nota de autor
“sou apenas instante” nasce da
convicção de que a vida só é verdadeira quando se vive no agora – nesse espaço
frágil e absoluto onde tudo acontece e tudo se perde. não há passado nem futuro
que nos definam: apenas o instante. esse breve milagre em que existimos por
completo. o texto é um espelho dessa procura – uma tentativa de dar corpo
àquilo que não dura. mas que por um segundo. é tudo
estou
incrivelmente suspenso – neste instante não sei se me tenha perdido de mim ou
achado o que me faltava – sinto-me como um miúdo que encontra uma moeda de dez
réis no meio da terra – olha o brilho e interroga-se: o que fazer com o
milagre? – sou neste instante a fúria dentro da ideia que me descobre – de tudo
o que o corpo esqueceu mas a alma recorda – a razão é feita de memórias. e
estas alimentam-se de símbolos – cada uma. uma alegoria do que fui – mastigo o
tempo enquanto o silêncio pensa – eu carrego uma cruz. que bem podia ter outro
nome. o peso seria o mesmo. com as mesmas dúvidas e interrogações. a mesma
pressa de agarrar o futuro – mas é o futuro que me agarra a urgência – trazê-la
para o hoje. e plantá-la na avenida principal da minha terra. porque é aqui que
estou ligado ao ser – sou o instante. dentro da minha caixa de pandora – onde
guardo o que ainda não se fez palavra – fecundada com todos os meus pensamentos
que só têm valor por serem muitos – o que existe vive só dentro de mim. pequenos
instantes que respiram sem nome -- silêncio que mutila -- à procura do seu
criador. é como chuva no verão que não retém caminho – eu não passo de uma
caixa de rapé. pó de pensamentos. que se cheira para aliviar o medo e obrigar a
boca a falar para o papel – cresci suspenso em asas de anjos. gabriel ou outro
nome qualquer – não interessa – são todos de barro – nelas a fé enganou-me –
por isso não descem do céu. sobem do meu medo – não importa quem é o dono dos
limites. o céu nunca foi direção. só ruído – eu não tinha caminho. o presente
era o já. e o já é como um rio em fúria que desaparece na cascata – com a queda
fica ali. à espera de todas as gotas que lhe pertencem – nada chega ao mesmo
tempo. decompomo-nos. tornamo-nos espera. como uma estrela na noite – sou o
fruto maduro desse tempo. que junta cada instante da memória. e pela manhã.
abro as portas do cansaço. como quem entra num templo. onde só o pensamento é
satânico – sei que nunca haverá fim para quem pensa. só a morte aprende a fechar
os olhos – credos feitos em trouxas malucas. enquanto os santos me esperam na
igreja do pensamento. e me absolvem de um qualquer pecado venial -- um pai
nosso na minha gestação -- pecado que nunca foi meu. mas deles. que me
ensinaram a temer – depois de morto ressuscito – e volto a duvidar – nunca me
disseram que um homem morre milhares de vezes durante a vida. e ressuscita sem
ter um único santo a seu lado – cresci em demasia e perdi-me nas ideias. criei
as minhas. dei-lhes a forma de pirâmide. e sentei-me no cimo de mim – onde sou
deus dos meus eus -- procurei-me em todo o lado. e em todo o lado me encontrei
– e o rio a juntar cada gotícula de água para me dar outra forma – nada é certo
na nossa vida. apenas o instante comanda. como um general sem tropas. o que foi
ontem não se repete. nem o pensamento. somos feitos de dúvidas. e o que estava
certo ontem. hoje não está. e o azul que cobria o céu. é agora um manto negro.
que nos envolve em silêncio. invisíveis sem papel – apenas o instante traduz a
emoção verdadeira – depois acrescentamos o tempo. essa invenção maldita feita
de ponteiros. e tudo em nós é vazio e arrependimento. um buraco acabado num não
sei – não sei como fui capaz de me aceitar no tempo sem espera – e a promessa
de ser íntegro. suspensa num fio de luz – não posso desistir de mim. mesmo não
me reconhecendo. eu sou o instante passado. uma luz a clarear o rio da cascata
preso a margens que me guiam. e que nunca me compreendem – o amanhã não existe
para quem não espera – não comandamos o
que nos move -- apenas seguimos -- tal como diana de éfeso. somos feitos de
seios. alimentando todos os instantes em eus que dormem dentro do tempo. porque
o amanhecer não traz o que sobra – e agora? posso reinventar-me com cada
instante? tudo a que me dou é volátil. álcool destilado numa ideia de terra
prometida – a vida continua. mesmo que não encontre abrigo. eu escrevo. mesmo
que ninguém me compreenda. eu sou as palavras. porque elas habitam em mim. e
alguma haverá de encontrar o lugar certo para fazer-se verdade – por isso não
posso ser castigado pela mudança. afinal eu apenas nasci. o resto foi feito
pelo instante – foi o futuro que me enganou. e se um dia fiz estrada. foi por
ser fiel ao pensamento. e a boca… apenas serviu para chamar quem nunca escutou
– às vezes deslizo por mim. e o que encontro é amor -- desgovernado -- procuro
o certo em cada armadilha – um homem certo é muito mais esguio. passa pelo
vento sem que a brasa o acenda – um homem certo volta sempre para os seus braços.
não há nenhum lugar melhor do que aquele em que se chamou pelo nome – e o meu
nome… é instante – tudo o que tenho está dentro da minha cabeça. é o único
lugar onde eu sou tudo. porque cada instante é uma explosão de eus que se
multiplicam. e por mais que queira ser outra coisa. mesmo que seja
insignificante. a verdade não deixa – sou uma estrada de ideias – o mundo todo
mora lá dentro. e desse mundo nasce o universo. que explode a cada instante.
fabricado por cada faísca que me incendeia – em recantos que desconheço. mora a
dor que grita. o sorriso que ilumina. a incerteza que me caracteriza. porque
para cada pensamento. há uma porta aberta. uma meditação. e cada amigo ou
inimigo. preso ao que sou. só nasce quando escrevo. ou quando sofro. porque ser
ou não ser. só vai depender do mistério que desbravar – e os átomos são a dor
em movimento. e o corpo a caminhar para fugir das certezas absolutas. e eu sem
saber se me belisco. ou acredito. que desta vez a prova dos nove é resto zero –
alimentar o instante é a razão da minha existência – frio. aconchego-me.
quente. refresco-me. a vida é feita de frio e calor. e o corpo a migrar para os
polos da procura -- sou garimpeiro de mim -- e em nenhum lado. há um instante
que me fixe para sempre – sou apenas uma nota de piano em busca da sua melodia
– e o sangue a ferver por não ser corrente. não traz paz. e lá no fundo. onde
já não me reconheço. grito para que me ouça – é quando procuro um basta. e o
corpo dói para resistir. e o instante põe-me vazio. como se soubesse que se
paro… morro – alimento-me de mim. e morro com tudo o que os olhos me dão – sou
a ruína. uma descoberta sem carbono catorze datável. com as mãos a pedir menos
medo. e o equilíbrio cada vez mais difícil. a vida como gelo fino. cristal de
murano – abraço-me e pergunto: que gesto faria de mim outro ser – aquele que se
dissolve nos elementos: terra – ar – fogo – água – o tempo é a minha palavra. é
estrada que fala com o infinito. e qualquer que seja o desejo. é no espelho que
me reconheço: o nariz do meu pai. os sapatos ao contrário. e as mãos a abraçar
o impossível – neste instante o que peço é tempo. não tenho medo da morte. é do
tempo que tremo – tenho medo dos comboios que passam a correr. da água que não
chega ao mar. da palavra que não sai da boca. do silêncio que nunca responde –
quero acreditar que a morte é apenas uma porta. um silêncio para além do
instante – a mente cala. os braços vão tocar no invisível. o chão ruirá. e nas
costas as asas de uma gaivota livre -- levanto-me do corpo -- desenho de mim
sem mapa e sem fome do inesperado – a luz é a certeza. a sombra é descanso. e
corpo finalmente. com o passaporte carimbado para a desistência. para o perdão.
para a palavra sem valor – os sonhos sem cumprir. esses malditos. serão vento.
santo graal. ou hóstia. papel. assinatura de sangue -- nunca serão dor -- para
trás. a palavra escrita reinventa-me a cada instante dos outros. e mesmo sendo
o que cada um quiser. eu estou noutro mundo. onde o que quero está sempre certo
– cheiro a anjo. mesmo que os olhos me ignorem. este sou eu – perdido no
inferno que criei no instante em que nasci

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