deito os olhos ao chão. sempre o faço quando
tenho pudor das imagens que o meu passado me devolve – o eco – este eco nunca
termina. há sempre um ontem a nascer hoje – enlouqueço. amarro o corpo a uma
tábua de espinhos. preciso de me distrair com a dor. cerro os olhos. os braços
já não chegam aos ouvidos. e da boca resta apenas a gengiva magoada de tanto mastigar
as palavras que regurgitam – pouco resta de mim nestes dias de ecos. é como se.
a cada nascer do ontem. um pedaço de mim fosse roubado – agora. os braços
caíram de vez. fiquei com dois cotos presos aos ombros moribundos – eles. tal
como eu. teimam em cair para a frente
arrastados pela memória – lembro-me ainda dos braços que nasceram comigo.
chegavam ao chão. eram grandes. cheguei a plantar jardins. regava-os com o suor
que me caía da esperança – certo dia. uma papoila apanhou-me num momento de desabafo.
puxou-me suavemente. abraçou-me com as suas pétalas frágeis e choramos juntos.
num silêncio profundo. e naquele instante tornámo-nos inseparáveis – amigos para
sempre – nunca mais lhe falei. encostava-me ao seu caule a contar os dias que
ainda me faltavam para morrer – perdeu a cor – morreu uma semana depois –
ensinou-me que para se sobreviver necessitamos de ter esperança – enterrei-a
virada para sul. onde o sol nunca se esconde. e as gaivotas dançam em ventos
contra-alísios – cobria-a com terra. a ela e também a mim. senti-me vazio. mas
também mais próximo de entender que a esperança não morre – ela e eu encontraremos
esperança onde quer que estejamos – ainda hoje visito a minha casa de família. é
aqui. entre paredes. que guardo memórias. encontro descanso. é aqui também que percebo que estou vivo – ainda sou eu. ainda
me falo – agora conto os dias que vivi desde a sua morte – talvez na crueldade
dos números encontre esperança – talvez um dia lhe conte uma história: era uma
vez um homem que procurava a vida plena – continuo a procurar a vida. sei que sou.
mas ainda quero ser mais
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