.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

22/09/2010

dezembro é já aí





van gogh - homem sem esperança




amarrei na armadura que guardo por detrás dos dentes. tirei os olhos para fora. despenteei o cabelo para me parecer um pouco selvagem. e berrei tão alto que. no eco desse grito. meu amor interior se despedaçou – foi naquele instante. quando vi partir a cobiça. que algo em mim se quebrou para sempre – não sou mais o homem que fui – estas primeiras chuvas de outono. que chegam em setembro. amolecem-me – para quê este berro se o silêncio o captura – bem sei que berro para dentro. enquanto os olhos fugiram para um mundo que eu não gosto. marcharam para uma floresta que já não existe. e ali ficaram perdidos para sempre no nada – em tempos. as manhãs. eram uma corrida divertida em busca do farol. um rumo iluminado – que saudável era ter a certeza de que um dia seria o que quisesse. até talvez dono de um império intelectual – o negro. nascido e criado por mim. sobrevive todos os dias com o acordar da noite. pintando o luar de medo e sonhos adiados – é quando mando as mãos trémulas para o espaço e procuro-me sentado na lua. converso comigo à distância. e antes do sol me trazer à realidade. mergulho para casa convencido de que é minha obrigação continuar a trabalhar-me. mesmo sendo feito de osso de dinossauro – o tempo passa. as dúvidas brotam sem saber como as guardei. e morro de medo amarrado a mim – e assim fiquei até hoje. feito em medo. e sempre que o corpo falece. procuro uma poça de suor de cavalo-marinho para renascer – a violência. por mais estranha que pareça. desperta algo profundo em quem fala consigo mesmo – ela rasga o silêncio – o cavalo-marinho. com um assobio na boca. interrompe esse momento e chama a atenção de todos os idiotas: cuidado idiota. não tarda nada estás velho. olha o que te digo neste assobiar de alerta: mantém o velho fora da porta ou acabarás por apodrecer antes de faleceres – a minha resposta recorre a um quadro de vincent van gogh. com o seu quadro campo de trigo com corvos – e interrogo-me: está o mestre a pensar no trigo e os corvos servem de adorno. ou o contrário. o foco principal são os corvos e o trigo surge apenas porque em frente à janela do seu quarto há um campo de trigo? é exatamente o que acontece com a minha vida. meu coração é um campo de trigo. onde os corvos zombam do tempo – o vazio cresce à medida que o relógio se arrasta e o nada cada vez mais nada – quero continuar a acreditar que apesar do caos interno. ainda insisto em acreditar que. no fundo. a terra e o ar são apenas ornamentos de algo maior – eu preciso encontrar um propósito. mesmo quando tudo ao meu redor parece perder o sentido – para mim. o quadro de van gogh é a perfeita representação da minha vida: um reflexo sombrio de desesperança onde. apesar de tudo. os corvos continuam a desafiar o vazio com os seus voos – quando a esperança me abandona. é o coração que fica a bater. sem saber o porquê. talvez seja vício. ou apenas uma necessidade de desafiar a própria dor. quem sabe contrariar-me. mas o que sei e sinto. é que bate devagar. talvez para compensar o nada instalado – no ventríloquo direito. ligado à mente onde ainda guardo alguma esperança. as gaivotas dançam livremente no mar e no vento. como se fosse a última dança – no ventríloquo esquerdo. ligado à mente onde guardo os corvos amarrados à terra. zombam prisioneiros de suas próprias sombras – a dividir os ventríloquos um abutre chegado do corno de áfrica. traz como merenda um pedaço de gazela que se tinha cansado de correr – o abutre. mestre da desordem. é o único que conhece o destino da carne caída. e no meio do caos. mantém a ordem – a morte também alimenta a vida – para ele não importa quem faleça. se o idiota ou o mestre. vive da morte. até da morte da esperança – a gaivota que um dia foi livre já não voa mais. agora. ela observa. imóvel lê um livro de jorge reis-sá. busca um sentido para a sua própria prisão. anotando em glossas o passar do tempo do idiota e do mestre. ela sabe que os segredos desembrulham-se no fim – os corvos amputaram as asas e mergulharam no campo de trigo. suicidaram-se com a falta de imaginação – para uma história triste. um final triste: todos morreram de morte natural. reflexo do abandono da esperança – o idiota. cego pela sua busca incessante da liberdade. saltou do seu penhasco. acreditando que finalmente podia voar – talvez o único a buscar algo. mesmo que essa procura o levasse à morte – dezembro é já aí




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