24/07/2019

ouço




noites onde o escuro é feito unicamente de sons – ouço. encolho-me contra a almofada. agonizo. suporto-me num quase-silêncio que me rompe os tímpanos e mutilo-me num negrume que me esconde o corpo dos próprios fantasmas.

 

ouço;

ouço orquestra. ouço hauser e a consciência a enlouquecer;

ouço datação. ouço paixão e coisas que já não sei como são;

ouço assombro. ouço asserção e palavras de papelão;

ouço lamentos. ouço frustração e o pulmão a pedir perdão;

ouço amigos. ouço tiaguinho e o mundo todo em pequenino;

ouço zé. ouço herói e a separação é o que dói;

ouço bola. ouço piões que nada sabem de ladrões;

ouço carrejões. ouço camiões com frutas de outras regiões;

ouço encarnado. ouço golão e a luz é lampião;

ouço crenças. ouço capelões e a religião aos trambolhões;  

ouço sombras. ouço lázaro e a luz voa como pássaro;

 

ouço amo-te. ouço sim e o caminho é valentim;

ouço prenha. ouço destino e a cabeça ficou sem tino;

ouço pai. ouço amor e o corpo todo num tremor;  

ouço moda. ouço glória e a roda é vitória;  

ouço coração. ouço vida e a alegria revivida;

ouço papá. ouço medo e a morte será cedo;

ouço saudade. ouço luanda e a luta não abranda; 

ouço caçula. ouço festança e tudo agora é mudança;

ouço horror. ouço despedidas e gritos que são partidas;

ouço terra. ouço dor […];

 

ouço ua. ouço ações em cinco gerações; 

ouço mutação. ouço destempo e a certeza num contratempo;

ouço livro. ouço glosas e leituras graciosas;

ouço braços. ouço labuta e a fábrica chalupa;

ouço aflição. ouço injustiça e o sino enfermiça;

ouço prantos. ouço sentenças e abraços de malquerenças;

ouço mandarins. ouço pasquins e o fim dos jardins;

ouço anjos. ouço querubins e tudo a valer xelins;

ouço liberdade. ouço gaivotas e o sustento às cambalhotas;

ouço mãos. ouço prosa e a pena pesarosa;

 

ouço amigo. ouço coração e abraço com gratidão;  

ouço aterro. ouço odor e os dias com calor;

ouço boda. ouço prata e a vida sempre grata;

ouço diversão. ouço exaltação e fé na religião;  

ouço formatura. ouço orgulho com postura;  

ouço nora. ouço casamento;  

ouço netos;

ouço escrita;  

ouço luta;

ouço traição;

ouço batalha;

ouço fim;

ouço mãe;

ouço para sempre;

ouço terra. ouço dor […];

 

ouço a alma e a paz;

ouço as gaivotas e o mar;

ouço os filhos com as noras;

ouço um louvor para o meu amor;

ouço um abraço a apertar e a saudade a chorar;

ouço o sombrio a chegar e o perdão a estoirar;

ouço o corpo a perecer;

ouço;

ouço;

ouço o que não quero ouvir.

 

ouço porque ouvidos que me nasceram no peito se abrem como as magnólias em abril – ouço o tempo que faz na rua e também ouço o tempo que faz dentro de mim – ouço o que me dizem e o que me nasce na cabeça – sou prisioneiro do que ouço – ouço [vos] mesmo que o silêncio se eternize

 


23/07/2019

in - paradoxo de teseu II






vivo mesmo sabendo que não sou nada. mesmo sabendo que poderia ter sido outra coisa que não nada. se de arte o corpo se tomasse



22/07/2019

se eu pudesse imitar brecht



marc chagall



se eu pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema migrante

para levar à humanidade

a ordem para acabar com bandeiras

e rime com fronteiras

 

se eu pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema de amor

para levar às nações

a ordem para acabar com tudo o que é armar

e rime com matar

 

se eu pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema alinhado

e no controlo da métrica

a ordem para acabar com tudo o que não é cravo

e rime com escravo

 

se pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema mensagem

para levar a bruxelas

a ordem para acabar com tudo que é conflitual

e rime com desigual

 

se eu pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema sem parar

que fizesse das palavras

a ordem para acabar com tudo o que não é paz. pão e habitação

e rime com exclusão

 

se pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema voto

que levasse para as ruas

a ordem para acabar com tudo o que é desflorestação

e rime com devastação

 

se pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema de ira

que levasse ao parlamento

a ordem para acabar com tudo o que é ozono

e rime com abandono

 

se eu pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema trovador

que passasse de boca em boca

a ordem para acabar com tudo o que não é fraterno

e rime com inferno

 

se eu pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema de caneta

que levasse no aparo

a ordem para acabar com a iliteracia

e rime com sabedoria

 

se eu pudesse imitar brecht

escrevia um poema

um poema gaivota

que levasse no peito

a ordem para que se faça política com verdade

e rime com liberdade

 

se eu pudesse imitar brecht

 

poema – sampaio rego

 

 

 

“há homens que lutam um dia. e são bons"

 

Há homens que lutam um dia, e são bons;

Há outros que lutam um ano, e são melhores;

Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;

Porém há os que lutam toda a vida

Estes são os imprescindíveis”

 

poema – bertolt recht 



15/07/2019

cachos de mim


gabriella c. ribeiro


a minha vida é como um cacho de uvas: cada uva uma coisa. uma coisa vazia. ou com azia. ou com o medo pendurado num segredo. ou mistérios quase sempre sérios. ou paixão em combustão. ou silêncios que são serviços. ou fé em abraços que são embaraços. ou brado que nem lembra o próprio diabo. ou idiota que se fez gaivota.  mas. todas juntas. fazem um cacho de coisas que depois de espremidas dá uma vida fodida

 

09/07/2019

epístola de um não crente III



pintura - joão zeferino da costa



deus:

procurei-te na tua casa. mas não te encontrei. depois. procurei-te nas ruas. nos becos. nas montanhas. nos pássaros. nas flores. no pão e por último. procurei-te na minha própria casa… e mesmo aí não te encontrei – desisti – mentiste-me. não estás em todo o lado como me fizeste crer – é assim que se perdem os amigos

 

p. s. – oitavo mandamento da lei de deus: não dirás falso testemunho



06/07/2019

bertolt brecht - de que serve a bondade



imagem google



[para os meus filhos porque sempre os desejei mesmo antes de terem nascido]





De que Serve a Bondade 1

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!



02/07/2019

epístola de um não crente II



pintura - michelangelo


deus:

faço de tudo para não voltar a acreditar e tu fazes tão pouco para que eu volte a acreditar



in - paradoxe de teseu - 1







gostava de imaginar um corpo inteiro de certezas. gostava que abril fosse o mês certo para quem quer nascer. gostava que todos os úteros se emprenhassem de flores e pássaros e mesmo que os rios não cheguem ao mar com o sol em vénus que o pôr-do-sol me conforte quando o corpo se fizer inverno


25/06/2019

epístola de um não crente - I


peter rubens 


deus:

hoje. voltei a entrar em tua casa e lembrei-me da parábola do filho pródigo – empurrei a porta e caminhei. benzi-me. ajoelhei e falei-te como se nunca te tivesse abandonado – mas a verdade é que não estavas lá para me ouvir. não me vieste receber de braços abertos e não mandaste matar um cordeiro para fazer um banquete porque este teu filho estava morto e reviveu. estava perdido e foi encontrado*– a tua casa estava cheia de silêncio e os teus santos. sisudos. não tiraram os olhos do céu – era como se nada vivo existisse entre o teu altar e a porta que deixa entrar gente magoada – percebi então que não pequei contra o céu – não se pode pecar contra aquilo não existe – levantei-me. passei por s. judas tadeu e meti na caixa das esmolas um bilhete com um recado para ti: estou em minha casa



Lucas 15:11-32 - A parábola do filho pródigo


24/06/2019

carlos drummond andrade - josé



imagem - google



JOSÉ

 

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

Você que é sem nome,

que zomba dos outros,

Você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

 

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

 

E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio, - e agora?

 

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais!

José, e agora?

 

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse,

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja do galope,

você marcha, José!

José, para onde?




18/06/2019

paradoxo de teseu





pôr-do-sol – um gesto. uma cabeça cheia de incertezas e os olhos pousados em coisas sem mobilidade: um candeeiro. um lápis. uma agenda de um ano que já não me lembro. uns quantos papeis sem o menor interesse. uma miniatura da nau de cabral e uma parede paspatur – nesta parede existo como nunca vivi [as máquinas fotográficas escondem coisas do tamanho do king kong] – voltemos ao pôr-do-sol. voltemos a um não defunto avelhentado. escurecido de medo. desacertado do relógio. do tempo que passa. da régua que mede e de um mar-gaivota – tenho a certeza que noutra vida fui marinheiro – olho as mãos e mudo-lhes a cor. atiro-as para os raios de luz e amarro-me ao que escapa da escuridão – entre os dedos um rosário de coisas a passar como se fossem sombras – será que ainda sou eu? ou será que se me aplica o paradoxo do navio de teseu? acho que já nada resta do que me trouxe a este pôr-do-sol. não tenho a mesma forma. nem os mesmos sonhos. as mãos fizeram-se em letras e os pensamentos fragmentaram-se pela inutilidade – estou amarrado num corpo que se metamorfoseou para chegar a adulto – estou agora numa espécie de estágio de crisálida. estou parado. enrolado na vida a tentar compreender o meu desassossego à incerteza – estou a pensar e a sentir o corpo. a respirar em forma de perdão – quem não pede perdão nunca será perdoado – não posso chegar ao futuro sem ter a certeza de que a minha intolerância à incerteza não tem uma explicação – respiro. concentro-me na parede paspatur e caminho de foto em foto – sigo – “nenhum vento sopra a favor de quem não sabe pra onde ir”* – não sei se a incerteza nasceu comigo ou se me entrou no corpo com a primeira golfada de ar – há coisas que nunca saberei. talvez seja melhor assim. às vezes é melhor não saber a verdade – sei que a incerteza mora com os fantasmas. percorre as mesmas paredes. os mesmos cortinados. as mesmas luzes escorridas. os mesmos sons escondidos e solta as mesmas lágrimas contidas – o que sei mesmo é que tanto a incerteza como o fantasma precisam do humano para existir – e aqui estou. parado. quase sem respirar. a controlar o medo. a justificar-me com o paradoxo de teseu. a dizer que sou o mesmo apesar de quase nada restar das incertezas que me fizeram crescer – se vos pudesse mostrar como foi difícil chegar a este pôr-de-sol – estou desfigurado. alterado. o medo ganhou garras e o que era para voar cravou-se à parede paspatur – resta-me uma obsessão doentia por uma felicidade que em boa verdade não sei se existe – viver não deveria ser tão complicado – ”você nunca vai saber o que vem depois de sábado, quem sabe um século muito mais lindo e mais sábio, quem sabe apenas mais um domingo”** – toda a minha vida viajei pelo meu corpo à procura de explicações para as incertezas. atraquei em lugares que nem sei se existem. mas uma coisa sei. nunca atraquei em amesterdão e nunca encontrei a ana dos olhos enxutos*** – uma brisa me soprou que vem aí mau tempo**** – acredito que sim. estou quase certo de que a ira de poseidon surgirá logo depois do pôr-do-sol – viver com as incertezas não é uma escolha voluntária – e aqui estou a ver coisas. a ouvir coisas. a misturar coisas. a sacudir coisas. e o centro do pensamento cada vez mais estúpido. devolvendo obscenidades para a parede paspatur numa discordância trapezista que baloiça entre merece e não merece – a parede paspatur continua indiferente. mouca. desligada da minha incerteza doentia e melancólica – e eu preso à vida de uma forma que não a compreendo – o pôr-do-sol está [também] prestes a falecer. amarra-se ao que resta da cidade. esvai-se entre as casas numa tristeza depressiva. angustiante e uma brisa fria toca a janela como se já fosse morte – será que se pode colocar o paradoxo de teseu ao pôr-do-sol? não sei – gostava de imaginar um corpo inteiro de certezas. gostava que abril fosse o mês certo para quem quer nascer. gostava que todos os úteros se emprenhassem de flores e pássaros e mesmo que os rios não cheguem ao mar com o sol em vénus que o pôr-do-sol me conforte quando o corpo se fizer inverno – foi tudo tão rápido e incerto – estou cansado. apetece-me encostar o corpo ao vento e ficar para o dia seguinte – não há nenhum pôr-do-sol igual a outro – neste corpo ocupado de incertezas o que resta de luz dá apenas para aclarar a opacidade das coisas que me rodeiam – aos poucos. todas as coisas se tornarão turvas. densas. estranhas e com formas monstruosas – tenho que aproveitar o que resta do pôr-do-sol. esconder as sombras dos fantasmas e correr como se ainda não fosse tarde para que a boca não sinta a minha ausência – mas se o corpo cumprir um destino e as pedras do caminho uma ironia sem tino. então… quero desaparecer. quero chorar prostrado o fim desta minha eternidade e que esta enorme realidade termine como se de uma história de amor se tratasse. e porque a morte não pode ser um equívoco. nem punhal sem desígnio. enveneno o que resta de mim numa última golfada de ar e vomito em sangue o meu nome nas pedras que um dia pisei – só as pedras guardam em silêncio o que resta de um homem – soubesse eu caminhar como um pássaro e sorrir como uma amendoeira em flor e a distância para o céu nunca seria medida de abril – como será o pôr-do-sol no dia seguinte? tenho medo do escuro. tenho medo do que vejo no escuro. tenho medo do que não vejo no escuro. tenho medo mesmo sabendo que algumas coisas só existem quando penso – como se houvesse um trono para quem vive a pensar. não há. tudo o que somos está no que criámos com as mãos e depois. se formos sábios. levamo-nos para dentro das coisas universais – abril é um mês cruel – e aqui estou neste pedaço de terra minúsculo onde existo. a olhar o pôr-do-sol a morrer para mim. e pergunto-me se o mundo não seria mais pequeno se não tivesse nascido em abril – vivo mesmo sabendo que não sou nada. mesmo sabendo que poderia ter sido outra coisa que não nada. se de arte o corpo se tomasse – procuro-me até que o destino me encontre. pois sei que no fim… tudo passará se um pouco de mim não ficar… nem que seja apenas pesar – nunca digas nada que o mundo não compreenda e nunca faças nada que o mundo não aceite sem pensar – o mundo é assim. é um todo distraído e impiedoso e só fazendo parte desse todo distraído e impiedoso é que serás capaz de compreender as tuas incertezas nas certezas do mundo – e as coisas sem parar de passar pelos dedos… a magoar – quero esquecer tudo o que guardo nesta parede paspatur. quero apanhar o vento e navegar no que resta dos mares. procurar-me em cada ilha. em cada gaivota. em cada dia de sol ou chuva. buscar-me em todas as incertezas até me encontrar com a última certeza – depois… em paz. procuro um pôr-do-sol e recordo todos aqueles que me fizeram existir. sento-os comigo. abraço-os e segredo-lhes vida. peço-lhes a absolvição e por fim. aceito-me numa incerteza boa e parto na saudade de ter existido até ao meu último pôr-do-sol… como diz gustave flaubert. salvo se formos cretinos. morremos sempre na incerteza do nosso próprio valor e do da nossa obra – sei que um dia abril descansará em mim

 


*lúcio sêneca

**paulo leminski:

*** música de chico buarque: bom tempo – adaptação da letra

**** música de chico buarque – ana de amesterdão –

chico buarque venceu o prémio camões 2019 – trazê-lo para o meu texto é a minha pequeníssima homenagem à sua carreira como músico e escritor

 

13/06/2019

deambulações noturnas XXXIX



foto - google


se um dia passarem pela minha rua e virem uns olhos pendurados numa janela sou eu a tentar voar

 

in: eu. o max e o avião


04/06/2019

gosto






gosto de quem passa do meu lado e também gosto de quem passa do outro lado – gosto de quem passa para cá e também gosto de quem passa para lá – gosto de quem desce do céu e também gosto de quem sobe do inferno – gosto dos desconhecidos e também gosto dos conhecidos – gosto dos amigos porque gosto e também gosto dos amigos porque gostam de mim – gosto da minha família e não posso parar de gostar porque são sangue do meu sangue – gosto da minha companheira porque sem ela nunca saberia pronunciar o verbo gostar no incondicional – gosto de tê-la a meu lado. gosto de respeitá-la. gosto de lhe dizer que é a mãe dos meus filhos o que concede valor divino a este amor – gosto de a segredar. gosto de a ver sorrir. de a sentir feliz. respeitada por mim e por quem lhe passa pela vida. e gosto de lhe dizer: gosto muito de ti – gosto de a olhar nos olhos. gosto de a abraçar e mesmo nos dias em que não a abraço sei que não parei de gostar – gosto do silêncio do abraço. de a trazer para dentro de mim e escondê-la do mundo da estupidez e da raiva de quem não cabe dentro de um abraço – gosto de abraços. de abraçar e ser abraçado – um homem sem abraços é um homem pequenino. raquítico e mirrado – gosto de fazer alegria mesmo que dentro de mim a tristeza resista ao meu sorriso – gosto da vida cheia de gente. de gente que fala. que fala porque gosta de falar e que abraça porque gosta de abraçar – e agora. depois dos cinquenta. mais sábio. mais tolerante. também gosto daqueles que encontram desculpas para nada aprenderem com a ternura de um abraço. para a sua falta de gentileza por fadiga. de cortesia por machismo de género. de educação por iletrismo e de nobreza por ausência de grandeza – só não gosto de gente que procria a vulgaridade conspurcando as relações sociais com um neandertalismo que presumia já extinto – mas não importa. o importante mesmo é que gosto deste mundo imperfeito. redondo. azul. com mares. sol e sal. mesmo que às vezes me apareçam bestas quadradas. negras. sem mares. sem sol e sem sal – mas a vida é o que é. e hoje sabe-se que a evolução do homem não está completa. e também se sabe que alguns ficaram para trás. perderam-se na centrifugação do mundo e foram atirados para os polos – mesmo assim. gosto de andar por cá e continuo a gostar desta terra que herdei fruto de um abraço único há mais de cinquenta anos – pudesse eu explicar-lhes o valor desse abraço que me gerou. quer dizer. eu poder. podia. mas seria sequer ouvido?! haveria QI?! haveria vontade de sair dos polos?! não importa. existirei sempre para além da escuridão. do erro. da tristeza. da desilusão – sempre – e na minha mão. umas quantas flores colhidas em mim para vos oferecer



28/05/2019

deambulações noturnas XXXVIII



pintura - cristina strapação


sabem: gostava imenso de construir uma casa nas nuvens sem que ninguém me apontasse o dedo por morar nas alturas



26/05/2019

resisti ao desânimo – eu voto



imagem google



estou triste. descrente e irritado – o homem ocidental emergiu acorrentado a um pensamento religioso dominante. escravizou-se num denominador comum a toda a europa antes das descobertas marítimas. e depois. alargou a sua influência às colonizações – a esta religião. o cristianismo [outras há. mas com menor implantação]. está implícito um determinado comportamento dos costumes. da moral e da ética. estereótipos manipuladores que moldaram “negativamente” padrões de uma sociedade que se quer livre e genuína – o fundamentalismo religioso. através da palavra. manipulava. condicionava e controlava a evolução do homem – para esta comunidade religiosa a verdade absoluta é que os homens [todos]. foram criados à semelhança de adão – teorias como as de darwin não eram toleradas nestas organizações de fé em deus – a religião acabou por estender os seus tentáculos ao mundo científico. condicionando a sua evolução. mas também. recuando ao seu passado para manipular fatos históricos – a bíblia era a resposta para todos os males do mundo: o que corria bem era obra do santíssimo. se corria mal. os desígnios de deus são insondáveis – castrado. o homem foi apodrecendo lentamente – criou-se uma fragrância dos dejetos humanos. horrorizou-se os aromas naturais e deixámos de desejar a primavera com medo de perder o inverno – só os poderosos: clérigo. nobreza e ordens militares gozavam de privilégios especiais em relação às demais camadas da sociedade – esta europa vivia em festa. as suas casas reais através de impostos elevadíssimos aos mais desfavorecidos. ostentavam a sua glória em banquetes. roupas. jóias. etc. enquanto o seu povo sobrevivia numa desumanização brutal. viviam em guetos de pobreza. sem acesso à educação. à saúde e cargas de trabalho elevadíssimas para salários miseráveis – era este o sacrifício para a sobrevivência –  com o passar dos séculos e a emergente insatisfação do povo. as nobrezas. aos poucos.  foram substituídas por monarquias constitucionais ou repúblicas corruptas: democracias tirânicas onde os roubos são permitidos em nome de um estado pervertido pelos grandes grupos económicos – estas democracias criminosas.  permitem escandalosamente. que os ricos fiquem mais ricos de uma forma legal – mas claro está que para branquear os lucros sujos a transparência e equidade das leis tiveram que ser adulteradas e ajustadas à ganância dos novos democratas e. para isso. nada melhor do que criar uma nova classe nobre: os “ricos” políticos das novas democracias – poder e dinheiro em troca de mais dinheiro e poder – este é o verdadeiro trabalho dos políticos da nova ordem de classes na europa – que se lixe o povo. que se lixe a poluição. os oceanos. as florestas. os animais em vias de extinção. as populações do interior. a saúde. a educação. a natalidade. e que se lixe o futuro e o planeta terra – o importante para este grupo de malfeitores [é claro que há exceções. raras. mas há] é o dia de hoje e o seu modo de vida corrupto – trabalhou-se a ideia de que a democracia pensada pelos gregos tinha emergido. depois de uns quantos séculos. numa nova versão melhorada e mais justa – agora sim. o povo é quem mais ordena e as eleições a sua arma – depressa percebemos que a grande arma das democracias já não é o voto. mas sim os media e também rapidamente percebemos que estes não são controlados pelo povo. mas fazem parte das ferramentas do mal de grandes grupos económicos – os perversos. da direita ou da esquerda. subtilmente e graciosamente ajudam a colorir o voto de acordo com os seus interesses – ainda recentemente tivemos a eleição do trump e bolsonaro – o mundo ocidental trabalhou e projetou a padronização da opinião e organizou-se em camadas totémicas circulares [formato cone. os mais poderosos na parte superior. o refugo na sua base]. planificou a liberdade minando-a e influenciando negativamente o pensamento. condicionando a evolução natural do homem – quem não se adaptar a esta pirâmide do horror está excluído do mundo dos afetos socias. das oportunidades de trabalho decentes. dos cuidados de saúde. da alimentação. da habitação e da educação – criamos uma sociedade de homens envergonhados. o mundo das margens. da ostracização. da incompreensão. das comunidades dos porquês silenciosos – e por mais perguntas que se faça não há resposta para que mais de oitenta por cento da riqueza do mundo permaneça nas mãos de apenas um por cento da população – as sociedades ocidentais contemporâneas. capitalistas na sua estrutura neoliberal. globalizada. roubou o sonho do homem. escravizou-o. encarcerou-o no consumismo – o homem contemporâneo nasce dentro da prisão que os seus pais ajudaram a construir – resignado. subserviente. amedrontado. respira para sobreviver e sobrevive pela fé – o homem revolucionário que anseia viver a verdadeira liberdade numa comunidade justa. igualitária e fraterna. procura o que deveria ser seu por direito: a felicidade nas relações socias e no seu trabalho como fator de integração e crescimento para vir a ser o que realmente é este homem resiliente é constantemente contrariado por grupos económicos imorais. obscenos. desonestos. cruéis. cínicos. que vivem sem regras ou então. vivem com as regras que criam – esta gente transformou o mundo numa selva nojenta [nem sempre foi assim. nem todos os homens são nojentos e nem todo o progresso existiu para se tornar nojento] – o sucesso do homem é calculado pelo lucro que gera e a prepotência física e moral a única ferramenta usada para atingir esse resultado – esta sociedade vai ao limite da imoralidade para conseguir o que pretende e a ética e os princípios a ela associados: a justiça. a dignidade. a honestidade. a integridade. a honra. a igualdade. o respeito pelos outros. a liberdade. a fraternidade. são constantemente espezinhados e sempre que estes valores são espezinhados o homem perde a sua dignidade e não há homens felizes sem dignidade – kant. na fundamentação da metafísica dos costumes defendia que as pessoas deveriam ser tratadas como um fim em si mesmas. e não como um meio – só um homem iluminado será capaz de se emancipar das normas ultrajantes impostas por nações também ultrajantes. de se reinventar. de revolucionar os povos oprimidos e recuperar de vez a sua liberdade. tendo por pilar a ética da responsabilidade – está na hora de recuperar a carta universal dos deveres e obrigações dos seres humanos de saramago e obrigar as nações a implementá-la e respeitá-la definitivamente – a vida humana só vale a pena ser vivida se for alicerçada na declaração dos direitos do homem – é hora de voltar a falar de valores coletivos e perceber que o mundo dos homens e a sua coesão social está abalada. está triste. desgastado. sem ferramentas para se revoltar – sem reinventarmos os valores coletivos nunca haverá uma nova ordem universal – precisamos urgentemente desta nova ordem. precisamos mais do que nunca do inconformismo e do evolucionismo do homem. acabar com a tirania de alguns e recomeçar com o que sobra do homem bom. justo e fraterno – é o momento certo para nos inspirarmo-nos no passado. nas grandes revoluções: na revolução francesa; na revolução americana; na revolução liderada por martin luther king que levou à revogação das leis racistas; no maio 68. um movimento estudantil que levou ao fim de posturas conservadoras e a melhores condições de trabalho; na revolução das mulheres que em 1945. através da carta das nações unidas. declara a igualdade de direitos entre homens e mulheres; no fim do apartheid em 1994. liderado por nelson mandela. impuseram o fim de um regime racista na áfrica do sul; e mais recentemente a primavera árabe. um movimento de protesto e revoltas populares contra regimes ditatoriais do mundo árabe e que levou à queda de vários governos e regimes – bem sei que nem todos os países têm um zeca afonso e também sei que sem zeca não há grândola vila morena e sem grândola vila morena não é fácil fazer marchar o povo. a fraternidade. a igualdade. a dignidade e a liberdade – para mudar o mundo é preciso um pensamento. uma estrada e um amigo – tudo o resto acontece como sempre acontece quando os homens se juntam por bem – lembrar para sempre o nosso 25 de abril – só temos uma arma: o voto – sou um cravo de abril e nunca falhei uma ida às urnas. nunca fiquei em casa. nunca ninguém ma dirá que por minha culpa. o partido A ou B. chegou ao poder apenas porque me deu a preguiça ou desisti de lutar e acreditar – hoje voto mais uma vez – tantas vezes o cântaro vai à fonte que um dia nasce um zeca. um zeca do mundo inteiro. e a sua música. desta vez. fará marchar todas os homens para um novo mundo: mais paz. mais fraternidade. mais igualdade e mais justiça



o coração onde os sonhos nascem






um estudo científico que concluiu que caminhar ajuda a regular a circulação sanguínea no cérebro – acredito que seja verdade. acredito mesmo que assim seja. por isso é que não paro de caminhar dentro de mim. não posso correr o risco de o meu cérebro colapsar e deixar de sonhar – os meus sonhos nascem todos no coração. depois. são bombeados em circuito fechado até ao cérebro – com a ajuda dos neurónios. descodifico-os na linguagem afetiva. a linguagem dos abraços – ainda dizem que o coração é apenas um músculo. que palermice – o que seria de mim sem a generosidade do coração para fabricar sonhos – sinceramente não sei – todos os sonhos começam por me desequilibrar. depois.  devolvem-me o equilíbrio feito de uma irracionalidade que não sei escrever – sou invadido por uma esperança que não morre. uma fé absurda de que tudo há de correr bem. perco o medo. as estrelas reorganizam-se no céu e escrevem o meu nome com milhões de poeiras incandescentes – e ali fico. envenenado de doçura. a olhar o céu como se todo o espaço sideral fosse meu – deslumbro-me – penduro-me nas letras e baloiço entre o que sonho ser. e o que realmente sou – gostava de ter coragem para esquecer o corpo e viver para sempre neste movimento afetivo – fecho os olhos ainda com mais força e não falo. não quero acordar. não quero voltar ao mundo das cicatrizes – aqui… aqui sei que sou feliz – tal como disse mário quintana. sonhar é acordar-se para dentro – quando acordo para dentro fico abrasivo. inquieto. movediço e apetece-me nunca mais regressar à verdade. apetece-me escorraçar-me do tempo que não anda para trás. e chorar. chorar sem parar – não posso ter vergonha de chorar. e se as lágrimas me caírem nas mãos… talvez possa refrescar as fontes. dar de beber aos sonhos. ou atirá-las ao ar e fazer chuva. ensopar os lençóis. ou a roupa do corpo se estiver no colo da minha mãe – molhámo-nos os dois e o abraço disse tudo – como só os silêncios entre mãe e filho sabem dizer – não quero deixar de sonhar. não quero que o abraço termine. não quero que o mundo acabe dentro de mim – preciso de sonhar para viver – sento-me. encosto-me a um pulmão que me abriga. puxo os joelhos para o tronco. aperto-os até que a vontade de chorar desapareça e entrego-me ao silêncio – é no silêncio que reparo os danos de viver com os olhos abertos – abro os braços e voo até à montanha mais alta do mundo. atiro-me ao vento como fazem as gaivotas. e voo. voo como só voam as pessoas felizes. sem medo. numa liberdade de arrepiar. por lugares que só existem quando os sonhos nascem no coração – quem tem coragem de não gostar deste mundo redondo. azul. com mares. com alma. sol e sal?! – eu adoro sonhar neste mundo – com o pôr-do-sol sento-me na lua e vejo as luzes da minha cidade acender uma a uma. e percebo que dentro de cada casa há corações a fabricar sonhos como o meu – nesta cidade que me deu o nome. a minha casa é apenas um pontinho do tamanho de um alfinete – também sou do tamanho dos alfinetes. sempre fui do tamanho dos alfinetes – nasci assim – só os sonhos é que são enormes. às vezes… são tão gigantes que até acabam por me magoar – mas não importa. não sonhar é o prelúdio da morte – quando não estou a sonhar nunca esqueço o meu mundo. o mundo redondo. azul. com mares. sol e sal. e mesmo em exaustão emocional. sei que será sempre o mundo onde nasci. e também sei que só neste mundo é possível fechar os olhos e sonhar – é o meu passado que me faz acreditar nos sonhos – sempre que a noite chega abraço-me para que o coração nunca se esqueça que vivo de sonhos – gosto de sonhar e gosto do meu coração – é a sonhar que permito ao futuro encontrar-me – “é o sonho que comanda a minha vida”



12/05/2019

deambulações noturnas XXXVII



pintura - thomas arvid 


quando o carácter de um homem fica privado de educação e graciosidade o mais certo é morrer de uma overdose de estupidez - e mesmo que sobreviva. as sequelas serão irreversíveis e permanentes



08/05/2019

para ti






no fim da noite

quando já nada existe para além de nós

e o teu corpo

repousa em sonhos que não vejo

sorrateiramente

pergunto aos olhos que dormem:

ainda estás apaixonada?

 

e ali fico

alimentando o silêncio

como se a doçura do teu respirar me fosse oferecida

e pergunto-me:

o que sei de ti que o coração não saiba

nada meu amor

guardei-te para sempre

no homem que geraste

 

e aqui fico

[preso à infinitude de ti em mim]

num consolo calmo  e sossegado

a sentir o mistério do amor

percorrendo-te

como se fosses o derradeiro pecado

numa inocência

esmagada de paixão

 

e quando o meu tempo na terra terminar

que sejam os teus olhos

os últimos a ver

e as tuas mãos as últimas a ameigar

porque tu

serás sempre o único mundo

onde realmente existi

  


[3 de março de 1980. começámos com um beijo - passaram trinta e nove anos e o beijo ainda não acabou]

 

02/05/2019

a grandeza de um poeta reflexivo


imagem google


último pensamento da noite:

mais vale ser rico. ter saúde e escrever boa prosa. do que ser pobre. estar doente e juntar erros a dispartes numa prosa miserável