.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

05/12/2011

esotérico



onik sahakian



dentro de mim há cada vez menos de mim. estou a ausentar-me – há momentos em que já não existo. já não estou. não estou para nada – gosto desta palavra nada. sempre que a uso fico invisível. não me reconheço. e não reconheço os outros. talvez os outros me vejam. talvez identifiquem a minha face. a minha voz. os meus olhos. até aqueles gestos que se repetem por serem tão meus. pretérito – epilepsia emocional. espasmos. contração involuntária dos músculos. dos olhos. da boca. da mente. resta o ADN – o ADN tem uma particularidade única. reproduz com elegância a sinopse do seu corpo. mesmo quando o seu dono está ausente –  predominam os tiques. a boca a pender para o lado. as mãos transpiram. os olhos piscam mais de três vezes e depois aquela maneira de inclinar o corpo. como quem vacila. talvez até morrer – e os outros dizem: é ele. e eu digo: não sou eu porque eu nunca deixaria que os olhos fechassem. ou a língua sossegar – gosto dos músculos da face exaltados e do corpo firme. tão firme como as árvores que se perpetuam no chão com raízes de séculos – não reconheço ninguém porque não me reconheço a mim – aceno. sorrio. pulo. faço o pino. estendo a mão para um cumprimento de circunstância. entremeio com  duas dúzias de palavrões. e digo: prazer em conhecê-lo e. num ápice. torno-me parte do mundo. sou igual. porque ninguém sabe o que penso – quando penso. invisível ao mundo. das ruas apinhadas de gente. dos carros. dos relógios nas torres da igreja a bater por gente que já não é. das crianças com fome de um pão com marmelada. com sapatos desfeitos de subirem sempre a mesma rua esfomeados. dos mendigos. dos sem-abrigo. dos infelizes. de todos os infelizes deste mundo cruel – tudo isto é uma sala de espelhos onde o corpo gira com o retorno das imagens. umas vezes sou alto. outras baixo. outras apareço aos ésses. com as mãos no chão. e depois ainda há aquele outro espelho que divide o corpo em dois: do lado esquerdo a cabeça. e do lado direito o corpo distorcido da realidade – sou muitos e não sou nenhum. os espelhos possuem-me. não há forma de descobrir a verdade do corpo sem os estilhaçar. e quando se parte um espelho são sete anos de azar – talvez já não tenha tempo para gastar o tempo todo. isto para não dizer que azarento como sou o mais certo era partir o espelho onde o corpo guarda a memória – estilhaçado. perco tudo. os nomes de que gosto e os de que não gosto. as vozes que me adormecem e as que amarram à noite aos fantasmas. ao vento que corre pelas brechas mais exíguas do que sou. e até a minha gaivota cinzenta perderia o voo. não haveria dentro de mim espaço para asas abertas – talvez um dia possa fazer dos vidros estilhaçados um novo eu – em vidrinhos 



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