18/06/2011

cinemateca






cinema – tenho os olhos fixos na tela. as imagens desabam como pedras – do som nada sei. talvez seja um filme mudo. ou as bocas são barro cosido em tempo de silêncio fino – e o meu corpo ali. sentado. via tudo o que havia para ver – de frente vê-se sempre tudo. já não há passado. tudo está para a frente – não sei se há silêncio. só sei que há gente com os olhos postos lá à frente – nenhum corpo brilha. apagaram-se com as lâmpadas quando o filme deu cor à tela que momentos antes era branca – nada havia naquela tela. não havia vida. não havia esperança ou dor. havia branco. apenas um branco de pureza – naquela tela só há tempo para o futuro – rompe a fita. os corpos sentados desequilibram-se: uns tombam para a direita. outros para a esquerda. mas nenhum para a frente ou para trás. isso nunca. tudo o que está para trás já passou e para a frente ainda não chegou – o maquinista. sempre atento à vida dentro das fitas. sabe desde há muito tempo quais os momentos críticos de uma cena – emenda. corta de um lado um segundo e dois segundos do lado oposto. remenda. inventa um novo momento. um momento imperfeito para um filme que deveria ser sempre igual – mas o filme nunca mais será como antes – que são três segundos na vida de uma fita de cinema? os corpos voltam-se a centrar nas cadeiras. respiram fundo. e tudo volta ao normal – também é assim que unimos a vida quando não estamos no cinema. remendamos e seguimos. seguimos em frente. só assim se chega ao futuro – toda a gente olha em frente. silêncio – há agora na vida um milésimo de segundo que não encaixa noutro milésimo. um degrau quase impercetível – nunca ninguém caiu num degrau que nunca chegou a ser degrau – ninguém quer saber nada se nunca passou do nada. ou se é degrau e se tropeça. ou então não se é nada. como uma tela de cinema branca. um vazio absoluto – perdi-me. já não sei se falo da vida ou do filme. não parece importante. afinal todas as vidas são feitas de cortes e emendas – tudo prossegue. tudo passa. e neste corte imagino como tudo podia ser diferente se o corpo não nascesse com nome. não era preciso ouvir. ninguém dizia: sampaio estou aqui. sampaio como vai a tua vida. esta gente obrigatoriamente tinha de falar de boca aberta. e eu respondia também de boca aberta: está tudo mais ou menos. tenho uma pedra num rim. podia ser pior – já sabes o que aconteceu ao hernâni. deu-lhe o nó na tripa e foi desta para a melhor – dizem que era um cheiro que não se aguentava à sua beira. e não era falta de banho. que o joaquim cangalheiro nisso não falha. respeita os finados e a profissão. é muito melhor que o pai – estava todo apanhado por dentro com um malezinho – mas não. todos temos nome e neste filme até os artistas têm nome. as legendas passam levando nomes aparatosos. amorosos. apaixonados. percebe-se tudo pelos rostos e na forma como andam sempre para a frente – os gestos parecem desenhados. só gente apaixonada sabe dizer tanto sem abrir a boca. ou então é o mundo que está em silêncio e já todos falam de boca fechada – os corações suspiram e quando tudo parece perdido aparece o artista a ocupar a tela de lés a lés. não se vê branco. nenhum pedaço vazio de tela. só há artista – é um momento solene. dobra-se o silêncio em dois. tudo indica que desta vez só o som é capaz de resolver o mistério do amor. vai ter de falar. os segundos parecem horas e os olhos cada vez mais perto da plateia. estão enormes. todo o cinema é agora aqueles olhos. já não há espaço nem para dizer um olá – sem mexer um único músculo facial. agarra a apaixonada pela cintura e. sem que a inquietação pudesse surpreender os olhos arregalados da pobre rapariga. prega-lhe um beijo. daqueles que selam o silêncio para sempre – depois. sem que o tempo tenha tempo para continuar. a vida aparece: the end – há gestos que se repetem. os corpos contorcem-se como se fossem feitos de amor. queriam mais. queriam o som da voz a dizer: amo-te. amo-te para sempre. até que a morte nos separe – acabou – só os olhos disseram paixão. os olhos de um e de outro fecharam-se para sempre com o beijo – estou conformado. sempre foi assim. nos momentos mais belos os homens fecham os olhos e ficam em silêncio – depois. já com os corpos desenganados chegam as luzes. as lâmpadas ganham formas. e a vida corre na esperança de encontrar um beijo que também a obrigue a fechar os olhos para sempre – saem os cegos. os coxos. os manetas e os loucos. e todos aqueles que perdem a cabeça a cuidar de filmes onde os artistas mudos se repetem na vida sem tela. vida que consome o tempo presente dia após dia – ainda há lugares nas frisas com faces paradas. mas os rostos estão cada vez mais longe dos corpos – estou demasiado distante para entender o que as bocas dizem. mexem os lábios de uma forma descoordenada. os corpos vão para um lado e a voz fica ali sozinha à espera que algum corpo a queira ouvir – até queria ouvir. mas estou longe e não trouxe os ouvidos – é no cinema que gosto de passar despercebido – aqui nunca se fala





08/06/2011

clarice lispector









"Estou adiando o meu silêncio. A vida toda adiei o silêncio? mas agora, por desprezo pela palavra, talvez enfim eu possa voltar a falar"




Clarice Lispector - A Paixão Segundo G. H.



07/06/2011

as palavras que o silêncio guardou




  fernando montes - boliviano
   o pintor do silêncio


um silêncio que vive dentro de tudo o que penso – a boca serve para mastigar a fúria das palavras que não digo – nos dias em que o contrário de satisfeito me encontra. baixo a cabeça – por detrás do reflexo. a sopa. cada vez mais fria. cada vez mais incapaz de aquecer as palavras. sempre mornas – revolvo – há um vai e vem entre a moela que trabalha com grãos de sensatez e o céu que não encontro à boca – há um inferno – ainda tenho palavras para dizer – escrevo – um dia hei de morrer sufocado neste meu silêncio – há quem pense que digo tudo. não digo. o silêncio é sempre mais forte. e os homens sem ouvidos foram sempre muitos – talvez não saiba contar. talvez nem todos fossem homens – talvez – estou a apagar-me. quero apagar-me. os dentes. estes. aqueles. não mastigam o suficiente para acabar com o silêncio dos homens que invadem os dias. agora os dentes já não são apenas estes ou aqueles. são todos - há um passado com homens. tinham horas. minutos e até segundos. eram homens de todos os meus dias – há ainda um silêncio vivo. mas já não é aquele. nem este. é tudo. é tudo silêncio – ainda – um dia serão palavras

 

02/06/2011

o carpinteiro e o pássaro com rodas





crónica da pomba branca
quarto livro de crónicas


“ … Ignoro se sabem o que faço, julgo que têm uma ideia vaga. Há quem me trate por senhor Doutor e quem me trate por Sr. António. Prefiro senhor António: afinal de contas sou um carpinteiro…”

 

I.

não quero ser escritor – quero escrever. escrever como um carpinteiro – quero ser carpinteiro como diz o lobo antunes. quero escrever palavras com cheiro à resina. às colas. às pancadas do martelo. do serrote que vai e vem. do lápis que agarra à orelha todos os barulhos das palavras que aperfeiçoam o silêncio quando lidas – depois. depois deixo partir a arte de quem faz coisas com as mãos. onde compete o belo e o monstro – desta vez. talvez por encanto fugiu-me um pássaro pelos dedos. um pássaro gigantesco. com um bico pintado de sossego. no lugar dos olhos um arco-íris com mais de mil cores. as asas são tão grandes que nem lhes sei escrever o tamanho. sei apenas que estão presas a rodas e nunca param de esbracejar – são umas asas diferentes. esbracejam em silêncio sobre rodas que só andam para a frente – são mesmo diferentes estas asas. deixam-me confuso. nunca vi asas correrem ou voarem com rodas. não sei. não sei mesmo. nunca as vi voar só esbracejam. mas também não me parece que seja importante para o pássaro voar. nem para o carpinteiro vê-lo voar. há ali um acordo escondido que faz desta uma história diferente – as palavras continuam-me a cair em silêncio. largo-as do mais alto que as mãos alcançam. talvez não seja assim muito alto. penso eu que também sinto falta. quero acreditar que seja um pouco mais alto do que imagino. quero ouvi-las a cair aos pés. aos meus pés. mas não. não. pelo caminho transformam-se em água e no chão. onde mantenho os pés firmes. sorriem agora apenas lágrimas – nunca nenhuma palavra nascida dentro de mim fará barulho. quebrará este silêncio pedra. este silêncio dor. este silêncio que não voa. um silêncio que. por ser silêncio. ninguém ouve – percebo então que o pássaro que fugiu dos dedos. quando corre ou tenta voar procura apenas um novo silêncio. outro silêncio . um silêncio que nunca tenha sido magoado 

 

II.

este pássaro não sossega. para trás e para a frente. e a vida do carpinteiro parada. parada em silêncio – este pássaro é maluco. doido. idiota. tem asas. mas não quer voar. corre. como se correr significasse voar. nem lhe era necessário voar muito alto. bastava que voasse por cima de um livro. uma cadeira desocupada pelo momento. ou um quadro pendurado numa parede sem cor definida. geometricamente dividido. falo da tela. do sorriso da mona lisa feito por um artista que não podia morrer à fome. talvez eu também sinta falta de quem sorri. e quem sabe. digo eu ainda a pensar como se fosse um artista – depois de limpar os pincéis. atirou-se de uma ponte famosa de onde se atiravam artistas desiludidos – mas este pássaro não voava. talvez tivesse medo das alturas. e correr talvez o fizesse rir depois – não deixa de correr. corre preso àquelas rodas como se fosse livre da terra que o segura. talvez acredite na liberdade do homem-carpinteiro que o deixou escapar por entre os dedos – este carpinteiro é um homem com asas presas a rodas. dá vida à madeira. mas nunca consegue soltar-se dela. o pássaro que lhe fugiu das mãos é apenas um reflexo daquilo que ele próprio não consegue ser: livre. corre. esbraceja. mas nunca voa. tal como ele dá vida à madeira. entende de madeiras. madeiras simples de pinho. daquele que se encontra em qualquer lugar de madeira. podia perceber de pau-santo. sucupira ou outra qualquer madeira nobre. mas não. só conhece o pinho – tem uma bouça com giestas. silvas. amoras. azevinhos. cogumelos e pinheiros bravos. muitos pinheiros bravos. alguns mais antigos do que ele. do tempo em que os animais falavam e as fadas apareciam a quem vive num silêncio magoado – este homem. este carpinteiro. quando não lhe apetece trabalhar é aqui que passa os dias. procura o pinheiro certo para uma ideia que ainda não apareceu. sabe que junto das suas mãos. em silêncio e sem a pressa do tempo. mais tarde ou mais cedo. sempre haverá um pássaro a fugir por entre os dedos. é por isso que gosta de ser carpinteiro. as mãos sempre fazem coisas que nunca imaginava possíveis – desta vez foi um pássaro gigantesco. diferente de todos os pássaros que já lhe voaram das mãos. este gosta de correr. só a correr é capaz de bater as asas – e lá vai ele. corre. corre. as asas sempre a bater vida. vida em silêncio. asa para cima. asa para baixo. como se acenassem. talvez esta seja a sua própria forma de voar: acenar. dizer adeus. sem nunca sair da oficina de sonhos do seu criador – e o carpinteiro preso às rodas da sua arte. e a vida a correr como se também ele se transformasse num pássaro e as asas para cima e para baixo. cada vez com mais força. há alturas em que é capaz de jurar que vai levantar voo com o seu pássaro – não. nunca deixará a terra que o segura. nasceu amarrado a ela e é nela que se sente bem. afinal de contas é carpinteiro e os carpinteiros não voam



31/05/2011

não estou louco. só sou cruel






«Sabiamente, Henry James aconselhava os escritores a não escolher um louco para personagem principal de uma narração, pois não sendo o louco moralmente responsável, não haveria verdadeira história para contar.» Gore Vidal - in Delírio, Laura Restrepo



mas tu estás louco? não. nunca saberia compor uma loucura com palavras. se fosse música. talvez - a loucura de um homem depende sempre da companhia de quem o escuta – na maior parte das vezes estou só. penso só. ouço o que digo. o ego precisa de silêncio – mas é nesse silêncio que percebo a crueldade com o que não gosto. por isso digo: não estou louco. estou é cruel com o que não gosto. e muitas vezes não gosto do que penso. parece-me isso um pouco louco – outras vezes não gosto da companhia. é nestas alturas que fico quase louco – seria trágico trazer-vos para a companhia de alguém como eu: alguém cruel



24/05/2011

agora sei que sei






outras mãos tomaram conta de mim. mas as tuas. com tantos anos. com tantas rugas. com tanto tempo. são as únicas que reconheço quando as sinto no que resta de mim – sei que são minhas mãe – agora sei que sei – agora



23/05/2011

calmamente por entre os dedos dos pés e as asas




                                                                       jorge reis-sá



o mar é o meu refúgio , nele
me largo aos dias que me restam

tu, única gota que
deixei um dia entrar no meu coração




jorge reis-sá - a palavra no cimo das águas



22/05/2011

o outono não acaba







nunca acaba. as mãos nunca acabam. elas escrevem como sempre. com o mesmo cheiro a mar. com a mesma gaivota a voar em círculos. bem sei que os círculos estão cada vez mais fechados. mas não fiques triste. estão assim porque aprenderam a  acalmar os ventos. mesmo aqueles que se fazem a norte dos olhos. lá para os lados do desalento. do fim do mundo –  nesses dias. amiga. nesses dias os olhos procuram sempre o fim do mundo. muitas vezes perdidos. desnorteados. confundidos. amedrontados pelo que ouvem aqui e acolá – mas sabes. amiga. eu sei que sabes. sei tanto de ti que posso dizê-lo com toda a certeza: tu sabes que o fim do mundo fica para lá do horizonte. é o que vejo todos os dias ao entardecer. quando o sol cai e a escuridão rompe pelas palavras como um farol dos que escrevem com a noite – este farol. minha amiga. cuida de mim. não. cuida de todos aqueles que se atrevem a escrever com o corpo encrespado. como tu amiga. como eu que sou teu amigo – procuramos tudo dentro do corpo. até as palavras – muitas vezes. sem o corpo compreender. a carne cansa. desiste do belo. enruga. começa a cair aos pedaços. como se de lepra se tratasse – sabes amiga. descobri que as letras também caem. caem porque é outono no corpo. e no outono as folhas cobrem sempre o  chão em silêncio. o sol encolhido amarra-se às árvores com a luz que sobrou dos dias grandes. segura pequenas primaveras – também nós seguramos primaveras. e ficamos ainda mais belos quando não temos palavras um para outro. belos porque sabemos existir em silêncio – mas minha amiga. as letras não enganam o sol. o vento frio anuncia as primeiras geadas nas mãos onde ainda cabe tudo. mãos que apertam as janelas contra o peito – mas a vontade ainda é silêncio. a vontade ainda é outono.  ainda há folhas por cair. ainda há outono no ar. outono dentro da janela – lá fora. do outro lado da janela que me segura. as árvores vivem agora despidas – no chão as folhas. nos ramos demoram-se os últimos sorrisos. como é possível sorrir. amiga. quando o corpo está nu e o vento é um mundo desconhecido – ainda ontem era verde. ainda ontem o mundo era verde. verde esperança. ainda o tenho à frente dos olhos. dentro das mãos. dentro da janela. dentro do hoje que quero falar contigo em silêncio verde. com palavras fortes. verdes. capazes de resistir ao vento que teima em correr entre os dedos também – hoje amiga. hoje minha querida amiga. que o dia está com um sol que só apanha metade da janela onde estou todo. e tu. a todo o momento podes aparecer em silêncio. e em silêncio dizes-me: dizes-me silêncio. porque as folhas continuam a cair em silêncio. o mundo não acaba com os silêncios enquanto houver árvores. e há tantas árvores despidas como eu. como tu. despidas pelo outono. despidas porque gostam de meter as mãos por dentro de si para aquecer os gestos que querem deixar partir com as folhas de outono. folhas das árvores abertas ao tempo. e são tantas – sabes amiga. são tantas. conto uma. duas. três. quatro. cinco e mais. e cada vez mais mundo. e o tempo a passar entre elas em forma de vento – hoje. minha amiga. é outono. é outono porque me despi para ti com palavras feitas de folhas. é um outono bonito. mesmo estando eu deste lado da janela e as folhas do outro lado. mas estou feliz. estou tão feliz que estou a fazer de conta que sou o vento. amarro-me nas folhas que fazem o outono e sopro para ti. sopro para o teu fim do mundo. sopro com o peito cheio de palavras que ficaram por dizer. mas se vires folhas no ar. belas. harmoniosas. livres. sorridentes. não tenhas medo. é o meu outono a fazer primavera na tua vida



15/05/2011

quando o simples não basta







hoje o dia está bonito. tenho tantas palavras simples para vos dizer - tenho só medo de que tão simples nenhum de vocês perceba como o dia. aqui. está bonito -  tenho que arranjar uma maneira bonita de vos dizer que se pode chorar em dias bonitos. com palavras simples. palavras molhadas pelo tempo bonito que descobri atrás dos meus olhos


13/05/2011

filomena




                                                             foto - sampaio rego


bom dia filomena!

bem sei que ainda é manhã cedo. mas o sol que nasce para lá da janela já despontou. já abriu vida dentro dos teus olhos. talvez tu e o sol tenham um acordo secreto para acordar: tu abres os olhos e o sol descobre a vida para ti – é manhã. e todas as manhãs abrem como se abrem as tulipas presas a moinhos de vento. arrancadas à força da terra para poderem espalhar cor pelo ar. e conquistar nas feições palavras de confiança que inventas para fazeres o mundo feliz – hoje. na minha janela só há sol porque tu acordaste a ler – se tu soubesses como as palavras são capazes de fazer sol – talvez saibas – eu é que nunca soube que as palavras podem sempre ser mais bonitas quando ditas como flores: com cor. com aroma. com alegria de quem sabe que apenas nasceram para dar sorrisos aos dias – filomena quer dizer amiga da música. dizem os livros que foram os gregos que inventaram o teu nome. acredito porque sempre ouves os sons escondidos nas letras que deixo em papel comum. acredito porque já te ouvi trautear palavras que apenas eu conheço. acredito porque sempre me falas com a harmonia dos sentidos. às vezes as palavras são música. ouço. outras. a música é todas as palavras que guardo para mais tarde fazer escrita. sorrio – não sei se tens alguma ilha com o teu nome. um mar. uma estrela. um quadro. um caminho. não sei. e também já não me interessa. agora tens estas palavras. chamam-se: filomena



09/05/2011

dualismo em oposição







podem pensar que estou louco por escrever isto. não estou. estou apenas cansado de me falar – nunca me respondo – o outro. o que vive comigo. nada me diz. calou-se de cansado com o meu tempo – pensa que estou desmiolado e. sempre que quero dizer coisas estranhas. vira-me as costas. pensa que são coisas inúteis. ocas. fúteis. sem futuro. sem terra. sem braços entrelaçados – estou cansado – habitamos dentro do mesmo corpo. partilhamos os lençóis. os cristais presos aos aros das janelas. a luz do teto. os ponteiros de um relógio ausente. os pesadelos que sobrevivem agarrados à almofada. a cadeira onde escrevo. preta. alta. gasta pelo roçar das dores que fazem a escrita. partilhamos tudo. tudo menos os sorrisos. estes são sempre no outro que me olha com desdém.  decompõe a face enquanto as feições tomam a forma de troça – no fundo. bem lá pelo fundo. somos tempo. somos contraposição silenciosa: não sou. não vivo. não falo. não respiro. estamos no mesmo tempo. vivemos. respiramos. falamos. e olhamos para coisas diferentes com olhos iguais – um dia sonho eu. outro. sonha ele. um dia tenho mau dormir. outro. dorme ele mal. nunca temos uma noite inteira. estamos sempre desacertados. nascemos desacertados. um quer trazer os sonhos para dentro de si. o outro quer levar o que sonha para a vida – não nos entendemos – não há forma de resolver isto. não há. não há tempo. há apenas um tempo para o mesmo olhar – escrevo. escrevo para não estar só. sempre que estou só. escrevo - o outro olha-me a escrever. sabe que estou a escrever. sabe que não estou só. nem com ele. sabe que escrevo para não estar só. e para não estar com ele 




07/05/2011

aos domingos






com a máquina o meu pai - o dia. com o passar do tempo. parece-me parado. como a fotografia - a minha irmã continua com as mesmas feições. o meu irmão continua a fechar os olhos para o sol. a lurdes. segunda mãe. continua a rir amarrada à sua fé. e até a minha mãe. hoje ainda mais bonita aos 86 anos. continua a segurar em mim com o dobro da preocupação – dar movimento à foto é fácil. basta escutar a voz do meu pai a dizer: agora não se mexam. não se mexam. já está – de seguida. uma gargalhada invade o sossego da família – é um pai a viver como todos os pais deveriam viver – tenho a certeza que era domingo. nesse tempo havia sempre mais família aos domingos



29/04/2011

conversas ocasionais






ontem. gostava de me ter dado por acabado. gostava de me  ter posto um fim. gostava de me ter posto um “the end” – não é possível. ainda tenho uma cidade. uma multidão de olhos que me reconhece e que. com lábios afogueados. me diz:

·         bom dia;

·         que bom rever-te;

·         não envelheces;

·         estás na mesma;

·         sempre jovem;

·         os anos não passam por ti;

·         qual é o segredo;

·         quando foi a última vez que falámos;

·         estou feliz por voltar a ver-te;

·         estás sempre igual;

·         tinha saudades tuas;

·         bons tempos aqueles;

·         parece que foi ontem;

·         foste importante;

·         nem imaginas a alegria;

·         eras bom rapaz;

·         malandrote;

·         vi-te no facebook;

·         não tens desculpa

há um espaço de tempo aberto no cimento. ainda há quem reconheça o rosto. ainda há saudade. ainda há as férias grandes. ainda há liceu. ainda há  namoradas. ainda há carros. ainda há noitadas. ainda há palavras ditas. ainda há palavras guardadas. ainda há abraços. ainda há juras eternas. ainda há esperança. ainda há tempo dentro do tempo todo  – ainda há. há. e há. ainda há tanta coisa – quero uma cidade vazia. uma cidade onde não haja ninguém - não quero. o dia seguinte. igual ao de hoje. não quero – quero um mar. com gaivotas. com vento norte. quero uma sarronca a dizer que o sol vai desaparecer – ainda estou aqui. só me resta o sonho – sonho com uma cidade desigual. indiferente aos nomes. uma cadeira virada a sul. abrigada do vento norte e. no ombro. a minha gaivota cinza – um dia partiremos os dois com o mesmo vento. sorrindo para o tempo que deixou de ser tempo



16/04/2011

num abril e fechar do tempo






meio-dia. metade de um dia ganho ao tempo  - doze horas. setecentos e vinte minutos. quarenta e três mil e duzentos segundos. biliões de microespaços de tempo – ainda não há big bang – o sol está a pique. os sorrisos caídos tropeçam nas pernas que rasgam abril. pedras em silêncio. janelas fechadas. mãos redondas em bolsos quadrados. geometria moderna. picasso. cubos. cores. deformações. intuições de aguarela e a boca resmunga  – ainda uma criança chora no tempo. arranca cabelos que o ligam ao meio-dia de todos os dias – meio-dia. meio copo vazio. os sapatos alinhados. engraxados. presos por atacadores pretos aos ponteiros de relógios que correm num pé só – meio-dia. meio dia de coisa nenhuma. não há tarde que não traga noite. escuridão – o corpo quer dormir. dorme. dorme à velocidade da luz. espera outro meio-dia. o futuro gira o passado na ponta de um dedo – meio-dia. o mesmo sol. a mesma nuvem. o mesmo pássaro regressa. as mesmas pedras em silêncio. as mesmas janelas. a mesma calmaria. a mesma criança a enrolar os cabelos – meio-dia. sossego. toda a tempestade traz sossego. um bater marca o corpo. ouço agora como nunca. gira como a terra gira. em círculos. rápido. muito rápido . em descompasso . vermelho bate. bate. bate e as veias galgam abril. mais um abril. outro abril e os neutrões sempre a crescer. a crescer. e o ar a desaparecer – meio-dia e o futuro cada vez mais cansado – meio-dia em abril. meio-dia de uma vida. meio-dia de um dia cada vez menor 




14/04/2011

à volta do meu eixo






a terra gira sobre um eixo imaginário – gira com afinco. volta atrás de volta. dia após noite. gira num eixo que não existe. é imaginário. como todas as coisas que escrevo à volta do meu eixo. imaginário. também. imaginário porque é feito de palavras que ainda não escrevi 



09/04/2011

poeta: às vezes. nem sempre. nunca






vivo. respiro. sonho ser poeta – acredito que um poeta é aquele que veste o silêncio com palavras. são palavras que se agigantam aos olhos do leitor - vejo. sinto. ouço. toco e. nas mãos o cheiro de palavras por escrever. e eu. sempre sem ser poeta - um dia. talvez um pouco mais tarde. vou decapitar as mãos – encerrá-las numa caixa forte junto com a vontade de escrever – quando morrem as mãos. morre o sonho do poeta



04/04/2011

tudo vem da noite






a noite. a noite é tudo. tudo o que me acontece pela manhã vem da noite. mesmo quando arranho as paredes. mesmo quando choro. mesmo quando digo às estrelas que a noite sou eu também - noite pura. noite branca. noite de oração. noite. noite. amo-te




02/04/2011

quando o futuro é passado





acordei a saber que afinal existo – aquele que. com ar frágil. debruçado na solidão. arrasado no silêncio. cego na lamparina. é apenas uma cópia de mim – o meu corpo tem futuro – o futuro são palavras que me chegam do passado – todo o futuro é passado – também eu sou passado – de ti meu novo amigo. que vieste do futuro de tudo o que ainda quero escrever. deixo-te um abraço – vamos. com toda a certeza. um dia ser ambos felizes. sei que somos dois. mas as dores são apenas de um



01/04/2011

fotolitografia: a imagem do tempo







nota introdutória: existência – não imaginava que os objetos simples estivessem assim gravados na retina. tudo. afinal. é vida

 

a lã nunca pesou à ovelha. coisas que o povo diz. e que posso aplicar ao dia primaveril que invade o meu nostálgico corpo – arrefeceu. estou com frio – visto um casaco de inverno. ainda à mão – o tempo arde nos olhos. tal como os objetos que me rodeiam. palpitam calor – guardo-os junto ao umbigo. como brasas que nunca se apagam – guardo-os junto ao umbigo. sinto-os meus. estimo-os. protejo-os no futuro com tudo o que tenho e o que não tenho. amealhei-os dentro de mim ao longo da vida. agora. fazem parte do corpo. são a minha marca no tempo: bolas de vidro com cidades dentro. quadros com cores paradas. estátuas de papel. lápis com os dentes cravados. pastas de arquivo. dicionários. clipes. agrafadores capazes de unir para a eternidade o que sempre esteve separado. fotos com vida. livros. livros grossos. livros de uma folha só. livros sós e até livros acompanhados de tesouras. estes. um dia. serão tiras de papel. uma forma de coação que encontrei para o que exerce poder sobre mim – só a dor da perda mantém o corpo em vigília sobre tudo o que nos rodeia – há muitas coisas dentro do meu tempo. coisas feitas com gente – não quero ser de ninguém. nem de nada. nem sequer de um dia de sol chamado primavera – quero ser livre. completamente livre. quero ser descuidado como o vento. quero ser um ponto naqueles para quem conto. quero ser um corpo que atravesse o tempo que farei acontecer em sorte. ou azar – este tempo penderá sempre para o mesmo lado. para a frente. para o fim. para o fim de todas as coisas – coisas escondidas pelas paredes. pelos lugares. pela posição da cadeira. dos olhos. e até da forma como deixo cair o cabelo para a frente do que não quero ver mais – tenho tanta coisa à volta. imagens de quem já foi importante. alguns. até amigos – tanto peso. e as costas sempre a vergar – um dia vou escrever mais sobre todas as coisas que já foram importantes. coisas que estão para além de mim. para além da minha vontade. coisas que um dia foram o próprio tempo. mas agora são ecos vazios. sombras desfeitas na maré do esquecimento. ficaram os nomes – destes nomes que um dia foram enormes. já não tenho mais medo. não me doem mais. não me influenciam. não dizem que sabem o que não sabem. não acenam. não irritam. não chamam mais pelo meu nome. há coisas agora que já não têm voz. faz outro tempo dentro do que ouço – mesmo no lado visível ouço apenas as coisas que quero. tenho tanta coisa à frente: paredes. olhos. sol. portas – há dias em que comunicam silenciosas. e eu escuto também em silêncio. outros há em que gritam para se fazerem ouvir. gritam por todas as pessoas distraídas com o sol. e eu no meio dele. surdo – é assim o novo tempo. gosto de me sentir distraído. perdido cá dentro. tenho ainda tanta coisa por descobrir – olho a janela. ainda há um sol do outro lado. deixo-me ficar onde há sempre agasalho. deixo-me ficar perdido nas coisas que vivem comigo – chego mesmo a acreditar que estou louco. mas não. estou apenas entretido com o tempo. ainda quero trazer o sol para este lado da janela. um sol que aqueça todas as coisas que guardo dentro de gavetas. gavetas perdidas num emaranhado de espaços que construí para deixar esconder a vida – o sol queima as orelhas e as pontas dos dedos. queima ainda mais os olhos que espreitam à janela – já não há tempo para o sol saber o meu nome completo – estou cansado do inverno. cansado da hora de inverno. ando ainda cansado das medidas de austeridade com que o meu país se debate. e ainda mais do maremoto do japão que engoliu a central nuclear - cansado de desgraças. só há desgraças onde há gente e coisas – quer dizer que um dia pode haver uma desgraça no meu lugar. no lugar que tem dentro de si as minhas coisas e o meu corpo. isto é. tem o meu tronco. porque as pernas e os olhos andam pelas calotes polares. andam de trenó com os esquimós numa terra onde nunca há noite – não quero saber de mais nada. já que hoje acordei doido não quero falar de mais nenhum sol. não mereço que termine abruptamente o meu passeio dominical. tenho agora uma única preocupação: trazer a lã que me protegerá em definitivo da bipolarização das temperaturas primaveris e das ideias. não posso ficar doente com as minhas coisas ainda vivas dentro de mim. sou crente. dizem. todos os domingos pertencem a de deus. mas aposto que já desistiu dos meus – se não amanhar a lã em cima da alma. pode ser um domingo dos diabos – irei então atear o borralho e acender a ignomínia da gula dominical. morrer do prazer dos homens comuns. comida. álcool. mulheres. anedotas porcas e mentiras – assim gira o mundo. embalado nos domingos de sol que brilham lá fora. indiferente às minhas coisas – essas. fiéis guardiãs do meu caos. permanecem dentro da minha janela. caladas. mas sempre mais pesadas do que o meu próprio tempo