30/12/2025

2026. a incerteza do tempo

 



nota de autor

ao fim de cada ano escrevo este texto para medir o que o tempo me deu e o que me levou – não é um balanço de contas nem um gesto de esperança – é uma forma de tocar no que ficou. no que nasceu. e no que partiu – escrevo para fechar o ano com memória. e abrir o seguinte sem promessas

 

2026 à vista – o calendário avança mas nada se resolve por magia – o ano termina sem fechar coisa alguma – apenas se acumula – chegamos ao novo tempo com as mesmas virtudes gastas. e as mesmas fragilidades intactas no corpo. porque é disso que somos feitos – esperar que tudo seja diferente é uma forma educada de recusar a morte – o que fomos não se dissolve na mudança do número – e sem que a mão amarre o que passou. o universo revolve a memória segundo a segundo – é aí quando nos apercebemos do peso de cada instante – e o que pensamos ser cura é apenas ilusão – nenhum homem muda num segundo – o tempo é um embuste bem montado. por isso nada recomeça por nada ter terminado – o que encontramos na palavra esperança não é magia. mas resiliência para continuar a carregar o que já pesa – tudo é medido em tempo. o tempo que levamos casados. o tempo dos filhos. o tempo exato das pessoas que perdemos. dos amigos. do trabalho. e do tempo que encontramos em nós para nos renovarmos. voltar os olhos ao futuro – é no futuro que começa cada segundo. e dentro dele o que ainda não sabemos. carrega a força da verdadeira transformação – a mudança de ano é uma equação lançada às estrelas. o homem insiste em medi-la com o que tem e com o que sabe. no seu mecanismo interno. como quem dá corda a um relógio. mexe as pernas para aceitar o tempo que chega – este. mesmo indiferente. por vezes também alheio ao nosso sofrimento. segue para o fim – para um tempo. apenas não existimos – quando precisamos que volte atrás. o tempo não responde. envelhecemos e a única contagem que é certa é o nosso desaparecimento – chegamos às vinte e quatro. o fogo estala no ar. dá-mos gritos como quem venceu o ano. abraçámo-nos como quem abraça a vida eterna. prometemos à primeira brisa juramentos que a tempestade leva. e  quando acordamos do teatro. as pancadas de molière abrem-nos os olhos para a escuridão – num segundo mudamos o ano no calendário. mudamos de roupa. às vezes de carro. mas o homem não acompanha essa pressa – o nosso tempo conta um tempo que só nós sentimos – o nosso maior desejo é impossível de ser realizado num segundo. precisamos de anos para mudarmos o que ninguém consegue ver – o homem vive sem garantias. num segundo perdemos a pessoa que mais amamos. num segundo ganhamos a lotaria. nada na vida é certo. cada segundo guarda o tempo necessário para nos iludir de que amanhã será melhor – o que faz com que brindemos a um ano novo é a raça que guardamos dentro de nós. cada homem é uma raça em vigília. carregámo-la porque os nossos antepassados se recusaram a desistir. rangeram os dentes e disseram: quero mais um segundo – mas aqui estou às portas de um novo ano. para os que me conhecem ficarei igual. nenhum segundo tem força para me mudar o suficiente para que alguém se surpreenda comigo – mas para mim. continuarei com a minha mudança silenciosa. envelhecer cada dia com mais luz. abrir a janela. e deixar o ar correr dentro de mim – mas eu sei que o próximo ano não será igual a este. isso deve-se à raça que habita em cada um de nós – a minha neta carolina nasceu. resistiu a nove meses de gestação. e no seu segundo. com a nossa raça. eclodiu no mundo com a grandeza que todos os bebés trazem consigo – a família com o seu nascimento percebeu que o passado nunca fica para trás. levámo-lo para a frente de nós. dá-nos a eternidade. passamos o testemunho para que os segundos façam tempo. porque só com pessoas existe tempo – sem filhos e netos para que servia o tempo? tudo podia acabar amanhã que nenhum sino tocava o nosso nome. nenhum ouvido pediria silêncio – eu conto o tempo porque conto a família viva. nós todos somos uma cápsula de tempo aberta. e é naquele segundo que mudamos o calendário. e temos a coragem de fazer o deve e haver do ano. às vezes de vários anos. às vezes apenas olhando para o céu. e em cada foguete que sobe ao infinito. uma memória dos meus pais. e pergunto ao universo. porque não me dás apenas um segundo intacto desse passado – as saudades não têm tempo – quando perdemos alguém que amamos o tempo não existe. é tudo hoje. o beijo é de hoje. o abraço é de hoje. a chávena do pequeno almoço quente. e a comida na mesa a fumegar. e as cadeiras ocupadas de nós todos – não podemos esquecer. mas temos a obrigação de continuar. é preciso deixar aos filhos a força da perda. somos nós. os pais. que transformamos esta saudade num número de calendário. ser forte é saber recordar – o calendário nasceu porque a memória é seletiva e precisa de datas para não se perder – este ano um fecho honrou-nos em silêncio – o meu filho joão. em janeiro. concluiu o seu doutoramento em tecnologias e sistemas de informação – e passou a ensinar de forma plena – realizou um dos meus sonhos. ver um filho honrar o saber pelo gesto de ensinar – vê-lo lecionar na universidade é perceber que o conhecimento também é uma forma de continuidade – setembro também o guardei para ele e para a minha nova nora sofia – o melhor setembro da minha memória – nesse mês deixou de precisar do meu nome para existir – e isso não doeu como eu temia – ensinou-me onde acaba o pai e começa o homem – as mãos dadas. o silêncio em mim à espera do sim. e a certeza de que o deus deles os vai guardar para sempre – eu e a mãe levámo-lo ao altar. e saímos pela primeira vez em quarenta anos sem filhos. trazíamos a cobrir-nos o dever cumprido. e nos lábios o nosso sim: sim. fizemos tudo certo. o tempus nostrum entregue aos frutos do amor – há outros nomes que vivem não apenas este ano. mas em todos. completam o puzzle daquilo que sou – o luís e o pedro são outros dois filhos que caminham comigo e me levam para a frente – que bons eles são. parecidos com o avô – o pedro tem apenas uma promessa por cumprir. eu espero. tenho tempo – as noras andreia e bela. acrescentam luz. uma mais recatada. outra mais expansiva – as diferenças aproximam-nas – que bom – os netos. beatriz e santiago. devolvem-me a inocência – uma referência especial à minha neta beatriz. que este ano aprendeu que quando se trabalha com seriedade os resultados aparecem – a excelência começa a mostrar-se – e por fim a avó lurdes lembra-nos que o tempo também sabe ficar. a memória compreende. o corpo resiste – quem já não precisa de calendário é a minha companheira há muito tempo – nós já não sabemos quando começou esse dia – fundimo-nos um no outro sem ruído – é ela que organiza o meu caos. mantém a casa de pé quando o tempo deixa de contar comigo. e o silêncio que partilhamos é o castelo que me protege – ela é a certeza de que a bondade pode caminhar pelo tempo sem pedir lugar à vaidade – abre e fecha a circunferência invisível da família. impede-nos de quebrar. resistimos à desordem do mundo. o passe-partout onde todos descansamos – são os segundos dela que dão valor ao nosso tempo – houve ainda este ano um lugar onde o tempo deixou de me pesar – foi no boom festival que fui levado para fora do que pensava ser – o corpo aprendeu outra vez a escutar. a consciência abriu uma porta que eu julgava fechada – não fui procurar nada. mas encontrei-me – chorei o que não tinha chorado. enterrei o que julgava enterrado – voltei com menos certezas. e com mais espaço dentro de mim – sei apenas isto: não voltei igual – obrigado. luís silva. por me levares a um novo conhecimento –importante também este ano e de relembrar para sempre. foi a luz com que a minha irmã mais velha atravessou a sua doença – aos setenta e seis anos ensinou-nos que a vida não se vence. luta-se – hoje está curada. não porque derrotou a morte. mas porque soube ficar de pé enquanto ela passava – ela é o nosso grande exemplo de luz serena – ainda bem que o tempo me deu o tempo para lhe dizer que a amo – é a minha irmã. aurora – creio que chegou o momento de fechar o ano. nada deve ser prolongado quando o tempo tem a sua hora de fecho – os amigos são sempre importantes – não vou enumerá-los – eu e eles sabemos quem são – sabemos também que são como os corais – protegem o nosso habitat. mesmo quando moramos no cimo de uma onda – são quase sempre eles que nos seguram. para que o fim não se proclame pelos sete mares – aos mais próximos exigimos sempre mais. queremos receber o mesmo que guardámos dentro do que construímos – às vezes não é possível. somos todos diferentes. mesmo sendo muito parecidos nos desígnios do caminho – mas não há ano que não traga uma boa colheita – ângela e marco. bem vindos ao meu tempo. foi aquele segundo que nos ligou – este ano também tive segundos perdidos para sempre. o almeno gonçalves partiu. viveu na minha adolescência e depois correu para lisboa à procura do seu grande amor: o teatro – ficam as recordações – recuperei imenso de mim neste ano. encontrei-me com o meu passado. e fiz-me mais bonito – a família e os amigos não pesam. sentam-se ao nosso lado e fazem o tempo connosco – bem-vindo dois mil e vinte e seis


27/12/2025

ano novo com vida velha

 



 

caminho na projeção da lonjura do tempo

                                            diria que estou envelhecido

                                                      tudo o que me resta é a demora

                                   consumida num rugido silencioso

 

  no intervalo das pernas respiro a morte

                                sempre certa

                                           num  prazo incógnito

                                                       umas vezes espero em raiva

                                                                                                        outras

                                                                                            apenas medo

 

                      o tempo real é irreal

 

acrescento presságio  à melancolia

                                                 baralho cartas

                                                            interrogo estrelas

                                                                      cuspo búzios

 

e o corpo pendurado na corda é um balanço            

          às vezes quase vivo

                                      ás vezes quase morto

e num coma induzido

                               finjo-me outro

                                                          respiro dor em silêncio

            arfo arrependimento

num bate coração cansado

                                          onde o corpo afunda 

                          desonra pelo que não fez

 

                                                  escarra fel pelo que fui

       

    sufoca na sua própria vida

 


23/12/2025

o que fica – parabéns

 



aqui está mais um ano para ti – sempre que acrescentas um ano. corro a acrescentar outro para mim – não quero que me apanhes. gosto de ser mais velho. gosto de saber que posso contribuir para a tua felicidade. e quando te sinto feliz. acrescento-me em ti – depois… sou de abril. carneiro e torrão. gosto dos gestos que se repetem. de te dar a mão e caminhar contigo por dentro de mim. e ao fim do dia. encostar-me ao tempo que fomos. e perguntar-lhe se ainda nos reconhece – tu… és deste mês bonito. o mês da família. onde os dois aprendemos a crescer com os nossos filhos – és capricórnio. delicada. bailarina que me atravessa em bicos de pés – nós somos a família. a que nos entregaram e recordamos. e agora. aquela que fizemos – e que um dia será também recordação – mas que dia mais bonito para se nascer – nasceste e foste logo para a ceia de natal. e ainda não tinhas aberto os olhos. já havia em ti qualquer coisa de casa – eu levo anos a tentar dizer-te que te amo. e a palavra nunca chega – fico sempre sem jeito. enrodilham-se. e quando chegam ao papel dizem pouco em relação ao que sinto. que não passa da dor de não ter envelhecido mais a teu jeito – este é o quadragésimo primeiro ano que continuamos a atravessar juntos. confesso que já não me lembro do primeiro. não é culpa minha. é a vida a escolher o que fica – quanto mais vivemos. mais alguma coisa fica para trás. mas por culpa da idade sei. hoje escolho-te com mais consciência do que naquele dia. quando ainda não sabíamos tudo – para mim continuas a chegar como no início. e por mais voltas que eu tenha dado sobre mim. como os girassóis ao sol. encontro sempre os teus olhos. e quando isso acontece. descubro sempre alguma coisa nova. às vezes um sorriso. às vezes uma ruga de expressão. é assim que o tempo passa. vais acrescentando idade. sem nunca te afastares de mim. e isso muda-me – somos feitos de tempo. toque e permanência – parabéns maria joão – digo que te amo. com o desconforto de quem sabe que a palavra é pequenina demais – por isso digo-te. amo-te. e fico em silêncio



19/12/2025

a casa que deixo em mim

 




escrevo diariamente porque preciso de ser um pouquinho melhor a cada dia – é a única forma que tenho de me completar e sossegar – é neste caminho que trago a família para dentro de mim – o meu grande amor é proporcional à canceira – uma exaustão sem limites – não podemos acreditar que os filhos serão melhores que os pais. se não sentirem. nos instantes deles. que eu e a mãe abrimos caminho – o nosso espetro de luz é guia para chegarem mais longe – só assim se fica mais perto da plenitude e da realização pessoal – família – trabalho – verdade – honra – dignidade – bondade – para mim. o natal é isto – e as memórias dos que partiram. mas nunca saíram do meu corpo – trago o natal dentro de mim. e em cada luz do meu pinheiro. uma memória acesa

 

12/12/2025

a importância de ser ridículo

 






nota de autor – este texto nasceu das minhas falhas matinais e da teimosa mania de perder os chinelos – escrevi-o para aprender a rir de mim e. quem sabe. ajudar outros a rirem-se de si – se há aqui alguma verdade. é esta: ser ridículo também é uma forma de existir

 

nesse dia acordei cheio de falhas – perguntei-me o que me falta para deixar de ser ridículo – sentei-me na beira da cama. atirei os pés para o chão. olhei-me de cima a baixo. estava todo – depois olhei o relógio. marcava as horas certas para me encontrar com o mundo – voltei a olhar-me e comecei a contar as falhas que encontrei em mim – a primeira que encontrei foi um botão do casaco de pijama desabotoado. e interroguei-me. como fui capaz de me deitar assim? estou a perder o brio – quando envelhecemos vamos perdendo tudo – abotoei-o. mais vale tarde do que nunca – de seguida percebi que o telemóvel não estava a carregar. outra falha. esta grave. o mundo que me serve vive no interior desse aparelho. o mais certo é ficar isolado de mim a qualquer momento – quando pensei que as falhas ficariam por ali. mais uma. faltava-me os chinelos de quarto – como poria os pés no chão sem proteção? vou ter que ir para o banho em bicos de pés. mesmo assim estou sujeito a ficar rendido. e um homem rendido é um homem diminuído – só de pensar sinto o escroto a contrair – não há nada pior do que acordar com a sensação de que sou um falhado – as manhãs são sempre intensas. um homem quando dorme mal acorda devagarinho. às vezes. de tão devagarinho. fica sem saber se se está a levantar ou a deitar – mas hoje estava acordado. não diria bem acordado. mas no ponto. médio. como os bifes quando me perguntam se quero bem ou mal passado – olhei em frente. que não era grande distância. a tocar-me os olhos tinha um guarda-vestidos. e dentro dele uma vida inteira protegida – abri a porta. de correr para os lados. comigo raramente alguma coisa anda para a frente. e veio-me à memória um casaco que me levou à lapónia – não foi uma grande viagem. culpa minha. quem se lembra de ir visitar o pai natal no mês de agosto. só lá estavam as renas e o capataz que tomava conta delas – era um sujeito mal humorado. barrigudo e com uma barba enorme. branca. nem se dignou a responder às minhas perguntas – quem respondia era o cão. um husky siberiano. mas não percebi o que me queria dizer – mas também o que importa. um cão só é o melhor amigo do homem porque não fala a mesma língua dos humanos – e ali fiquei. num estado de sonolência que comprometia o dia. a interrogar-me: onde falhei. onde estão os chinelos do quarto? olhei para o interior da porta onde guardo os dias que já me aconteceram. e ao lado do casaco um colete de sarja. com os dentes marcados de um leão do serenguéti – não era um mau leão. estava apenas aborrecido com o excesso de turistas na sua terra – acabei por ter sorte. juntei-lhe uma pitada de coragem. uma lata de espinafres. e quando abriu as mandibulas meti-lhe a mão pela boca dentro. bem até ao fundo. e virei-o do avesso – foi uma viagem memorável. apanhei o avião para a tanzânia. e depois segui para as planícies sem fim. no norte do país. em cima de um elefante-da-savana. primo afastado do dumbo – as orelhas eram menos irrequietas e mais pequenas – mas via-se que era da família – não foi uma viagem fácil. corri várias vezes perigo. lutei com uma anaconda da américa do sul. mas já emigrada em áfrica há muitos anos – aborreci-me também com um crocodilo. felizmente resolvi a situação com diálogo – quando me apanhei no avião de volta fiquei numa alegria. estas viagens são cada vez mais perigosas. não sei se é pelo buraco do ozono. pelo aumento das temperaturas. mas os animais saíram do seu habitat e misturaram-se com os humanos – claro que hoje já se começa a ouvir com frequência no reino animal: diz-me com quem andas. eu te direi quem és – e com razão. no dia em que ia embarcar para o meu país. estava um urso polar a chegar com destino ao serenguéti. mas com aquele casaco de pelo não vai passar bem – imagino o pobre coitado com o rabo metido num frappé de cerveja e um prato de tremoços na mão – foi então que me voltei a perguntar: o que me falta para deixar de ser ridículo? onde estão as minhas falhas?  estava ainda ensonado. aborrecido por não saber onde tinha deixado os chinelos de quarto. olhei para o relógio digital. marcava uma hora que desconhecia. talvez fosse cedo demais para pensar. talvez ainda fosse noite profunda. talvez me tivesse perdido num qualquer fuso horário. talvez tivesse perdido greenwich. ou o juízo – para ser franco não quero saber. sei que a porta da minha vida está aberta. e que toda a roupa no seu interior encaixa nas minhas medidas. sou o reflexo das cores que usei – um homem não pode acordar rápido. para acordar sem abrir os olhos era na adolescência. nessa altura os sonhos penduravam-se nas pálpebras. eram tantos que nem as deixavam abrir – agora já não é assim. há sempre um bico de papagaio a queixar-se do colchão. o mau hálito preso a um filete de peixe do jantar do dia anterior. e o chá de camomila para sossegar a alma. dar-lhe descanso ainda em vida. acaba por dilatar a bexiga e mais cedo ou mais tarde vou ter de dormir com um urinol ao pé da cama. porque enquanto procuro os chinelos arrisco-me a fazer xixi pelas pernas abaixo – um homem nunca deveria envelhecer. antigamente sonhava ir ao evereste. e no outro dia peguei na mochila e fui – toda a gente dizia que era muito alto. mas nunca achei isso. era do tamanho dos meus sonhos – quando lá cheguei. tirei uma manta de arraiolos da mochila. estendi-a no chão. sentei-me. olhei para o futuro e perguntei a mim mesmo: o que vieste fazer ao teto do mundo – nunca encontrei resposta que me satisfizesse. dei uma volta inteira sobre mim. trezentos e sessenta graus. e nunca me vi em lado nenhum – foi então que percebi que o melhor que fazemos é viver um dia de cada vez – levava comigo uma sande de marmelada. igual à que comia na escola primária. juntei-lhe um jarro de tinto verde carrascão. um pastel de nata. e no fim um café expresso com adoçante por causa dos diabetes – ali fiquei. a olhar o mundo que tinha deixado em baixo. e por muito que possamos subir. nunca deixaremos de levar connosco as nossas origens – somos o que somos – e pior de tudo é que mesmo no cimo do monte continuo sem saber onde deixei os chinelos – ainda bem que guardo as botas de subir dificuldades dentro do armário – e por ali me demorei a olhar para o que fui. nada de novo guardo naquele armário. tudo dentro dele já foi usado – mas estou numa fase da vida que já não quero roupa nova. quero-me a mim. por inteiro. quero-me a viver dentro de uma caixa de burronas com mais de mil cores – e para cada dia em que perco os chinelos pinto-me de uma cor que me faça existir como nunca fui – tenho duas vidas. teria mais se tivesse tempo para as escrever. mas como hoje quero algo rápido. como antigamente os telegramas – hoje deixo de ser ridículo. stop. amanhã voltarei a ser o que sou. stop. cumprimentos – quero ser um telegrama que diga pouca coisa mas que faça muita distância – quero ser astronauta. neil armstrong. e poder dizer para mim. hoje é um pequeno passo sem chinelos. mas um passo gigante descalço – quero ser jacques cousteau. construir um calypso. e navegar por mim. descobrir o meu mundo silencioso. e colocar uma tabuleta no coração a dizer: em construção. não faça barulho – quero ser pintor. edvard munch. e que de dentro de mim saia um grito que se faça ouvir em todos aqueles que se sentem ridículos. e se mesmo assim a surdez teimar em não ouvir. então que se levante uma tempestade de areia e cubra o mundo de pó para que ninguém possa cuspir para o ar – quero ser relojoeiro. com uma luneta no olho da precisão. a dar corda a rodinhas. ponteirinhos e parafusinhos. mas se mesmo assim não der ao tempo uma razão para eu continuar a existir. então que me marquem na testa um relógio de sol. e no céu uma estrela polar. quero partir para chegar a horas de me reinventar sem falhas – por último. e porque quero ser todas as profissões do mundo. mas não domino a física quântica. nem sei viajar no tempo à velocidade da luz. quero ser escritor. quero escrever-me numa história de humor. e mesmo que ninguém ria por não me achar ridículo. quero que saibam. que em cada palavra escrita há uma falha que invento em mim. não é por mal. mas preciso de ser ridículo para escrever – estamos numa quadra especial. temos que ser solidários com quem não é ridículo. por isso por momentos deixei de ser ridículo e nada melhor que terminar com um poema de natal – não gosto de passar por esta quadra sem deixar um apontamento de luz

 

 

a revolta das vacas 

dez vacas entraram num supermercado 


[perto de si] 


ameaçaram o leiteiro 

destruíram as bolas de queijo

e

e torturaram os ovos kinder 

de seguida colocaram-se em fuga 

num carro a alta velocidade 


[testemunhas. sérias. afirmam ter visto um pacote de leite magro ao volante de uma carrinha mimosa]

 

só escapou a margarina  e os pais natal de chocolate

 

[estavam no frigorífico protegidos por uma camada de frio]

 

 

e assim terminou a minha história. stop. os chinelos ainda não apareceram. stop. mas se aparecerem. stop. que seja perto de mim. stop. não estou para grandes viagens. stop. saudações ridículas. stop

 

08/12/2025

a morte não é fim. é só o que resta de nós

 





nota de autor

este texto nasceu do silêncio. escrevi-o para aprender a despedir-me de mim e para agradecer aos que me deram forma – não é um funeral: é uma devolução. um regresso ao princípio. um gesto de amor pelo que fica

 

naquele momento todos os corpos estavam hirtos. todos menos eu e o padre – eu já só era corpo-silêncio. deitado com o que restava de mim – o padre de joelhos. em vénia. naquele friozinho divino rezava ao sagrado. enquanto as mãos se entrelaçavam em orações de salvação – hoje é o dia em que me despeço da vida. quer dizer. para os que me rodeiam já me despedi. mas não sabem que ainda estou naquele limbo. o escuro e as sombras – as mãos emparelhadas ao centro de mim ajustam o fato ao correr do corpo – camisa branca engomada presa ao nó de gravata que me sufoca. sapato negro. e um terço a contar os rosários da vida – e eu a ver os santos pendurados nos pedestais – tantos e todos a olhar para o céu – a igreja que me recebe como último adeus está cansada destas despedidas. todos os humanos se despedem. não importa o que foram ou o que fizeram. tudo vale o mesmo — até o que fingimos esquecer – e aqui fico a olhar o teto numa subtileza que os olhos não temem – e eu ali. refletido naqueles que me velam. entre o altar e o que já não sou. a olhar para cristo – e a dizer baixinho: tem uma coroa igual à minha – e os santos a murmurar entre dentes – os bancos corridos de sicupira percorrem a igreja em dois lados. cansados de tanto corpo que não regressou – a meio o corredor preso a uma carpete vermelha foge da porta em direção ao sacrário. entra no conopeu. e enfrenta o corpo do senhor numa hóstia alumiada por duas velas sem dúvidas quanto ao que ali existe – só não sei se os santos olham para algum defunto – talvez escolham uns e não outros por capricho. ou pelas esmolas – não creio que se interessem muito pelo que fizemos em vida. ou então pelo que tentamos alcançar – as velas ardem para nos anunciar o inferno. em cada chama um pecado a gritar salvação. e um santo a olhar de soslaio – está meia casa. não tenho muitos admiradores. nem muitos amigos. mas os que aqui estão deram-me imenso trabalho. por isso sinto-me confortável. aceito a meia igreja como se fosse uma multidão – não sei tudo o que deixei para trás. mas sei que estou aqui. e sei que a morte é um momento roubado à vida. enquanto o manustérgio e galheteiros correm para o altar nas mãos do sacristão – é preciso despachar o defunto – só cristo se mantinha impávido. braços abertos. pregados a uma cruz que bem podia ser a minha – afinal somos cúmplices um do outro desde a catequese – enquanto ele se demorava nos seus mistérios. eu saí à minha procura – agora sempre que olho para ele fico sem saber o que lhe dizer – talvez me esteja a tentar perguntar: está aqui a fazer o quê? sempre o conheci naquela posição. imaginava que estava assim para poder abraçar. mas não – nasceu assim. e mesmo que quisesse fechar os braços não seria capaz – é a forma de se equilibrar nos humanos. suspenso num arame que ninguém vê – eu também não podia mudar – a estola avança primeiro que o padre. mãos em prece e o cíngulo sem saber se anda para a frente ou para trás – o missal marca a abertura para o fim – fez-se um silêncio de morte – o padre virado de costas para cristo. remoía baixinho o silêncio – não sei se por mim ou se pelos santos olharem para o céu – não sei há quanto tempo estou aqui. sei apenas que ainda sou este vento fininho preso a mim – já não consigo ver nada do caminho percorrido – só tenho a porta como destino – mas que importa o que está para trás. se não lhe posso tocar – a missa de corpo presente prossegue como se houvesse muito para contar – as palavras são o que são – mas algumas ainda me incomodam – obrigam-me a cerrar os olhos – ninguém ouve nada num sermão de despedida – os santos não lhe ligam. não tiram os olhos do além. mas também não posso estranhar. sempre foram assim. pelo menos comigo – nem são judas tadeu. o santo das causas impossíveis. me deu ouvidos – a sineta do altar estremece o silêncio – o corpo de cristo é levado às alturas – e eu à procura de uma esmola para a volta do sacristão – a putrefação é o meu último aroma – o que sei é que não estou só nesta despedida – leva-me o silêncio – mas não posso falar do que me sustém antes de falar de mim – eu sou a família. e todos são apenas um – foi nela que procurei um lugar para chegar – foi com ela que fiz da terra estrada. da voz rugido. e das mãos orações para eu escutar – foi por ela que me inventei para que o amanhã chegasse mais cedo – para que vivessem sem medo – fiz de mim uma autoestrada. e se nunca fui abençoado. foi porque nunca cheguei ao destino – a família sempre foi o lugar onde a minha vida assentou. e carreguei-a comigo com toda a minha honra e dignidade – e agora. que estou nesta antecâmara do que fui e do que possa vir a ser. sei que. mesmo quando me perdi. permaneci inteiro – e tudo o que me deram é o que sou – fiz de mim procura. e se nada me encontrou. foi porque a chegada nunca foi o meu lugar – antes de seguir para o silêncio do meu pai. tenho de falar da minha mãe – foi ela que me trouxe ao mundo. foi ela que fez dos seus dias o gesto de esperar por mim – e quando o grito chegou. eu fiquei para sempre perfume seu – é este perfume agora que sufoca a putrefação – e nos dias em que me tornei passageiro do desacerto. com o corpo esquecido da razão. foi a memória primeira. o sopro inicial. que me levou de encontro à voz que havia dentro de mim – afinal era a tua – porque para uma mãe um filho não cresce. somos sempre o seu segredo. e no abraço o gesto mais puro de todo o universo – um homem só encontra o peso inteiro do seu nome quando o céu se faz órfão – a minha mãe viveu até aos noventa e quatro anos – tive tempo para lhe mostrar que. a memória do dia em que me deu um nome. ainda hoje respira no que sou – onde nós estamos agora – porque ela estará sempre onde eu estiver – não importa se estou morto ou não. ela vive em mim – ela é a força que nos ligou em volta de uma missão – mesmo na ausência. sou-te assim – tanto de nós a caber no silêncio. e logo que a porta se feche quero os braços da minha mãe – porque no fim somos sempre o que deixamos – fui-lhe abrigo. fui-lhe filho. e trouxe-lhe a minha família para que soubesse que tudo o que sou lhe pertence – a minha vida inteira – e agora. nesta imobilidade temporal. procuro apenas o gesto que me liga à vida – maria joão. os teus lábios continuam pousados na memória de mim – e nesta alma sem corpo és ainda a casa onde me abandono – és a claridade que guardo. a imagem que dói por saber que nunca mais adormecerei nos teus cabelos – os momentos eternos vivem num beijo que nos abraçou uma vida inteira – tu és o meu lar – uma cama de palavras e viagens onde a maré sempre nos encontrou – sempre que te procurei. encontrei onde repousar – sempre que te abracei. fiz-me um barco sem velas – foste o círculo de fogo que me segurou até ao fim – em cada grito um avanço. em cada ferida uma cura – e para cada história um recomeço para o fim – e se o vento me obrigar a pedir perdão. eu o farei – à família que me ergueu. ao pai que me deu as voltas que ainda carrego. à mãe que me trouxe ao mundo e me guardou até ao fim. à mulher que me soube. e aos filhos que me continuam – e eu ali. a ver tudo de baixo para cima. o padre às voltas ao que fui. atira incenso como quem atira pedras – e os fantasmas perfilados pelas paredes. pendurados em crucifixos tão nus como eu – e tudo à minha volta é um pedido para partir do frio que me guarda – o nó da gravata. as mãos do meu pai a dar as voltas da vida – nunca saí deste nó. foi a mão dele que me segurou sempre que voava para a minha própria finitude – agora sei que vou embora. vou largar as amarras – a noite segura-me por dentro. como se quisesse ficar comigo mais um instante – e o silêncio do meu pai voltará a mostrar-me o mundo dele. e eu voltarei a saber que sou mesmo seu filho. e do longe faremos palavras – e em cada oração o sujeito seremos nós – agora vou para onde fores. caminharei contigo até ao novo fim – e dir-te-ei no caminho o que sou. irás ficar surpreendido por eu ser tanto de ti – e mesmo que me digas que nada importa. eu te direi que gosto de ti assim como és – e mesmo que o nó se desate de vez. hoje sei que o anjo que inventei para me guardar eras afinal tu – o segundo chega sempre antes do minuto. sempre chegou. mas só agora entendo que é no segundo. e não no minuto. que a vida decide tudo – já nada me resta de tempo – aqui nesta prisão terrena fica o melhor de mim em liberdade – e eu. voarei até ao silêncio. e quando nada em mim restar do que fez dor. daremos as mãos. e juntar-nos-emos à mamã – todos sabemos que a vida é uma correria – ontem era eu. e agora já não sei quem sou. nem sei para onde vou – não sei se estou triste ou feliz. sei apenas que estou em descanso – a vida é uma trabalheira – a consciência nunca nos é explicada. ocupa-nos a liberdade. e com o tempo percebemos que somos quase apenas consciência – e sem fórmula matemática podemos dizer que a consciência é só vida compilada em tempo – a consciência é a lanterna que nos ilumina o caminho. às vezes é a palavra que não se ouve. ou a mão que nos impede de cair – agora o que sei é que estarei morto assim que a porta do sacrário se feche – o cálice da vida arrumado ao escuro. e o corpo de cristo à porta a chamar pelo meu nome – sentirei pela última vez um friozinho a dizer baixinho: olha para mim: está na hora da salvação – à porta anjos e querubins afinam aleluias em trombetas que repetem sempre o mesmo refrão: os desígnios de deus são insondáveis – e quando a minha noite eterna chegar serei um vagabundo do universo – todos os sonhos serão terra. as dores barco à deriva. e a raiva que me consumiu será fogo que se apaga para sempre – e no céu não serei nada. nem pó. porque a pó só vão os bem-aventurados – mas se o vento me obrigar a ajoelhar. eu ajoelharei. porque tudo o que levo é abril. e nos vossos beijos o perfume de ser só o que me deram – vivi para fazer o certo no momento certo. e sempre que falhei foi por ser apenas um de vós – este é o meu fim – no bolso à esquerda. por cima do coração. a foto da minha companheira – continuarei a seu lado para sempre – nas mãos. as dos meus filhos – seguirei de mãos dadas até ao reencontro – no lado direito a família. os amigos que se tornaram família. toda a que couber no seu interior – e o porta-estandarte são as mãos dos meus pais – e agora. deixo-me ir – a porta tomará o seu lugar em definitivo – o fogo curar-me-á de todos os desassossegos – e na boca. a última oração: não me salvem. se não levar a memória dos afetos

05/12/2025

a geometria do meio






nota de autor

escrita do meu meio corpo – o lado que sangra procura o lado que escuta. e juntos respiram até serem um só

 

um dia destes. quando o sol nascer do outro lado do meu meio corpo. estarei de costas para este meio dia que enxergo – há um descompasso de meio dia no meu meio corpo: meio coração. meio batimento. meio litro de sangue. meia lata de lágrimas guardadas para um aperto afetivo. um pé de meia de quem entende que a vida é feita de meias verdades – talvez seja um eixo desalinhado. rotação – meio. meio dia. e uma multidão assustada parte do meio dia que carrego para outro meio que não sei nomear – ouço bach. só a música devolve a vida inteira ao meu meio corpo – e eu. sem saber a qual meio dia darei a alma inteira – escrevo até descobrir