.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

15/01/2019

uma terça-feira de 2019



jean paul laurens


o sínodo do cadáver

 

sei que um dia tudo o que escrevo neste equilíbrio desequilibrado tombará para dentro do meu peito – sei também que chegará o dia em que a balança pesará tudo quanto escrevi. o que ficou nas entrelinhas e até o que pensei escrever e nunca escrevi – será o tempo da justiça terrena – os homens. todos. os que me ocuparam o corpo e os que passaram a meu lado. reunir-se-ão no sínodo do cadáver para interpretar o papel de deus – assim será e eu nada poderei fazer. esta é a sua génese – o passado nunca desaparece nem será esquecido às mãos dos puros – sei que não será um julgamento justo. mas quem se importará? – eles sabem quem eu sou. mas não sabem como cresci. sabem o que escrevi. mas não sabem o peso de cada palavra. sabem o que fiz. mas não sabem a razão porque o fiz – o perdão à mão do morto – quem julga define-se – haverá sempre tantas sentenças quantos homens sobre a terra – o mundo permanece sempre belo para quem ainda vive – sei o que sou. o que não sou. e o que gostaria de ser e. que. por obra do diabo. ou coisa que o valha. não fui capaz de ser – levarão então toda a minha palavra do início ao fim. da forca à guilhotina. do credo ao ato de contrição. e o ponteiro da balança oscilará de um lado para o outro procurando os contrapesos para a ressurreição: uma palavra bonita ali. um gesto acolá. uma esmola àquele. um sorriso. um abracinho. e umas quantas futilidades que não servem para nada – querem-me enterrar sem pecado – e a balança sem saber para que lado cair – todo o mundo vai querer equilibrar o desequilíbrio de uma vida que não lhes pertenceu. foi minha. só minha. e de minha escolha e responsabilidade – finalmente o fogo do crematório fará a sua justiça salomónica. sem venda. sem espada. e sem balança: o corpo ao pó voltará – só eu conheço o caminho percorrido. só eu serei capaz de me castigar. mais ninguém – os sapatos estão no armário para quem se quiser fazer ao caminho – sigam felizes neste dia de marte. neste dia em que o deus da guerra reclama o seu tributo. entre cinzas e combates perdidos

 


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