a notícia
presa às mãos de quem a vende em segunda mão com o rótulo de nova – fresquinha.
acabadinha de sair do forno. em primeira mão. última hora – e o pobre do homem.
com sorrisos guardados na algibeira. oferece-os aos compradores ávidos de saber
virgem – um vulto que cria a sua vida num círculo num círculo geométrico
imperfeito. perfeito só o seu crânio
circular. tão simétrico que parecia feito a compasso – dentro deste círculo.
tudo se organiza: olhos enormes. redondos. enfeitados por duas orelhas
elípticas. uma boca aberta. um buraco escuro onde as palavras nunca foram
pronunciadas – todos estes círculos estão presos a um tronco retangular.
contraste com o mundo esférico. cai na vertical. e só a boca sabe sorrir na
horizontal. sem pernas capazes de dar passos completos. gira. gira como as
bailarinas dentro de caixas de música. dançando ao som da música captado pelas
orelhas giratórias – sacode os braços. espalha as notícias perdidas no tempo.
transformadas em cortinas de ferro para evitar os maus olhados do exterior. sem
geometria. desbotadas pela luz. marginalizadas. voltam a ganhar vida com o
vento perdido dos seus gestos – é o mundo por detrás da notícia. e ela ali:
editada. estampada. estendida. estatelada. grávida de uma primeira página
virada para o incrédulo – vaidosa pelo tamanho da letra. proclama: sou notícia.
sou nova hoje. mas ontem. já me notícia – vendida em quiosques circulares. sem
princípio ou fim. grita para quem passa. oferecendo-se como se houvesse ainda
assunto para desvirginar. e o rompimento do hímen faz-se por um par de mãos
violentas. que desfolham páginas. manchando as pontas dos dedos de tinta preta
– revistas despontam entre páginas. a ganhar nova cor. agitam-se. oferecem-se
em galanteios que lembram valsas em salões nobres. de um czar fotografado na
intimidade – talvez seja desta que partam pelo mundo. talvez encontrem uns
olhos que as adotem ou um sorriso impresso no corpo que lhes deu vida – dentro
deste círculo geométrico imperfeito. há um escuro que não vem do luto. é o
prédio à frente do sol. ergueu-se de um dia para o outro. como as notícias. só
que o prédio ficou para sempre. e as notícias parecem caixeiros viajantes –
talvez nada disto seja real. este mundo não existe. as notícias não são
verdadeiras. e os homens que as vendem serão finalmente livres. os outros. os
que correm em busca da excentricidade numa folha de papel. é que talvez nunca
tenham existido – todas as notícias são circulares. como a vida. e até o tempo.
aos poucos. se tornou também ele circular – no expositor ponho e reponho a vida
dos outros. prendo-a por molas a arames velhos. que nunca substituo. esticados
no tempo. hirtos. fortes. capazes de aguentar qualquer notícia. qualquer dor.
sorriso ou esperança – o tempo dobrou-os. agora. já bombeiam a meio. estão cansados
do peso da vida que não suportam. dia após dia. ano após ano
– bom dia. o jornal notícias
e a bola
– são dois euros por favor
* citação de fernando pessoa
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