ai. se
um dia toco uma nova vida a sul. ai – talvez aí me pudésseis ver como realmente
sou. doido. a gargalhar do siso. e os braços. vigorosos. fortes. decididamente
amputados pela energia afirmativa numa indolência merecida – estou cada vez
mais certo desta necessidade de aniquilar o que me resta da memória a norte –
ai. como sei que estou certo – a sul. existe a promessa para um novo corpo.
quem sabe com um novo nome. com outra forma de escrever. mais pausada.
ponderada. precisa. justa e determinada. sem reticências. sem interrogações. e
sem vírgula a separar o sujeito do predicado – ai. como vou ser afortunado – a
vida andada a norte é uma oração complexa. dolorosa e de uma injustiça incompreensível.
onde as palavras que me fazem pessoa se concentram apenas na sobrevivência – um
dia mais. será sempre um dia a mais – ai. como isto é verdade – talvez por isso
ainda aqui estou – um dia a mais. será sempre um dia a mais – ai. como um único
dia pode fazer toda a diferença – assim. neste dia que é hoje. sou ainda uma
criatura humana. mesmo quando “não sou
nada”. e sei que “nunca serei nada”
– “não posso querer ser nada” apenas
com mais um dia – “à parte isso. tenho em
mim todos os sonhos do mundo” – nenhuma gaivota sobrevive à falta de vento
– ai. não sobrevive. não
“Não sou nada.
Nunca serei
nada.
Não posso
querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
a tabacaria – álvaro campos
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