.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

13/09/2010

eco








deito os olhos ao chão. sempre o faço quando tenho pudor das imagens que o meu passado me devolve – o eco – este eco nunca termina. há sempre um ontem a nascer hoje – enlouqueço. amarro o corpo a uma tábua de espinhos. preciso de me distrair com a dor. cerro os olhos. os braços já não chegam aos ouvidos. e da boca resta apenas a gengiva magoada de tanto mastigar as palavras que regurgitam – pouco resta de mim nestes dias de ecos. é como se. a cada nascer do ontem. um pedaço de mim fosse roubado – agora. os braços caíram de vez. fiquei com dois cotos presos aos ombros moribundos – eles. tal como eu. teimam em cair para a frente  arrastados pela memória – lembro-me ainda dos braços que nasceram comigo. chegavam ao chão. eram grandes. cheguei a plantar jardins. regava-os com o suor que me caía da esperança – certo dia. uma papoila apanhou-me num momento de desabafo. puxou-me suavemente. abraçou-me com as suas pétalas frágeis e choramos juntos. num silêncio profundo. e naquele instante tornámo-nos inseparáveis – amigos para sempre – nunca mais lhe falei. encostava-me ao seu caule a contar os dias que ainda me faltavam para morrer – perdeu a cor – morreu uma semana depois – ensinou-me que para se sobreviver necessitamos de ter esperança – enterrei-a virada para sul. onde o sol nunca se esconde. e as gaivotas dançam em ventos contra-alísios – cobria-a com terra. a ela e também a mim. senti-me vazio. mas também mais próximo de entender que a esperança não morre – ela e eu encontraremos esperança onde quer que estejamos – ainda hoje visito a minha casa de família. é aqui. entre paredes. que guardo memórias. encontro descanso. é aqui também que  percebo que estou vivo – ainda sou eu. ainda me falo – agora conto os dias que vivi desde a sua morte – talvez na crueldade dos números encontre esperança – talvez um dia lhe conte uma história: era uma vez um homem que procurava a vida plena – continuo a procurar a vida. sei que sou. mas ainda quero ser mais

 



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