.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

08/12/2011

notícia de última hora





maluda




a notícia presa às mãos de quem a vende em segunda mão com o rótulo de novo – – fresquinha. acabadinha de sair do forno. em primeira mão. última hora – – e o pobre do homem. com sorrisos guardados na algibeira para oferecer aos compradores ávidos de saber virgem – este vulto. cria a sua vida num círculo geométrico imperfeito. perfeito só o seu crânio circular. tão perfeito que era capaz de jurar que tinha sido feito a compasso – dentro deste círculo. bem arranjado porque precisa de vender. uns olhos circulares enormes. enfeitados por duas orelhas circulares ainda mais enormes e uma boca circular. aberta é um buraco escuro. um futuro perdido de palavras que nunca foram pronunciadas – todos estes círculos estão seguros a um tronco rectangular. contraste no mundo circular. cai na vertical e só a boca sorri na horizontal. sem pernas capazes de dar passos completos. roda. roda como as bailarinas dentro de caixas. e dança com a música apanhada nas orelhas rotatórias – sacode os braços. e as notícias perdidas no tempo. transformadas em cortinas de ferro para evitar os maus olhares do mundo exterior sem geometria. desbotadas pela luz. fora de moda. marginalizadas. voltam a ganhar vida com o vento perdido dos braços – é o mundo por detrás da notícia. e ela ali: editada. estampada. estendida. estatelada. prenha de uma primeira página virada para o infinito – vaidosa pelo tamanho da letra diz: sou notícia. sou nova vida depois de já ter sido outra – vendida em quiosques circulares. sem princípio ou fim. grita para quem passa. oferecendo o que já foi possuído como se ainda houvesse assunto por desvirginar. e o rompimento do hímen feito por um par de mãos violentas a desfolhar notícias e as pontas dos dedos manchadas de tinta preta – despontam as pontas das revistas e estas a ganhar nova cor. agitam-se. oferecem-se em galanteios que mais parecem valsas dançadas em salões nobres de um qualquer czar que se deixou fotografar na intimidade para uma revista da fofoquice – talvez desta vez sempre partam pelo mundo. talvez encontrem uns olhos que as adoptem para sempre ou um sorriso fique gravado no corpo que lhe deu nova vida – dentro deste círculo geométrico imperfeito há um escuro que não vem do luto. é o prédio. está de fronte ao sol. apareceu de um dia para o outro – talvez nada disto seja real. este mundo não existe. as notícias não são verdadeiras e os homens que as vendem serão finalmente livres e os outros. aqueles que passam a correr é que não existem – todas as notícias são circulares como a vida. e até o tempo aos poucos ficou também ele circular. ponho e reponho a vida gasta dos outros em dias que se repetem. prendo-a por molas a arames que nunca substituo. estão comigo desde o primeiro dia. esticados em tempo. hirtos. fortes. capazes de aguentar qualquer notícia. qualquer dor. sorriso ou esperança. agora bombeiam a meio. estão cansados do peso da vida que já não suportam. dia após dia. ano após ano – um dia vou ter que os substituir. terá que ser um dia especial. tenho que estar forte. não posso perder mais nada do que preenche a minha vida circular. só me restam estes arames e as chaves que amarram a noite aos cadeados que fecha o círculo – estou vivo. vivo de notícias feitas em rotações de uma terra que não sabe que entre si e o cosmos há um eixo no meu imaginário. recto. e eu erecto. aprumado por uma bissectriz louca que trespassa o centro do círculo. acaba enterrada na terra onde guardo toda a esperança perdida pela vida que não vivi: – – bom dia. o jornal notícias e a bola. – – são dois euros por favor – – perdoem-me mas… “Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo”*

* citação de fernando pessoa



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