o sínodo do cadáver
sei que
um dia tudo o que escrevo neste equilíbrio desequilibrado tombará para dentro do
meu peito – sei também que chegará o dia em que a balança pesará tudo quanto
escrevi. o que ficou nas entrelinhas e até o que pensei escrever e nunca
escrevi – será o tempo da justiça terrena – os homens. todos. os que me
ocuparam o corpo e os que passaram a meu lado. reunir-se-ão no sínodo do cadáver
para interpretar o papel de deus – assim será e eu nada poderei fazer. esta é a
sua génese – o passado nunca desaparece nem será esquecido às mãos dos puros – sei
que não será um julgamento justo. mas quem se importará? – eles sabem quem eu
sou. mas não sabem como cresci. sabem o que escrevi. mas não sabem o peso de
cada palavra. sabem o que fiz. mas não sabem a razão porque o fiz – o perdão à
mão do morto – quem julga define-se – haverá sempre tantas sentenças quantos
homens sobre a terra – o mundo permanece sempre belo para quem ainda vive – sei
o que sou. o que não sou. e o que gostaria de ser e. que. por obra do diabo. ou
coisa que o valha. não fui capaz de ser – levarão então toda a minha palavra do
início ao fim. da forca à guilhotina. do credo ao ato de contrição. e o
ponteiro da balança oscilará de um lado para o outro procurando os contrapesos
para a ressurreição: uma palavra bonita ali. um gesto acolá. uma esmola àquele.
um sorriso. um abracinho. e umas quantas futilidades que não servem para nada –
querem-me enterrar sem pecado – e a balança sem saber para que lado cair – todo
o mundo vai querer equilibrar o desequilíbrio de uma vida que não lhes
pertenceu. foi minha. só minha. e de minha escolha e responsabilidade –
finalmente o fogo do crematório fará a sua justiça salomónica. sem venda. sem
espada. e sem balança: o corpo ao pó voltará – só eu conheço o caminho
percorrido. só eu serei capaz de me castigar. mais ninguém – os sapatos estão
no armário para quem se quiser fazer ao caminho – sigam felizes neste dia de
marte. neste dia em que o deus da guerra reclama o seu tributo. entre cinzas e
combates perdidos
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