21/01/2018

eu e: a minha circunferência


pintura - gaetano cresseri



9.    eu e a minha circunferência

quase tudo por dizer e eu perdido entre um quarto quase quadrado e o instante nove – perdido ou não. será neste quarto quase quadrado que continuarei a procurar a essência das coisas em mim – busco o autoconhecimento e procuro em todas as coisas o que elas realmente são – reflito com cuidado. aceito-me com incertezas e afirmo-me como um ser que é como é porque a verdade não me deixa ser outra coisa para além do que sou – penso. sou único e indivisível mesmo quando a minha consciência se divide entre a verdade das coisas em mim e a verdade das coisas fora de mim – sou uma existência metafísica e procuro explicações em toda a humanidade e. com lucidez. brio e bondade. talvez aprenda a compreender a minha verdade mesmo que não seja absoluta – é com esta carência estrutural que me busco incansavelmente porque tudo o que sou está dentro de mim; procuro-me para além do que sinto. procuro-me porque tudo o que sinto não sei se é verdade – e assim digo. como ser racional: sempre acreditei que para que a verdade fosse realmente verdade bastasse sentir. já que tudo o que sinto parte de dentro de mim e eu não posso ser mentira – mas não. não chega. o que sinto nunca chega para que a [minha] verdade se torne suprema. logo. inalterável no tempo e em mim porque todo o tempo é absoluto e uniforme – juro que não quero ser mais nada do que sinto. tudo que procuro em mim é a verdade em todas as coisas assente no padrão da minha universalidade – procuro. procuro a verdade em tudo que sinto porque a quero como a única verdade dentro de mim e fora de mim mas confesso. temo não a encontrar. a vida nem sempre tem método e coerência. se tivesse. não sentiria o que sinto – sei que é na partilha do que sinto que a minha verdade colide com a verdade do que os outros sentem. mas não posso calar. não posso ignorar o apelo da minha verdade para se tornar universal. só com esta verdade serei eu dentro ou fora de mim – às vezes excluo-me. recuso-me a fazer parte das iniquidades. cego-me. escondo-me em mim com tudo que sinto e desapareço sem tempo para voltar. mas em momentos mais nobres. atiro-me para o coração do mundo e faço justiça com as palavras. magoo-me e sangro a raiva de tudo que não quero sentir – nunca sei se o que sinto é a verdade eterna ou apenas a verdade no momento – talvez não exista a verdade absoluta como também não existe meia verdade. talvez tudo não passe de um embuste do criador para me convencer de que só como ser divino atingirei a plenitude da vida e é obra dele tudo o que sinto e também o que não quero sentir – seria apenas uma criatura de deus. um ser vivente criado a partir do pó da terra e do barro. missionário da fé e da sua glória. destino apalavrado no dia em que os meus pais. por via do batismo. me fizeram seu servo e vassalo de todos os seus humores – terei então em todas as coisas deus. tudo o que sinto. dentro e fora de mim. é unicamente o que ele quer que eu sinta e mais nada poderei sentir ou deixar de sentir sem a sua permissão – estou impregnado com a fé de deus. nascido para a virtude. adverso ao erro. em busca do aperfeiçoamento. do meu e dos outros. amante de todas as criações do mundo. da água. da terra. do ar. do fogo e o inferno é o que sinto sem saber o porquê de deus me entregar em vida às labaredas de satanás – e sem dar conta. em busca da minha verdade absoluta. reapareci como homem de deus. eu que estava zangado com o criador desde a morte de meu pai – onde estavas nesse dia? nunca me deste uma palavra. pregaste-me uma cruz na memória – nunca fiz nada na vida para te desiludir. procurei-te na verdade porque me ensinaste que só na verdade um homem encontra o caminho da luz – qual luz? qual caminho? a única coisa que me trouxeste fui a dúvida e a minha desumanização. renunciei-te para sobreviver – envelheci. tornei-me mais do meu mundo e menos do teu. abandonei a imortalidade e estou-me nas tintas para o paraíso. habituei-me ao inferno. iluminei-me na dor. na misericórdia. e todo o mal será perdoado com sete palmos de terra – todo o homem é ingénuo e pateta porque todo o homem com ou sem deus é pateta em algum momento da vida – não sei se sou muito ou pouco pateta sei apenas que neste momento me sinto enganado. purificaram-me com água benta estragada. não tinha a bênção de deus nem o seu caminho. continuo à procura de uma verdade que não encontro em lado nenhum. nem em deus – raio de teimosia. bem sei que errar é humano. mas só os idiotas é que persistem no erro. não se pode alterar o que nasce no corpo por ordem do sagrado – só com a morte saberei realmente com que verdade vivi a vida. talvez a tenha vivido em erro. mas ainda não morri. ainda me procuro. ainda procuro a verdade suprema porque já não tenho mais nada para procurar para além de saber o que realmente sou e porque sou – sei que um dia a minha verdade será feita apenas do que fui porque o futuro já nada alterará – nesse momento nenhuma idiotice fará mais sentido. a verdade será aquela que cada um quiser lembrar. eu estarei morto. serei apenas um ser humano frio e parado no destino – enquanto for lembrado serei sempre uma verdade em vós e em cada um de vós. estarei vivo – com a minha morte morrerá para sempre a minha verdade. a que vive dentro de mim – e assim me procuro em desespero. procuro o que está certo. mais nada do que certo. porque tudo que está certo nunca poderá ser mentira e um homem certo é um homem de verdade e essa verdade em si será também verdade nos outros – não há duas verdades quando há apenas um homem em si e fora de si – só a verdade será capaz de responder com conhecimento. mas não interessa. sou o que sou quando o que sinto deveria ser outra coisa qualquer – afinal aonde fica a verdade? sou o que sou pelo o que sinto. pelo que não sinto ou quando enfrento o que sou. por sentir que sou outra coisa – sou afinal o quê? não sei. palavra de honra que não sei e talvez por isso me procuro em tudo que sinto fora e dentro de mim e tudo que sinto me faz sentir o que não quero sentir – às vezes acredito que a verdade suprema só existe no que escrevo pois escrevo apenas o que sinto. mas também aqui tenho dúvidas. quando leio de frente para trás já não sinto nada do que senti e fico sem saber se a verdade está no que escrevo ou no que leio – a verdade absoluta é uma ilusão e a sua procura o primeiro sintoma de uma maldição divina ou interestelar. sou apenas um instante pequeno na dúvida do universo – a vida acontece porque ocorre uma explosão. uma dúzia de átomos colidem uns com os outros e o tempo fez o resto. o homem aparece – sou o desacerto dessa explosão. os elementos químicos baralharam-se na explosão e aqui estou à procura da verdade na essência das coisas. as que estão dentro de mim e também as que estão fora de mim – sou uma verdade dentro de uma outra verdade do mundo. um tropeção na sua perfeição – estou arrasado e com medo. sei que o meu tempo não é infinito porque a morte acontece no corpo e quando um corpo morre leva consigo toda a verdade – não sei se sou único dentro de mim. talvez sejamos dois. três ou quem sabe mais. mas se o corpo os aceita e se todos procuram o mesmo. então tudo que sai de mim só pode ser verdade – sou então o quê? e em que percentagem? e onde encontrarei um juiz para decidir o que há de bom e de mau. o que fiz bem e o que fiz errado. o que amei e o que não amei. o que sinto de verdade e o que sinto que não é verdade. porque seja lá o que for. uma coisa sei. eu sinto – não sei se o que sinto me faz totalmente verdadeiro porque não sei se é totalmente verdade. o que posso garantir é que sinto o meu corpo no mundo e a cabeça prisioneira do que sinto – e se não encontrar salomão serão os que não compreendem o que sinto que me julgarão? por mais sábio que seja o mundo nunca me saberá julgar pois sou uma milésima parte desse universo que corresponde a um homem e um homem não vale por todo o mundo. mas tem um mundo dentro de si – também não quero ser julgado pelos que me aceitam pois apenas conhecem de mim o que compreendem e eu sou muito mais – procuro-me cada vez com menos argumentos para dizer que não encontro a verdade do que sinto. o mundo afinal é mais do que uma verdade. é muito mais do que sinto – talvez o problema seja meu. talvez eu não saiba compreender o mundo para além do que sinto. não importa. já não importa o que o mundo faz comigo. o que importa mesmo é o que faço com o que o mundo me faz – faço muito pouco. só faço o que sinto e neste momento já não sinto quase nada – sei que penso e volto a pensar mas quando saio para fora do meu quarto o mundo que pensei não existe e quando me encontro descubro que também não existo porque nada do que pensei existe e no quarto quase quadrado todas as dúvidas sobre a existência acabam mortas na incerteza do que sinto – sou a minha verdade e a verdade do mundo e nunca poderei ser outra coisa. e a ela terei que me habituar porque o meu quarto é uma ilha cercada do mundo onde vivo – sinto que quando escrevo esqueço o mundo. encho-me de silêncio. entrego-me ao mistério e parto desferrado para dentro de mim numa interminável agonia. rasgo-me e aguilhoo-me por não saber escrever o que sinto – quando escrevo procuro-me unicamente no que sinto porque a verdade não existe em mais lado nenhum a não ser no que se sente – mato-me de tempo e persistência – mas quando paro de escrever reapareço e tudo o que sinto deixa de ter valor porque o mundo não sente um homem. o homem é que sente o mundo – é janeiro. e sempre que o janeiro existe sou lembrança e todas as coisas deixam de ser coisas e todas as gaivotas se apagam no castanho triste dos olhos – mas quando paro de escrever sou outra vez dezembro porque é no dezembro que sinto o que não sinto em mais mês nenhum – em dezembro aqueles que amo estão-me pregados às mãos e não sinto mais nada que não seja o sentir do que sentem por mim – mas aqui. neste quarto feito de mim. rodeado de paredes que por serem feitas de silêncio aprenderam a ouvir-me em tudo que sinto e não sei escrever – neste quarto quase quadrado vivo uma quadratura em circunferência apertada com tudo o que sinto e me faz ser o que sou: sou a minha família. sou os meus amigos. sou os meus leitores e sou todas as páginas que escrevi – tudo o resto para vos falar o que sinto não sei se é verdade ou permanece vivo – aquilo que não amei e não escrevi não sei se existe  



04/01/2018

eu e: as mulheres do meu cunhado


foto de autor


1.   eu e as mulheres do meu cunhado

 

atrás de mim. em guarda. dois A4 emoldurados numa geometria escangalhada –  o lápis do meu cunhado amantizou-me com dois protótipos de mulheres surreais. estranhas nas formas. indefinidas na beleza – consigo apreender que uma está nua e outra vestida. uma está de costas numa janela escancarada enquanto a outra se encontra rodeada de livros – em simetria apenas um olho negro. e o cabelo ondulado – pouca coisa para duas mulheres que ocupam totalmente a minha parede norte – só ainda não compreendi porque raio é que o meu cunhado lhes pintou um olho de negro. provavelmente para me alertar de que o destino dos meus olhos pode ser o mesmo se não tiver cuidado com a escrita – pensando melhor. talvez seja uma mensagem codificada: desde o dia que levaste a minha irmã que tenho dois murros para te dar – ao certo mesmo confesso que não sei. sei que são coisas do meu cunhado que nem sempre bate certo da cabeça – os artistas são assim.  têm devaneios que ninguém percebe. exótico nos traços e na comunicação estética – o meu cunhado é um grande artista com um bonito coração. sei que as suas mãos nunca seriam capazes de magoar o que quer que fosse – mas atenção. não deixa de ser um cunhado excêntrico nos equilíbrios artísticos. principalmente na comunicação das formas e na sua estética – não é fácil tocar bem vários instrumentos: arquitetura. belas-artes. desenho. escultura. tudo isto num longo caminho de confrontos diários com a estética. beleza e realidade – ultimamente resolveu acrescentar às mãos a palavra escrita e confesso que já me surpreendeu – só tenho pena de que sinta a acentuação como uma extravagância das letras – mas esqueçamos os acentos. coisa menor em comparação com a sua maior imperfeição. maior do que uma volta ao mundo em cento e oitenta dias. a teimosia e a surdez – não escuta nada e teima como ninguém – às vezes a herança de família é um fardo pesado – sei do que falo. não é fácil. mas com o tempo habituámo-nos – mas uma mão não lava a outra e em boa verdade vos digo que se fosse um artista ajuizado nunca me entregaria à guarda dessas duas gajas caóticas – confesso que não me encaixo na mensagem estética destes desenhos – a estética é o estudo que determina o caráter da beleza. a harmonia das formas e o seu colorido. nestas gajas estranhas não há. só o negro sobressai no branco do papel – as mulheres do meu cunhado estão enclausuradas numa esquadria isóscele. desequilibrada nas formas por dentro e por fora – são protegidas a vidro antirreflexo. duro. quase inquebrável. como se fossem importantes. e eu. simples mortal. sem nenhuma arte que me engrandeça. sempre que as olho desconchavo-me. percorro-lhes as feições e não encontro ponta de harmonia. confusão é tudo que enfrento – confesso que fico sem saber se a confusão nasce nos quadros. ou se vive no escritório – neste escritório quase tudo é confusão e transtorno. quase tudo é incómodo. quase tudo é sinónimo de desgraça. quase tudo já foi resgatado ao mundo do além – tudo que por aqui sobrevive está na estante com livros à minha esquerda. pela frente continua a janela para o desconhecido e pela direita as fotos que em desespero me amarram a uma esperança que. mais não é. um fio de luz quase imaginário – se o meu cunhado tivesse desenhado a sua irmã. o escritório tornar-se-ia num espaço iluminado. o caos passaria a arte contemporânea. a desorganização. ordem. a janela absorveria toda a arte do mundo. e o negro rendar-se-ia ao branco – para desenhar a sua irmã o meu cunhado não necessitaria de arte. bastava-lhe papel vegetal. um lápis de crayon fino. um par de olhos delicados. uma mão ágil e um pulso firme para decalcar o belo para um papel virgem de tudo – não tinha que inventar a cor dos olhos. bastava-lhe pintar o céu no seu interior. ou a cor do amor. mesmo daquele que é feito com o corpo. com gemidos e no fim aquele abraço que magoa porque sabemos que não é possível dormir nele para sempre – a sua irmã é bela. é harmonia. é chama para sempre. como para sempre são os pássaros que se erguem no nosso olhar quando descobrimos o amor de uma vida – tudo que vive no céu é eterno como eterno fico eu quando adormeço no seu olhar – mas o meu escritório sempre esteve aberto ao mundo e o mundo do meu cunhado ocupou-me uma parede com duas mulheres sem nome. sem passado e sem futuro para além de continuarem a encher uma das paredes da minha vida – que posso eu fazer com duas mulheres que me perseguem silenciosamente? se estivessem de frente era bem pior. com aquele cabelo ondulado. parado. com curvas e contracurvas. em conflito com as sombras. as sombras da luz que me alumia e as sombras do passado que não me largam – estas mulheres. desenhadas pelo meu cunhado numa noite fodida. nunca tiveram uma única palavra que se ouvisse. são mudas para mim e para o mundo. não têm paixão. nem calor. nem ardor. nem tesão. nem nunca se enrodilharam para um único orgasmo colossal – se o meu cunhado estivesse bem. não tivesse tido um bloqueio de arte nessa noite fodida. teria substituído aqueles cabelos tresloucados pelo cabelo da sua irmã: dourado-ouro. comprido. estendido de luz. de bondade. de tolerância. de paz. de companheirismo. de um beijo que arrasta os lábios para mel e ali ficamos a ver-nos olhos nos olhos. e as horas passam a anos que não sabemos nem queremos contar – ao lado da irmã do meu cunhado eu sou um príncipe encantado e tudo porque me entreguei a um beijo sem tempo – um beijo talhado para meu destino final – gosto de a amar. gosto de a ter dentro de mim – se não tivesse tanto dela dentro de mim não saberia que as estrelas só brilham por amor e que as mãos só abraçam o que lhes cabe dentro da sua palma – se eu não a tivesse tanto dentro de mim. nunca saberia que se pode morrer de uma saudade prematura. uma dor anunciada. inevitável – eu amo uma mulher que não me cabe dentro da palma da mão – também um dia o meu cunhado vai saber que o amor quando é grande não cabe dentro da palma de uma mão – nunca nenhum artista se deu por satisfeito ao tentar recriar o amor como obra de arte. fosse ele música. pintura. escultura ou palavra – o amor é maior do que qualquer obra seja de arte ou não – a tua irmã é assim. maior do que a palavra. maior do que a minha palma da mão. maior do que a minha vida – só temos uma vida. mas uma vida absoluta só permite ter um único grande amor – eu tive o meu – mas o meu cunhado numa noite fodida desenhou a tristeza. coisa só possível pelos grandes artistas – já não basta a que carrego de nascença e ainda me trouxe para casa duas mulheres ilegítimas. feias e tristes – que raio de ideia cunhado. estavas com medo que eu  atravancasse o mundo com uma escrita maluca e as senhoras seriam a distração – enganaste-te. não sou do mundo. sou só da tua irmã – um dia. quando apanhar o meu cunhado de bem com o mundo. vou pedir-lhe para dar cor aos quadros. colorir as senhoras com um lápis verde-primaveril com laivos de azul criança – há cores que nos seguem como sombras – mas o meu cunhado é um artista ainda em segredo como em segredo está a arte que lhe vem dos antepassados – um artista em que o dom provém dos seus antecessores pode juntar as cores como bem entender. até pode misturar ao azul e verde um toque de lilás-compaixão que tudo terminará sempre num branco branco. inocente e puro como as flores que colhe quando amassa o barro com virtude – um artista só existe enquanto for capaz de sonhar – quero para ele muitos sonhos. sorrisos. quero muitos lápis. uma palete de cores deles. barro e papel de todos as gramagens e aparos mergulhados em tinta aqui e na china. e também na américa e também em angola que foi onde o teu pai e o meu sogro deu tropa – quero que essa arte nascida no teu criador cresça agora nas mãos do teu filho para que um dia ele te possa escrever melhor do que eu – quero que as bocas falem por todo o mundo do que fazes e do que ainda vais fazer. quero que acredites nos sonhos com os olhos abertos e que cresçam em bem-aventurança como os pássaros crescem nos olhos quando estão pintados com a cor do céu – quero que lhes digas por ti e por mim que as famílias só existem porque nenhuma obra de arte é mais bonita de que o amor com que a amamos – eu amo a minha e a tua família. a nossa família. amo também os meus amigos porque sem amigos não somos nada. amo os animais. as flores e as palavras e só não me amo a mim porque o que me resta de amor já só chega para preencher os olhos da tua irmã – nada me separará dela. nem a doença. nem o erro. nem a desilusão. nem a vontade de uma maldição que me ata a uma corda que é descanso – e aqui estou eu preso a uma secretária que me levará com as palavras ao fim  – só o que escrevo é eterno – digo apenas o que posso em cada instante de mim


[desejo-te um bom ano]


desenhos assinados em 2000 - 18 anos de companhia


31/12/2017

faleceu 2017. salve 2018


imagem - google


faz hoje um ano que publiquei a minha crónica de despedida do ano 2017 – habituei-me a fazê-lo anualmente num género de balanço emocional – no ano passado a escrita foi marcada pela raiva. estava desiludido. zangado com o destino e sentia o mundo às costas – sempre gostei de metáforas hiperbolizadas – hoje. percebo que não era a pior de todas as raivas. mas apenas a sensação-confirmada de que deus. seja a identidade que for. não vê tudo ou está desatento – este ano. o dito deus. continua ausente. não me liga nenhuma. não me ama como seria pressuposto amar e também não está em todos os lugares como também seria pressuposto estar – na crónica de 2017 lembro-me de me conter nas palavras mais duras. dissimulei-as. mascarei-as com etiqueta. embebedei-as com as bebidas alcoólicas que me ofereceram pela festa do santo natal e de seguida. matei-as como se matam os perus. depois. depois foi só temperá-las com um punhado absurdo de sal em pedra. levá-las ao calor da vida e finalmente empratá-las como se fosse um chefe agraciado com estrelas michelin – foi a forma que encontrei de proteger os meus familiares. amigos e leitores do meu “año horrible” – foi um ano muito mau e como dizem os nossos nuestros hermanos: no creo en brujas. pero que las hay. las hay – passou um ano e as bruxas não me largaram o corpo. são sempre leais a quem amarga e geme. instalaram-se de malas e bagagens e não vejo forma de as despejar – por tudo isto a raiva não desapareceu. não diminuiu e creio até que se intensificou – confesso-vos que me encontro perdido com as palavras. não sei o que fazer para que esta crónica-balanço. uma versão mais esperançosa da anterior. ofereça uma diferença positiva no seu conteúdo – a minha vida está sistematizada pela adversidade. um género de existência em série. padronizada numa luta constante. com picos emocionais sofridos. incontroláveis e intensificados por uma dúvida existencial – salva-me o pé-de-meia emocional. amealhado nos anos dourados. permite-me agora ter um fluxo de energia mental suficiente. sem precisar de recorrer a químicos – tudo o que consumo para me aguentar são palavras. analgésicas potentes que. depois de escritas. aliviam as mágoas aumentando os intervalos das recaídas – mas voltando ao novo ano. o que vos posso garantir [mesmo] que vai mudar é a hora de inverno com a chegada da primavera – não se riam. por favor. nem sempre sabemos ou vemos o óbvio – também vos posso afiançar que em abril. se lá chegar. irei ficar mais velho um ano. certificando de vez a qualidade das minhas dores das costas – tudo o resto que possa dizer em relação às minhas expectativas aviso-vos que pode muito bem ser parte de uma maquiavélica maquinação do professor cuecas com um novo conto do vigário. desta vez numa história de banda desenhada – infelizmente também não mudarei o rating da fé. está no lixo e não creio que suba qualquer nível em 2018. tal e qual como o meu país o meu problema é estrutural. gasto mais tempo a pensar do que a produzir – olho para o 2018 apenas como o calendário olha para mim: tens os dias contados. acabas de consumir mais um dia da tua existência. estás cada vez mais perto de tombar para a eternidade – que sorte – do 2017 quero apenas recordar o casamento do meu filho. fui muito feliz nesse dia. oficializei a nora. sei que não era necessário porque ela já estava no coração. nunca lho disse porque não sei expressar o que sinto por palavras faladas. todos sabem que não me dou bem com a oralidade. mas a minha intuição diz-me que ela já sabia e que o meu filho também o sabia porque os filhos quando se fazem adultos sabem tudo dos pais – antigamente era eu que sabia tudo deles. tudo mudou. envelheci por dentro e por fora. mas amo-os incondicionalmente – com a idade aprendemos a amar apenas com o coração. não precisámos de ver. tocar ou ouvir. amamos porque sabemos que estão em nós. para além de todos os dogmas. eles são a única razão para o mundo existir e brilhar – o ano de 2017 foi o ano das noras. o meu filho mais novo apresentou-me a mais que provável futura companheira. bonita. simpática. independente. comunicativa e determinada. como eu gosto. espero que se saibam guardar-se no coração com lealdade. sem ela. a vida não presta – por último. o meu filho do meio anunciou um novo relacionamento. e finalmente. reencontrou a determinação para terminar o seu curso superior – como sempre. estarei inteiramente a seu lado. aguardo por esse dia desde que à escola. já dobramos tantos cabos das tormentas. não há dia nenhum que não torça por ele e. já agora. que deixe de fumar. não por mim. mas pela sua saúde – só quando os filhos atingem os seus objetivos. nós sentimos que atingimos os nossos – e é desta forma que aguardo o falecimento de 2017 agradecendo-lhe unicamente não ter levado ninguém que morasse no meu peito – tenho como certo que os amigos continuarão a usufruir do meu batimento afetivo em 2018 – no que diz respeito à família tudo continua firme e rijo. a minha mãe de noventa e três anos dá o exemplo prometendo estar por cá para 2019. a lurdes. minha segunda mãe. quase nos oitenta anos continua a teimar. o que vai ser de nós sem ela. devo tanto a esta mulher – da família da minha mulher faço figas para que o meu sogro continue a lutar por todas as recordações. orgulho-me de fazer parte dessa vida guardada e quero continuar vivo no seu olhar até 2019 – por fim. o que não muda há trinta e quatro anos é a companhia da minha mulher. sempre avançámos juntos e destemidos sobre os novos anos – assim será hoje. não há forma de os anos nos cansarem – brindaremos mais uma vez como crianças. trocaremos um beijo que nunca é igual e renovaremos os nossos votos de que estaremos unidos até que a eternidade nos separe – amo-a mais por cada ano que passa – é ela que inventa o sol que me ajuda a sorrir – obrigado também a todos aqueles que gastam o seu tempo a ler as minhas divagações. vocês são fantásticos. sem o vosso companheirismo nada disto faria sentido – espero-vos em 2018 – grato como sempre – feliz ano novo



23/12/2017

eu e: a oferenda aos meus dois amigos


pintura - álvaro cunhal 



7.    a oferenda aos meus dois amigos

estes dois pequenos excertos literários do escritor húngaro sándor márai - as velas ardem até ao fim. são uma oferenda aos meus amigos tiago e josé antunes. um género de final revisitado para as duas crónicas anteriores – o livro. um romance intenso. dedicado a uma amizade entre dois homens. amigos de infância inseparáveis. que se encontram novamente passados quarenta anos – uma reflexão penetrante e pessoal sobre a amizade que sándor márai disseca com amor. afabilidade. nostalgia. tristeza e perdão – o autor. na derradeira fase do envelhecimento. compreendeu que só relativizando os sentimentos poderia encontrar o perdão em si – sándor márai ensina-nos a encarar a verdade mesmo quando ela se apresenta difícil. complicada e desagradável. sabendo que ainda assim será sempre menos arrasadora do que a mentira – recuperar o passado para o questionar é uma missão penosa. sobretudo quando se trata de reencontrar um amigo de infância – neste romance o autor trouxe a verdade às palavras. a tolerância aos diálogos. o amor à compreensão e o perdão ao coração

“O que é que se pode perguntar das pessoas com palavras? O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?... Vale pouco (...) São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas. Talvez seja esse o fenómeno mais raro da vida. Na altura, ainda não o sabia. Agora não me refiro aos mentirosos, aos safados. Só penso que conhecer a verdade, adquirir experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter. Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o carácter pessoal. É a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não seríamos mais sábios, nem mais protegidos...”

nunca é tarde para trazer os amigos para emergência dos dias que ainda restam viver – nunca é tarde para resgatar uma amizade da mágoa e do esquecimento – a solidão. o silêncio e o envelhecimento dissipam de vez as multidões. o barulho e a escassez de tempo – com a aproximação do fim do corpo aprendemos o valor das coisas simples. o valor da ausência. da saudade. do perdão e da aceitação do desacerto – somos todos um pouco responsáveis pelo pecado e pelo erro dos nossos desencontros

 “ … Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso é também velhice. Quando já se sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com a exatidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice. Porém, há ainda algo vivo no teu coração, uma recordação, algum objetivo da vida indefinido, gostarias de tornar a ver alguém, gostarias de dizer ou saber alguma coisa, e sabes que um dia chegará esse momento e então, de repente, já não será tão fatalmente importante saber e responder à verdade, como pensaste durante as décadas de espera. Uma pessoa compreende o mundo, pouco a pouco, e depois morre. Compreende os fenómenos e a razão das ações humanas. A linguagem simbólica do inconsciente… porque as pessoas comunicam os seus pensamentos por símbolos, já reparaste?...” 

o carácter de um homem é inalterável. não envelhece. não se perde –  tenho a certeza de que os meus amigos continuam jovens no seu carácter – um dia chegará o meu momento para resgatar todos os meus amigos silenciosos – escreveremos então [todos] um novo tratado de amizade – renovado. reconciliado e definitivo 


19/12/2017

eu e: o zé do gerês


pintura - osvaldo lima


6.    eu e o zé do gerês 

o zé antunes. com mais quatro anos do que eu. era um dos primogénitos da praça do comércio – entre amigos. entre rapazes. quatro anos de diferença são uma enormidade de tempo. um é homem-feito. adulto. namoradeiro. com a personalidade formada e interesses perfeitamente definidos. enquanto o outro ainda teima em sair da adolescência. inseguro. à procura do seu caminho. intranquilo com o futuro. com a personalidade a oscilar entre o regresso ao protecionismo familiar ou a emancipação irrevogável – a adolescência é uma aurora dolorosa – batizámo-lo de zé do gerês porque as suas origens remontavam à vila do gerês-rio caldo. uma aldeia turística. integrada no parque nacional da peneda-gerês. no norte de portugal – o zé veio com a sua mãe e irmã viver para a nossa rua – compraram um apartamento numa das laterais da praça do comércio e instalaram-se com a discrição de quem chega duma aldeia do interior – uma família da classe média. discreta. reservada. simpática. educada e muito religiosa – a mãe do meu amigo. além das visitas regulares à igreja. raramente se aventurava para a rua – este recolhimento obrigava o zé a alguns cuidados. ele não gostava de deixar a mãe sozinha e sempre que a irmã saía recolhia-se em casa – o pai emigrara para o brasil quando o nosso país ainda vivia debaixo da ditadura salazarista – éramos uma nação pobre. com uma repressão interna violentíssima. triste. sem futuro. a viver uma guerra colonial para onde os jovens eram obrigados a combater e morrer – um país fechado ao mundo exterior. sem qualquer perspetiva de melhoras políticas e económicas a curto prazo – a geração dos nossos pais foi obrigada a deixar tudo para trás e a partir pelo mundo em busca de uma vida melhor para os seus – as famílias ficavam suspensas entre a saudade e a dor da separação – estas separações não eram fáceis nem para os que partiam nem para os que ficavam – o governo brasileiro na década de sessenta prometia melhores condições de vida para quem tivesse coragem de atravessar o atlântico – naquele tempo a distância era do tamanho de um oceano inteirinho. não havia voos comerciais a toda a hora. a internet não passava de ficção e as ligações telefónicas para além de serem caríssimas eram dificílimas – era o tempo da carta. do telex. do telegrama. do rádio e da saudade silenciosa – o zé tornou-se adulto muito cedo. era o homem da casa e talvez por isso evitasse falar do seu pai. nós sabíamos que sofria. uma saudade escondida num emudecimento conformado – todos os seus amigos respeitavam esse seu silêncio magoado – nunca saberemos até que ponto este condicionamento familiar alterou a personalidade do meu amigo – mas nem tudo era mau para o zé antunes. fruto do sacrifício do seu pai a sua família era marcada por uma qualidade de vida elevada. em especial o zé. usufruía de um poder financeiro invejável e raro para a época – ao zé antunes nada lhe faltava. vestia bem e caro. fumava cigarros com filtro e encantava com charme num estilo muito pessoal – acredito que o meu amigo foi o primeiro homem metrossexual da nossa cidade – era um homem moderno. gostava de cuidar da sua higiene e principalmente do seu visual – com um pouco mais de um metro e setenta. magro. bonito. cabelo curto. espesso. e orelhas tão pequeninas que nunca percebi como conseguia ouvir – uma pele branca cuidada com cremes perfumados deixava emergir dois olhos vaidosos. negros. abertos à claridade. doces. encaixados numa boca pequena. educada. carregada de palavras difíceis e histórias de maravilhar – o zé era um excecional contador de histórias. como era bom ouvi-lo – sem barba. apenas alguns pelos rijos rompiam do queixo numa fúria selvagem – no entanto. numa postura séria e orgulhosa. fazia questão de dizer que os cortava com a última novidade do mercado para barbas difíceis: a gillette cup – o zé não andava. desfilava pelas ruas como se estivesse num desfile de moda. olhos no ar. meio sorriso. quase importante. aprumado pela roupa. impecável. com gosto. num ar desportivo: blazer pela mão. pulôver com decote em bico com os colarinhos da camisa presos no seu interior. calça de ganga justa. sapato de pala. meia à cor da calça. cheiroso numa leveza subtil. mas suficientemente eficaz para se sentir a fragrância num raio de dez metros – era assim que o meu amigo habitava o no nosso mundo – eu tinha vaidade no zé. gostava de o ver bonito. quanto mais bonito ele estivesse. mais bonito ficava eu ao seu pé – sempre tive orgulho no meu amigo – a acumular com todas estas deferências positivas o meu amigo era um comunicador de excelência. aliado duma retórica eloquente. com variadíssimos recursos de argumentação apoiado em procedimentos enfáticos e aparatosos capazes de convencer qualquer pessoa sobre qualquer coisa – na sua retórica. se necessário. o zé colocava o estilo acima do conteúdo e a convicção acima da verdade – era um mestre da oratória – esta lábia era também aplicada aos encantamentos do mundo feminino. o que levava a que o nosso amigo andasse sempre muito bem acompanhado – quase me arriscaria a jurar que o zé era constantemente alvo das atenções femininas – no seu caso. este assédio não era indesejado. o zé gostava de passear as amigas pelo casco velho da cidade. gostava de ostentar a sua virilidade – o zé do gerês era um rapaz muito vaidoso. sabia tudo sobre moda e fazia questão de a seguir com afinco trajando-a com brio e satisfação – vestia-se na pic pic. a loja de roupa da cidade mais procurada pela nata da sociedade bracarense – frequentava esta loja apenas os poderosos e ricos dos negócios. ilustres jogadores da bola e outros que não tendo nenhum título ou profissão aparente faziam também questão de se misturarem com o jet set bracarense – o zé antunes nunca saia de casa com as cores descombinadas. na época não havia nada que não combinasse com a sua figura. as cores da roupa misturavam-se umas com outras. mas no final tudo batia com elegância. com graça. com etiqueta. por onde passava tudo se arrastava para dentro de si com graciosidade. como se houvesse um feitiço. o zé era um príncipe – gosto de o recordar no café [casa de pasto luso brasileiro]. sentado. de perna alçada. a esticar a meia pela silhueta da perna. com delicadeza. num ritual de afirmação pessoal. como se quisesse dizer: eu estou aqui – tudo à sua volta era um círculo mágico e todas as palavras eram dele. e ouvíamos. e tudo o que dizia era um ensinamento. e mais uma palavra e mais magia e da cartola mais uma surpresa. o zé era encantador. e mais um vocábulo difícil e outro e o círculo aceso de admiração. pasmo. e bate com o cigarro no maço do tabaco. três ou quatro pancadas e o cigarro na boca com uma delicadeza proporcional aos seus encantos de oratória – é este o zé que guardo dentro de mim numa amizade pura. boa. que nunca parou de sorrir. em abraço. forte. calcificada pelo tempo. para sempre. até que a morte nos leve – eu gosto muito do meu amigo – o zé de gerês gostava de saber coisas que mais ninguém sabia. quer dizer. eu não sabia – o zé era um rapaz culto e gostava de mostrar tudo o que sabia aos amigos. também era vaidoso no conhecimento – uma espécie de google daquele tempo. o que não soubéssemos perguntávamos ao zé que logo ele dava um palpite – era um rapaz fantástico. calmo. sempre à procura de uma graça corrosiva. um humor de fino recorte sempre acompanhado de um sarcasmo delicado. com tiradas rápidas. seguidas de pausas que nos deixavam em suspensão. à espera da próxima piada. e aquele ar malicioso a cair-lhe do olhar. a roçar o gozo. o escárnio. mas tudo dito com elevação. com conta. peso e medida. nada e ninguém se ofendia. era um mestre no humor – o zé ao sábado comprava sempre o expresso. trazia-o debaixo do braço com o título virado para fora. tinha vaidade em ler o semanário. gostava de política – naquele tempo só os intelectuais comparavam o semanário – também passei a comprar o expresso. mas nunca cheguei a ser intelectual e nunca aprendi tanto como ele – depois do jantar reuníamo-nos no café da nossa rua e quando este encerrava mudávamo-nos para debaixo do alpendre da praça e ali ficávamos em conversa resistente. até que o sono ou os compromissos nos obrigassem a regressar a casa – com o aproximar da meia noite. o zé tornava-se inquieto e o controle dos ponteiros do relógio era feito ao minuto – antes da primeira badalada da meia-noite. já ele tinha que ter a chave metida na porta de sua casa – e era assim todos os dias. foi assim todos os anos até ao dia em que partiu para coimbra para tirar o curso de direito – senti muito a falta do meu amigo – as noites nunca mais foram iguais. faltavam-me as suas histórias – o zé. para mim. também emigrara. e a distância era muito mais do que um oceano – compensou com a sua licenciatura. nesse dia senti um enorme orgulho e vaidade. o meu amigo era finalmente advogado – aos domingos encontrávamo-nos sempre na sacristia da igreja do carmo. éramos nós que recolhíamos as dádivas dos fiéis durante a eucaristia dominical – o zé recebia as esmolas no corredor direito. eu no esquerdo e o sacristão no corredor central – a missa dominical das onze e trinta agregava praticamente toda a comunidade crente da nossa área residencial – naquela época pertencer à família cristã era a chave mestra para que caíssemos nas boas graças de amigos. vizinhos e até família – a minha mãe enchia-se de orgulho sempre que alguém me elogiava na vocação de servir a deus – tenho que agradecer ao zé esse estado de graça granjeado em minha casa. foi da sua responsabilidade a minha participação na missa dominical – a única família que escolhemos livremente são os amigos. o zé era o meu irmão mais velho. adorava-o. tudo o que desejava era ser como ele – gosto de recordar aquela história que ele contava do judas – o judas era um rapaz mais ou menos da sua idade que depois dos pais emigrarem ficou a morar com a sua avó na sé. zona de braga com alguns problemas de integração social – por detrás das nossas casas havia uma área enorme de campos. onde uma vez por semana se realizava a feira de braga – era ali o nosso ponto de encontro nas férias para os confrontos amistosos [nem sempre] futebolísticos – de acordo com o que meu amigo contava. logo nos primeiros dias da sua chegada a braga. praticamente sem conhecer ninguém. foi para o campo da feira quando avistou um rapaz muito mal vestido. esfarrapado e sujo a um bom par de dezenas de metros – mais tarde veio a saber que este indivíduo tinha a alcunha de judas – o judas conforme o nome diz não era um rapaz dócil. pelo contrário. não frequentava a escola. era arruaceiro. dedicava-se a pequenos furtos e o passatempo preferido dele era a briga – o judas andava sempre munido de uma fisga de elásticos de câmara-de-ar. era com esta arma que executava pequenos assaltos aos miúdos – é aqui que começa verdadeiramente a história. o judas apontou a fisga a um rapazito que jogava a bola num dos campos pelados. e sem perder tempo com a mira. largou os elásticos e catrapus. em cheio na cabeça – enquanto o rapaz agoniava o judas calmante. já com a fisga recarregada. aproximou-se do puto e esvaziou-lhe os bolsos e partiu tão calmamente como tinha chegado – o meu amigo zé. acabado de chegar de uma vila-aldeia do interior nunca tinha visto uma coisa daquelas e pensou: estou perdido. este gajo é um terror. é um franco-atirador. um sniper de elite. estou lixado. vai infernizar a minha vida – se depressa pensou mais depressa fugiu para casa – mais tarde. veio a descobrir que afinal o judas não conseguia acertar sequer num poste a dois metros. tinha um problema de visão e naquele tempo não havia dinheiro para óculos – ríamos sempre com aquela história. principalmente com as expressões de terror que o zé imprimia na narração do evento – o zé adorava contar histórias e eu de as ouvir – o meu amigo era um homem bom. com ética. com carácter. com valores morais. justo com os amigos e com a amizade – o zé foi a pessoa que mais influência teve no meu crescimento. diria mesmo na minha vida – devo-lhe muito do que sou hoje – adorava-o. queria ser como ele. tinha vaidade na sua amizade – foi com o zé que descobri o valor da virtuosidade. da verdade e da justiça – não tenho nenhuma dúvida de que a sua proximidade me permitiu crescer com mais confiança. mais segurança nas relações sociais. com sentimentos mais positivos e mais estabilidade emocional – a nossa amizade fez de mim um homem mais íntegro. mais justo e mais tolerante – ensinou-me a questionar as minhas ações. entende-las. perceber se são boas ou más. corretas ou incorretas. justas ou injustas – só um homem justo sobrevive ao tempo. o zé vive em mim porque me educou com amizade – o zé antunes era o meu ídolo – sempre torci para que a vida fosse justa com ele – a amizade é um contrato para a vida – ainda hoje sou parte dele - posso encerrar o texto? 



07/12/2017

eu e: o tiaguinho


pintura - osvaldo lima


5.  eu e o tiaguinho

o tiago araújo era mais velho do que eu um ano – alto como tudo. magro-elegante. com uns olhos azuis acesos dentro de uma pele tão branca que ofuscava todos os que estivessem à sua volta – o cabelo. ligeiramente escuro. forte e ondulado. tombava serenamente sobre uma testa que nunca se habituou às brigas de miúdos – o tiaguinho era um homem bom. correto. leal. dócil. aprumado na roupa e dotado de uma delicadeza requintada e harmoniosa – o tiaguinho não andava. marchava como um guerreiro em tempo de paz. herdou o passo do pai que era militar de infantaria – era um homenzarrão que caminhava sempre como se o mundo tivesse obrigação de esperar por ele. nunca o vi correr – digo que nunca o vi correr porque mesmo quando se atrevia a jogar futebol. era tão desengonçado que ninguém sabia ao certo se estava a cair ou a tentar levantar-se – em boa verdade não tinha muito jeito para a bola. mas também não era coisa que o preocupasse. tinha sempre lugar na equipa. todos o queriam no seu time pela robustez física – sempre que tentava correr a sua face transfigurava-se numa fúria desgovernada. os adversários. aterrorizados. com medo de levar uma valente canelada. preferiam deixá-lo passar – afinal tudo não passava de uma fúria dócil – o futebol trazia-lhe para o rosto uma excitação enfurecida que em mais nenhum momento poderia ser observada – o tiago era um homem de paz. sereno e tranquilo – todos os homens bons são de paz. são calmos e tranquilos – como era bonito o meu amigo. especialmente quando se trajava de fato. era o único da rapaziada que se vestia como um alto funcionário.  um “self-made man” da época – que classe. se já era um homem alto. com o terno. enfarpelado de cima a baixo. num resplandecente algodão fino. ficava gigante. maior do que a torre eiffel. um verdadeiro monsieur – não havia mãe nenhuma dos meus amigos que não se encantasse com tiaguinho. a minha mãe não fugia à regra e fazia questão de me dizer: põe os olhos no teu amigo. anda sempre asseado. com brio. tu pareces um desgraçado – eu era um desgraçado ao seu pé – educadíssimo e sempre encavalitado num sorriso que. quando virava gargalhada. ecoava pelos confins do mundo como um rugido de leão – quem não se lembra das suas gargalhadas escangalhadas e contagiantes – a seu lado a tristeza esbatia-se paulatinamente. acabando por partir para outros finais – o meu amigo era uma mente humana distinta. culto. evoluído. esclarecido num pensamento aberto ao mundo. dotou-se de uma perceção visionária invulgar: foi o primeiro da nossa geração a possuir um computador zx spectrum – em boa verdade vos digo. ninguém percebia muito bem o uso a dar àqueles monstrinhos – apenas os mais atentos e informados compreenderam que a viagem no tempo se faria com inteligência artificial – o tiago percebeu. foi o primeiro informático da nossa rua e um dos primeiros deste país – era singular – para lá desta novíssima bricolage tecnológica o meu amigo adorava automóveis. sabia tudo sobre motores e pilotos. nada lhe escapava em desportos motorizados com quatro rodas. uma paixão do seu tamanho – sempre que a TV transmitia carros a roncar aí estava o tiaguinho colado à transmissão. ninguém o apanhava na rua – à noite abrigávamo-nos debaixo do coberto da praça e ali ficávamos em cavaqueira amena. a queimar o frio com conversas iluminadas apenas pelo luar. a divagar. extasiados com tanta juventude. a falar de tudo para. muitas vezes. não dizer quase nada naquele tempo o nosso único inimigo era o relógio – adorávamos falar. o truque para uma boa camaradagem é falar. falar de tudo. de futebol. de mulheres. de carros. de ciência. de roupa. de vaidade. de livros e das suas histórias – foi do meu amigo a dica para ler agatha christie – adorei e fiz um parceiro para a vida. o belga hercule poirot – foi um período bonito. descobrimos que. mais do que ler os livros da agatha. era falar deles – assim fizemos. falamos do poirot. do seu enredo. do mistério. de venenos. de facas e pistolas. do expresso do oriente. de criminosos e inocentes. falávamos como se para cada livro pudéssemos inventar um outro final – éramos os dois felizes – riamos muito – sua mãe tinha um quiosque numa das praças mais emblemáticas da nossa cidade. não era uma tabacaria como a de fernando pessoa. era um quiosque numa estética pós-moderna. em inox reluzente. tratado com modernices. envidraçado em trezentos e sessenta graus à volta. com uma guarita de venda protegida por jornais diários e revistas do jet set – no seu interior. em substituição da mãe. o meu amigo comandava o negócio com segurança – à postura profissional. acrescentava um sorriso gracioso enquanto manuseava com delicadeza os valores selados. o tabaco avulso. guloseimas. e ainda outras bugigangas que por serem uma afronta à moral pública. estavam escondidas nas prateleiras subterrâneas do desejo carnal – ali ficava ele. em posse séria. de respeito. como se tivesse aos comandos de um carro de combate. enquanto eu intercalava a conversa com a chegada e partida dos clientes – mais tarde este meu amigo acabou por ser o meu padrinho de casamento – foi um dia muito especial para ambos. pois foi nesta celebração que conheceu o amor da vida dele – nunca me arrependi da escolha. era um homem bem-nascido. bom e honrado – que mais podemos querer para um amigo. mais nada. o tiaguinho tinha tudo – ainda hoje tenho orgulho de ter a sua assinatura como testemunha cristã num dos dias mais importantes da minha vida – éramos jovens. éramos jovens com sonhos. éramos bons rapazes – em memória. por testemunho de outros amigos. um momento que marcou para sempre a sua personalidade afetiva no seio do nosso grupo da praça – certo dia. por perto do natal [creio]. o tiago chega à porta da lusitana. padaria que juntava à venda do pão também algumas guloseimas. e já com a porta fechada. bate ao vidro e pergunta à funcionária: celestina tem bombocas? e ela responde num sorriso exclusivo construído só para si: não tenho não menino. estão esgotadas. só para a semana – a partir desse dia nunca mais deixamos de lhe perguntar pelas bombocas da celestinha que por mero acaso era uma mulheraça com um par de seios maiores que uma dúzia de bombocas – não conheci ninguém que não tivesse um carinho especial pelo nosso tiaguinho era realmente um catraio diferente de todos os outros – tenho saudades do meu amigo. tenho saudades de nós. tenho saudades dos passeios noturnos pela nossa cidade encantada. tenho saudades dos sonhos partilhados. das loucuras. das conversas sobre mulheres. principalmente das que tinham seios enormes e conduziam descapotáveis – tenho saudades de lhe dizer: até amanhã. dorme bem. amanhã será nosso – tenho muitas saudades – a vida escolheu ruas diferentes para a nossa caminhada. mas a distância nunca me apagou nenhum afeto – tempo também é aprendizagem e saber – hoje ainda gosto mais deste meu camarada da juventude – vou gostar para a eternidade numa terna ilusão de que um dia possamos reviver esta vida noutra dimensão. seremos então novamente crianças bondosas e reconstruiremos  definitivamente a estrada que nos separou – um amigo não se esquece. por mais longa e distante que tenha sido a viagem – o tiaguinho pertencia ao império dos homens bons

 


02/12/2017

eu e: a estante dos livros à esquerda


pintura - fabriano rocha



4.    eu e a estante dos livros à esquerda

à minha esquerda. uma estante com dezenas de livros que ainda não li – sempre quis acreditar que a minha velhice seria feita de paz. silêncio. memória. afetos e leitura pacata. construída lentamente com o meu pé-de-meia de livros – livro a livro desocuparia a estante da memória. da paixão. do conhecimento. da gratidão. e o espasmo final consagrado a um dever consumado – finalmente o corpo mirrado de todas as sensações – no quarto ao lado. no vazio da mesinha cabeceira já pouco resta de mim. um perfume dior despojado de fragrâncias. restos de um lápis de grafite com os dentes cravados na sua extremidade. uns óculos com dioptrias ultrapassadas. um creme de corpo sephora de pouco mais de quatro euros. uma aliança preservada por um amor que dói. sem saber exatamente onde dói. e um envelope lacrado e escrito com os seguintes dizeres no exterior: para o dia seguinte – ao centro da mesinha. em diâmetro exato. uma lâmpada protegida por um abajur sombrio em completa harmonia com os deuses da escrita. faz a guarda de honra ao livro que encerrará em si o meu último sopro de vida – ali estou eu preso numa página interrompida. agarrado a um eufemismo idiota que nos tenta impingir a ideia de que os livros são eternos e perduram para além da morte – o livro só é eterno enquanto o leitor vive o – na página interrompida. eu morri – para a eternidade apenas um símbolo de que um dia existiu vida no interior daquelas resmas impressas: um marcador de livro a dizer “keep calm” – claro que estou calmo. estou morto e todos os mortos são calmos. por mais agitação que tenha tido a sua vida – o único que poderá estar nervoso. se estiver vivo.  é o autor do livro que. sem o seu leitor. acabará também por desaparecer – nem todos os autores são imortais. mas todos os leitores o são – só o livro insiste em negar uma morte decretada oficialmente pelo silêncio no seu interior – os dedos não mais voltaram a acariciar o papel – hoje morremos todos. eu. o autor. e o leitor comum – nunca vivi sem livros. a minha primeira recordação com os livros chega-me dos almanaques da disney – aos dez anos apaixonei-me pelos cinco de enid mary blyton – os cinco na torre do farol foi a minha primeira leitura e aquela que me amarrou aos livros para sempre – aos doze anos fiz-me homem com os clássicos da literatura portuguesa: júlio dinis. eça de queiroz. e camilo castelo branco. tornaram-se os meus favoritos – mas foram com os romances do júlio dinis que descubri a bondade. a dignidade. a honra. a ética. a esperança. e o verdadeiro amor – morgadinha dos canaviais. uma família inglesa. e as pupilas do senhor reitor marcaram-me para a vida – júlio dinis moldou o meu crescimento e tornou-se no meu guia literário – o romantismo “ é a arte do sonho e fantasia” – eu cresci num sonho e perdi-me em fantasias – aos dezasseis acrescentei aos livros os amigos que ainda hoje guardo no coração – o bando da praça do comércio – éramos muitos. todos bonitos. todos diferentes. e de todos tenho saudades – em especial do joca. luís vieira. e mais recentemente o sérvio. acredito que partiram para um outro mundo mais perfeito e estão neste momento os três felizes – sempre amei os meus amigos. mesmo quando a vida nos tramou com o crescimento – crescemos todos tanto. e tanto ficou por dizer – nunca deveríamos ter crescido – éramos muito mais divertidos a jogar à bola e à carica – infelizmente não é assim a vida e para morrer em paz é obrigatório crescer – todos crescemos – os meus amigos cresceram mais do que as montanhas. ficaram enormes. gigantes de bondade. alguns com cabelos brancos. mais curvados. com o céu pelas costas. a fazer peso. com as nuvens por baixo dos joelhos. e os braços abertos como se pudessem voar a qualquer momento – sempre soube que os meus amigos um dia iriam voar. os anjos voam. os duendes também voam. e as gaivotas também – os meus amigos são seres sensíveis. delicados. frágeis como o cristal de murano. rodeados de água e marés. com histórias que fazem encantar a memória – tenho saudades dos meus amigos – tudo o que me resta são recordações e é nestas que resisto à inglória velhice – ninguém quer magoar ou perder o que ama – sei que. na vida. o que gostamos de verdade traz medo e insegurança – tenho medo de os perder apenas na saudade – os amigos são deuses que vivem na terra – honro este medo bom – mesmo com medo hoje apetece-me falar de dois amigos muito especiais – confesso-vos que estou aterrorizado. sinto-me gelado por dentro. uma parte de mim desmorona-se para as palavras. e a outra a serrar o que me resta das mãos – tenho medo – tenho medo que um dia não gostem de ver os seus nomes ligados a uma escrita meia tonta – bem sei que a minha escrita é também uma escrita de afetos. amiga. com paixão. com saudade. com um abraço que quase sufoca de tanto sentimento – mas confesso que estou com receio – que me perdoem se um dia não gostarem desta minha partilha. estarei pronto para receber um puxão de orelhas. estarei pronto para pagar a minha ousadia carinhosa – mas não resisto. tenho que vos falar deles. tenho que falar com eles. tenho que os trazer para o meu pé. olhá-los novamente. de mais perto. segredar-lhe como tudo foi especial. como é bom saber que existiram. existiram na esperança. na camaradagem. na fraternidade. na viagem e no silêncio do mundo – sempre os guardei dentro de mim – hoje quero-os comigo neste bocadinho de palavras que são só minhas. quero que me acompanhem como se fosse mais uma das nossas deambulações juvenis. quero-os outra vez inconscientes. malandros. gaiatos. quero-os bonitos como nunca – mas também quero trazê-los para o meu universo crescido e apresentá-los aos meus leitores como os melhores dos melhores. mostrá-los ao “desconhecido espaço global de redes de computadores”. com honra. com estima. com porfia. com admiração. e com gratidão – vou trazer até vós dois amigos muito especiais. amigos do peito que marcaram a minha vida de forma muito particular: *o tiago e o zé antunes – sem eles. envelhecer seria muito mais difícil – a terra existe para que os deuses possam descansar – zé e tiago. espero que um dia encontrem aqui o descanso merecido

*[um dia escreverei sobre um terceiro amigo também muito especial – encerrarei então em definitivo o meu trio de companheiros de uma vida]



29/11/2017

eu e: as fotos à direita


pintura google



3.    eu e as fotos à direita

sento-me em mim. a hora é do corvo. profunda.  desmonto os olhos do presente e percorro os quadros pendurados na parede à minha direita – as fotos confirmam que existo – afinal. não sou um produto de uma qualquer máquina do tempo – sei que existo aqui e neste momento porque estamos todos nas fotos – os que amo não se cansam de me olhar. ou talvez seja apenas a ilusão de um instante preservado no tempo – mas para que não haja dúvidas com as fotos. o melhor será citar decartes: “penso, logo existo” – e ali estou eu em mais uma velharia fotográfica: cara sisuda. cabelo escuro-jovem. calça bege. blusão de bombazine castanho. mãos nos bolsos e uns óculos enormes contra o sol do mundo – os olhos sempre foram a minha vulnerabilidade – os índios americanos não gostavam de tirar fotos porque acreditavam que estas lhes roubam a alma – não sou índio. mas acredito nessa crença – não sei se foram as fotos. mas alguém me roubou a alma. alguém me esvaziou por dentro – apostava o pescoço em como perdi a alma pelos olhos. não há um único dia em que não me doam – enquanto tive alma nunca deixei que o futuro me assustasse – não tinha medo de nada. o corpo estava sempre aprumado. perpendicular à ambição. num ar sério. como se transportasse em si um mistério. os olhos encovados. escuros. as mãos escondidas para que ninguém soubesse o que pensavam. e as pernas sempre em posição de correr – sempre com um grande aprumo diante da avidez. não era vaidade. era segurança nas mãos – olho. olho com o que me resta da vontade de olhar. olho com saudade. olho com nostalgia. olho com raiva. olho com uma vontade furiosa de eliminar o futuro estatelado numa parede pastel – as primeiras fotos são de um cinzento-ingénuo. aberto à coloração. imaginativo. num confiante forte-opaco. a contrastar com a moldura faia-clara – ao lado. numa moldura mais escura. sobressai o cinzento-dúvida. com a tonalidade a puxar para a solidão. para o retiro. mergulhado em pessimismo e numa vontade única de fazer apenas o que estava certo – há cinzentos que nos enganam para a vida toda – ainda não tinha percebido que para sobreviver é necessário aceitar o erro. ultrapassá-lo. moldá-lo até se tornar invisível. ajustá-lo às necessidades da maioria. programá-lo para o sorriso enganoso e fazer de conta de que aceitamos aquela velha máxima: errar é humano – nunca foi bom a fazer de conta – para mim. o erro. nunca foi humano. com o erro uma parte da minha confiança morria de amargura – nunca fui capaz de recuperar destes erros – nunca aceitei o erro e isso trouxe-me um erro ainda maior: a busca de uma perfeição imaginária – nas últimas fotos. encontrei-me num cinza-triste. corroído. pouco afetivo. zangado. e onde o prumo dá indícios de estar preso por um fio – ninguém aguenta tanto cinza-triste estampado numa parede bege-pastel – *“a felicidade não é um ideal da razão. mas da imaginação”

*imannuel kant


21/11/2017

eu e: a escrivaninha e a janela da frente



pintura - maluda



         1.    a escrivaninha;

2.    a janela da frente;

3.    as fotos à direita;

4.    a estante dos livros à esquerda;

5.    o tiaguinho;

6.    o zé do gerês;

7.    a oferenda aos meus dois amigos;

8.    as mulheres do meu cunhado;

9.    a minha circunferência;

10.    a vida




1.   eu e a escrivaninha


sei que estou a desaparecer – um dia destes serei invisível. ausente. sem voz e sem uma única palavra que identifique o que fui. estarei retirado dos afetos. dos sorrisos. dos sonhos e das desilusões. serei sombra. memória e silêncio misericordioso – mas neste momento de assentimento. enquanto continuo a completar a existência da vida. observo em conciliação o que me resta da morada criada: desarrumo o que sempre esteve fora de ordem. procuro o que nunca encontrei. perco-me a ler papelinhos quadrados sem qualquer relevância temporal – em tempo real subsiste o espectro dos papelinhos quadrados gizados a pó no tampo granítico da escrivaninha – o testemunho de que. pelo menos num dia. tudo tem a sua importância. por mais insignificante que fosse o seu conteúdo – abandono e esquecimento. é o que me sobra desta desorganização validada pelo meu DNA – é daqui que vos escrevo num computador inimigo do perfume a papel – é daqui que. com as palavras. me escondo do mundo das luzes – é daqui que me entrego em vocábulos de alforria – é daqui que me absolvo de pecados que ninguém compreende – é daqui que me faço gigante como anão. quando escolho nunca usar maiúsculas – é daqui que emancipo as palavras. preparando-as para o mundo da crítica – é daqui que me estarreço de medo pela vossa leitura – é daqui que me entrego num abraço metafórico maior do que “as dez mil coisas*” – eu não sei se sou mais do que dez mil coisas. sei apenas que sou uma coisa que se magoa. que chora. que tem cada vez mais medo de um dia não saber o que fazer com o que escreve

*metáfora chinesa que chamam ao mundo “as dez mil coisas” – in: este ofício de poeta - jorge luís borges

 

 


2.   eu e a janela em frente

 

em memória. uma janela com um punhado de quase nada permite-me agarrar uma nesga de um mundo onde escolhi não existir – não nos podemos impor ao mundo. até a multidiversidade negativa contribui para a evolução da espécie – entre a persiana e a meditação. um pedaço de céu vazio de tudo quanto me tentaram ensinar à força – o céu já não é destino final para quem sempre tentou fazer o que era certo – agora. o céu é apenas o teto do que penso – mas está tudo bem. não há ressentimento. estão todos indultados. o culpado sou eu. nunca deveria ter ousado questionar o que o mundo certifica de forma instintiva – a janela é agora a minha única oferta para os que ainda se sentem tentados em me reencontrar – quando não estou na janela estou a escrever para vocês – vocês são a minha única esperança para que o que me resta do mundo faça sentido – todos os meus sonhos são maiores do que eu. carrego-os como fernando pessoa os carregou– também eu *“tenho em mim todos os sonhos do mundo” – saibam eles. todos os dias. que me faço existir mesmo que em frente à minha janela não exista nenhuma tabacaria – em boa verdade vos digo: a minha janela dá para nada. não sei como vos descrever esse nada. pois. para isso. teria que saber o que vale a palavra de um homem perante uma janela que não dá para nada – não me tenho em boa conta. estou desiludido. triste e sem vontade de sonhar – nenhum homem sonha o que desconhece – escrevo. escrevo como se a janela estivesse prenha de uma tabacaria – não está. tudo o que tenho entre mim e a janela é o que os olhos veem. e o que veem é nada – sem tabacaria morre também o sonho – a morte será para sempre um sonho inacabado – perdoem-me. sei que perdi todos os sonhos – nenhum homem pode viver sem sonhos – estou morto dentro de um sonho que insiste em não morrer – não quero saber o que há para lá dos sonhos. porque tudo quanto sonho está morto. doente de um mal que não é mal nenhum. é apenas a vida a acontecer no seu melhor e seu pior – da minha janela não vejo nenhuma tabacaria. nem gaivotas. nem gente como eu. nem sonhos a chegar ou a partir. da minha janela vejo-me a olhar o que não há porque dentro de mim não há nada para além do sonho de um dia escrever qualquer coisa que não seja nada – a todos os outros sonhos peço que me esqueçam. tornaram-se nada e não há nada que possa engrandecer um corpo que desistiu de sonhar

*fernando pessoa 



07/11/2017

perder-me para me encontrar



bem howe


não olheis vós para o que faço. mas sim para o que rabisco – o que enxergais em mim é uma ilusão para me libertar do que escrevo – com a chegada da noite amarro-me aos sonhos e vagueio pelas madrugadas tal qual um cigarro se incinera: brasa instável. cor impulsiva. metodicamente vagaroso a retrair-se para o fim da combustão – e assim. em contagem decrescente. dissolvo-me em cada pedaço de fumo que sobe ao céu – perco-me. perco-me na noite pelo que penso e também me perco quando me recuso a pensar – perco-me. perco-me na noite em sonhos e também me perco quando me recuso a divagar – perco-me. perco-me na noite dentro de mim e também me perco quando não estou em mim – um homem perdido só está bem onde não pode estar – a insustentável leveza do meu ser vacilou. quebrou. faleceu com o corpo ainda a reclamar mais vida – e o fumo proibido a chegar à casa dos deuses como chegam os balões das romarias. perdidos. sem rumo. num vento incerto. sem tino – e a enormidade do que sou a deixar de o ser numa terra em apartheid – segreguei-me – devagar devagarinho elevo-me rumo às bem-aventuranças. como se fosse o último fumo. como se fosse vento. como se fosse catraio e me quisesse perder num paraíso iluminado por uma luz esquecida no fundo da gaveta – por isso te digo: perde-te com um laço. aperta-o à volta do inferno e faz-te memória – perde-te de raiva e cospe para o chão que nunca te deu de comer – perde-te de coragem e prende a ponta da corda à barbatana de um tubarão. deixa-te arrastar ao fundo das palavras – absolve-te num parêntesis e não deixes que um ponto de interrogação te faça voltar a [re]acreditar –  morre pois já não tens mais tempo para te [re]perder –  perde-te antes que te falte a vontade de escrever



03/11/2017

deambulações noturnas XXII



pintura - robin eley


flagício: com a noite mato-me de mil maneiras. e a todas sobrevivo. e em sobressalto acordo