lamento. acreditem que lamento mesmo. bem que gostava de
usar este face para outro fim que não fosse este. o de vos entregar este nada
em que me tornei – tal como os extremistas religiosos. também eu adotei um novo
nome para o facebook – bem sei que hoje é véspera de fim de semana. sei também que
amanhã será outro dia diferente de hoje. estarei então a olhar para coisas humanas
em estado eminente de ejaculação múltipla de amigos – direi: estou morto. morto
com a alegria dos outros. e eu. enterrado em tristeza. corro o facebook em
desespero e sinto a vida a partir. e a loucura envolta em água turva. tão turva
que os peixes não nadam. caminham de pé por dentro de mim. e as guelras. feitas
de naturezas mortas. maçãs podres. podres de sentimento. com sorrisos que
cantam o cântico da praxe: hino à alegria de beethoven – e eu viajo para a
morte arrastado por esta corrente de gente que não morre de solidão – só eu
vivo esta ironia. numa mão. uma rosa. na outra. um movimento louco de me atirar
para o fim do mundo. à procura de gente como eu – não encontro paz. vazio. tudo
vazio – e os olhos. a correr para uma morte que não escolhi. queria tanto encontrar
amigos como eu – estou cada vez mais só. só nesta forma de estar. e a prosa que
escrevo é carne da minha carne. contaminada pela lepra – não sei rir neste meu
face. não sei colocar frases de incentivo. não sei mandar beijinhos. não sei escancarar
a boca do amor para tantos amigos que não conheço. o meu rigor é uma muralha
que resiste – arrasto-me para esta borda do corpo. e juro que se um dia me
suicidar será para dentro do meu corpo. morrerei eu e os meus peixes. e
enterrarei os meus restos mortais no vale das utopias – estou morto por um punhado de likes. mas
ainda resisto ao lado escuro do facebook – resisto eu e o meu cão. neste mundo
de sombras mortas tentamos entender-nos: dou-lhe um biscoito e recebo em troca
um like de sorrisos de verdade – e então canto. canto poesia que não é minha. e
a morte premeditada ligada a um fio terra enrolado ao pescoço – o enforcado do tarot
sou eu – não sou nada neste meu facebook. não sei dar likes com o dedo polegar
para cima. porque estou de cabeça para baixo – não sou feliz. não – sou
verdadeiro na minha solidão
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
24/03/2017
o enforcado do facebook
pintura - susana soto poblette
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