maior amigo é o silêncio da noite – digo-lhe o que não diria a mais ninguém. e
ele ouve-me como só os verdadeiros amigos sabem fazer
31/07/2017
deambulações noturnas XXI
24/07/2017
amo-te porque existes dentro de mim
apenas uma
pequena nota sobre a celebração dos meus trinta e três anos de casado – o
casamento é um compromisso de amor entre duas pessoas que juram cuidar uma da
outra até que a morte os separe – tudo o que sobra deriva desta única premissa: o amor – mas para os homens é muito
mais do que um compromisso [quase sempre] selado aos olhos de deus. é essencialmente a libertação em
definitivo da volubilidade jovem. da imaturidade. do egoísmo. da impetuosidade e
da irresponsabilidade – essa libertação trouxe-me a segurança das noites que. com o seu efeito lento e repetitivo. me ensinaram a crescer numa cumplicidade
graciosa – nunca mais parei de crescer.
tu também – prometi amar-te um dia de cada vez. assim fiz – ao fim do dia.
depois de o sol se esconder. os
lençóis abriram-se sempre em seda.
os chinelos descansam aos pares à entrada dos sonhos partilhados – nunca
tivemos medo do tempo. envelhecemos a saber sempre tanto um do outro – fecho os
olhos. dou-te a mão e levo-te ao dia
em que tudo começou e recapitulo o meu sim:
sim. aceito esta mulher na alegria e
na tristeza. na saúde e na doença. em todos os dias da nossa vida – nunca
mais aquela igreja viu uma noiva tão bonita – acasalamos os olhos na eternidade. depois. ansiosos. unimos as
mãos e trocamos um beijo que é todo feito de gratidão e entregamo-nos um ao outro sem medo de nenhuma palavra – os nossos
filhos são a nossa graça e testemunhas de que os dias voaram – o amor
ensinou-nos a viver numa cumplicidade feita também de aceitação – não me canso
de te pedir perdão mesmo que tantas vezes as minhas palavras fiquem por dizer –
são mais de doze mil noites – amo-te porque existes dentro de mim
12/07/2017
deambulações noturnas XX
frequentemente o pensamento veste-se
de mendigo – arrogante. o ego. fixa-se apenas nos botões de ouro em camisa de
seda – engano tremendo – tantas vezes. por baixo dos farrapos. esconde-se a
alma de um poeta privado de papel para cobrir a sua escrita em noites de aprumo
literário
03/07/2017
no meu peito já não cabem gaivotas* 1 - 2
1. a
morte física ou da personalidade
a morte física de um corpo – declara-se o óbito
quando é devidamente comprovada a inexistência de sinais vitais no corpo
humano. isto é. a total falência dos seus órgãos e a ausência completa de
atividade cerebral – o médico-legista declara o término da vida. apontando as
possíveis causas do óbito e permitindo deste modo o desaparecimento do corpo
para sempre do mundo sensível
2. a
morte emocional
aponto o meu foco para uma morte menos dolorosa.
menos repentina. uma morte que vai acontecendo aos poucos. quase sempre em
passo de tartaruga. tão lenta que o sistema de alerta cerebral acaba ludibriado
pelo seu vagar: a morte emocional – esta. sem que na maior parte das vezes a
ciência saiba explicar. acontece quando as defesas do corpo. num conluio
terrorista. consentem no descarnamento da sua rede de neurónios. expondo assim a
sua intimidade a uma censura coletiva. insensível e muitas vezes injusta –
dá-se então o curto-circuito. o cérebro atrofia. o corpo estremece de medo. de
seguida estremece de um frio que é mais do que gelo. é um imobilismo aterrador
perante o desconhecido – o corpo humano revela na sua plenitude a sua
fragilidade – só há uma forma de se proteger. imolar-se na indiferença.
esquivar-se ao raciocínio e esconder-se no abismo dos silêncios que carrega – e
ali fica. parado. quase sem respirar para enganar as chispas que agora lhe escorrem
dos olhos em forma de apatia letal – se hoje o mundo ruir este corpo já não lhe
pertence – tudo que lhe sobrevive resiste num cosmos desocupado de emoção – do
passado só reconhece o barulho. sempre impertinente. como se o mundo andasse
numa fona irracional. noite e dia. sem descanso. arrastado por um pêndulo
ritmado pela indiferença. a marcar os dias num desinteresse total pela
quietação – e o que ainda sobrevive à derrocada sentimental é agora tratado com
doses maciças de um químico afetivo. fertilizado no útero de uma mulher mais
pura do que o céu – resistir é agora a única mensagem emitida por si e apenas
para si – mas a sua vontade já não chega – o corpo por dentro contorce-se numa
desordem incontrolável. uma tempestade impossível de acalmar. enquanto por
fora. a ressaca é um turbilhão de imagens que já não quer compreender – tudo o
que compreende o lhe fere a alma – não se quer compreender os livros. a
religião. a família. o amor. a compaixão. a vida. os amigos. a razão pela qual
se nasce ou pela qual se demora tanto tempo a morrer fisicamente – no caos da
morte emocional já não é possível acontecer uma nova ordem. um novo recomeço.
um novo ciclo de vida imaginado. traçado ou idealizado – corpo e mente
degradam-se numa responsabilidade repartida. uma guerra sem vencedor em que
cada uma das partes responsabiliza a outra pela falência emocional – cai por
terra a regra da sobrevivência do mais adaptado – o corpo perde o medo da dor
enquanto o cérebro perde a vontade de chorar. e assim. se esvaia de forma
definitiva as frugais probabilidades de um regresso à lucidez – enquanto a
memória se apaga seletivamente o silêncio vai-se alastrando ao corpo todo – o
mundo já não é mensagem – já nada traz movimento. as mãos recusam brigar
enquanto os pés se recusam caminhar – apaga-se as origens para não a
envergonhar. apaga-se o amigo para não o magoar. apaga-se a felicidade para não
trazer saudade. apaga-se a ambição para evitar o erro. apaga-se o futuro porque
só o presente existe. apaga-se a fé porque deus é um mito. e por fim. apaga-se
a luz para que ninguém nos veja no escuro – louvar a vida é uma provocação ao
destino que pode terminar a qualquer momento tragicamente. basta que o mal
vença o bem uma única vez – o mundo é um vício que nos pode matar de uma
overdose – levanto os olhos abatidos e transformo o vinho em água. desmultiplico
o pão. elimino a confiança e digo-lhe apontando para o céu: quem me seguir
entrará no reino do inferno e viverá na dor para toda a eternidade – o silêncio
pinga agora uma única pergunta: porque eu? – não há resposta – e todos os
mortos emocionais perguntam o mesmo e a resposta é desespero: salve-se quem
puder porque cada cabeça terá a sua sentença – fecham-se as portas por fora.
correm-se as janelas para a escuridão e entrega-se o corpo à tortura até que a
coragem se sobreponha à mágoa – é obrigatório expiar o erro – sofre corpo.
sofre corpo porque só a dor torna o homem superior – um corpo doente acredita
em tudo – mas para que interessa tudo isto se o corpo está a morrer de apatia –
não interessa. não importa. não vale a pena – o corpo que morre emocionalmente
ignora os estímulos humanistas. os valores morais. a justiça. a liberdade. a
fraternidade. a solidariedade. o amor pelo próximo. mas acima de tudo o amor
por si próprio – este corpo. desfalecido e esgotado. é forçado a refugiar-se em
zonas escuras. proibidas. suicidas. onde prolifera a autocomiseração – uma
viagem ao centro de uma dor inesgotável. indomável. selvática. impiedosa.
acabando por se perder numa espiral de tragédias. de desastres e de fatalidades
que raramente permitem a sua reutilização para uma nova vida – com a morte
emocional perde-se tudo. até a dignidade – este mundo mata pela mentira. promete
a todos o que só pode conceder a alguns – termino com uma frase do mia couto:
“quem vive num labirinto, tem fome de caminhos”
- a terceira parte do texto será dedicada à
morte terapêutica
- *título extraído do livro de nuno camarneiro
– no meu peito não cabem pássaros
11/06/2017
o que resta de nós: um tratado sobre a desilusão
1.
quando
a desilusão se chama amigo – num tempo de interrogações amargurei. depois. em dificuldade. dei
uma oportunidade à lucidez que acabou por emergir num exercício prático de
libertação do homem – nietzsche afirma que o homem livre é um guerreiro – não
sendo guerreiro. mas em liberdade
absoluta. resolvi então escrever um
tratado simplificado de uma amizade magoada – bem sei que quem espera desespera. eu desesperei – mas as palavras
acabaram por chegar no seu vagar.
tal e qual como me foi chegando a vida cinzenta – tudo foi acontecendo numa demora
estranha. tomada por uma nostalgia gasta
pelo tempo – dei então início à minha busca:
encontrei-me nas origens. nas causas. nas motivações. na ambição. na
imbecilidade e regressei ao ponto de encontro apenas para me deparar novamente com
o desencontro – sei agora o que quero dizer numa escrita que desejo clara mesmo
que a causa não me dignifique – perder um amigo é sempre uma culpa dividida – descobri
a serenidade e despojei-me da alma para me encontrar mais de perto com a verdade. assumi a mortalidade e pedi a têmis
que me ajudasse a derrotar o erro e a escrever a justeza numa consciência
iluminada – encontrar a minha verdade depurada da imperfeição é fundamental – sei
que será sempre uma verdade minha e que muito bem pode não ser a de mais
ninguém – com o corpo em braços avaliar-me-ei pelo conhecimento num processo autocrítico: colocar-me no centro da humanidade. avaliar escolhas. questionar processos. aceitar
e compreender o erro. reconhecer a
individualidade e por fim. com a verdade
purificada. combater e derrotar a
desilusão como uma das mais violentas formas de enfraquecimento e eliminação da
estabilidade emocional – afinal. toda a desilusão não passa de um pedaço
de terra desabitado. uma porta
fechada que esconde apenas um quarto vazio
2.
decompôs-me em
segmentos finíssimos de lucidez. e à
velocidade de uma bala atingi o desencanto – corpo e mente aceitam a deceção
num estado de alma de acolhimento cristão:
perdoa-lhe que não sabe o que faz – estamos os dois perdoados. eu por te fazer existir num pedaço de
terra que acabou desabitado. e tu por
me trazeres enganado num abraço que acabou por nada abraçar – juro que não
sabia que os abraços se perdiam como o vento – mas não há forma de nos esvairmos
da condição humana que tragicamente carrega em si o erro. numa contagem de tempo sempre provisória – a imperfeição do homem
é uma das razões da sua diversidade – sei agora que o corpo se partiu em
milésimos de segundo. onde antes estávamos
juntos. agora. ficámos separados. marginalizámo-nos
nas razões. as mãos desuniram-se
violentamente. tu lavaste-as como
pilatos. enquanto eu. envergonhado. enterrei-as na fundura dos bolsos – de seguida dividimos as
palavras. tu recuperaste as tuas e
eu quebrei as minhas para nunca mais as usar – há palavras que nunca deveriam
ter nascido – ficamos os dois dentro de um quarto vazio. numa porta que se fechou quase sem fazer barulho – quando te
virei as costas trouxe toda a raiva do mundo no corpo. explodi numa dor que me atravessou todos os anos da vida. num arrependimento alucinogénio. culpei o mundo. de seguida culpei as pessoas do meu mundo. depois a rua onde crescemos.
o passeio onde jogávamos à bola. o
jogo da estátua. as caricas. e aquele candeeiro que se apagava
sempre que lhe dávamos um pontapé – eu é
que devia ter levado esse pontapé. afinal
a minha casa ficava numa rua a descer mas eu sempre a quis subir. teimoso – a dor cortou-me os pulsos
dias sem conta. e eu sem saber como conter
a raiva. e um murro na parede. e outro na mesa. e um ralhete a um deus que sempre me pareceu surdo – houve um
tempo em que tu e eu acreditávamos nesse nosso deus. ele morava na mesma
religião. na mesma pregação. na mesma prática do bem: “a lei de deus é justa e boa – “quem
obedece à lei de deus faz o bem e ama as pessoas” – nós prometemos-lhe praticar
o bem. amar as pessoas. não mentir e honrar os amigos – a humilhação
serrava-me a alma num barulho que me enlouquecia – tu não me honraste. mentiste-me com palavras que prometemos
nunca usar – esqueceste-te do combinado com deus. esqueceste-te de mim e esqueceste-te de tudo o que era meu – fiquei
só. perdi-me do corpo. do que o meu pai me ensinou. da compaixão. do perdão. fiquei sem
uma única palavra que me trouxesse de volta a casa – no corpo só cabia agora
raiva e interrogações – o que fazer aos aniversários em que me desejaste muitos
anos numa vida feliz? o que fazer aos natais sem aquele abraço-tradição? o que
fazer ao teu número de telefone? o que dizer aos amigos? como viver separados
por um muro de cólera? – a amizade verdadeira é uma forma de amor incondicional – durante muito tempo andei desaparecido de mim. não me reconhecia. estranhava o corpo. os
seus desejos. os medos e o que a memória desejava pela noite
perdia-se na manhã – banir-te da minha humanidade não era tarefa fácil – magoei-me
com tudo o que tinha à mão. atirei-me
para dentro de palavras que me torturassem até que a dor se transformasse numa
raiva tão escura que nunca mais fosse possível encontrar-te pelo nome – mutilei-me
com a confiança. sangrei honra. chorei humilhação. despedi-me da esperança e o que era amizade foi substituído por
luto – quando um amigo nos morre nas mãos é para sempre – sempre amei os meus
amigos – mas a tua morte resistia aos meus dias. nunca foi bom a mentir nem a matar a saudade: um café partilhado. uma
conversa urbana. uma miúda cobiçada. um automóvel da mesma marca a caminho
da tua casa. um nome geminado. e estas duplicações a dizerem-me que a
tua partida foi um equívoco do tempo.
uma noite mal dormida. um pesadelo horrendo
depois de uma farra de copos – uma armadilha para a amizade – quis
acreditar que um guronzan e uma dietinha de arroz branco me trariam de volta os
dias como sempre foram – ao nascimento do sol recuperaria a luz da confiança. eu voltaria a aceitar-me tal e qual
como sou. e tu tornavas a aparecer dentro
daquele sorriso que nunca te deixou crescer – mas não. afinal o luto é muito mais que roupa negra. é o corpo negro.
pisado. enraivecido numa acidez que
me faz arder num inferno que não foi desejado por mim – não aguentei. atirei-te de um penhasco para o mar e
nunca mais procurei o teu corpo – este meu luto durou um tempo que nunca quis
aprender a contar – quanto mais tempo tivesses desaparecido mais prazo tinha
para escapar do abismo – com os dias a passar tudo foi sendo substituído por
silêncio. um silêncio que não é dor. não é raiva. não é azia. é uma saudade
que nos enfeitiça e liberta serenamente.
sem que nada possamos fazer. as memórias
que obstinadamente escondemos – esta saudade dói. dói pela distância.
dói porque os dois fomos um e agora somos ausência – não
há forma de controlar esta saudade.
simplesmente aparece. devagar
devagarinho e o corpo tomado por um marasmo sereno. tranquilo. silencioso. sem arrependimento – à boca são roubadas
todas as palavras que magoam. enquanto
as mãos se espreguiçam delicadamente – é importante não amedrontar o dia
seguinte – o tempo em silêncio assustou-as.
envergonhadas esconderam-se no escuro dos bolsos que. em boa verdade. não as
escondiam de nada – e o dia seguinte a exigir uma renovada aliança com a fé. as nuvens a correr para sul. sem pressa. enquanto um novo arco-íris adorna o céu num colorido de cores
quentes – o sol rompe pelo corpo. as
sombras desfalecem no passado. e o
coração retoma os batimentos numa alegria que é hino – beethoven – os olhos renovam-se. florescem em campos inesperados campos
de flores: bem-me-quer. mal-me-quer. bem-me-quer e o vento a soprar de fininho. manso. quente.
de norte para sul. a envolver o erro
numa carícia de indulto – o corpo recupera a inocência numa calmaria que já não
anuncia mau tempo. finalmente – invadido
por uma trégua delicada recuo ao passado.
à pureza dos ideais. todos por um. um por todos. deito a cabeça a uma árvore.
tapo os olhos. e conto até mais de cinquenta. depois. desenfreadamente. volto
a correr pela vida. voltamos a jogar
à bola. ao deita fora. e celebramos vitórias sem ganhar
coisa nenhuma – sorrimos. somos puros. e o mundo também – para haver um
mundo impuro é necessário haver gente impura – não havia. nesse tempo tudo era perfeito – juntamos a família às celebrações. os amigos também. festejamos o meu aniversário e de seguida o teu que acontecia
sempre um dia depois do de meu pai – estamos em
agosto. nunca senti frio em agosto. era um mês especial. não havia tristeza. nem solidão. nem saudade. nem medo. nem injustiça. nada. só havia sol. luz. muita luz e uma vontade enorme de a trazer para dentro do corpo –
um dia o meu pai deixou de festejar a vida.
e o agosto quase desapareceu. passaste
a existir só tu num mês moribundo. mas
também quiseste partir. deixaste de
festejar a amizade e o agosto esfriou para sempre – eu gelei – juntei então tudo
que era teu num dia depois de agosto.
acrescentei-lhe os abraços. os
sorrisos. as promessas. as juras. as palavras que nos tornaram amigos. os natais. principalmente
aqueles em que me levavas a casa um abraço quente de verão. a tua bondade e aquela tua vontade única de partilhares a vida
com afeição – nós amávamos o natal – prometo que este ano escreverei a verdadeira
história do meu pai natal – quero guardar o melhor de ti – devo-te isso – há dividas que só se pagam com afetos – um homem
grato faz o mundo muito mais bonito – nunca te deixei de ser agradecido nem
mesmo no dia em que te atirei para o fim do mundo – o corpo ainda dói. sempre que o sol se esconde o corpo dói. e eu sem entender como lidar com uma
dor que não quero que continue dor – e ali fico eu preso às horas da noite num emudecimento
que me enlouquece – não é fácil perder o que se pensa ser eternal – o tempo
passa e o teu corpo teima em reaparecer – aceitei o desafio – passaste a viver numa
dimensão que não sabia existir: estás
longe. mas ao meu lado – és memória – reinventei para ti outro corpo. outros olhos. outros gestos. outro
modo de andar e um outro sorriso. desocupei-te
as mãos dos bolsos. tornei-os mais
largos e mais fundos para te caber toda a cobiça do mundo. e dei-te um lugar na
terra rodeado de gente por todos os lados – ficaste mais parecido com todos
aqueles que não conheço. mais banal. menos divinizado. passaste a ser apenas mais um homem que envelhece no meu tempo –
só os amigos não envelhecem – mas tu envelheceste
num instante – afinal também já tens cabelos brancos. tens o corpo mais tombado para a frente. as unhas cada vez mais ruídas e o sorriso que te fazia criança
está agora muito mais cansado. adulto. indiferente ao mundo. ao teu e ao meu – sem esse sorriso
deixei de reconhecer aquele rapazinho franzino. magricela. sempre a
correr desenfreadamente à frente da sua própria bicicleta. numa velocidade estonteante.
louca. de um lado para o outro – só
estavas bem onde não estavas – e assim ficaste para o resto da vida. sempre gostastes de estar em todo
lado sem nunca estar em nenhum – escondi-te do erro. fingi que os amigos nunca falham e fui-te perdendo devagarinho
para não me magoar – ultimamente já quase não falávamos. perdeste a fala. aprendeste
a pisar. humilhar e fazias gosto em
o mostrar – refugiei-me no tempo – quando gostamos de alguém. somos capazes de
jurar que o mundo não é redondo – perdeste a juventude. depois a inocência. as
leis do teu deus. não faças aos
outros o que não queres para ti.
perdeste a coragem. as origens. escolhestes os mais fracos para te
tornares mais forte. ficaste injusto. prepotente. cego. egocêntrico. interesseiro e vaidoso. mais vaidoso que a sé de braga – passaste
a sentir-te bem com o mal dos outros –
tu não eras assim – por mais de mil vezes tentei dizer-te que estavas errado. que o sucesso não tem um só caminho –
essa personagem magoava-me. avisei-te
que mais tarde ou mais cedo a vida te iria cobrar. o teu deus não dorme – a
justiça tarda. mas não falha –
não foi assim que te conheci – não me deste ouvidos. perdeste-os com a ambição e não foste capaz de tirar os olhos do
papel e da montblanc – tiveste medo de me olhar nos olhos – desisti esperando. não há mal que sempre dure nem bem
que nunca acabe – mas enganei-me. o
tempo não te curou. pelo contrário. aprendeste a mentir sobre ti e. sobretudo. sobre os outros – um homem mentiroso
não vale nada – abandonei o diminutivo no teu nome e passei a chamar-te pelo
nome que todos te dão – eu também perdi o meu diminutivo – descobri que a vida
é muitas vezes ingrata. aprendi a
resignar-me. nem sempre a luta leva
à glória – mas também descobri que não
te quero como inimigo. um amigo só
necessita de um cantinho no coração para existir. um inimigo precisa do corpo todo – não te darei o meu corpo. nasci sem inimigos e também morrerei
sem eles – abri então uma porta que não dava para um quarto vazio. deixei entrar o que sobreviveu de
melhor dos dois. abracei-te com tudo
o que me magoou. e chorei. chorei até que as lágrimas me
enchessem as mãos de ti. expulsei-te
da raiva e voltei à vida. fechei a
porta. dei dois passos em frente. parei. e não voltei a olhar para trás – parti – jurei nunca mais te
voltar a ver
3.
há
momentos dos quais nunca te conseguirei apagar. momentos em que teria feito por ti tudo o que me pedisses – um
homem honrado não pode esquecer o bem que lhe fizeram – e eu nunca o esqueço – sempre
te fui leal – e o que foi um caminho de afetos é agora um corpo encalhado numa montanha
de palavras inúteis – quando estou só. já não sou capaz de falar contigo – aquele
pedaço de terra desabitado perdeu a cor do céu. as gaivotas abrigaram-se do sal e as flores murcharam com os
restos da primavera. não sobreviveram
à desilusão – gostava de lhes ter perguntado se a minha vida seria diferente se
tivesse nascido noutra rua – mas não há uma única flor que me possa responder –
morrerei sem saber – um homem quando perde os sonhos. fica só. afunda-se no corpo à procura do que já
não existe e acaba por se magoar com a ilusão de que ainda pode modificar o
passado – não pode. por mais que
volte a sonhar. o desfecho será sempre dor – o que está feito. feito está – há dois momentos que marcam a nossa vida. o primeiro ocorre com o nascimento. aparece sem que nada possamos fazer
para o evitar. nascemos e pronto. toca a respirar para sobreviver – o
segundo momento é aquele que se torna certo para quem tem a ousadia de nascer: a morte – não pode ser evitada. mas
pode ser dignificada. para isso.
basta que no dia da partida. leves um sorriso na face – ainda há gente que o
leva – procuro agora o meu sorriso.
um que me recompense por todos os sonhos que ficaram por realizar – ainda não o
encontrei. mas sei que anda algures por este mundo – desencontrado? sim. culpa minha. creio eu – estou cansado.
as noites esgotam-me. os olhos não se
fecham. deito-me sobre o corpo e ali
fico de olhos abertos até que o cansaço me atire para a antecâmara da morte: o desespero – quero muito acreditar
que há sempre uma razão maior para o que nos acontece de menos bom na vida – neste
momento sobreviver é um desafio tremendo – sinto o corpo a pedir dignidade. estou sem fé. e sem um único sorriso para
me poder despedir – bato à porta do meu deus de criança e pergunto-lhe se ainda
há lugar na sua cruz para crucificar uma amizade – não me responde. nunca me respondeu coisa nenhuma – tento
agora aceitar-me nesta infindável dor da perda – aceito em mim a
inevitabilidade da desilusão e preparo o corpo para conhecer o seu último
sorriso – o meu lugar está guardado no pedaço de terra desabitado
4.
ainda não
te consegui perdoar. mas tento todos
os dias – não sei se algum dia conseguirei – creio que não. já não há tempo – envelheci
07/06/2017
deambulações noturnas XIX
um amigo precisa apenas de um
cantinho no coração para existir. um inimigo ocupa o corpo inteiro
02/06/2017
deambulações noturnas XVIII
e lá
continuo eu com: o que resta de nós: um tratado sobre a desilusão – deixei de
contar as noites. perdi a soma das horas. do desespero. da raiva. e do medo de
não encontrar a palavra exata para que a verdade não se perca na distorção – a
minha arte vive unicamente do esforço – confesso-vos que. na maior parte das
noites. acabei por me perder dentro de mim – reencontrar-me é uma prova da
minha justeza – não é fácil dar voz aos afetos perdidos – cada linha deste
tratado sobrevive à custa de cem linhas rasuradas. e todas levaram um pouco de
mim – também eu me apaguei para sobreviver – sofrerei até à linha final – tem
de ser. eu mereço. e merecem-no os que continuam a gostar – ou a acreditar – em
mim
deambulações noturnas XVII
e assim continuo eu. com o que resta de nós: um tratado
sobre a desilusão – chego às 6 da
manhã. escondendo o sono atrás de cada
palavra escrita – ousadamente escrevo noite após noite este tratado que vale
mais do que um abraço que se perdeu para sempre – afinal. tudo o que é
desilusão não passa de um pedaço de terra desabitado. uma porta fechada que guarda
apenas um quarto vazio – nenhum corpo merece uma dor que é perda. independentemente
dos defeitos cometidos ou desfeitos
24/05/2017
a antecâmara da noite
já não há forma de me reencontrar na noite – perdi-me
por completo. de um lado eu. do outro também eu - e os dois eus cada vez mais cúmplices
- se um diz mata. o outro não ousa dizer não mates. se um diz basta. o outro responde
que o basta tarda. se um diz coragem. o outro grita muita. se um não diz nada.
o outro encolhe-se no nada - afinal o silêncio é a antecâmara da morte - nos
meus eus. há apenas uns quantos pássaros a chilrear numa alegoria que
desconheço. sobrevivo nos intervalos do que me resta da janela - talvez o sol
nasça apenas para quem o canta em esperança - eu continuo preso às minhas
lâmpadas de baixo consumo. numa fé moribunda. incapaz de emitir qualquer som que
desperte a manhã com um sorriso – falta-me um abraço e um segredo ao ouvido que
convença a noite a não ser eterna
18/05/2017
deambulações noturnas XVI
15/05/2017
vânia – afinal. deus mora nos nossos quintais
com coragem
aqui estou em palavras para enobrecer a tua amizade – chegou o momento de te
dizer o quanto foram e são importantes as tuas palavras-estímulo ao longo desta
minha aventura prosista – ser prosista nunca é fácil –– retribuo então esse teu
carinho com o talento que me sobra nestas mãos que te querem bem. sei que não será muito. serão apenas umas quantas palavras. algumas velhas. gastas. puídas. outras sem nexo que. de tão
desajustadas do corpo. caem dos bolsos –
dobrei uma em forma de triângulo.
um triângulo perfeito. com os
ângulos todos iguais. e coloquei-a
no bolso da frente do casaco a imitar um lenço de seda – um homem quer-se
arranjado quando está prestes a oferecer o seu bem mais precioso: a palavra – gosto de palavras. sempre gostei. servem para coisas inacreditáveis. e quando bem usadas.
podem fazer de nós pessoas fantásticas.
às vezes até imortais – quando escrevemos ficamos guardados no tempo para
sempre – com as palavras posso fazer quase tudo. escrever o nome de quem gosto.
matar as saudades. escrever cartas
de amizade. escrever poemas de amor
ou de raiva. e outras que por serem
tão complexas só os poetas as entendem.
posso também dizer que o mundo é mais bonito contigo. e dizer com toda a impiedade que uma palavra pode comportar: gosto de ti – gosto de ti assim. gosto de ti como te descubro nos meus
olhos. como quando me chegas em
silêncio. ou como te escuto no
interior da tua poesia. e também
gosto de ti na forma como me olhas naquela foto em que te colocas de lado para
o mundo – ainda bem que existes – sabes que gosto de escrever. e quando começo a escrever não paro. fico com a sensação de que nunca digo
o suficiente. insegurança creio eu. ou então falta de jeito. sei que não tenho muito. às vezes nem percebo porque escrevo. fico sempre com tanto medo de não compreender
verdadeiramente o valor de cada palavra.
quando erramos ao escrever. é para sempre.
as palavras não se trocam. nem as
podemos pedir de volta. depois de
escritas pertencem para sempre à vida – como também são para a vida todas
aquelas mensagens que trocamos na calada da noite. tu envias um olá. eu
respondo com um bonequinho a sorrir.
tu envias uma palavra. eu devolvo a
tua com mais duas minhas. e assim. começa o encantamento poético. e as palavras a escreverem-se como se
tivessem uma força desconhecida.
como se os deuses do olimpo nos tomassem conta das mãos e nos dissessem: escrevam. sejam feliz – e assim ficamos a dar brilho às estrelas enquanto a
noite. calmamente. se despe para dar lugar à realidade – gosto de
saber que estás por aí nesse teu quintal – escrevo-te porque não sei falar. porque não confio nas palavras que me
saem da boca. saem-me sempre muito
depressa. impercebíveis. e tão confusas que se acabam por perder
no mundo-solidão – pouco sei desse mundo-solidão. gosto mais do nosso. o
das palavras escritas que partilhamos com gosto. numa arte que nos abraça e que poucos entendem – quem escreve
cresce todos os dias dentro de si – nós fizemos crescer uma amizade – mas para
que serve isto tudo que estou a dizer se não for capaz de escrever uma palavra
nova para te oferecer – não serve para nada – escreverei então alguma coisa que
te traga em braços por esse distante mundo oceânico. onde tu. desse lado. ficaste presa. e eu. deste lado. em castigo – arrumo as montanhas para
um lado e sento-te ao pé de um campo de magnólias. estamos na primavera.
corre por nós um perfume dourado-sol.
suave. suave-inocência – seguro as águas dos rios. detenho as nuvens. silencio
todos os pássaros no ar. e arrumo o
vento morno dentro de um poema que compus para pessoas especiais – há agora um silêncio
celestial à espera de escutar a tua poesia – arranjas o cabelo. as poetisas querem-se bonitas. ajeitas o corpo que eu conheço. sacodes as mãos do tempo pérfido. e por último. dás uma olhadinha no espelho da vida. é lá que nasce toda a poesia do mundo. a tua também – e ali fico a ouvir-te até que o tempo se esgote e
os poemas se transformem em ficção – voltas então para o teu quintal. e eu fico a colher magnólias em campos
de palavras – afinal. “deus mora nos nossos quintais”
para
a vânia lopez – um comentário faz muitas vezes a diferença – obrigado por cada dia em que me ajudaste a escrever
e a enfrentar os meus medos
10/05/2017
águas de papel
09/05/2017
o corpo não morre todo à mesma hora
1. o
homem
um dia percebemos
que o corpo já não é portador de uma consciência una. íntegra e lúcida – divina
ou não. esta consciência. ao longo do tempo. foi obrigada a reordenar-se em
fações temporais. numa existência quase sempre mutilada. imperfeita e fraturada
– consciência é sinónimo de homem. da sua intimidade. de honra. de bondade. de
vergonha. da sua inteligência. da perceção do que fez. do que ainda pode fazer.
e da capacidade de criar novos estímulos para se reconstruir do erro – por último. e com base no que escreverei mais adiante. a
consciência permite pensar a morte – decido vê-la como a última fatalidade ou “libertação
total”. como escreve mário quintana – esta
verdade sobre a consciência altera todos os nossos relógios biológicos. o que
era importante. já não é – o que era para amar. fica para esquecer – o que era
coragem. transfigurou-se em covardia – e o que era para eterno. é agora para um
dia destes – chegou o momento de aplicar as rotinas de sobrevivência. tentar
equilibrar o que se desequilibrou – na sua intimidade – inviolável
por tão profunda –
constrói-se o homem. aquele que levamos ao mundo das sensações. em doses controladas.
prescritas por um ego que se alimenta do próprio saber. numa realidade
partilhada que se fragmenta entre o que se sente. e o que se autoriza a mostrar
– entre a dor. e o lugar exato onde consentimos que ela seja vista – entre a fé
corrompida. e a versão tolerável da nossa queda – assim chegamos a
um corpo mergulhado num infinito de soluções. tantas quantos pensamentos. e o
cérebro. sempre a trabalhar. para lhe dar uma razão para a sua existência – a
vida é uma partida de poker onde quem tem a melhor mão nem sempre leva a
vitória – neste baralho da vida ninguém fica de fora – e aqui estou eu. com as
cartas que escolhi. num jogo partilhado com o meu pequeno mundo. sem bluff.
numa única mão. sem rei. sem duque. sem nada que me convença de que ainda devo
continuar a procurar a sorte – azar. digo eu. tiveste até muita sorte. dizem
outros. indiferença. para outros tantos – todos certos. todos errados. e todos
acreditam guardar em si todo o conhecimento do universo. juram saber exatamente
o que cada corpo sente. e outros juram que não sentem porque não querem sentir
– e há ainda os que dizem que só se sente porque se quer sentir – tudo certo.
tudo errado. e tudo viciado em consciências interpessoais incompletas – o que é
para um homem não é para mais nenhum. cada homem é único no seu nome. como
escreve mia couto: “cada homem é uma raça” – dentro do corpo. num
emaranhado de contradições. existimos nós. em balanços intermináveis. em juízos
castigadores. em punições exemplares. em remorsos eternos. em arrependimentos
cortantes. em aflição que desespera. e a inteligência emocional a reparar os
excessos com ética para que a consciência moral resista por mais um dia
2. a
morte
o corpo morre
aos bocados. em agonia. num falecimento silencioso. num desmembramento
selvagem. é a morte em doses que nos mata por estágios da alma: hoje perdemos
um sorriso. amanhã um abraço. depois um amigo. e mais outro. e ainda outro. até
que se perde o céu. as nuvens. o destino. as gaivotas param de voar. e tudo
caminha lentamente para um estado terminal consentido. num silêncio tão
profundo que. paradoxalmente. assassina o ruído da consciência afetiva –
aceita-se a resignação. aceita-se o fim – abrimos a janela. mas já não há
brisa. apenas uma acalmia necrófaga. os abutres normalizados transmitem uma
dimensão reduzida ao tempo – a morte paira no ar – aprendemos a escapar ao medo.
e aos poucos. sem que o corpo tenha compreendido. resignamo-nos à
inevitabilidade do desfecho: a morte como libertação do pensamento – afinal nem
tudo foi assim tão mau – a escuridão engole o sol. a determinação. a coragem. a
lucidez. o discernimento deixa de resistir à nostalgia – o sol também se apaga
quando o corpo desiste – chega um cansaço de estátua. e ali ficamos parados.
hirtos. gelados. como se a morte quisesse provar que estar morto é imobilidade.
é silêncio. é uma espiral de renúncia assombrada pelo fim de um ciclo – e.
segundo a segundo. esvai-se mais um trago da vida em aflição – no meio de
quatro paredes. o corpo aceita finalmente o seu fim numa humanidade serena –
deixo de falar e o silêncio toma o lugar de companhia. tudo acontece sem voz.
tudo se desenrola em pensamento. às vezes num maquiavelismo revoltoso. em grito
desesperado. raivoso. impiedoso. assassino. e tudo o que resta de mim pelo
chão. a rastejar. a contar os cantos das paredes. enquanto os pulmões ardem em
dióxido de carbono – respiro fundo – as súplicas são agora deslumbramentos que
se atrapalham no cérebro em busca de uma porta de emergência – não há portas de
emergência. foram-se fechando sem que o racional desse conta – nada pode sair
de dentro para fora. ninguém pode saber que se está a desistir – e morre uma
perna. e o corpo afunda-se na cadeira que já não é acessório. mas urgência. uma
necessidade para iludir gente sã – contraio-me. encolho-me. embrulho-me numa posição
fetal. a cabeça nos joelhos e as mãos num emaranhado de coisas. coisas que o
corpo estendeu ao mundo. e que eu não sei devolver em palavras – aperto-me.
cerro os olhos. rasgo-me por dentro e nem uma gota de sangue. estou seco.
mumificado e sem forças para chamar por um nome que me acuda – penso: que isto
acabe de uma vez – e os que apareciam passam a aparecer menos. e aos poucos
acabam por falecer primeiro do que eu – finalmente só – sentar-me é tudo o que
me resta. sentado. sou enorme. sentado ninguém percebe que me estou a desfazer.
sentado não toco no chão. sentado tenho as mãos ao nível do coração. será este
o último a render-se à consciência – só as cobras rastejam pela imundice do
chão – e o corpo vai-se perdendo numa aceitação cristã – perde a vista porque
não há nada para recordar. perde os braços porque não quer ter saudade dos
abraços. perde a fala porque não quer que ninguém o ouça. perde os gestos para
que ninguém saiba que ainda não morreu por inteiro. e o que era simpatia
reconhecida. torna-se agora um fardo para enganar aqueles que nos querem ver no
passado – o coração ora arranca. ora começa a trazer aquilo que não quer que
seja verdade – sente-se medo. e pergunto-me se será deste modo que o corpo
desaparece todo à mesma hora – o coração continua a bater. e o sangue bombeado
soletra em agonia: tens que aguentar – a consciência ainda luta – e uma lágrima
pendurada no canto do olho brilha. carregada de saudade. de um dia de natal. de
um aniversário. de um abraço. de um amigo. da família. meu deus. sempre a
família – deus. se realmente existires perdoa-me – e sufoco as recordações. as
molduras. incendeio todas as fotos coloridas. apago a cor. e o rasto também –
sobrevive apenas o preto e branco – morre mais um pouco de resistência. e
depois de coragem. e a esperança já foi toda. e já só resta a vergonha. e a
maior parte do mundo sem entender nada sobre falecimentos – ninguém morre de
uma só vez – e o punhal em cima da mesa rasga em cortes limpos as cartas de
recomendação. uma a uma. e a vida resumida a uma única miséria: já acreditei.
já existi – enquanto o corpo não morre todo à mesma hora. o passado insiste em
assombrar o presente – o que resta do futuro arrasta-se entre abutres
26/04/2017
revolução da magnólia
guardei a vontade de escrever junto ao cravo
e procurei em mim por outra revolução que tornasse diferente – como não tenho
regaço. nem sou santo. nem me dou com santos. das mãos não me brotou nada que
me fizesse sair para a rua com uma magnólia ao peito – uma revolução de
magnólia faz nascer homens para um futuro brilhante – visto o pijama – na
cadeira. as calças vincadas. a camisa branca engomada. o casaco preto. as meias
pretas e as cuecas dobradas em quatro - em frente. um crucifixo recorda-me que
não há revoluções sem fé – rezo – peço perdão - espirro por um resfriado que
ainda nem apanhei – sento-me de costas para os símbolos da imortalidade e peço
uma nova vida noutra existência – desta estou esgotado – não quero levar nada
daqui além do meu computador. apenas as memórias más para não voltar a cair nos
mesmos erros – tudo o resto pode ser diferente... tudo. menos isso. quero a
mesma companheira
24/04/2017
noite de lua cheia
19/04/2017
pela noite dentro
o que vos
posso dizer de mim nesta madrugada – a folha. exausta de estar em branco –
arranco com as teclas – interrogo-me se haverá um momento certo para desistir
de um sonho – passei a noite inteira a batalhar nesta equação sem solução –
então comecei a escrever e. a cada palavra escrita. um livro emergia da memória
– “morgadinha dos canaviais”. “uma família inglesa”. “as pupilas do senhor
reitor”. foram os primeiros clássicos a emergir na memória – tinha doze anos –
apaixonei-me por júlio dinis e devorei todos os seus livros – eram histórias
incrivelmente bem escritas – cresci amarrado a elas – nos seus livros. mais do
que a nobreza das palavras. havia a nobreza das ações – não havia leitura que
não me trouxesse lágrimas aos olhos. e os lenços encharcados de um sentimento
que já não me habita: a esperança – o triunfo do bem sobre o mal. da lealdade
sobre a falsidade. da nobreza sobre as trevas – meu deus – como foi possível
ser tão feliz dentro de um livro – era uma criança adulta. os sonhos ocupavam
todo o meu corpo – olhava o futuro. com a certeza de que não iria deixar um
único sonho para trás – o tempo passou e cá estou eu. perdido em mais uma
noite. empacotando sonhos que deixei apodrecer – escrevo nestas noites que já
pertencem mais aos meus leitores do que a mim. já não tenho nada além de
memórias – muito do que sou devo a júlio dinis. mas enganou-me numa coisa
apenas: nem sempre o certo triunfa sobre o errado – que se lixe. continuo a
gostar dele na mesma
17/04/2017
dezassete de abril. primeiro minuto de uma segunda feira de páscoa
meia-noite.
primeiro minuto de uma segunda-feira de páscoa. primeiro dia da ressurreição de
cristo – dezassete de abril. meu aniversário –– o domingo abriu com foguetes. à
meia-noite. os clarões no céu iluminaram a entrada para o reino de deus – na
terra o povo trata do cabrito para festejar condignamente o encontro de cristo
com seu pai – atascado em especiarias e sem qualquer hipótese de ressurreição.
o carneiro entrega-se ao sacrifício. afinal. há festa rija entre os humanos –
agora só falta a visita do senhor para que as casas se purifiquem de pecado por
mais um ano – em cima da banca da cozinha o jornal abre-se à leitura. silvio
berlusconi não está com papas na língua:
por favor não matem os carneirinhos. pede o cavalheiro acariciando um exemplar
nos seus braços – por baixo. uma outra notícia contra-ataca: produtores de
carneirada insurgem-se contra o ex-primeiro ministro italiano: -- ganha juízo.
rapaz. quando andavas com miúdas menores. não tinhas olhos para carneiros – mas
o berlusconi não quer saber e ataca: os carneiros têm sentimentos – não sei se
também se referia a mim. eu também sou carneiro. também tenho sentimentos. nasci
em abril. a 17 de abril. o ano não interessa. mas acredito que esse ano não deu
boa casta. saiu carneirada meia louca. aquela que não desiste de acreditar em
histórias de merda: contínuo à
espera de um sinal de que cristo realmente chegou ao céu – sou aquele tipo de
carneirada com poucos miolos e excesso de fé – embrulhado numa saca de plástico
reciclável. a rosca do pão de ló feita com ovos caseiros. não endurece. o pão
de ló é como a vida. se não for fofinho não presta – eu estou duro. por isso sei
que um pão de ló duro não presta – estou tão duro que já não me consigo
ajoelhar para nada – mas este ano é diferente. cristo ressuscitou mesmo. nem
falo pelo que me resta de fé. falo pela quantidade de foguetes que estalaram no
céu – fico contente quando há festa no céu. o meu pai está por lá. onde há
festa ele está presente – deve andar às voltas de deus a dizer-lhe umas
verdades – ele gostava muito de mim. era um bom pai. não acredito que consiga
calar-se diante de certas injustiças – um dia vamo-nos sentar sem pressa a
falar de como a vida pode ser bonita quando se tem um coração bom – eu tento
ter. mas a vida. ás vezes. complica-me as artérias e fico com a ideia de que vão
rebentar. sistema nervoso – este ano vai ser mesmo diferente. cristo ergueu-se
do marasmo da morte e caminhou para o céu – o que me faz impressão é caminhar
descalço. a minha mãe sempre me disse para não andar assim. senão adoecia – mas
esta malta importante não lhe acontece nada – quem tem amigos não morre na
cadeia – não deve ter sido fácil levantar-se depois de ter sido dado morto para
o mundo – falo por mim. às vezes estou morto e não sei como me levantar. depois
lá me chega um amigo e diz: vamos tomar um café – quando é para tomar café.
ninguém me segura. falo e falo sem parar. falo com as mãos e com o corpo –
sempre gostei dos meus amigos. creio que é por ser carneiro de signo – às vezes
gostava de ter outro signo qualquer. um que me deixasse ser exatamente quem sou
– o carneiro não mente porque teme a mentira – ser carneiro é ser sempre mais.
é estar onde nunca queremos estar. é viver o futuro duas vezes. é ser escravo
da palavra até morrer. é ser fiel a quem amamos. é chorar sem que ninguém
consiga entender uma única lágrima – a dor dos carneiros é feita por nós e para
nós – mas que se lixe a carneirada – uma multidão de fãs aguarda em ansiedade
que se cumpra realmente a profecia – eu também – estou fora de mim há mais de
cinquenta páscoas. à espera que cristo chegue ao reino de deus – olho para o
céu. oriento-me pelas estrelas. da maior para a menor e tento descortinar uma
ligação científica: juntando a
estrela A com a C e acrescentado a que está ao lado da cassiopeia. a 358zkx. retira-se
a lua que é muito romântica. acrescento-lhe vénus. uma pitada de amor dá sempre
jeito. e para terminar boto-lhe marte em guerra e o resultado é…zero – todos os
anos é zero o resultado da páscoa com cristo redentor – dezassete de abril.
segunda-feira de páscoa e a multidão regressa à normalidade – arruma-se os
temperos. as cadeiras voltam a recuperar o centro da mesa e o silêncio volta à
tristeza habitual – sento-me em frente aos restos do pão de ló e percebo que o
açúcar um dia vai dar cabo de mim – tenho medo da balança. tenho medo da idade.
tenho medo de me perder daquilo que ainda me mantêm inteiro – meia noite. um
beijo da minha companheira de sempre. de seguida um abraço e umas quantas
lágrimas a pedir perdão. encostamo-nos um ao outro e ali ficamos presos a um
olhar que nos faz amar e compreender. envergonhados. afinal sabemos tudo um do
outro. é ali que eu ressuscito diariamente para a vida – depois um filho
mostra-me que valeu a pena ter nascido: -- parabéns meu pai. e mais outro ao
telefone. e eu a sofrer uma dor de gratidão que magoa mais que uma má notícia.
um amigo do porto a chegar primeiro que muitos outros. uma amiga que não se
cansa de continuar a fazer-me bem. sempre a escrever sobre o que não sou. e
mais outro e por fim aqui fiquei neste silêncio das teclas a contar os anos da
forma que me lembro – há tantos anos que nem sei que existiram. que maldade. e os
amigos. tantos já sem nome. crueldade da memória. e os que partiram e que nunca
ressuscitaram. e outros que por não terem ainda morrido gostava de os ver
ressuscitados em mim – não podemos envelhecer encostados a nenhuma faca –
cristo não ressuscitou. mas eu vou continuar a ressuscitar todos os dias –
ninguém merece aniversariar quando não está bem
- obrigado a todos aqueles que
se cruzam com amizade neste dia sempre especial e complicado
13/04/2017
se um dia todas as noites
se um
dia todas as noites se tornassem dia. talvez eu me cansasse de escrever como
escrevo. com esta letra escura. negra. feita de desassossego. pendurada numa
luz que se escoa entre palavras moribundas – aqui estou eu numa noite que não é
dia. num dia que nunca deixará de ser noite. e tudo a balançar entre o
divino e o pecado – já não sei rezar à noite. talvez tenha perdido a oração ou
talvez a vida. todos os momentos são agora um precipício – esta noite sou o que
sempre fui. sou saudade que carrego de uma rua que me chama de volta – um dia
voltarei ao mundo revestido de dias sem noites. com luz que nunca se apaga. com
uma lua que nunca dorme. com uma cama que nunca sufoca – um dia serei
louco. farei de cada letra um farol para náufragos do papel à deriva em noites
de negrume – um dia serei eu própria luz. e as noites nunca mais serão longe. o
amor será próximo. e o corpo um pequeno universo – noite escura. negra de
carvão. negra de almas pecadoras. negra como se não fosse uma cor de deus. e eu
um infiel condenado – este negro da noite sufoca-me de solidão. sei que um dia
perderei o que ainda me resta desta pequena luz – se um dia todas as noites se tornassem
dia. eu não aguentaria
deixo-te um beijo
olho
para ti. amor
e
sinto o nunca:
nunca
poderia viver sem ti
talvez
era uma vez:
era
uma vez uma princesa
de
cabelos dourados
e
na menina dos teus olhos
leio
um desejo:
a
loucura de me amar
se
fosse poeta
talvez
te escrevesse:
uma
canção
mas
não sou
sou
apenas o teu amor:
ainda
louco por te tocar
crescemos
tanto os dois
eu
envelheci
mas
tu…
tu…ficaste
mais bonita
eu.
talvez mais homem
tu…mais
brilhante
eu.
mais cego com o teu brilho
crescemos
tanto. amor
e
tu continuas tão bonita
sempre
me sobraram os abraços
um
dia vou conseguir
trazer-te
toda para dentro de mim
e
dizer-te baixinho
que
te amo mais hoje do que ontem
deixo-te
um beijo















