hoje.
com o último fio de luz que o sol teima em oferecer. descalçarei um sapato.
apenas um – não por capricho. mas porque mancar é a única forma de lembrar que
o desejo dói mais do que o chão áspero sob os pés – mancarei para gravar no
corpo esta vontade impossível de alcançar o que nunca será meu – e que a puta
da vida saiba: mesmo coxo. eu caminharei – porque mancar também é um ato de
coragem – sou doido varrido – este que escreve é doido. mas escreve – escrevo
qualquer coisa. qualquer loucura. palavras gordas. anoréticas. obsoletas. moribundas
ou em êxtase. o que é importante é que sejam palavras. mesmo que passadas para um
papel que nunca as quis – algumas tombam mortas. sufocadas pelos gritos que
carregam dentro de mim. enquanto outras agonizam até o último suspiro –não me
peçam piedade. não me peçam uma nova oportunidade – vocês. as palavras nobres. que
sempre dizem tudo com elegância. já ocuparam todos os papéis que fui capaz de
escrever – mas entanto. o muro da minha vergonha
ainda rejeita aquelas palavras do passado. feias. adúlteras e sem nexo. que
apenas sabem gritar para se fazerem ouvir – putas. não vos perdoarei – se para
mais nada servem. morrereis. não às minhas mãos. sereis espetadas pelo crayon
deste lápis que acabei de afiar – no fim. restará apenas a aguça que fez da
minha ferramenta a lança que vos trespassou – eu. louco sem saber porque.
meterei a mão na aguça até que nada reste de mim – ficarei tão fino. tão frágil.
que quebrarei com os primeiros frios de inverno – pois até a lança mais afiada
sucumbe ao seu próprio peso quando não há mais o que perfurar – e quem sabe.
dos estilhaços. nasça algo de novo
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
02/09/2010
putas de palavras
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