas uns botões de punho em ouro com caveiras encastradas. no dedo anelar. um anel idêntico. enorme. com a mesma caveira em alto relevo. sela as cartas confidenciais com o lacre da sua própria vida. que se consome a cada palavra escrita – nunca percebi para quem escreve. talvez para um familiar perdido em algum canto remoto de mim e que ainda desconheça – caminha preso à bengala que marca os passos. sempre exatos. ritmados. como se seguisse uma partitura invisível. talvez marcha militar. nem depressa. nem devagar. as pernas andam apenas porque andam. move-se apenas para nunca estar parado. talvez não goste de nenhuma parte do corpo que lhe dá guarida. ou então. precisa de movimento para manter as costas direitas. sempre perpendiculares ao sentido de tudo que me passa pela cabeça. como os pêndulos dos relógios. que oscilam em paredes vazias. marcando um tempo que avança mesmo sem ponteiros – os sapatos. ah. os sapatos de atacadores brilham. não sei se são novos ou apenas bem engraxados. mas brilham. brilham como nada mais em mim brilha. como os olhos dos meus amigos. como as mãos que me cumprimentam. brilham como os castiçais que seguram velas insistentes em alumiar o que já se apagou. brilham como as palavras escritas nas paredes em que me encosto para descansar os pés que me suportam – este cavalheiro. importante. continuo a pensar eu. anda sempre de um lado para o outro. um dia aqui. outro ali. sempre sugando o ar. indiferente. que lhe invade a boca em gritos – este “gentlemen”. creio que deve ser de descendência britânica. nunca se atrasa. àquela hora ali está. batendo ritmadamente a sua bengala num órgão qualquer – agora percebo que a dor não me pertence. nem a vida – um dia faço algo que o desagrade. e zás. pancada final – acredito que é para isso que vive dentro do meu único pulmão – até que um dia. impaciente. simplesmente diz: acabou-se o tempo

 


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