engrenagens e
relojoaria
a
escrita é como uma oficina de reparações de relógios – é assim. quando no
interior do espaço intracraniano os devaneios entram em delírio. amarro neles.
todos. e atiro-os para o papel – o alívio é instantâneo. o transtorno
neurológico volta ao sossego e o artista retoma a forma humanizada – uma casa
mágica. onde o papel é a relojoaria e o escriba o relojoeiro [o contrário
também] – o relojoeiro. é o homem dos restauros geralmente complicados. pressupostamente
sábio. amigo de atena. solitário. olhos curtos e precisos. amarrado a tudo quanto
seja silencioso e a ferramentas minúsculas – tudo ao seu redor é pequenino:
parafusinhos. alicatezinhos. rodinhas. cordinhas. pincinhas. um folinho para
soprar poeirinhas e uma série de lupinhas para aumentar mil vezes a imperfeição – sou então
relógio e relojoeiro ao mesmo tempo. quer isto dizer. dou corda e gasto-a – muitas
vezes não se trata de nada grave. troca-se a pilha. duas abanadelas e tudo
volta à hora certa – e digo para mim mesmo: está como novo sr. sampaio. tens
aqui uma máquina para a vida – hoje já não se fazem coisas destas – um sorriso que
dobra a esquina da rua e sigo para o mundo com a convicção de que as palavras são
pontuais. rigorosas. extremosas e bonitas. tudo a bater certo com greenwich –
gosto de pontualidade. um homem nunca deve chegar atrasado a nada. muito menos
nas palavras que falam sobre ele – não tolero aqueles sujeitinhos que se
esquecem de ver as horas. e depois. com cara de pau. têm a lata de dizer que
não é por mal. é feitio. são assim – não acredito em homens sem relógio – mas
por vezes acontece o inesperado. volto à relojoaria e. mal cruzo os olhos com o
relojoeiro. percebo logo que a coisa é grave – a máquina encostada ao ouvido. ar
sombrio. carregado de preocupação. mexendo para lá e para cá. como se estivesse
a tentar reanimá-la de uma paragem cardíaca – mais uma abanadela. revira e
volta a revirar com o semblante em agonia acelerada. os batimentos estão por um
fio – o terror estampado na face do relojoeiro – nem necessita falar. percebo
que a situação é grave. irreversível. com os olhos na lupinha diz-me: vamos ver
o que se pode fazer sr. sampaio. mas pelos sintomas não lhe descortino grande
futuro – isto está mesmo muito mau – deixe ficar para ver o que posso fazer. passe
daqui a três ou quatro dias e já lhe poderei adiantar alguma coisa – esperemos
que tudo corra bem – saio da relojoaria com a certeza de que o perdi para
sempre – não haverá mais tic tac – esta crónica chegou ao fim. morta
[e assim foi preenchido cada dia da minha semana.
crónicas sem rede. escrever e postar no mesmo dia – foi um teste árduo e
complicado – confesso que gosto muito mais de deixar as palavras a alourarem em
lume brando. ficam mais condimentadas e as papilas gustativas excitam-se com
mais facilidade – bem sei que cada leitor sentirá um sabor diferente. mas
creiam. tudo foi ao lume cuidadosamente e sempre a pensar em vocês – tenham uma
boa semana]
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