amarrei na armadura que
guardo por detrás dos dentes. tirei os olhos para fora. despenteei o cabelo
para me parecer um pouco selvagem. e berrei tão alto que. no eco desse grito. meu
amor interior se despedaçou – foi naquele instante. quando vi partir a cobiça. que
algo em mim se quebrou para sempre – não sou mais o homem que fui – estas
primeiras chuvas de outono. que chegam em setembro. amolecem-me – para quê este
berro se o silêncio o captura – bem sei que berro para dentro. enquanto os
olhos fugiram para um mundo que eu não gosto. marcharam para uma floresta que
já não existe. e ali ficaram perdidos para sempre no nada – em tempos. as manhãs.
eram uma corrida divertida em busca do farol. um rumo iluminado – que saudável
era ter a certeza de que um dia seria o que quisesse. até talvez dono de um
império intelectual – o negro. nascido e criado por mim. sobrevive todos os
dias com o acordar da noite. pintando o luar de medo e sonhos adiados – é
quando mando as mãos trémulas para o espaço e procuro-me sentado na lua. converso
comigo à distância. e antes do sol me trazer à realidade. mergulho para casa
convencido de que é minha obrigação continuar a trabalhar-me. mesmo sendo feito
de osso de dinossauro – o tempo passa. as dúvidas brotam sem saber como as
guardei. e morro de medo amarrado a mim – e assim fiquei até hoje. feito em
medo. e sempre que o corpo falece. procuro uma poça de suor de cavalo-marinho
para renascer – a violência. por mais estranha que pareça. desperta algo
profundo em quem fala consigo mesmo – ela rasga o silêncio – o cavalo-marinho.
com um assobio na boca. interrompe esse momento e chama a atenção de todos os idiotas:
cuidado idiota. não tarda nada estás velho. olha o que te digo neste assobiar de
alerta: mantém o velho fora da porta ou acabarás por apodrecer antes de faleceres
– a minha resposta recorre a um quadro de vincent van gogh. com o seu quadro campo
de trigo com corvos – e interrogo-me: está o mestre a pensar no trigo e os
corvos servem de adorno. ou o contrário. o foco principal são os corvos e o
trigo surge apenas porque em frente à janela do seu quarto há um campo de trigo?
é exatamente o que acontece com a minha vida. meu coração é um campo de trigo. onde
os corvos zombam do tempo – o vazio cresce à medida que o relógio se arrasta e o
nada cada vez mais nada – quero continuar a acreditar que apesar do caos
interno. ainda insisto em acreditar que. no fundo. a terra e o ar são apenas
ornamentos de algo maior – eu preciso encontrar um propósito. mesmo quando tudo
ao meu redor parece perder o sentido – para mim. o quadro de van gogh é a
perfeita representação da minha vida: um reflexo sombrio de desesperança onde.
apesar de tudo. os corvos continuam a desafiar o vazio com os seus voos – quando
a esperança me abandona. é o coração que fica a bater. sem saber o porquê. talvez
seja vício. ou apenas uma necessidade de desafiar a própria dor. quem sabe
contrariar-me. mas o que sei e sinto. é que bate devagar. talvez para compensar
o nada instalado – no ventríloquo direito. ligado à mente onde ainda guardo
alguma esperança. as gaivotas dançam livremente no mar e no vento. como se
fosse a última dança – no ventríloquo esquerdo. ligado à mente onde guardo os
corvos amarrados à terra. zombam prisioneiros de suas próprias sombras – a
dividir os ventríloquos um abutre chegado do corno de áfrica. traz como merenda
um pedaço de gazela que se tinha cansado de correr – o abutre. mestre da
desordem. é o único que conhece o destino da carne caída. e no meio do caos. mantém
a ordem – a morte também alimenta a vida – para ele não importa quem faleça. se
o idiota ou o mestre. vive da morte. até da morte da esperança – a gaivota que um
dia foi livre já não voa mais. agora. ela observa. imóvel lê um livro de jorge
reis-sá. busca um sentido para a sua própria prisão. anotando em glossas o
passar do tempo do idiota e do mestre. ela sabe que os segredos desembrulham-se
no fim – os corvos amputaram as asas e mergulharam no campo de trigo.
suicidaram-se com a falta de imaginação – para uma história triste. um final
triste: todos morreram de morte natural. reflexo do abandono da esperança – o
idiota. cego pela sua busca incessante da liberdade. saltou do seu penhasco. acreditando
que finalmente podia voar – talvez o único a buscar algo. mesmo que essa
procura o levasse à morte – dezembro é já aí
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
22/09/2010
dezembro é já aí
van gogh - homem sem esperança
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