.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

17/09/2010

ó meu deus





ainda há quem acredite que eu tenho um nome – ó meu deus. para que precisam saber o meu nome. se habito uma caixa que só guarda o nada? o nada é a minha vida. meu refúgio – é neste vazio que procuro uma palavra que me possa salve. mesmo antiga. tristes. e abafada pelo tempo. livram-me do mal e das tentações – escondido em leituras e palavras protejo-me. só o vosso olhar penaliza a procura da redenção – bem sei que vocês serão sempre leitores. o que torna tudo mais difícil. existem também sem nome – como posso eu defender-me? se tal como eu também sois nada. só não vivem dentro de uma caixa – a escrita é uma arte de letras. capaz de assassinar um prosista ou. num instante elevá-lo ao patamar dos deuses. talvez esteja a ser um pouco exagerado. mas é no que quero acreditar – na escrita encontrei a única forma de  sobreviver à frustração. não importa se não tenho um dom divino. importa apenas transformar dor em palavras. e levar até ao papel todas as coisas belas que ainda acredito ter em mim – ó meu deus. como posso esconder-me do erro? talvez o destino me reserve uma cruz. como a de teu filho. onde serei pregado por ousar usar as mãos para reescrever o mundo e desafiar os poetas que se autoproclamaram deuses – agora tenho as mãos a correr à frente dos olhos. e descubro que o nada não existe. eu vivo nas palavras. e é por elas que serei julgado. e como sócrates aceitarei a cicuta com as mãos trémulas. a minha condenação é a minha verdade – ó meu deus. e agora que faço às palavras que me sobraram? talvez eu as deposite num envelope aberto. sem remetente nem destino. marcado apenas com as iniciais: sr. encantador de palavras. perdido. mas ainda à procura de redenção – o que sei. é que morrerei sem saber o dia em que nasci. talvez em mil novecentos e carqueja. logo após aprender as vogais – fui embalado em páginas de júlio dinis. batizado com versos de eugénio de andrade e o anjo da guarda ao peito para me proteger dos males invisíveis – assim cresci. entre palavras e sonhos. até que um lápis tomou forma em minhas mãos. tornando-se a minha espada contra o silêncio – e quando a alma doía. e as palavras me abandonavam. recitava eugénio como quem encontra redenção. segurando o destino na ponta de uma única palavra


Escrevo

Escrevo já com a noite
em casa. Escrevo
sobre a manhã em que escutava
o rumor da cal ou do lume,
e eras tu somente
a dizer o meu nome.
Escrevo para levar à boca
o sabor da primeira
boca que beijei a tremer.
Escrevo para subir
às fontes.
E voltar a nascer.

 

ó meu deus. e agora. quando as mãos forem julgadas pelos eruditos – não podes manter-te em silêncio. tu sabes as minhas motivações para escrever. serás o único que me podes castigar ou perdoar da minha falta de arte – ó meu deus. nesta fome insaciável de escrever. esqueci-me de rezar – agora. perdido nas palavras. procuro nelas a oração que a minha mãe me ensinou:

 

anjo da guarda

minha companhia

guardai a minha alma

de noite e de dia




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