cinema –
tenho os olhos fixos na tela. as imagens desabam como pedras – do som nada sei.
talvez seja um filme mudo. ou as bocas são barro cosido em tempo de silêncio
fino – e o meu corpo ali. sentado. via tudo o que havia para ver – de frente
vê-se sempre tudo. já não há passado. tudo está para a frente – não sei se há
silêncio. só sei que há gente com os olhos postos lá à frente – nenhum corpo
brilha. apagaram-se com as lâmpadas quando o filme deu cor à tela que momentos
antes era branca – nada havia naquela tela. não havia vida. não havia esperança
ou dor. havia branco. apenas um branco de pureza – naquela tela só há tempo
para o futuro – rompe a fita. os corpos sentados desequilibram-se: uns tombam para
a direita. outros para a esquerda. mas nenhum para a frente ou para trás. isso
nunca. tudo o que está para trás já passou e para a frente ainda não chegou – o
maquinista. sempre atento à vida dentro das fitas. sabe desde há muito tempo
quais os momentos críticos de uma cena – emenda. corta de um lado um segundo e
dois segundos do lado oposto. remenda. inventa um novo momento. um momento imperfeito
para um filme que deveria ser sempre igual – mas o filme nunca mais será como
antes – que são três segundos na vida de uma fita de cinema? os corpos
voltam-se a centrar nas cadeiras. respiram fundo. e tudo volta ao normal –
também é assim que unimos a vida quando não estamos no cinema. remendamos e
seguimos. seguimos em frente. só assim se chega ao futuro – toda a gente olha
em frente. silêncio – há agora na vida um milésimo de segundo que não encaixa
noutro milésimo. um degrau quase impercetível – nunca ninguém caiu num degrau
que nunca chegou a ser degrau – ninguém quer saber nada se nunca passou do
nada. ou se é degrau e se tropeça. ou então não se é nada. como uma tela de
cinema branca. um vazio absoluto – perdi-me. já não sei se falo da vida ou do
filme. não parece importante. afinal todas as vidas são feitas de cortes e
emendas – tudo prossegue. tudo passa. e neste corte imagino como tudo podia ser
diferente se o corpo não nascesse com nome. não era preciso ouvir. ninguém
dizia: sampaio estou aqui. sampaio como vai a tua vida. esta gente
obrigatoriamente tinha de falar de boca aberta. e eu respondia também de boca
aberta: está tudo mais ou menos. tenho uma pedra num rim. podia ser pior – já
sabes o que aconteceu ao hernâni. deu-lhe o nó na tripa e foi desta para a
melhor – dizem que era um cheiro que não se aguentava à sua beira. e não era
falta de banho. que o joaquim cangalheiro nisso não falha. respeita os finados
e a profissão. é muito melhor que o pai – estava todo apanhado por dentro com
um malezinho – mas não. todos temos nome e neste filme até os artistas têm
nome. as legendas passam levando nomes aparatosos. amorosos. apaixonados.
percebe-se tudo pelos rostos e na forma como andam sempre para a frente – os
gestos parecem desenhados. só gente apaixonada sabe dizer tanto sem abrir a
boca. ou então é o mundo que está em silêncio e já todos falam de boca fechada –
os corações suspiram e quando tudo parece perdido aparece o artista a ocupar a
tela de lés a lés. não se vê branco. nenhum pedaço vazio de tela. só há artista
– é um momento solene. dobra-se o silêncio em dois. tudo indica que desta vez
só o som é capaz de resolver o mistério do amor. vai ter de falar. os segundos
parecem horas e os olhos cada vez mais perto da plateia. estão enormes. todo o
cinema é agora aqueles olhos. já não há espaço nem para dizer um olá – sem
mexer um único músculo facial. agarra a apaixonada pela cintura e. sem que a inquietação
pudesse surpreender os olhos arregalados da pobre rapariga. prega-lhe um beijo.
daqueles que selam o silêncio para sempre – depois. sem que o tempo tenha tempo
para continuar. a vida aparece: the end – há gestos que se repetem. os corpos
contorcem-se como se fossem feitos de amor. queriam mais. queriam o som da voz
a dizer: amo-te. amo-te para sempre. até que a morte nos separe – acabou – só
os olhos disseram paixão. os olhos de um e de outro fecharam-se para sempre com
o beijo – estou conformado. sempre foi assim. nos momentos mais belos os homens
fecham os olhos e ficam em silêncio – depois. já com os corpos desenganados
chegam as luzes. as lâmpadas ganham formas. e a vida corre na esperança de
encontrar um beijo que também a obrigue a fechar os olhos para sempre – saem os
cegos. os coxos. os manetas e os loucos. e todos aqueles que perdem a cabeça a
cuidar de filmes onde os artistas mudos se repetem na vida sem tela. vida que
consome o tempo presente dia após dia – ainda há lugares nas frisas com faces
paradas. mas os rostos estão cada vez mais longe dos corpos – estou demasiado
distante para entender o que as bocas dizem. mexem os lábios de uma forma
descoordenada. os corpos vão para um lado e a voz fica ali sozinha à espera que
algum corpo a queira ouvir – até queria ouvir. mas estou longe e não trouxe os
ouvidos – é no cinema que gosto de passar despercebido – aqui nunca se fala
18/06/2011
cinemateca
08/06/2011
clarice lispector
"Estou adiando o meu silêncio. A vida toda adiei o silêncio? mas agora, por desprezo pela palavra, talvez enfim eu possa voltar a falar"
Clarice Lispector - A Paixão Segundo G. H.
07/06/2011
as palavras que o silêncio guardou
há um silêncio
que vive dentro de tudo o que penso – a boca serve para mastigar a fúria das
palavras que não digo – nos dias em que o contrário de satisfeito me encontra. baixo
a cabeça – por detrás do reflexo. a sopa. cada vez mais fria. cada vez mais
incapaz de aquecer as palavras. sempre mornas – revolvo – há um vai e vem entre
a moela que trabalha com grãos de sensatez e o céu que não encontro à boca – há
um inferno – ainda tenho palavras para dizer – escrevo – um dia hei de morrer
sufocado neste meu silêncio – há quem pense que digo tudo. não digo. o silêncio
é sempre mais forte. e os homens sem ouvidos foram sempre muitos – talvez não
saiba contar. talvez nem todos fossem homens – talvez – estou a apagar-me. quero
apagar-me. os dentes. estes. aqueles. não mastigam o suficiente para acabar com
o silêncio dos homens que invadem os dias. agora os dentes já não são apenas estes
ou aqueles. são todos - há um passado com homens. tinham horas. minutos e até
segundos. eram homens de todos os meus dias – há ainda um silêncio vivo. mas já
não é aquele. nem este. é tudo. é tudo silêncio – ainda – um dia serão palavras
02/06/2011
o carpinteiro e o pássaro com rodas
“ … Ignoro se sabem o que
faço, julgo que têm uma ideia vaga. Há quem me trate por senhor Doutor e quem
me trate por Sr. António. Prefiro senhor António: afinal de contas sou um
carpinteiro…”
I.
não quero ser escritor – quero escrever. escrever como um carpinteiro – quero ser carpinteiro como diz o lobo antunes. quero escrever palavras com cheiro à resina. às colas. às pancadas do martelo. do serrote que vai e vem. do lápis que agarra à orelha todos os barulhos das palavras que aperfeiçoam o silêncio quando lidas – depois. depois deixo partir a arte de quem faz coisas com as mãos. onde compete o belo e o monstro – desta vez. talvez por encanto fugiu-me um pássaro pelos dedos. um pássaro gigantesco. com um bico pintado de sossego. no lugar dos olhos um arco-íris com mais de mil cores. as asas são tão grandes que nem lhes sei escrever o tamanho. sei apenas que estão presas a rodas e nunca param de esbracejar – são umas asas diferentes. esbracejam em silêncio sobre rodas que só andam para a frente – são mesmo diferentes estas asas. deixam-me confuso. nunca vi asas correrem ou voarem com rodas. não sei. não sei mesmo. nunca as vi voar só esbracejam. mas também não me parece que seja importante para o pássaro voar. nem para o carpinteiro vê-lo voar. há ali um acordo escondido que faz desta uma história diferente – as palavras continuam-me a cair em silêncio. largo-as do mais alto que as mãos alcançam. talvez não seja assim muito alto. penso eu que também sinto falta. quero acreditar que seja um pouco mais alto do que imagino. quero ouvi-las a cair aos pés. aos meus pés. mas não. não. pelo caminho transformam-se em água e no chão. onde mantenho os pés firmes. sorriem agora apenas lágrimas – nunca nenhuma palavra nascida dentro de mim fará barulho. quebrará este silêncio pedra. este silêncio dor. este silêncio que não voa. um silêncio que. por ser silêncio. ninguém ouve – percebo então que o pássaro que fugiu dos dedos. quando corre ou tenta voar procura apenas um novo silêncio. outro silêncio . um silêncio que nunca tenha sido magoado
II.
este pássaro não sossega.
para trás e para a frente. e a vida do carpinteiro parada. parada em silêncio –
este pássaro é maluco. doido. idiota. tem asas. mas não quer voar. corre. como
se correr significasse voar. nem lhe era necessário voar muito alto. bastava
que voasse por cima de um livro. uma cadeira desocupada pelo momento. ou um
quadro pendurado numa parede sem cor definida. geometricamente dividido. falo
da tela. do sorriso da mona lisa feito por um artista que não podia morrer à
fome. talvez eu também sinta falta de quem sorri. e quem sabe. digo eu ainda a
pensar como se fosse um artista – depois de limpar os pincéis. atirou-se de uma
ponte famosa de onde se atiravam artistas desiludidos – mas este pássaro não
voava. talvez tivesse medo das alturas. e correr talvez o fizesse rir depois –
não deixa de correr. corre preso àquelas rodas como se fosse livre da terra que
o segura. talvez acredite na liberdade do homem-carpinteiro que o deixou
escapar por entre os dedos – este carpinteiro é um homem com asas presas a
rodas. dá vida à madeira. mas nunca consegue soltar-se dela. o pássaro que lhe
fugiu das mãos é apenas um reflexo daquilo que ele próprio não consegue ser:
livre. corre. esbraceja. mas nunca voa. tal como ele dá vida à madeira. entende
de madeiras. madeiras simples de pinho. daquele que se encontra em qualquer
lugar de madeira. podia perceber de pau-santo. sucupira ou outra qualquer
madeira nobre. mas não. só conhece o pinho – tem uma bouça com giestas. silvas.
amoras. azevinhos. cogumelos e pinheiros bravos. muitos pinheiros bravos.
alguns mais antigos do que ele. do tempo em que os animais falavam e as fadas
apareciam a quem vive num silêncio magoado – este homem. este carpinteiro.
quando não lhe apetece trabalhar é aqui que passa os dias. procura o pinheiro
certo para uma ideia que ainda não apareceu. sabe que junto das suas mãos. em
silêncio e sem a pressa do tempo. mais tarde ou mais cedo. sempre haverá um
pássaro a fugir por entre os dedos. é por isso que gosta de ser carpinteiro. as
mãos sempre fazem coisas que nunca imaginava possíveis – desta vez foi um
pássaro gigantesco. diferente de todos os pássaros que já lhe voaram das mãos.
este gosta de correr. só a correr é capaz de bater as asas – e lá vai ele. corre.
corre. as asas sempre a bater vida. vida em silêncio. asa para cima. asa para
baixo. como se acenassem. talvez esta seja a sua própria forma de voar: acenar.
dizer adeus. sem nunca sair da oficina de sonhos do seu criador – e o
carpinteiro preso às rodas da sua arte. e a vida a correr como se também ele se
transformasse num pássaro e as asas para cima e para baixo. cada vez com mais
força. há alturas em que é capaz de jurar que vai levantar voo com o seu
pássaro – não. nunca deixará a terra que o segura. nasceu amarrado a ela e é
nela que se sente bem. afinal de contas é carpinteiro e os carpinteiros não
voam
31/05/2011
não estou louco. só sou cruel
mas tu estás
louco? não. nunca saberia compor uma loucura com palavras. se fosse música.
talvez - a loucura de um homem depende sempre da companhia de quem o escuta –
na maior parte das vezes estou só. penso só. ouço o que digo. o ego precisa de
silêncio – mas é nesse silêncio que percebo a crueldade com o que não gosto.
por isso digo: não estou louco. estou é cruel com o que não gosto. e muitas
vezes não gosto do que penso. parece-me isso um pouco louco – outras vezes não
gosto da companhia. é nestas alturas que fico quase louco – seria trágico
trazer-vos para a companhia de alguém como eu: alguém cruel
24/05/2011
agora sei que sei

23/05/2011
calmamente por entre os dedos dos pés e as asas
jorge reis-sá
22/05/2011
o outono não acaba
nunca acaba.
as mãos nunca acabam. elas escrevem como sempre. com o mesmo cheiro a mar. com
a mesma gaivota a voar em círculos. bem sei que os círculos estão cada vez mais
fechados. mas não fiques triste. estão assim porque aprenderam a acalmar os ventos. mesmo aqueles que se fazem
a norte dos olhos. lá para os lados do desalento. do fim do mundo – nesses dias. amiga. nesses dias os olhos
procuram sempre o fim do mundo. muitas vezes perdidos. desnorteados.
confundidos. amedrontados pelo que ouvem aqui e acolá – mas sabes. amiga. eu
sei que sabes. sei tanto de ti que posso dizê-lo com toda a certeza: tu sabes
que o fim do mundo fica para lá do horizonte. é o que vejo todos os dias ao
entardecer. quando o sol cai e a escuridão rompe pelas palavras como um farol dos
que escrevem com a noite – este farol. minha amiga. cuida de mim. não. cuida de
todos aqueles que se atrevem a escrever com o corpo encrespado. como tu amiga.
como eu que sou teu amigo – procuramos tudo dentro do corpo. até as palavras – muitas
vezes. sem o corpo compreender. a carne cansa. desiste do belo. enruga. começa
a cair aos pedaços. como se de lepra se tratasse – sabes amiga. descobri que as
letras também caem. caem porque é outono no corpo. e no outono as folhas cobrem
sempre o chão em silêncio. o sol encolhido
amarra-se às árvores com a luz que sobrou dos dias grandes. segura pequenas
primaveras – também nós seguramos primaveras. e ficamos ainda mais belos quando
não temos palavras um para outro. belos porque sabemos existir em silêncio – mas
minha amiga. as letras não enganam o sol. o vento frio anuncia as primeiras
geadas nas mãos onde ainda cabe tudo. mãos que apertam as janelas contra o peito
– mas a vontade ainda é silêncio. a vontade ainda é outono. ainda há folhas por cair. ainda há outono no
ar. outono dentro da janela – lá fora. do outro lado da janela que me segura.
as árvores vivem agora despidas – no chão as folhas. nos ramos demoram-se os
últimos sorrisos. como é possível sorrir. amiga. quando o corpo está nu e o
vento é um mundo desconhecido – ainda ontem era verde. ainda ontem o mundo era
verde. verde esperança. ainda o tenho à frente dos olhos. dentro das mãos.
dentro da janela. dentro do hoje que quero falar contigo em silêncio verde. com
palavras fortes. verdes. capazes de resistir ao vento que teima em correr entre
os dedos também – hoje amiga. hoje minha querida amiga. que o dia está com um sol
que só apanha metade da janela onde estou todo. e tu. a todo o momento podes
aparecer em silêncio. e em silêncio dizes-me: dizes-me silêncio. porque as
folhas continuam a cair em silêncio. o mundo não acaba com os silêncios
enquanto houver árvores. e há tantas árvores despidas como eu. como tu. despidas
pelo outono. despidas porque gostam de meter as mãos por dentro de si para
aquecer os gestos que querem deixar partir com as folhas de outono. folhas das árvores
abertas ao tempo. e são tantas – sabes amiga. são tantas. conto uma. duas. três.
quatro. cinco e mais. e cada vez mais mundo. e o tempo a passar entre elas em
forma de vento – hoje. minha amiga. é outono. é outono porque me despi para ti
com palavras feitas de folhas. é um outono bonito. mesmo estando eu deste lado
da janela e as folhas do outro lado. mas estou feliz. estou tão feliz que estou
a fazer de conta que sou o vento. amarro-me nas folhas que fazem o outono e
sopro para ti. sopro para o teu fim do mundo. sopro com o peito cheio de
palavras que ficaram por dizer. mas se vires folhas no ar. belas. harmoniosas.
livres. sorridentes. não tenhas medo. é o meu outono a fazer primavera na tua
vida
15/05/2011
quando o simples não basta
hoje o dia está bonito. tenho tantas palavras simples para vos dizer - tenho só medo de que tão simples nenhum de vocês perceba como o dia. aqui. está bonito - tenho que arranjar uma maneira bonita de vos dizer que se pode chorar em dias bonitos. com palavras simples. palavras molhadas pelo tempo bonito que descobri atrás dos meus olhos
13/05/2011
filomena
foto - sampaio rego
bom dia filomena!
bem sei que ainda é manhã cedo.
mas o sol que nasce para lá da janela já despontou. já abriu vida dentro dos
teus olhos. talvez tu e o sol tenham um acordo secreto para acordar: tu abres
os olhos e o sol descobre a vida para ti – é manhã. e todas as manhãs abrem
como se abrem as tulipas presas a moinhos de vento. arrancadas à força da terra
para poderem espalhar cor pelo ar. e conquistar nas feições palavras de confiança
que inventas para fazeres o mundo feliz – hoje. na minha janela só há sol
porque tu acordaste a ler – se tu soubesses como as palavras são capazes de fazer
sol – talvez saibas – eu é que nunca soube que as palavras podem sempre ser
mais bonitas quando ditas como flores: com cor. com aroma. com alegria de quem
sabe que apenas nasceram para dar sorrisos aos dias – filomena quer dizer amiga
da música. dizem os livros que foram os gregos que inventaram o teu nome. acredito
porque sempre ouves os sons escondidos nas letras que deixo em papel comum.
acredito porque já te ouvi trautear palavras que apenas eu conheço. acredito
porque sempre me falas com a harmonia dos sentidos. às vezes as palavras são
música. ouço. outras. a música é todas as palavras que guardo para mais tarde
fazer escrita. sorrio – não sei se tens alguma ilha com o teu nome. um mar. uma
estrela. um quadro. um caminho. não sei. e também já não me interessa. agora
tens estas palavras. chamam-se: filomena
09/05/2011
dualismo em oposição
podem pensar
que estou louco por escrever isto. não estou. estou apenas cansado de me falar
– nunca me respondo – o outro. o que vive comigo. nada me diz. calou-se de cansado
com o meu tempo – pensa que estou desmiolado e. sempre que quero dizer coisas
estranhas. vira-me as costas. pensa que são coisas inúteis. ocas. fúteis. sem
futuro. sem terra. sem braços entrelaçados – estou cansado – habitamos dentro
do mesmo corpo. partilhamos os lençóis. os cristais presos aos aros das
janelas. a luz do teto. os ponteiros de um relógio ausente. os pesadelos que
sobrevivem agarrados à almofada. a cadeira onde escrevo. preta. alta. gasta
pelo roçar das dores que fazem a escrita. partilhamos tudo. tudo menos os
sorrisos. estes são sempre no outro que me olha com desdém. decompõe a face enquanto as feições tomam a
forma de troça – no fundo. bem lá pelo fundo. somos tempo. somos contraposição
silenciosa: não sou. não vivo. não falo. não respiro. estamos no mesmo tempo. vivemos.
respiramos. falamos. e olhamos para coisas diferentes com olhos iguais – um dia
sonho eu. outro. sonha ele. um dia tenho mau dormir. outro. dorme ele mal.
nunca temos uma noite inteira. estamos sempre desacertados. nascemos desacertados.
um quer trazer os sonhos para dentro de si. o outro quer levar o que sonha para
a vida – não nos entendemos – não há forma de resolver isto. não há. não há
tempo. há apenas um tempo para o mesmo olhar – escrevo. escrevo para não estar
só. sempre que estou só. escrevo - o outro olha-me a escrever. sabe que estou a
escrever. sabe que não estou só. nem com ele. sabe que escrevo para não estar
só. e para não estar com ele
07/05/2011
aos domingos
com a máquina o meu pai - o dia. com o passar do tempo.
parece-me parado. como a fotografia - a minha irmã continua com as mesmas
feições. o meu irmão continua a fechar os olhos para o sol. a lurdes. segunda mãe. continua
a rir amarrada à sua fé. e até a minha mãe. hoje ainda mais bonita aos 86 anos.
continua a segurar em mim com o dobro da preocupação – dar movimento à foto é
fácil. basta escutar a voz do meu pai a dizer: agora não se mexam. não se
mexam. já está – de seguida. uma gargalhada invade o sossego da família – é um pai a viver
como todos os pais deveriam viver – tenho a certeza que era domingo. nesse
tempo havia sempre mais família aos domingos
29/04/2011
conversas ocasionais
ontem. gostava de me ter dado por acabado. gostava
de me ter posto um fim. gostava de me ter
posto um “the end” – não é possível. ainda tenho uma cidade. uma multidão de
olhos que me reconhece e que. com lábios afogueados. me diz:
·
bom dia;
·
que bom rever-te;
·
não envelheces;
·
estás na mesma;
·
sempre jovem;
·
os anos não passam por ti;
·
qual é o segredo;
·
quando foi a última vez que falámos;
·
estou feliz por voltar a ver-te;
·
estás sempre igual;
·
tinha saudades tuas;
·
bons tempos aqueles;
·
parece que foi ontem;
·
foste importante;
·
nem imaginas a alegria;
·
eras bom rapaz;
·
malandrote;
·
vi-te no facebook;
·
não tens desculpa
há um espaço de tempo aberto
no cimento. ainda há quem reconheça o rosto. ainda há saudade. ainda há as
férias grandes. ainda há liceu. ainda há namoradas. ainda há carros. ainda há noitadas.
ainda há palavras ditas. ainda há palavras guardadas. ainda há abraços. ainda
há juras eternas. ainda há esperança. ainda há tempo dentro do tempo todo – ainda há. há. e há. ainda há tanta coisa – quero
uma cidade vazia. uma cidade onde não haja ninguém - não quero. o dia seguinte.
igual ao de hoje. não quero – quero um mar. com gaivotas. com vento norte.
quero uma sarronca a dizer que o sol vai desaparecer – ainda estou aqui. só me
resta o sonho – sonho com uma cidade desigual. indiferente aos nomes. uma
cadeira virada a sul. abrigada do vento norte e. no ombro. a minha gaivota
cinza – um dia partiremos os dois com o mesmo vento. sorrindo para o tempo que deixou
de ser tempo
27/04/2011
entre o farol e o nada
há dias em que sou farol. outros tempestade. outros. e mais grave. não sou nada
16/04/2011
num abril e fechar do tempo
meio-dia. metade de um dia ganho ao
tempo - doze horas. setecentos e vinte
minutos. quarenta e três mil e duzentos segundos. biliões de microespaços de tempo
– ainda não há big bang – o sol está a pique. os sorrisos caídos tropeçam nas
pernas que rasgam abril. pedras em silêncio. janelas fechadas. mãos redondas em
bolsos quadrados. geometria moderna. picasso. cubos. cores. deformações.
intuições de aguarela e a boca resmunga – ainda uma criança chora no tempo. arranca cabelos
que o ligam ao meio-dia de todos os dias – meio-dia. meio copo vazio. os
sapatos alinhados. engraxados. presos por atacadores pretos aos ponteiros de
relógios que correm num pé só – meio-dia. meio dia de coisa nenhuma. não há
tarde que não traga noite. escuridão – o corpo quer dormir. dorme. dorme à
velocidade da luz. espera outro meio-dia. o futuro gira o passado na ponta de
um dedo – meio-dia. o mesmo sol. a mesma nuvem. o mesmo pássaro regressa. as
mesmas pedras em silêncio. as mesmas janelas. a mesma calmaria. a mesma criança
a enrolar os cabelos – meio-dia. sossego. toda a tempestade traz sossego. um bater
marca o corpo. ouço agora como nunca. gira como a terra gira. em círculos.
rápido. muito rápido . em descompasso . vermelho bate. bate. bate e as veias galgam
abril. mais um abril. outro abril e os neutrões sempre a crescer. a crescer. e
o ar a desaparecer – meio-dia e o futuro cada vez mais cansado – meio-dia em
abril. meio-dia de uma vida. meio-dia de um dia cada vez menor
14/04/2011
à volta do meu eixo
a terra gira sobre
um eixo imaginário – gira com afinco. volta atrás de volta. dia após noite.
gira num eixo que não existe. é imaginário. como todas as coisas que escrevo à
volta do meu eixo. imaginário. também. imaginário porque é feito de palavras
que ainda não escrevi
09/04/2011
poeta: às vezes. nem sempre. nunca
vivo. respiro. sonho ser poeta – acredito que um
poeta é aquele que veste o silêncio com palavras. são palavras que se agigantam
aos olhos do leitor - vejo. sinto. ouço. toco e. nas mãos o cheiro de palavras
por escrever. e eu. sempre sem ser poeta - um dia. talvez um pouco mais tarde. vou
decapitar as mãos – encerrá-las numa caixa forte junto com a vontade de
escrever – quando morrem as mãos. morre o sonho do poeta
04/04/2011
tudo vem da noite
a noite.
a noite é tudo. tudo o que me acontece pela manhã vem da noite. mesmo quando
arranho as paredes. mesmo quando choro. mesmo quando digo às estrelas que a
noite sou eu também - noite pura. noite branca. noite de oração. noite. noite.
amo-te
02/04/2011
quando o futuro é passado
acordei a saber que afinal existo – aquele que. com
ar frágil. debruçado na solidão. arrasado no silêncio. cego na lamparina. é
apenas uma cópia de mim – o meu corpo tem futuro – o futuro são palavras que me
chegam do passado – todo o futuro é passado – também eu sou passado – de ti meu
novo amigo. que vieste do futuro de tudo o que ainda quero escrever. deixo-te
um abraço – vamos. com toda a certeza. um dia ser ambos felizes. sei que somos
dois. mas as dores são apenas de um
01/04/2011
fotolitografia: a imagem do tempo
nota introdutória: existência – não imaginava que os objetos simples
estivessem assim gravados na retina. tudo. afinal. é vida
a lã nunca pesou à ovelha. coisas que o povo
diz. e que posso aplicar ao dia primaveril que invade o meu nostálgico corpo – arrefeceu.
estou com frio – visto um casaco de inverno. ainda à mão – o tempo arde nos
olhos. tal como os objetos que me rodeiam. palpitam calor – guardo-os junto ao
umbigo. como brasas que nunca se apagam – guardo-os junto ao umbigo. sinto-os meus.
estimo-os. protejo-os no futuro com tudo o que tenho e o que não tenho. amealhei-os
dentro de mim ao longo da vida. agora. fazem parte do corpo. são a minha marca
no tempo: bolas de vidro com cidades dentro. quadros com cores paradas.
estátuas de papel. lápis com os dentes cravados. pastas de arquivo. dicionários.
clipes. agrafadores capazes de unir para a eternidade o que sempre esteve
separado. fotos com vida. livros. livros grossos. livros de uma folha só.
livros sós e até livros acompanhados de tesouras. estes. um dia. serão tiras de
papel. uma forma de coação que encontrei para o que exerce poder sobre mim – só
a dor da perda mantém o corpo em vigília sobre tudo o que nos rodeia – há
muitas coisas dentro do meu tempo. coisas feitas com gente – não quero ser de
ninguém. nem de nada. nem sequer de um dia de sol chamado primavera – quero ser
livre. completamente livre. quero ser descuidado como o vento. quero ser um
ponto naqueles para quem conto. quero ser um corpo que atravesse o tempo que
farei acontecer em sorte. ou azar – este tempo penderá sempre para o mesmo lado.
para a frente. para o fim. para o fim de todas as coisas – coisas escondidas
pelas paredes. pelos lugares. pela posição da cadeira. dos olhos. e até da
forma como deixo cair o cabelo para a frente do que não quero ver mais – tenho
tanta coisa à volta. imagens de quem já foi importante. alguns. até amigos – tanto
peso. e as costas sempre a vergar – um dia vou escrever mais sobre todas as
coisas que já foram importantes. coisas que estão para além de mim. para além
da minha vontade. coisas que um dia foram o próprio tempo. mas agora são ecos
vazios. sombras desfeitas na maré do esquecimento. ficaram os nomes – destes
nomes que um dia foram enormes. já não tenho mais medo. não me doem mais. não
me influenciam. não dizem que sabem o que não sabem. não acenam. não irritam. não
chamam mais pelo meu nome. há coisas agora que já não têm voz. faz outro tempo
dentro do que ouço – mesmo no lado visível ouço apenas as coisas que quero. tenho
tanta coisa à frente: paredes. olhos. sol. portas – há dias em que comunicam silenciosas.
e eu escuto também em silêncio. outros há em que gritam para se fazerem ouvir.
gritam por todas as pessoas distraídas com o sol. e eu no meio dele. surdo – é
assim o novo tempo. gosto de me sentir distraído. perdido cá dentro. tenho
ainda tanta coisa por descobrir – olho a janela. ainda há um sol do outro lado.
deixo-me ficar onde há sempre agasalho. deixo-me ficar perdido nas coisas que
vivem comigo – chego mesmo a acreditar que estou louco. mas não. estou apenas
entretido com o tempo. ainda quero trazer o sol para este lado da janela. um sol
que aqueça todas as coisas que guardo dentro de gavetas. gavetas perdidas num
emaranhado de espaços que construí para deixar esconder a vida – o sol queima
as orelhas e as pontas dos dedos. queima ainda mais os olhos que espreitam à
janela – já não há tempo para o sol saber o meu nome completo – estou cansado
do inverno. cansado da hora de inverno. ando ainda cansado das medidas de
austeridade com que o meu país se debate. e ainda mais do maremoto do japão que engoliu a central nuclear - cansado
de desgraças. só há desgraças onde há gente e coisas – quer dizer que um dia
pode haver uma desgraça no meu lugar. no lugar que tem dentro de si as minhas coisas
e o meu corpo. isto é. tem o meu tronco. porque as pernas e os olhos andam
pelas calotes polares. andam de trenó com os esquimós numa terra onde nunca há
noite – não quero saber de mais nada. já que hoje acordei doido não quero falar
de mais nenhum sol. não mereço que termine abruptamente o meu passeio
dominical. tenho agora uma única preocupação: trazer a lã que me protegerá em
definitivo da bipolarização das temperaturas primaveris e das ideias. não posso
ficar doente com as minhas coisas ainda vivas dentro de mim. sou crente. dizem.
todos os domingos pertencem a de deus.
mas aposto que já desistiu dos meus – se não amanhar a lã em cima da alma. pode
ser um domingo dos diabos – irei então atear o borralho e acender a ignomínia
da gula dominical. morrer do prazer dos homens comuns. comida. álcool. mulheres.
anedotas porcas e mentiras – assim gira o mundo. embalado nos domingos de sol que
brilham lá fora. indiferente às minhas coisas – essas. fiéis guardiãs do meu
caos. permanecem dentro da minha janela. caladas. mas sempre mais pesadas do
que o meu próprio tempo















