.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

16/09/2010

sem rosto







tentei falar com uma gaivota – ela voava em círculos. riscando o céu. como se escrevesse a sua história invisível – parecia feliz – quis explicar-lhe que também eu descanso no seu mar. onde encontro algo de mim que não sei explicar. uma espécie de refúgio e cura ao mesmo tempo – ela respondeu-me não me respondendo. continuou a voar – ao não me responder. suponho quis dizer que também é mar – continuou a voar em círculos – eu também falo em círculos. talvez pudesse falar em linha reta. mas quem me ouviria? apenas as gaivotas. aquelas que vivem do outro lado do oceano – essas. como estas. voam dentro dos meus olhos. gostam do mar como eu. e é a voar que comunicam. escrevem com as asas novos caminhos – eu também só sei comunicar assim: voando. sozinho. sem nome. sem rosto e sem ontem – é no vazio do voo que encontro tempo para dizer as coisas que nunca foram ditas – olho para as mãos e choro. há nelas tanta palavra nua. resistindo a um tempo que se tornou insuportavelmente longo para mim – quero escrever. quero dizer-vos o que sou. mas sem ver nos vossos olhos o reflexo da minha face. não quero ombros. já não quero descansar em palavras construídas para me proteger e abrigar – quero voar. a apenas escrever. escrever. escrever. quero voar com as minhas gaivotas. e dizer-vos que sampaio sou eu. aquele que escreve para preencher o vazio de uma voz que nunca encontrou som – sampaio sou eu: sem formas. sem roupa. sem caneta na mão – ainda tenho tanto para vos contar. necessito de voar livre – preso estou eu desde o dia que alguém me perguntou o nome. não sei o que respondi. talvez tenha dito: sou eu 




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