28/06/2016

oficina do mestre astrolábio



foto - sampaio rego
 
 
 

lá longe

onde o mar acaba

há uma linha…

 

numa ponta. a imaginação

na outra. a realidade

geram um movimento

como o rodar da corda

 

aos saltos

os astros rejubilam

uma vez vénus

outra. marte

e as estrelas. poderosas

aplaudem em confraria

o sol a morrer

 

por dentro

a engrenagem

fabrica o sonho

com sua força

agiliza em promessas

a dor de um parto

 

na montanha

volto a sentir

o sol a sorrir…

 

assim me deito e levanto



27/06/2016

4 da manhã


foto - sampaio rego
 

o apocalipse na ponta de um lápis. e eu sem saber escrever uma única puta de palavra


21/06/2016

ocupação selvagem



foto - sampaio rego


não escrevo para outros e nada dos outros vos trago a partilhar – sou assim. sem saber porquê – escrevo com a mão de um outro que me ocupa de forma selvagem – sou um corpo extorquido em usufruto – uma caução de morada até à morte – e é este miserável que me entrega com rudez. tal como sou. sem nenhum padrão de gratidão. ignorando o meu apelo sofrido ao silêncio – para a frente da fala não existe recuo – a palavra é uma escritura onde o meu corpo se torna avalista no mundo dos sons – não é fácil. acreditem – mas um dia serei pó e poderei definitivamente ocupar o lugar à direita do meu pai. numa eternidade piedosa – o ocupador. selvagem. elementar hospedeiro de um corpo marcado pela maldição de um deus esculpido em pedra. a ocupação perdura numa simbiose forçada – ficará para sempre acorrentado ao peso das palavras. ora em pecado capital. ora em clemência sofrida – quanto a mim. quando ando por aí. perdido na minha própria modéstia de nojo. nunca direi nada a ninguém. o silêncio não me é imposto. é uma forma de vida – a felicidade chegará com o sacrífico final

 

11/06/2016

coluna dos deuses



foto - sampaio rego
 
   

na poesia mora a ilusão

tantas vezes erguida

em colunas jónicas

personificam sabedoria

e a força de uma beleza

trabalhada a quatro voltas

em cada volta gira um sonho

talhado para cada mente

mais ou menos traído

em sonhos rendilhados

de um passado talhado

a esquadro e compasso

giram as colunas

esperança também

as quimeras? ainda esperam

por deuses férteis

mas a alma do poeta

permanece prostrada e chorosa

aos pés elegantes da coluna

e dos sonhos angustiados

num chão

nem sempre geométrico

lá no topo. a coluna toca o olimpo

espalhando sapiência aos semideuses

sentada ao lados dos deuses

partilhavam dizeres e banquetes

sacrificando a mitologia

ao mundo dos mortais

o poeta que cá em baixo agonia

revestido da mesma dignidade

lamenta amarrado às colunas graníticas

por não ser “aquilo” que os deuses esperam

violado na alma

pela culpa das letras

declama em forma de remissão:

por aqui escreve-se assim

sem a ilusão de um dia escrever diferente

serei sempre um pequeno trovador

ao cuidado dos humores dos deuses

mas nunca dos semideuses

morrerei por este lugar

onde as “impuras” fazem morada

 


arte urbana - I



    
  

05/06/2016

ilusão em rede


foto - sampaio rego
 
 

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro” - Clarice Lispector

.

é nestes cortes que sustento o corpo num precário equilíbrio suicida. um impulso contido de raiva. de expiação e de purificação – escrever é um ato de fé – sou um homem só numa só escrita – as amizades estão cada vez mais difíceis de se escrever na palavra – os dias são agora de um outro mundo. tecnológico. amplificador para o bem ou para o mal. divergente na expressão. convergente na busca da felicidade. extremos no amor e no ódio. onde os amigos surgem ao pontapé: és um querido meu amigo; és bonito meu amigo; amigo o teu sorriso é o espelho da tua alma; adoro-te amigo; tenho saudades de te ver amigo; és único meu amigo – e as ligações em fibra ótica espalham a burla pelos quatro cantos do mundo – aqui estou eu neste desabafo inócuo apenas porque me recuso a usar a palavra amigo em vão – cada vez gosto menos das pessoas que me entregam adjetivações de exceção e depois as vejo gastas ao preço da uva mijona – nesta nova arte de fazer amigos pelas redes sociais sou um estranho no meio da multidão - por isso corto nos gestos. nas palavras. nos abraços. nos sorrisos. na forma de como me dou e na raridade com que ofereço palavras a quem não as merece – não gosto de enganos. não suporto erros grosseiros e rejeito erros de simpatia – não quero lacunas nos cânones da palavra amigo - não sou santo agostinho e de peixes pouco entendo. mas sei que a palavra amizade é o único brilho que me incendeia os olhos – há palavras que me custaram a ganhar. muito mais que um dia de trabalho. ou um mês. mais de um ano. quase tanto quanto a vida que lutei para a agarrar. um esforço que não vem de nenhum músculo. de nenhuma corrida. de nenhuma trovoada ou bonança. vem de um arrepio na pele. tão leve que às vezes engana o coração – esta minha liberdade de amar pelo sentir é o único amor certo que ficará para depois da minha morte – não me vendam ilusões –  e agora vou sair para o mundo onde a mentira se disfarça de sorrisos. mais podre do que a malvadez. mais rasteira que a lama. mais venenosa que um saco de víboras: internet – amigos. ou assim vos chamam. sigo a caminho



02/06/2016

sombras



foto - sampaio rego
  

alcanço um som

leve. muito leve

não são harpas

não são anjos

são fantasmas descalços

sabem-se implicantes

por tão antigos serem

 

vivem no sótão

nos medos e segredos

de quem nada sabe

 

inquietam. procuram

abanam

remexem o passado:

matam as palavras

as desculpas

os lamentos

os choros

ainda vivos

sofridos no sangrar

dos pulsos

 

nas sombras da noite

onde sopra uma pitada

de luar

meus olhos. sempre criança

gemem de pavor…

nas mãos. uma cruz

na boca

um anjo da guarda

 

o hábito veste de branco

na luta contra o medo

quando partem

sem cuidado

advém a desarrumação

 

na parede

sem mais…

um lembrete!

amanhã. à mesma hora!

cerram-se os suores

                                  por fim. durmo                                  

 


31/05/2016

zero


imagem google

  

o capitalismo também se apresenta em lata. e agora. para silenciar os resistentes. nasceu a zero. zero calorias – a coca-cola conquistou o mundo da escrita. as palavras tombam embriagadas de cafeína – o artista não dorme. consome a noite em glosas marginais – o papel contorce-se em mãos geladas – amanhece – solta-se o dia. e todas as palavras ensopadas. ensonadas e encravadas organizam-se em música – inicia-se a tocata e fuga em ré menor. johann sebastian bach – saia um expresso rápido. por favor. tenho o carro mal-estacionado e um pacto de estabilidade para cumprir 



26/05/2016

triste é...



imagem google


 triste é estar só

triste! é não saber o que fazer

não saber o que pensar

não preparar o futuro

apagar o passado

chorar sem saber porquê

desfrutar de lágrimas insípidas

dizer não ao sim.

 

triste é não ver o pôr-do-sol

não sentir a chuva

o vento

o aroma das flores

o grito dos animais

os gestos mudos

os carros a passarem

o telefone a tocar

 

triste é não poder vaguear

não sentir dor

escrever sem saber

soltar os remorsos

quebrar os espelhos

ser o que não somos

ter medo do dia

querer o que não podemos

 

triste é não amar

não olhar

filosofar para o espaço

não ter hora nem abraço

não ter leito

paz ou senhorio

correntes, amarras ou

âncoras

 

triste é não ter poemas

livros com prosas

bíblias de amor

saudades eternas

pensamentos

pecados

omissões

guardiões

 

triste é não ter mãe

esquecer o pai

estragar o fruto

congelar o sabor

ter um tempo depois

um adeus

uma cobardia

um fantasma

 

triste é não ter memória

um abrigo

um choro de irmãos

um avô que te espera

uma avó que tricota

um vizinho

um amigo

um inimigo

 

triste é sermos diferentes

desprezados no olhar

marcados e referenciados

esquecidos

contidos e odiados

chorados

olhados

espoliados


triste é: apenas o contrário de alegre.



25/05/2016

corrente[s] na escrita



foto - sampaio rego
 

deixo o corpo entregar-se à corrente de água daquilo que penso – depois. ao chegar ao fim do percurso. olho para trás. e percebo que tudo o que escrevi foi moldado apenas pela força da água. as palavras não escolheram caminho. foram arrastadas – e eu. iludido. acreditei que eram as mais certeiras – desilusão – e é aqui que começa o desespero – volto atrás. corto. risco. altero. revisito memórias. e deixo tudo partir de novo pela mesma linha da água – reescrever não é correção. é combate. e a água. cada vez mais clara. revela o percurso sem piedade – levanto as mãos aos santos em quem não acredito e pergunto: se gosto de escrever. porque não foi dado o engenho de traduzir o que sou sem me trair – revolta – não sou como a mãe que ama sem ver falha. que olha o filho frágil e o declara belo – tudo o que escrevo fica aquém do texto que imagino – ainda assim. continuo – não por fé. mas porque parar seria afogar-me fora da água

 

06/05/2016

a tenda



foto - google


1.

a tenda está montada – as colunas de som anunciam mais um grande espetáculo numa noite inteiramente investida no rigor dos trajes – inicia-se o desfile dos decotes e dos entretenimentos – o espaço exala glamour. um desafio ao infinito da mente humana. ao deslumbramento. ao encantamento. ao sonho – a cair do céu. descem lustres envoltos em brilhos. projetam cores de um arco-íris que. na sua extremidade. oculta o santo graal das mil e uma noites – tudo leve. tudo é alma. tudo é transparência. tudo é sensualidade. enquanto a música toca charme em decibéis que são melodia de acasalamento – e todos sabem conversar. sabem menear o corpo num compasso perfeito de insinuações – as luzes acendem e apagam. primeiro uma vermelha. depois uma azul. a seguir uma amarela. e em cada intervalo de luz. o belo protegido por sombras intermitentes – cai dos altifalantes um encosta-te a mim. cai gesto. cai charme. cai um beijo dos lábios e os sorrisos desfazem-se de boca para boca – as palavras são agora notas de concordância numa clave de sol perfeita – o ar quente sobe. os vestidos também. o astral. o charme. os sapatos de plataforma. os soutiens push-up. tudo a subir sem parar. o deleite. a volúpia e a loucura – a descer apenas os decotes. atracados nos olhares cobiçosos dos cavalheiros que. silenciosamente. deslizam para o seu interior numa gula luxuriosa e delirante – preso em jeans. o cio.  rompe dos corpos num rugido de guerra silencioso. mostrando que a luxúria não existe sem imaginação – o que é da noite. na noite em segredo fica para sempre – e entra a “elegantérrima”.  logo em seguida a excitadíssima e a estranhíssima. e num toque de magia dissipa-se a sensatez – explode a insinuação – e a boca do lobo mau na face de cada macho. persegue o gozo. perdidos em ereções azuis. robustas e vigorosas – homem que é homem bebe whisky. tresanda a tabaco. exibe pelos no sovaco. e promete à mulher o orgasmo de todos os orgasmos – o delírio masculino retratado pela fábula do sapo e do escorpião: esta é a sua natureza – o bom senso. aos poucos. é corroído em goladas curtas e obstinadas – e o desfile dos corpos cada vez mais entrelaçado com o pecado – entra na vitrina a mal casada. seguindo-se a oferecida. e mais uma que não se dá por nome nenhum – o vazio da tenda começa a desaparecer. enquanto. em sentido inverso emerge a provocação quente e sensual – as fantasias avolumam-se e a expectativa agiganta-se num espaço cada vez mais comprimido  – finalmente homens e mulheres em igualdade na sua plenitude – e o barman. numa ligeireza absoluta. esgueira-se em sorrisos pelo meio de roucos e desesperados apelos gorjais. e a cada súplica. grunhe em simpatia uma jura de que a culpa é de vénus – ele é apenas um simples mortal enviado para matar a secura das bocas. sabe que mais tarde ou mais cedo a desvirtude tomará conta do seu corpo – a festa também é dele – o álcool não protege a moral dos bons costumes – rompe pelo balcão mais uma caipirinha que. não vinda do brasil. traz no seu interior as batidas sensuais do samba. a ousadia. prometendo fazer rolar bundas num ritmo da excitação raivosa. enquanto os másculos. em uníssono. reclamam mais tesão para o salão – os RP`s. com mais de mil amigos facebookianos. recebem todo mundo numa aflição galopante – -- boa noite. sejam bem-vindos ao nosso espaço – multiplicam-se os meneios íntimos. amontoam gestos. dobram simpatia. descobrem sorrisos. inventam adaptabilidade e prometem a cada cliente uma noite para mais tarde recordar – para estes colaboradores cada palavra gasta é um empurrão de afetos para a confusão – e as apresentações repetidas até ao esgotamento – o barulho das vozes e dos gestos é agora infernal num bar atulhado em súplicas de prazer – e mais um red bull com vodka para ali.  e um bulldog com frutos às cores para a amante do cavalheiro de negro – os corpos encontram-se. tocam-se. beijam-se e insinuam-se em danças que já são de pré copulação – e a tenda repleta de gente. repleta de glamour. repleta de encantos. de ilusão. de desejo sexual primitivo – a noite a explode – os decibéis da música deslaçam finalmente a timidez da cinquentona. que promete tudo o que tem num corpo XS. enquanto a da alta sociedade. ao lado da de nariz-empinado. faz brilhar num triple XL o valor de cada lantejoula – o ambiente na tenda enlouquece. as paredes tremem. e a batida house faz pular a olívia que não é palito. deixando a multidão a dizer: que borrachito. que borrachito. e o povo em suspiros diz em voz de surdina: quero dançar com ela. quero dançar com ela – e quem não pula não tem tesão – loucura loucura. diz a turma em voz viril enquanto a mulata mostra o rabo até à exaustão – e elas. perdidas em lascivas agitações. derretem-se em sorrisos vaginais – toca uma quizomba do anselmo. não me toca. lenta. muito lenta. e tudo aos pares. perfeitos. protegidos pela magia do encantamento que só se quebrará com o orgasmo. enlaça as almas pecaminosas em gemidos que não são de sofrimento – os corpos entrelaçam-se. colam-se. os traseiros contorcem-se numa dor que vem da falta de pudor. e os joelhos para ali. e as ancas para o outro lado. enquanto as mãos se perdem em desejos desesperados – e o pecado a dizer ao ouvido: mais. mais. não pares agora. e um arrepio. e uma mão na cabeça a dizer vais ser minha. e a outra para cima e para baixo. e o desejo promiscuo amarrado a um beijo que fica para o resto da noite a latejar – e tudo que era mulher séria é agora mulher excêntrica. adultera. pervertida. tudo que era cavalheiro virtuoso é agora cavalheiro adúltero. gigolô. atulhado num tesão escorado numa robustez eriçada pelos químicos – e a música a acelerar a decomposição dos corpos num protocolo assexuado – a noite não para de surpreender. os corpos não desistem da excitação. os rostos pedem mais aperto enquanto as nádegas saltitantes gemem entaladas em rendas que já não são mais elásticos – todo o XL é um ESSE justo que não se cansa de dizer: sou a mais bela gaja do universo e de cima dos meus sapatos luís onofre sei falar como ninguém – sou toda etiqueta. sou alta costura e não estou aqui para qualquer um olhai olhai. no que é meu não tocais a não ser que digam que sou a mais gostosona do reino – sou rainha. ninfomaníaca. louca e sinto-me toda molhada – enquanto a mal casada. num sorriso que é passadeira diz: cheguei meus amores. estou linda de morrer e é bem-vindo quem vier por bem – a repinhas. cada vez mais mal-amanhada. para não ficar atrás. abre o decote e diz em espanhol que não é de espanha: “estoy muy caliente y soy una chica guapíssima. mui respetada y apreciada” enquanto o marido. de vigores estrogénicos. vai abanando a cabeça numa anuência predadora – para este chico a arte de caçar é igual à praticada pelo homem da pré-história. uma selvajaria sem regras disfarçada numa simpatia saloia – nada lhe escapa – e os copos a baloiçar entre a cerveja e o blue lagoon. entre uma kizomba e um movimento de olhos que anuncia a qualquer momento sexo em doses ilimitadas – e tudo é boca. sorriso. e tudo honoris causa. saber. arte produzida de encomenda. costurada corpo a corpo. mente a mente – em cada cérebro o ímpeto tosco de uma exclusividade suportada por um ego só suplantado pelo divino – e quem nasce macho. macho morre – é a hora do zé triste – encostado ao balcão. de copo na mão. ginga o corpo num enredo de cautela aristocrática – fidalgo. exclusivo e elitista arfa arrogância em ritmo de nobreza real e em cada golada a fantasia de um orgasmo imperial – vai  imitando o camaleão com desdém: um olho para as gajas e o outro na sua garina que. em hábitos curtos e maliciosos. mostra aos homens o arrojo carnal de quem sabe que o seu clímax será sempre cerebral  – estamos no epicentro da noite. a música é agora aglutinadora. tudo salta. tudo canta. e tudo é dito em delírio pela françesa: “oui. je me sent une fou” – e o suor a emanar cheiro que é sinal de desvario – na pele a explosão de hormonas canibalescas fazem cintilar os corpos de desejo agâmico – e elas dissimétricas da razão contorcem-se. tudo já é padecimento. aspiração. desespero. aflição. e entre o corrimento fértil de uma vida a certeza de que finalmente estão emancipadas do mundo das normas  – sexo por sexo precisa-se e exige-se – e os machos sem saberem o que fazer a tanta profanação do bom senso. perdem-se em galanteios desnecessários – desdobram-se em ereções inúteis que terminam em ejaculações precoces –  o mundo masculino lida mal com o que lhe é oferecido por prazer – há uma nova liberdade. um novo pulsar da vida no relógio biológico humano – e todo o mundo se interroga: será que sou louco? não. não. e não

 

2.

e a divina comédia de dante ressurge como uma viagem renovadora ao mundo da libertinagem – o inferno deixou de existir para quem deseja ser feliz. a pureza da alma nasce com a simplicidade do amor – a felicidade plena só é possível através da verdade e da lealdade que cada um cultiva com o seu próprio corpo. o seu autoconhecimento de um eu genuíno – apenas a mentira destrói o afeto. corrói a autoestima. a autoconfiança. a aceitação positiva – o purgatório está agora eternamente desabitado. enquanto satanás devora o manual dos pecados capitais – nunca mais serão sete – o paraíso constrói-se na terra e pertencem apenas aos que amam a justeza – quando nos aceitamos plenamente. aceitamos o resto como um complemento positivo à nossa vida – a manhã traz um novo sol aos corpos. e em paz. regressamos ao lar em perfeita consonância com as leis universais do amor – uma harmonia inexplicável com a natureza das coisas – os corpos são devolvidos a uma nova realidade na mesma alma – a explosão da afeção. da ternura. da estima. do companheirismo e da cumplicidade culmina na chegada ao lar – tudo aqui roça o perfeito – o mundo é redondo. e cada um de nós ocupa uma minúscula partícula de terra. única como uma impressão digital – o nosso ninho espiritual é um segredo que apenas o próprio conhece – um ponto imaginário para os que nos ignoram. um ponto real para os que nos abraçam com a bondade de um universo que tende para a fraternidade – o meu está aqui. bem diante do vosso sentir – basta acreditar


04/05/2016

solidificação do belo


foto - sampaio rego


os jardins a florir

e a lua sempre a

nascer e morrer

.

ser ou não ser. eis a questão

talvez um estrangeirismo aformoseie:

“to be. or not to be”

ou

uns e os outros

“les uns et les autres”

.

adiciono apenas arte à estética

o belo aos sentidos

mesmo que apenas conte cinco

a emoção existe

.

na morte

no nascimento

a lua

na flor

no mar

.

poderá ser:

“bolero” de ravel

trauteando [meticulosamente]

imagens em pautas de música

 

  

02/05/2016

para uma ana


foto - sampaio rego

   

que bom. ana. que vieste até aqui. que saudades de te ter junto das palavras – estou feliz. mesmo feliz. a felicidade não se escreve. digo eu que. quando fico feliz. desapareço do corpo e as mãos ficam à deriva – as palavras. essas que me fazem escrever compulsivamente partem também. libertam-se deste maluco que tem a mania de escrever testamentos – que tu conheces – hoje. como estou feliz por me estenderes a mão às palavras. vou-te abraçar. abraçar com força e segredar-te o que já todo o mundo sabe: é bom saber que existo para ti – dizem que isso é amizade. que palermice. que simplicidade. que insensibilidade. é muito mais. para mim. é sobreviver. é saber que ocupo espaço no espaço de alguém que gosta de mim assim. louco por apenas saber dizer as coisas a escrever – desculpa ana. tens razão. já tive tempo para te dizer que também é bom estares na minha vida. a ti e ao filipe – agora vou embora. nem sei muito bem como acabar este comentário. talvez como fiz no primeiro que escrevi para ti. quando as noites eram grandes e tu ainda andavas sem relógio 


29/04/2016

encómios


foto - sampaio rego
 
  

os elogios são sempre terríveis para quem gosta de escrever – primeiro. fazem soar as campainhas da satisfação. depois. quando o corpo retoma a forma do artesão. fica um ruído que mais não é do que um zumbido escrito nas mãos – o medo de errar transforma-se numa dor crescente. e o trabalho torna-se uma canseira insuportável – a imagem do belo está sempre ligada a cada instante do leitor – encontro-me agora na fase do zumbido persistente 

 

28/04/2016

lembranças



foto - sampaio rego



lembrar não é pecado
evoca-lo não é sofrimento
apenas vemos o passado
lembrando o agrado


lembrar é sentir novamente
amar o perdido
passear nas recordações
rir no coração


lembrar é dar as mãos
passear pelos campos
flutuar nas memórias
viver nas alegrias


lembrar é saber que existiu
aprovar o tempo
ganhar os segundos
valorizar o que temos
 

lembrar é fantasiar
poder chorar em companhia
partilhar o que tememos
com quem queremos


lembrar é eterna recordação
fruto do nascimento
edificado com o crescimento
num espaço que não é nosso


lembrar é uma música nossa
uma melodia de sonhos
uma canção real
um piano de soluços


lembrar é ramo de flores
colhido no campo da primavera
numa manhã de eternidade
num sonho sem fim


lembrar é perdurar o sorriso
é saber que valeu
é escrever poesia
num livro só nosso


lembrar é saber que perdemos
é saber que já tivemos
é ter uma estrela
um destino nosso


lembrar é olhar para dentro
esconder a atenção
disfarçar a dor
dizer adeus ao presente

 

lembrar é olhar para a frente
é subir a montanha
erguer as mãos ao céu
e dizer um olá


lembrar é retribuir
é poder ver, sentir, chorar
agradecer por ter sido eu
sentir-me distinto
memorar para a eternidade
dizer que valeu
dizer até já
até já...
até já.


 

poema dedicado a dois homens muito especiais - meu pai e tio joão evangelista – 31.12.2002


17/04/2016

tudo o que me resta é a memória – 17 de abril de 2016





prefácio de autor

tudo o que me resta é a memória e dentro desta guardo uma vida de incontáveis vidas – sei que não me posso recordar de cada fragmento de tempo. de cada voz. de cada face. de cada sorriso. de cada flor que me ofereceram. ou de cada lágrima perdida em estados de alma que nunca serei capaz de explicar – de manhã sou um. de tarde outro e à noite sou o da manhã. o da tarde e outros tantos que não vivem em nenhuma parte do dia – sei que estou a envelhecer. na alma também. sei que os olhos teimam em ver o óbvio. que o amor é toque. e que as mãos resistem cada vez mais a trazer a dor ao corpo – não se escreve sem dor – faço anos. envelheço. sei. sei. e sei que este saber arde – sei que me rasgo em cada aniversário. sei que corto os pulsos. sei que arranco a língua. e sei que me suicido por cada vela. por cada voto de muitos anos de vida. por cada desejo de que viva o dobro do vivido – sei que cada aniversário me traz a confirmação da falência dos órgãos. da imobilidade. das rugas. dos cabelos brancos. da dependência e da perda de autonomia – a morte também acontece em fascículos – estou a ficar sem tempo para tanta coisa que ainda gostaria de vos entregar. coisas minhas. simplicidades que no vosso sentir podem parecer irrelevantes – mas creiam-me. se hoje vos escrevo é porque amo a vida com todos os seus humanos. todos mesmo. pois a cada um de vós eu devo tudo o que aos vossos olhos sou – hoje é um dia especial. sei-o porque tenho memória e é dentro desta que vos guardo em gratidão – e por isso vos digo: obrigado por partilharem este caminho comigo

 

1.   pretérito

o meu mar – a primeira vez que senti a imensidão do meu mar tinha os meus doze anos – as recordações anteriores não eram do meu mar. eram de um mar de todos: da família. dos amigos de verão. das barracas de pano listado. do homem de branco a gritar “língua da sogra”. do cabo-de-mar. dos chocolates “regina” e de uma areia capaz de guardar para sempre cada amor descalço ali enterrado – no passeio alegre os altifalantes anunciavam uma tristeza que não existia. “o toque de silêncio” era abafado pelas brincadeiras da miudagem. dos castelos de areia. da bola da “nívea”. das caricas. dos búzios. da chegada dos gelados “OLÁ” que se derretiam em mil e um encantos – é disso que se faz a infância – éramos felizes – o sol sucumbia num vagar que só o mar entendia e os barcos no horizonte diziam-nos que o mundo é um ciclo. infinito. imutável. redondo. permanente e inesgotável – as ondas recolhiam-se num silêncio tímido enquanto o vento norte sacudia do areal as últimas toalhas de praia – era hora de voltar para casa – chegava o banho quente e o salitre desfazia-se preso a milhares de grãos de areia polidos pela alegria de quem tinha passado o dia aos mergulhos – a toalha entre as mãos da minha mãe limpava-me de todos os males – o mundo era eu – pela noite a sarronca anunciava mau tempo para os adultos – era hora de ir para a cama. os sonhos das crianças não esperam pela manhã – boa noite papá – chegara o momento de receber de volta o beijo do meu pai que às primeiras horas da manhã partia em silêncio para o trabalho – acercava-se o sono. o silêncio. e as estrelas sussurravam aos anjos para me levarem a alma para a dimensão do faz de conta – nunca mais encontrei esse mundo – ali permanecia eu enroscado nos sonhos e nos agasalhos dos meus pais – a família é um compromisso de afetos – à família acrescentei os amigos e com estes construí a utopia do meu mundo – hoje sei que é o desejo silencioso de todas as crianças do universo – agosto sempre será um mês de saudade e de encontros de mares

 

2.   encontro

final da tarde. sozinho. como sempre gostei de estar – as gaivotas num voo planado sacodem o vento norte em várias direções. enquanto eu. sentado num corpo dorido. descubro pela primeira vez um mar que nunca sonhara meu – ali estávamos os dois: eu e um mar imenso – para mim tão misterioso quanto os mares de vasco da gama – naquele momento. toda a solidão do mundo estava no molhe da póvoa de varzim – foi ali que descobri a infelicidade – tomado pelo vento. ali estava: tranquilo. estático. perdido entre o partir do sol e a chegada de uma noite que nunca mais teve fim – pela primeira vez percebi que a felicidade é o sal da vida. uma pitada a mais e somos amargamente infelizes. uma a menos. e ficamos perdidos para sempre numa infelicidade sem sabor – nunca mais me desliguei do mar. da infelicidade. do vento e da noite – adotei o mar e as gaivotas para me acalmar. e é junto deles que me sinto sempre mais perto da inteireza com que me quis construir – mas mar é mar. ninguém por mais destemido que seja. pode escolher o mar que lhe toca – o meu mar é apenas o meu mar e a mais ninguém interessa o seu estado – no meu mar só eu aprendi a navegar

 

3.   essência

no meu mar haverá sempre um pai. uma mãe. filhos. netos. nora e uma mulher que é maior do que todos os mares que inventei – há uma ua [lurdes] maternal. uma irmã de luz e um irmão de paz – há sobrinhos. sobrinhas. e outras sobrinhas que vi nascer e são sangue do nosso sangue – há cunhadas. cunhados. sogra e um sogro que podia ser meu pai – há amigos que nunca mais regressam e há outros que vivem dentro de mim – há amigos de cá e outros amigos de acolá. e há aqueles que são de cá e de acolá – há amigos especiais que não sabem falar. mas que dizem tudo num único latido – há uma família enorme que vem de tempos e terras que a história não sabe contar. trazendo nos gestos a essência do que melhor há em nós – no meu mar há uma família desde o nascimento até à morte – é no meu “mare nostrum” que um dia encerrarei o meu corpo – e nada levarei comigo além do seu perdão

 

4.   epílogo  

no meu mar há gaivotas de todas as cores e desejos enterrados em ilhas imaginárias – há marujos de camisetas listadas. há piratas bons e piratas com perna de pau – no meu mar há deus. fé. oração. pecado. perdão. ato de contrição e milagres ainda por cumprir – há sonhos grandes. pequenos e sonhos que nunca se tornaram realidade. e realidades que nunca foram sonhadas – no meu mar há peixes apetecíveis. horríveis. ferozes. meigos. contrafeitos. autênticos e outros que por serem bonitos não pertencem a mar nenhum – no meu mar há peixes negros. amarelos. brancos. e também há peixes com cores que não sei explicar – há gaivotas tristes. felizes. assim assim. e há gaivotas que querem partir para terras que nunca vi – no meu mar há peixes como eu e peixes que não são como eu – há peixes miscigenados com amor de outros peixes e peixes que por serem apenas peixes nunca conheceram o amor – no meu mar há peixes grandes a comerem pequenos e pequenos a comerem o que podem para crescer o suficiente e não serem comidos – há peixes esguios. não esguios. redondos e não redondos. quadrados. e outros que ninguém sabe ao certo como são – no meu mar há peixes que nunca tiveram um livro e há livros que nunca foram lidos por não haver um único peixe que o quisesse ler – há ilhas cercadas de sol todo o ano. e ilhas cercadas de coisas inúteis – no meu mar há barcos com gente a olhar os peixes e há gente à procura de um único peixe – há medo. mistério. naus. fantasmas. tesouros e amores enterrados num areal perdido no tempo – no meu mar há canhões. arpões e mosquetes com palavras que. uma vez disparadas. são balas – há lugares de luz e lugares onde as sombras escondem fragmentos de uma juventude que nunca esqueci – há lua cheia. estrelas do mar e de fora dele também. e há ondas gigantes que carregam amigos que já não voltam – no meu mar há uma única varanda voltada a sul e muitas outras a contemplar o norte – há desgosto por coisas que não fiz e também há desgosto por coisas que fiz – no meu mar há homens que nasceram do mar e há homens que um dia o mar levará – neste meu mar sou isto tudo que vos escrevo. mas também sou o que cada um escolher levar de mim – aceitarei o vosso olhar. aceitarei o vosso juízo. aceitarei a vossa pena – peço-vos perdão por tudo que não consegui ser – estou quase de partida. há mares que não sabem esperar