27/01/2023

sábado em saturno

 




sábado em saturnogosto do sábado. há uma sensação de nada: não trabalhas porque não há nada para fazer; bebes porque nada te faz mal; vais dançar porque nada te prende em casa; deitas-te de manhã porque nada é melhor do que acordares depois do almoço; sentas-te no sofá porque nada como estar em nossa casa; olhas a tua companheira porque nada como tê-la ao teu lado – continuo apaixonado pela mulher que escolhi para envelhecer. os anos vão passando. e nada me faz não gostar ainda mais hoje do que ontem – às vezes a simplicidade do nada também pode ser amor: amor respeito; amor em admiração; amor em desejo; amor da minha vida; resumindo. amor absoluto: nada como olhá-la; nada como a ter nos braços; nada como deitar a cabeça no seu colo; e nada como saber que já estivemos juntos há mais de três mil e duzentos sábados; e em todos eles. percebi que não há nada como só se ter um amor na vida; nada como amar a mãe dos meus filhos; nada como continuar a envelhecer a seu lado; e nada como os meus filhos saberem que sou. somos. homem de uma única mulher – para hesíodo o amor é uma força que move as coisas. sendo capaz de uni-las e mantê-las juntas – por isso digo: nada como ser hesíodo no século XXI. viver em amor. unido à mesma mulher desde os seus primeiros quinze anos


22/01/2023

domingo em sol







domingo em solo domingo ilumina-se. é dia do sol. e a minha casa levanta-se. enche-se de aleluias. as vozes alegram-se. a cozinha incendeia-se. as cadeiras organizam-se à volta da mesa. e estende-se uma toalha mais branca do que branco – por cada prato uma hóstia sagrada. nossa – saudámo-nos em alegria e gratidão: isto é o corpo da nossa família. carne da nossa carne – depois. levantamos o cálice da vida. da nossa e dos nossos antepassados. e bebemos o sangue do nosso sangue – saudámo-nos. agora recolhidos na memória – a família não se esquece e não se renega. aceitamo-nos como somos e reconhecemos a nossa missão terrena – porque serei sempre filho. pai. e também avô. este é o meu legado: a comunhão – aos domingos estamos todos à mesa. alumiados pela luz dos meus pais. que nos guardam e protegem de todos os males do mundo – a família. somos nós. e o nosso universo



20/01/2023

escritores. escritores amadores. e pseudoescritores – editar um livro






I.

“sendo os grandes livros, mesmo os meio grandes livros, mesmo os bons livros, mesmo os meio bons livros, extremamente raros. Provavelmente, seria, na melhor das hipóteses, uma mera curiosidade. Poucos anos depois de ter sido publicado, as estantes da «Curiosidade» de todos os alfarrabistas do país estariam atravancadas com exemplares do livro. Seja como for, decidi, se há coisas que a humanidade tem que chegue, que chegue e que sobre, são livros. Ao pensar nas cataratas de livros, nos niágaras de livros, nos caudalosos rios de livros, nos oceanos de livros, nas toneladas e camiões e comboios de livros que naquele momento brotavam das tipografias de todo o mundo, sendo que só pouquíssimos deles mereceriam a pena que lhe pegássemos, que os apreciássemos, já nem falo em os lermos, comecei a pensar que era digno de admiração o ele não ter escrito o livro. Um livro a menos a atravancar o mundo, um livro a menos a ocupar espaço, a apanhar pó e a passar, sem ser lido, das livrarias para os lares e daí para os alfarrabistas, para as lojas de velharias, para as lojas dos trezentos, e daí para outros lares, e para outros alfarrabistas, e lojas de velharias, lojas de trezentos, e daí para novos lares, e assim ad infinitum.” – [o segredo de joe gould de joseph mitchell – pág.167]

 

II.

acabei de ler este fantástico livro. magistralmente bem escrito. divertidíssimo. “uma joia de ternura e de observação bem-humorada”. com prefácio do nosso mágico das palavras. antónio lobo antunes – poderia dar-vos a ler imensas passagens desta obra de “pungente emoção”. mas resolvi trazer este pequeno excerto sobre a feitura de livros a granel – joseph. em poucas palavras. mostrou como é efémera a edição de livros por parte de autores duvidosos. e tal como nos EUA em 1964. também hoje no nosso país o destino trágico da maior parte dos livros é no alfarrabista – editar livros está na moda. começasse a escrever e catrapus. mais um livro para a fornalha. é como quem mete castanhas apressadamente na assadeira – escrevo há mais de vinte anos. várias horas diárias. e sei. agora com mais clareza. que tal como qualquer outro qualquer ofício nobre. é preciso tempo para nos tornarmos artesões suficientes – só o tempo nos torna sábios. amadurece as palavras. equilibra-as. ajuda-as a fazer sentido. a tornarem-se não apenas pele do nobre artesão. mas também do nobre leitor – durante muito anos resisti a editar o que quer que fosse. fiz apenas parte de duas antologias poéticas. com dois poemas. juntamente com outros camaradas – nunca estive certo desta participação. mas às vezes com nos acompanha justifica essa dúvida. não estamos no mundo sozinhos – rapidamente percebi que a vaidade na escrita vale muito menos do que uma peça de roupa nova. esta ainda pode ser usada várias vezes. um livro mau nunca passa do dia da sua estreia pública – o que temos nos dias de hoje são uns quantos vaidosos. desmiolados. convencidos de uma arte que não tem. preguiçosos e arrogantes – sem nunca testarem os seus limites. sem esforço. sem dedicação. sem amor. sem dor. querem-se transformar instantaneamente em escritores. querem que o livro os catapulte para o interior de uma parcela privilegiada da sociedade: as elites de uma cultura intelectual – o livro passa a ser o seu porta-estandarte. a chave para abrir todas as conversas. simula paixões e emoções. é a sua ferramenta para se justificar na inutilidade – “o vaidoso necessita dos demais. busca neles a confirmação da ideia que quer ter de si mesmo”* – ninguém é culto por editar um livro. ninguém é escritor por editar um livro. talvez para os tontos. ou familiares babados – mas o grave. e incrivelmente. é que a maior parte destes escritores sprinters. correm cem metros e sentam-se por anos. acreditam mesmo que são familiares do rei midas da escrita. tudo em que tocam fica obra poética – escrevem meia dúzia de coisas à pressa. geralmente poemas. porque no seu entender. é mais fácil fazer crer uma alminha distraída. com meia dúzia de palavras mal encaixadas – e que de repente. como se uma raspadinha literária gerasse poemas aos milhões – tontos e vaidosos – mas a verdade. é que se não vivessem na soberba não editariam. teriam pudor – desventurados. não sabem que escrever um poema com mão e cabeça não é para quem quer. é mesmo para quem sabe. e para quem dedica corpo e alma à nobre arte da escrita. do sacrifício. da leitura. da pesquisa. e principalmente da reflexão – por isso é que escrevo prosa e raramente me aventuro em poesia – um mau escritor também deve editar a sua obra. mas no meu entender tem que o fazer ao fim de um percurso: o das pedras. que não se faz. vai-se fazendo dia a dia. ano a ano. com centenas de textos pensados. centenas de poemas trabalhados e amadurecidos. abertos ao ar. a respirar crescimento. a implorar respeito – sou um escritor amador. ganhei coragem e decidi editar este ano o meu primeiro livro. em prosa. e o que julgo saber é que por muito mau que os meus textos sejam. mereço respeito. fiz de tudo para ser o melhor possível. passei milhares de horas a escrever. milhares a corrigir. outras tantas a ler para mim. a pedir luz e bom senso. a pedir perdão pela minha ousadia a todos aqueles que dignificaram a nossa literatura ao longo dos tempos – ganhei coragem. mas não vou iludido. vou apenas entregar aos meus filhos um pouco de mim. vou pedir-lhes que me guardem assim como sou. e me leiam aos que vão chegando com o nosso nome. e assim. estou certo. de que contribuí para estarmos todos mais perto do belo – não basta gostar da arte. é preciso respeitá-la – este excerto do livro que vos trago. quando o acabei de ler. pensei: eu não quero ir para um alfarrabista sem que pelo menos um leitor me perdoe esta ambição tresloucada – quero muito acreditar que mereço essa leitura – depois. que me chegue o perdão e eu descansarei – o que não posso ignorar são esses pseudoescritores. vaidosos e impostores. claro que não enganam quem sabe que é melhor escrever do que falar. enganam outros tolos como eles. e principalmente. enganam-se a eles próprios – que os nossos mágicos lhes perdoem. pois eu viverei para sempre na dúvida. editarei humilde. aprendiz. e servo

 

 *josé ortega y gasset

 


 

18/01/2023

quarta-feira em mercúrio

 




1.  quarta-feira em mercúrio – mercúrio é um deus mensageiro. e por isso. eu que não sou deus. nem mensageiro. sou apenas um terráqueo que gosta de escrever umas palermices – hoje. por ser um dia igual a um outro qualquer. resolvi em boa ventura trazer-vos esta mensagem excêntrica. expulsa de mim. mas conformada. ou inconformada? não sei. a interpretação dependerá do astro que rege o leitor – mas o que sei. ou quero acreditar saber. é que muito do que sonhei não fui capaz de realizar. e o que não sonhei. acabei por realizar tudo. nada ficou por fazer – o problema é que estou sem saber de quem é a culpa. se minha. se do destino. ou se me enviaram para a terra para espiar os pecados da minha vida anterior – se assim foi. estou certo de que a minha próxima vida será fantástica. nem preciso de muita coisa. basta-me não sonhar – cresci a pensar que todas as minhas ideias fornicavam. e que um dia. procriariam o futuro de coisas inimagináveis – e o pensamento preso a uma gestação: um dia vou despejar os meus espermatozoides pelo mundo e nascerão milhares de mim – é quarta-feira. o ponto de encontro dos saldos. metade da semana já se foi… e eu sem usar um espermatozoide – rapo de papel e coloco um risco ao meio. de cima a baixo – tenho agora duas colunas. o deve e o haver – e lá vou eu pela coluna do deve abaixo: falta isto. falta aquilo. e ainda mais isto. e também aquilo… e já que estou em contas. o melhor é também por isto e aquilo. e ainda mais isto. e isto. e isto… raios. que aborrecimento. ainda falta aquilo e mais aquilo. e mais uma tonelada de idiotices – é sempre uma trabalheira acertar as contas. é muita puxada miúda. muito sonho e tostão para cá e para lá. e depois vem a prova dos nove. com os seus noves fora… e sempre nada – de seguida passo para a coluna do haver. e ali fico estático. como se fosse uma daquelas estátuas gregas sem movimento. sem coiso no meio das pernas. a olhar para o que só eu posso e quero enxergar. e pergunto: que raio fizeste até hoje? com que espartilho te estás a delgaçar se as pernas estão inchadas de não caminhares? não sei nada de pernas inchadas. mas a minha médica diz que faço retenção de líquidos. creio que deve ter razão. sempre fiz retenção de alguma coisa. até dos sonhos. para não falar do IVA – mas não sei. não sei nada de contas. nem desta cabeça ourada – às vezes gosto de mim assim como sou. outras. pergunto: porque raio é que tens um metro e oitenta se não consegues ser do tamanho de nenhuma árvore? não sei. sei que é quarta-feira e gosto muito de ver o mar prenhe de gaivotas


15/01/2023

socio pata






“sociopata - o transtorno de personalidade antissocial se caracteriza como um padrão de desconsiderar ou violar os direitos de outras pessoas. Conhecido também como sociopatia, é uma condição mental na qual uma pessoa constantemente não mostra respeito pelo certo e pelo errado e ignora os direitos e sentimentos dos outros. Pessoas com transtorno de personalidade antissocial tendem a antagonizar, manipular ou tratar os outros com severidade ou com indiferença insensível. Eles não mostram culpa ou remorso por seu comportamento” – quando alguma destas criaturas não consegue produzir o “mea culpa” relativo aos seus transtornos emocionais: obsessão compulsiva. distimia. transtorno afetivo. transtorno bipolar. ou outra qualquer patologia instalada no interior da sua cabeça. a solução passa pelo recurso a técnicos de saúde mental – nada mais podemos fazer. e por mais que custe. por mais que nos sintamos tristes e feridos. só resta a esperança nos médicos – que os tratamentos façam o seu trabalho. revertam os sintomas. e devolvam ao mundo o mais depressa possível a pessoa sã e consciente – florbela espanca escreveu um poema a que deu o nome: loucura – vale a pena senti-lo:

 

Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada

Pavorosa! Não sei onde era dantes.

Meu solar, meus palácios meus mirantes!

Não sei de nada, Deus, não sei de nada!...

 

Passa em tropel febril a cavalgada

Das paixões e loucuras triunfantes!

Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!

Não tenho nada, Deus, não tenho nada!...

 

Pesadelos de insônia, ébrios de anseio!

Loucura a esboçar-se, a enegrecer

Cada vez mais as trevas do meu seio!

 

Ó pavoroso mal de ser sozinha!

Ó pavoroso e atroz mal de trazer

Tantas almas a rir dentro da minha!

 

e porque a vida é realmente muito curta. e deve ser vivida com saúde mental. deixo-vos uma anedota que um amigo meio louco um dia me contou: era uma vez. num dia igual a tantos outros. quando duzentos doentes. com problemas graves de saúde mental. resolveram fugir da casa de saúde s. josé. também conhecida por casa amarela de barcelos – pois bem. foram em seu encalço. e para surpresa dos técnicos de saúde. rapidamente apanharam trezentos – para espanto do mundo. nenhum dos trezentos pertencia ao grupo dos duzentos – moral da história. tomem atenção às pessoas que entram na vossa vida. há pelo menos duzentos loucos que ainda continuam em fuga e à procura de gente sã para atazanar-lhes a vida – mas não deixem de viver. façam novos amigos sem receio. quem sabe. se algum desses doentes se cura com a vossa companhia – eu dei o meu contributo. e vocês?

 


12/01/2023

quinta-feira em júpiter









quinta-feira em júpitertodos os dias da semana tem a sua energia. o seu misticismo. o seu legado histórico. e até as suas lendas – no calendário romano a quinta-feira pertence a júpiter. com a sua preponderância positiva nos negócios. na fortuna. na bem-aventurança. e na felicidade – mas para mim. o que dou como certo. já que com o astro nunca vi fortuna. é que depois de uma quarta-feira. aparece sempre a quinta-feira. e depois da quinta-feira chegamos sempre a uma sexta-feira – é esta regularidade dos dias da semana que me deixa aturdido. os cristais dos ouvidos baralham-se. fico tonto e em desequilíbrio. brutalizo-me. e pergunto: porque não posso eu escolher o dia em que quero viver. digo melhor. ou resistir à morte – bem sei que não posso mudar este ritmo caquético dos dias da semana. só me resta aceitar esta inevitabilidade babilónica. romanizada – enquanto não chega a sexta-feira interrogo-me: qual o melhor dia da semana para morrer? e qual a melhor idade? pensei logo nos cem anos. um número redondo. bonito. com cem anos podemos morrer em qualquer dia da semana. encaixamos sempre bem. o pessoal já está farto de nos mudar a fralda e a algália – já ontem era tarde – na igreja o luto é feito de conformismo. e ouve-se dizer: tinha que ir um dia – ninguém fica cá para semente – sorte já teve ele. viveu até a junta da colaça do coração partir a meio – o fígado mais parecia um mata-borrão. já não distinguia água do vinho – os rins… uns passadores. cheios de calcário – e os pulmões… rangiam como portas desengonçadas – o que tinha de bom era a dentadura.  era nova. e como já não conseguia roer carne vermelha. está impecável. bem a podem por no OLX – a outra alternativa é morrer novo. e acredito que o melhor dia seja ao domingo. está todo mundo sem fazer nada. na sorna. podem-se espantar durante mais tempo: sabes quem morreu? sabes? o desgraçado bateu a caçoleta. foi na sua vez – coitadinho. esticou o pernil – sabes quem já está a fazer tijolo? nem vais acreditar em quem foi para o caralho. que neste acaso não é ninguém que tenha ido para a pequena cesta no alto dos mastros – e aí. percebemos que o luto é mesmo dorido e carregado de um negro absoluto. com a igreja mergulhada em palmas e raminhos de despedida. lavada em lágrimas. pesarosos. doridos. alguns arrasados com a tragédia dizem: coitado. ainda tinha tanto para dar ao mundo. deixa a mulher tão nova. o que vale é que os filhos já se governam – ele não tinha bom feitio. mas era filho de deus – quando mordia era um pitbull. raios – tinha o coração na boca. não ficava nada por dizer – não era mau homem. tinha-se que saber lidar com ele – mas como ainda estou vivo. o que vos digo. é que mais vale morrer à procura de glória. do que morrer em piedade – mas que se lixe. saibam todos que a minha morte será anunciada no dia em que deixar de escrever. e para sossego dos amigos. já que com os inimigos não conto. aviso já que não haverá funeral nem missa do sétimo dia – em boa verdade vos digo. vale muito mais um defunto rico e com saúde. do que um defunto pobrezinho e doente – e com esta máxima me despeço até que o óbito se confirme 


 

09/01/2023

despedida





fui meu amor

e sou agora

contorno de um corpo no tempo

feito a carvão

invisível ao humano comum

já não tenho estas mãos

que seguraste

nem estes olhos

que viram romper as manhãs em ti

e agora.

aqui. neste mundo desconhecido

menos eterno que tu

sou uma jarra pousada

numa campa sem glória

 

06/01/2023

deambulações noturnas XLVI

 




para 2023:

tal como sófocles. também eu tenho as minhas tragédias. e o que julgo saber com alguma certeza. é que gostava de ser o herói de mim mesmo – nada mais

 

30/12/2022

2022 já era. agora venha o 2023

 




o ano 2022 está a terminar tão bem que não tenho urgência em sair. mas também não quero perder mais tempo. o que lá vai. lá vai – quero que este 2023 chegue como chegam todos os anos. sem nada mudar para além do calendário – em 2023 quero lembrar com saudade os cem anos que o meu pai faria se fosse vivo – quero também evocar os que já partiram: a minha mãe. a minha cunhada zeza. o meu sogro joão. e o meu tio joão – quero continuar com os novos amigos deste último ano. porque vieram por bem. e comigo partilharam dores e risos – aos amigos de longa data quero o que sempre quis. saúde para os ver envelhecer. um amigo envelhecido é sempre um camarada melhor – em 2023 quero amar os meus filhos ainda mais. um pai quer sempre mais. quero ser mais forte. mais risonho. e ainda mais mágico. o mundo precisa de magia – quero que as minhas noras sejam ainda mais felizes com os meus filhos. se assim for. celebraremos a comunhão das famílias – para os meus dois netos quero que aprendam a ser felizes com o conhecimento. e que tenham sempre os pais presentes no seu crescimento – para este novo ano quero a minha maria joão a sorrir mais. com mais abraços. mais bonita. mais enrodilhada em mim. quero a bem-aventurança. a cumplicidade. a constância na provação – quero o meu corpo em paz. e a mente sossegada – quero amar como nunca a minha família. e desejar saúde aos meus irmãos e descendência – em 2023 temos todos que perceber que é possível gostarmos ainda mais uns dos outros – quero ser mais desabrigado de mim. quero-me de janelas abertas. quero abril para celebrar o meu aniversário. quero editar o meu primeiro livro – quero que a bondade prevaleça em cada gesto. desejo um universo mais vulnerável e acolhedor. que nos aproxime ainda mais – borges um dia escreveu: cometi o pior dos pecados de um ser humano. não fui feliz – não cometamos nós o mesmo erro do borges. vamos fazer de 2023 um ano encantador. o mais memorável de todos os anos


24/12/2022

23/12/2022

poema de amor para o meu amor

 





nunca soube escrever cartas de amor

às vezes escrevo poemas de amor

se forem pequeninos

dois ou três versos.

mas nada de emparelhamentos

nem rimas cruzadas

coisa simples

e fácil de transportar

como um porta-chaves

ou algo do género

mas hoje sinto-me…

como hei de dizer?

transgénico

sinto-me poeta

sinto-me pessoa

e quero compor um poema de amor

para o meu amor

mas juro

não sei por onde começar

e interrogo-me:

o que tem que ter um poema de amor?

tem que ter amor

paixão

veneno para se morrer

tem que ter luz

olhos apaixonados

e promessas cumpridas

 

mas amor

em mim não há palavra ajustada

nem rima acertada

bem queria que rimasse com versage

que é alta costura

e coisa com classe

mas é o que é

e mesmo sem rimar

o que sei por escrito do fernando

é que todos os poemas de amor são ridículos

acabamos às voltas

com palavras para lá e para cá

algumas de tão curtinhas acabam por nada dizer

outras…

ficam tão cumpridas

que o amor fica todo amalgamado.

meladinho e tonto

por isso este poema de amor

[e só eu lhe chamo assim]

é para ser declamado

por um louco

apaixonado também

para que as palavras

corram mais acertadas

com paixão

menos tontas e meladas

e mesmo aquelas que [te] parece[re]m

despidas de tino

devem ser perdoadas

afinal um coração apaixonado

raramente diz coisa com coisa

mas se não houver louco para declamar

que seja um cavaleiro andante

e que traje versage

que é coisa fina

e da alta costura

mas amor

este nosso poema

é também a nossa vida

prometida

no bem e para o mal

e até que a morte nos separe

  

13/12/2022

pedras 7

 


 


[7 pedras. 7 dias da semana]

 

1.

perseu era meio homem meio deus. eu sou meio parvo meio escritor. que melhor comparsa poderia ter eu encontrado para me caracterizar? perseu era um guerreiro-herói. cortou a cabeça a medusa. acabando com a maldição de quem a olhasse nos olhos se transformasse em pedra – eu não sou guerreiro. nem herói. nem nunca transformei ninguém em pedra. mas acreditem. já arremessei palavras como se fossem pedras – mas hoje confesso-vos. estou farto de tanto escrever sobre calhaus. e por via desse nojo. esta saga. 7 pedras. 7 dias da semana. terá hoje o seu fim. a bem. ou no desenrasca – no entanto. e como gosto de escrever. sei que todo o fim contém em si um recomeço. e não tendo ainda acabado em definitivo este embaraçado de pedras. já fervilho pelo próximo desafio – e agora. do alto dos meus mais de vinte aniversários a passar-me para papel. e porque toda a escrita é autobiográfica. posso dizer-vos. continuo inconformado com o que escrevo. diria mesmo. zangado. profundamente zangado – escrever é a minha fantasia. e também o meu maior pesadelo – já ultrapassei mais de metade da minha esperança de vida. e a única cabeça que cortei… foi a minha – porém. nunca devo ter feito um grande trabalho. pois sempre que a corto. ela volta a pendurar-se no pescoço – o que me aborrece. é que volta como se nada tivesse acontecido. como se não tivesse culpa do que me fez ver. do que me fez fazer. e principalmente. do que me fez não fazer – “cabeça de vadio é hospedaria do diabo” – se os homens refletissem um pouco mais sobre sabedoria popular. a sua vereda não seria tão magoada – ao princípio. enquanto jovem e parvo. sempre quis acreditar que todos os caminhos iam dar a roma. não é verdade. alguns não nos levam a lado nenhum. entretém-nos para envelhecermos iludidos no tempo – a juventude é feita de escolhas. de carreiros e avenidas. de inconsciência. leviandade. erro. pouco cérebro. muita barriga. e de uma certa imortalidade – agora. recrimino-me e interrogo-me: porque fui por ali e não por acolá? se tivesse ido por ali talvez tivesse envelhecido devagarinho. e um homem envelhecido com o vagar do tempo acaba por descobrir o melhor caminho para chegar a roma – não tenho certeza de que se tivesse tomado outro caminho não me tornaria num ser humano bem pior. podia ter sido um mau pai. um mau filho. um assassino em série. um vagabundo. um viciado em drogas. um sem abrigo. um analfabeto. o que pode ser pior do que um analfabeto? nada – enfim. podia ser qualquer coisa bem mais trágica – bem sei que estou a dar exemplos extremos. os piores dos piores humanos. mas eu gosto de extremos. sem eles ficaria aqui a passar letra de um lado para o outro. a esticar palavra como quem estica fio – vivo agora uma dúvida permanente e arreliadora: o que serei eu se nada do que sou me parece digno de ser? existirá algo no que não sou? poderei ser um dia suficientemente bom com tanta coisa má? quais as incertezas que fazem de mim um iluminado. ou um louco à porta do manicómio? gostava de ter certezas. mas não tenho. talvez por isso viva constantemente um desassossego absoluto. como direi? um desassossego profundamente dorido. que nasce com o escuro e sobrevive com a alvorada – agora. quando não escrevo envelheço. e peço a santa bárbara não para me proteger das trovoadas. mas que encontre um raio que me ilumine o caminho das palavras – e aqui estou. sentado a escrever para não envelhecer. olhando pela minha janela para o que resta do mundo. e mesmo que o céu tenha descido mais um pouco até mim. resisto. escrevendo-me – sei agora que preciso de escrever algo que sobreviva ao meu tempo. ainda não fui capaz. mas acredito que um dia. envelhecendo um pouco mais. ficando mais lúcido. mais sábio. acabarei por o fazer – até no delírio é necessário acreditar – nada do que fui será futuro. mas nenhum futuro existirá sem o que fui – envelhecer é a única forma de gastar o tempo – e aqui estou. a escrever. nesta encruzilhada. com o tempo de trás a teimar em passar para a frente. sem vagar. sem parar. sem piedade. às vezes imoral. carrasco. a informar com subtileza que o caminho é agora curto. e o corpo a dar de si. a cabeça a dar de si. sem saber se sonhar é doença. ou devaneio que vem de nascença – vivo este pavor. como se em mim nada mais pudesse acontecer de novo. dorido. num cortejo animalesco com o dia de amanhã. anotando as rugas como glosas. dando pontos cruz com cada cabelo esbranquiçado. com cada noite amedrontada. com cada interrogação que entranho no que temo – e o medo de não ser capaz a agigantar-se. a plantar-se nos ossos. nas articulações. nas falanges distais. e o cérebro aos tombos. a cair sem saber para onde. e os dedos cegos a tatear teclas. a escrever: já não serei capaz. já não sou eu. já não sou o rapaz de dezoito anos. nem o de trinta ou quarenta. arrasto-me. medro para dentro. desapareço em olhos encovados num negro trágico e supremo – escrever é um terror. que se repete numa rotação que gira em volta da falta de tempo – que o universo me atire um cometa contra esta couraça de letras agoniadas… e me desfaça num ponto final

 

2.

preciso sobreviver ao passado. preciso viver o presente. preciso esconder-me do tempo. preciso de evadir-me deste corpo – tenho que sair de mim. mas se não souber ou puder. minto-me. finjo que saio. e mesmo fingindo. e sabendo que estou fingindo. tenho que acreditar que saí. e o que vejo e sinto. se não for real. não quero saber. é o mundo que criei e onde escrevo – e agora. o que quero mesmo que viva neste ponto final das pedras 7. sou eu. assim como sou. mesmo fingindo. porque para fingir eu tenho que ser qualquer coisa. qualquer coisa que pensei. vi. ou sonhei – e por cada segundo que vivo fingindo. ou sonhando. a minha torre de babel aproxima-se do universo – que nada em mim se desmorone. que nenhum pranto se faça pelo que não fui capaz. e que nenhuma estrela se apague no que de mim ficar – quando o corpo tiver sumido ao fogo. a alma habitar o universo. e o meu eu terreno sobreviver nos vindouros. então sei que escrevi mais do que uma palavra. mais do que uma inteligência. mais do que um par de olhos. mais do que um livro. e mesmo não sendo tudo o que senti. o que sofri. o que amei. saibam sobre palavra de honra. de que fui sempre mais do que as pedras que carreguei. fui também. e em absoluto… o espaço vazio entre elas – escrevo para me perpetuar em cada neto. em cada bisneto. em cada coração que bata como bate o meu – uma família não nasce repentinamente. demora quatro a cinco gerações a formar-se. a tornar-se forte. a aceitar-se tal como é. a conhecer os seus defeitos. as suas virtudes. a sua forma de caminhar. de gesticular. de olhar. de tocar. de dizer olá. de falar do que sente… porque o que sente faz parte de uma viagem que ninguém sabe onde começou – não podemos parar de sonhar. de resistir quando o corpo estiver cansado. de não resignar quando acreditamos que estamos certos. de equilibrar a balança porque só assim se equilibra a existência. de lutar até à exaustão. e de saber morrer como as árvores. de pé – uma família tem obrigação de recordar os que já partiram. de os lembrar com saudade. e de renovar diariamente os votos de lealdade ao seu nome – só assim seremos uma família absoluta. trazemos de todos um pouco. e de todos nos fizemos assim como somos. únicos 

 

25/11/2022

raiz de um quadrado






um quadrado será sempre um quadrado – dois quadrados serão sempre dois quadrados – um quadrado de salto alto será provavelmente um quadrado do sexo feminino – um quadrado de chancas será possivelmente um quadrado de sexo masculino – um quadrado com os ângulos polidos não deixa de ser ainda um quadrado com ângulos – um quadrado esticado pode parecer um retângulo. mas é apenas um quadrado com a mania de ser o que não é – um quadrado feminino de lábios pintados. pode parecer uma senhora. mas não. é apenas um quadrado feminino de lábios pintados – um quadrado masculino com camisa alinhada pode parecer um cavalheiro. mas não. é apenas um quadrado masculino com uma camisa alinhada – um quadrado que teima em ser o que não é. é um quadrado perturbado e com mania das grandezas – um quadrado intolerante é sempre um quadrado mal-agradecido – um quadrado dominador. é sempre um quadrado castrador um quadrado mentiroso não deixa de ser quadrado. manipula a realidade na tentativa de influenciar os outros – um quadrado sem humildade. é um quadrado que viverá sempre só mesmo quando está acompanhado – um quadrado manipulador não deixa de ser quadrado. apenas tenta fazer dos outros um quadrado igual a si – um quadrado sociopata é aquele que quando olha para um retângulo. um cubo. ou um triângulo. diz que são quadrados com defeito – um quadrado egocêntrico é um quadrado que jura que todas as figuras geométricas nasceram de um quadrado – um quadrado garimpeiro é um quadrado que procura em si o que vê nos outros – moral dos quadrados parlapatões. atenção ao que digo. não ao que faço – eu não sei que figura geométrica sou. às vezes gosto dos quadrados. outras vezes dos cubos. outras dos cilindros. e se me perguntarem porque gosto. não saberei dizer. gosto porque gosto. sem nenhuma razão divina. científica. ou existencial – gosto de todas as figuras geométricas. mesmo daquelas que tem ângulos obtusos. gosto de diversidade. de cores. de música. gosto do mar e de gaivotas. e também gosto de ver e sentir o que os outros veem e sentem – há o meu mundo. e um outro mundo feito de outros lados onde eu também gosto de me encontrar – mas o que gosto mesmo. é de prismas. une todos os segmentos de reta num ponto. e é nesse ponto que percebo o sentido de tudo o que me rodeia – todas as figuras geométricas têm a sua razão para existir. mesmo que a sua jornada terrena seja uma perda de tempo – a razão para existirem é essa mesmo. percebermos que são uma perda de tempo



11/11/2022

pedras 6

 



[túnel do tempo]

raio de peso perverso. cruel. estúpido e ordinário. que bruxa má me carregou as costas com estas pedras surrentas. emporcalhadas. imundas. envenenadas por um mundo ao qual nunca fui capaz de me adaptar – mesmo não sabendo para onde vou amanhã. ou outro qualquer dia. teimo e empurro o que trago comigo por castigo ou sorte. penitencio-me. fustigo-me com lamentos. crucifico-me ao tempo terrestre que me pariu assim como sou. e carrego o que me resta dos ossos porque a carne ardeu neste inferno em que existo – mas teimo. teimo para dar sentido às pedras que me calharam em sorte. mesmo que fiquem do tamanho da lua. levarei o corpo até ao último dia – e a dúvida continua. escrevo porque penso. ou escrevo para me fazer existir? não sei. mas teimo em saber – amarro no que me sobra do futuro e parto. parto a correr pelas fotos dependuradas ao longo dos anos. como se elas me pudessem remover as incertezas. como se me pudessem oferecer um novo final para o que já vivi. como se me pudessem fazer regressar quem já partiu – nesta viagem alucinada recordo o afeto de todos aqueles que amei e um dia estiveram vivos. e fico com a sensação estranha de que ainda posso voltar a abraçá-los. e de que os lábios ainda podem dizer o que não foi dito – e todo eu numa melancolia extrema. difícil. a magoar a carne e o pensamento. cada vez mais mergulhado num tinteiro de ideias parvas. numa irracionalidade louca. doentia. e sem fim – às vezes saio de mim. e vou à procura de me encontrar. vou por aqui e por ali. sem rumo. sem preconceito. e sem hora para voltar. apenas vou. assim como quem vai para não chegar a lado nenhum – às vezes vou porque o corpo quer. mas também vou por me sentir farto de ser como sou. de querer certezas nas incertezas. de procurar respostas para o que não compreendo. e para o que me recuso aceitar como lei universal: não envelhecerei. e que um raio de zeus me incendeie se de mim brotar um cabelo branco – às vezes vou zangado apenas por saber que quero ser o que nunca serei. e por mais que pense. por mais que me tente libertar do que vive dentro de mim. do que vive em mim sem nome. torno-me desvigoroso. que é o mesmo que dizer fraco. irracional – e sem que entenda nada de relógios. os segundos fizeram-se anos. e a desilusão a trabalhar. a ficar gigantesca. muito maior do que o solstício de inverno: os dias nunca clareiam num homem revoltoso – a dúvida a esburacar o coração e a perguntar. será que a minha informação genética está danificada? será que carrego apenas informação medíocre? ou contaminei-me com o nascimento? será essa contaminação um desígnio do universo? ou de satanás? ou de deus? não sei. juro que não sei – “e o senhor fez brotar da terra toda qualidade de árvores agradáveis à vista e boas para comida. bem como a árvore da vida no meio do jardim. e a árvore do conhecimento do bem e do mal” gênesis 2:9 – sou um inculto. um iletrado. um insipiente. um tolo. como é que poderia desejar uma árvore se nunca tive um jardim – em desânimo deixo-me cair no túnel do tempo e viajo até onde a raiva me permite chegar – às vezes vou ao futuro. mas logo fujo para o passado. é aqui que dou comigo vivo. no futuro acabo sempre morto. e nunca consigo chegar a lado nenhum – como se houvesse uma máquina para andar de um lado para outro. não há. a única máquina é a minha mente. distorcida da realidade. perigosa. por querer alterar não o mundo. mas o que vive dentro de mim – e quando pergunto. o que vive afinal dentro de mim? nunca sei responder. é qualquer coisa que fala sem boca. que anda sem pernas. e que vê sem olhos. é como se caminhasse num carril de comboio e houvesse sempre uma máquina diabólica prestes a apanhar-me. há dias em que salto do carril. mas também há dias que prefiro enfrentá-la. e deixo-me morrer num milésimo de segundo. e desapareço com estrondo. para logo reaparecer no mesmo ponto da linha – há estradas que não nos levam a lado nenhum. existem para nos enganar. para nos iludir com um fim feliz. e afinal… o que existe mesmo. é o fim da esperança – às vezes sinto-me mais para lá de que para cá. meio louco ou coisa parecida. a viver entre a realidade e a ilusão. entre as forças do bem. e o desaparecimento. sem saber dizer coisa com coisa. só o que escrevo continua a fazer sentido – acredito que haja loucos internados com menor gravidade. mas que posso eu fazer por eles se nem por mim faço? sinto-me preso num colete de forças. e mais preocupante. sinto que este colete que vesti. sem nunca o desejar. aos poucos. tornou-se parte da minha pele. e agora. que estou grande e sem certezas de nada. é por ele que respiro e me atiro contra as quatro paredes em que sobrevivo – interrogo-me então: porque sou desajeitado a pensar? não sei. acreditem que não sei nada. o que sei é que sinto saudade do colo da minha mãe. da mão do meu pai. de uma noite onde o batimento do coração. melodiosamente. entretém o silêncio do universo – nessas noites em que me ouço sei que estou vivo – é então que enraiveço e me faço existir mesmo nas fotos em que não me vejo – que tontaria. que idiotice – todos têm o direito de crer em alguma coisa. nem que seja numa pedra mágica que. depois de esfregada. nos faz acreditar que a vida é o resultado do bater de asas de uma borboleta na austrália. e que o melhor está ainda para chegar – esta vida que vou vivendo deve-me esse enredo. mas se me negar. se me renegar. eu irei atrás dela com o que me resta. de pouco farei muito. no absoluto encontrarei forças. na ingratidão moldarei o perdão. alimentarei o desespero com fé. e mesmo que o vazio onde vivo cresça para lá de onde me escondo. mesmo que os olhos se façam parede. mesmo que as pedras se façam túmulo. eu irei. irei pelo caminho que me queira levar. e a algum lado hei de chegar – sou o que o tempo me carregou. e assim sigo. sem promessas. sem mapa. apenas com as pedras que não larguei – será assim que chegarei até ao último dia 

 


29/10/2022

deambulações noturnas XLV

 


foto google



o meu mundo é cada vez mais pequeno. 
às vezes torna-se tão pequeno que só me equilibro em ponta dos pés



25/10/2022

pedras 5

 




[atena]

“segundo epicuro. para atingir a certeza é necessário confiar naquilo que foi recebido passivamente, na sensação pura e, por consequência, nas ideias gerais que se formam no espírito (como resultado dos dados sensíveis recebidos pela faculdade sensitiva).” – gostava de ter a certeza de epicuro. mas não tenho. nunca vivi passivamente. carreguei pedras que não lembra ao diabo. e quando conseguia livrar-me de alguma. logo tropeçava noutra – o que quero acreditar saber. sem certezas porque nunca as tive. é que as pedras fizeram o meu caminho. pisei-as. suportaram-me. e cheguei até aqui – todo o meu percurso foi feito de sonhos e pedras: os sonhos. imolei-os em resignação. as pedras… são o meu jardim de silêncios – trabalhei o meu próprio destino. mas não me canso de me interrogar: o destino está traçado à nascença? em boa verdade. acredito que o destino é o que encontramos depois da procura – se somos guerreiros. procuramos guerra. se somos agricultores. cavamos terra. se somos poetas. escrevemos poemas. a arte com que desempenhamos a nossa missão nos gratificará. ou punirá – e eu fui o quê? ainda não sei. o que sei é que não sou poeta e não sei fazer poemas. o que gosto mesmo é de prosa. que na maior parte das vezes é coisa idiota. ou um inferno para quem lê. e para mim. o estilista. aquele que liga as letras umas às outras. creio que sou um mártir. sempre que escrevo imolo-me num fogo que arde e não se vê – quando procurei aventura encontrei-a. à medida da minha coragem. quando procurei arte. sacrifiquei-me. à medida do alcance da minha mão. ofereci-me à deusa da sabedoria: mas atena despreza de sonhadores – sei que posso sempre dizer que a arte não se define. e que cada artista. ou pseudoartista. cria a sua arte como bem a entende. ou como a vê. ou a sente. ou como o magoa – haverá sempre alguém que a olhará a nossa arte com sarcasmo. ou piedade. ou alegria. ou tristeza. ou com indiferença. sem nunca perceber que a arte é simplesmente aquilo que tiramos de nós. quase sempre. sem poder acrescentar nem mais uma vírgula. ou um ponto final. apenas porque o corpo não dá mais: a mão não escreve mais. o pincel não pinta mais. o pulmão colapsou. o verbo espatifou-se. e o corpo rende-se à invisibilidade – para a maior parte dos artistas a glória é um abismo sem fundo – é nesta altura que o artista se entrega a uma dor lacerante. que o rasga desde a mão a um imenso que não tem fim. e descobre que a arte. a verdadeira arte. vive apenas no olimpo. ao lado dos deuses. ou dos mestres. e esta. a sua. vive apenas dentro dele – o bem e o mal. o certo e errado. a honra e a vergonha. a sorte e o azar. a família que nos trouxe ao mundo. os amigos que conquistamos. é nesta roleta da vida que um dia apostamos tudo no vermelho. e sai o preto – as forças do universo também são insondáveis – e depois. já com o preto encrostado na pele. em luto profundo. tão profundo que os ecos dos lamentos se escondem no corpo. sorvidos pelos pulmões. pelos rins. pelo fígado. pelo cérebro. pelo pâncreas. ou em algum local que nos deixa surdos. aos poucos deixamos de nos ouvir – e o corpo de tanto calar. em desespero. pede-nos para implodir – colocamo-nos então perto do abismo. um pé na terra. e outro na família. e no céu os abutres evocam-no com gozo para um último grito de covardia – raio de passarada. ignóbeis voadores. ratazanas do ar. quem vos ungiu com óleos consagrados? juntam-se em bando. como se fossem donos do destino. como se os tivesse fecundado e parido por minha vontade – e agora quase mártir. despedaçado pela falta de honra. de bondade. de esperança. de harmonia dentro e fora de mim. o meu imperativo categórico. trazido de kant. ruiu como um castelo de cartas. a minha razão é apenas a minha razão. já não será mais uma lei universal. assassinei-me com o meu próprio punhal. espetei atena no coração – não há mais nenhum tipo de compreensão para um pseudoartista. a sentença é morte por asfixia. tão devagarinho que quando estamos prestes a deixar de respirar ainda acreditamos ser possível recuperar o que sempre esteve perdido: a arte – gostava de saber se escrevo porque penso. ou escrevo para me fazer existir. mas não sei – não confio em nada. porque nunca tive certeza de nada – às vezes esforço-me para acreditar que o tempo fluiu em sentido oposto aos ponteiros do relógio. é quando me olho ao espelho e pergunto: onde está o sorriso da minha criança? perdi-me pelos dias. envelheci. enlouqueci. e aos poucos fui-me suicidando com pensamentos – viciei-me no passado. enleei-me em interrogações. apanhei overdoses de medo. ressaquei com dores. e recaí sempre que me livrava de alguma pedra – apunhalei-me centenas de vezes sem nunca ver uma gota de sangue. e chorei como choram as crianças. sem nunca me ter perdoado – o cabelo é agora branco. os olhos fugiram para trás das pálpebras. a boca já não consegue dizer palavras grandes. e os passos são pequeninos ao contrário das noites – só as interrogações continuam a magoar-me como dantes – a vontade de me estrangular com o que não sei é persistente. gostava de me fazer desaparecer e reaparecer em 2122. acredito que por essa altura a ciência já consiga transplantar cérebros – vivo agora e interrogo-me: sou obra de deus ou do universo?  ou cordeiro num altar dos sacrifícios? ou uma experiência de uma entidade extraterrestre? a angústia capturou a esperança. em resumo. às vezes estou meio morto. às vezes meio vivo. caminho de andarilho para chegar mais longe. num vagar doentio já que ninguém me espera. e peço ao universo uma porta para o que ainda tenho dentro de mim – se um dia ficar gelado. mesmo que ainda não seja a minha hora. juro que aproveito e fico morto para sempre – o tempo sempre foi meu inimigo. correu sempre em direção ao abismo – mas agora. que a distância se torna cada vez mais curta. do que tenho realmente medo… é que um dia chova pedras – freud escreveu que os sonhos noturnos são desejos reprimidos que procuramos realizar. eu já não sonho. vivo apenas cada dia como se fosse o último. e também já não peço arte. peço saúde e paz interior 

 


14/10/2022

pedras 4

 

 


[gaivotas]

a minha única forma de evasão à loucura é a caneta. ou teclas – agora é tudo moderno. tudo tecnológico. tudo numa velocidade enfurecida. com gês para lá e para cá. a fabricar estradas que ninguém consegue ver. e as portas USB escancaradas a vírus que chegam sem se saber de onde. e mais fios. mais wireless. o antivírus a trabalhar como um louco. e o correio indesejado a entrar para SPAM. enquanto os convites para sexo virtual apelam à virilidade de um visa dourado – o corpo carregado de pedras e dúvidas. debruçado sobre letras. a tatear melancolia. e as luminárias acesas. a clarear as incertezas num espaço cerebral vazio de grandeza – juro que gostava de saber se escrevo porque penso. ou se escrevo para me fazer existir. mas não sei – talvez as pedras existam para fazerem de mim um terráqueo melhor. um género de passe para a imortalidade da alma. ou uma passagem energética: quantas mais pedras carregares. mais constelações visitarás quando abandonares o planeta terra. e quem sabe. se as pedras forem mesmo grandes. do tamanho da taj mahal. um dia. terás um planeta sem pedras só para ti – é desta forma que o universo recupera a energia que acumulamos ao logo da vida: lava-nos. purga-nos do erro e das pedras. e depois. acolhe-nos para fazer de nós uma estrela. ou um cometa. ou outra qualquer coisa que vagueie pelo espaço – nada do que escrevo é certo. nada do que escrevo me leva para longe do mundo. ou para outra dimensão. ou planeta. ou me faz renascer – hoje. sei melhor do que ontem que tudo o que escrevo nunca passará de um rascunho. um amontoado de riscos quase inúteis. lixo. digo eu sem piedade – então porque escrevo? escrevo para repousar. para conseguir sossego. para viver o que as gaivotas vivem: surfar o vento. voar entre o mar e os astros. planar o sol. e sentir na pele a imensidão de um mundo azul. redondo. com almas. sol e sal – e ao fim de cada voo. quando regresso a mim. absolutamente saciado do mundo azul. redonda. com almas. sol e sal. enredo-me nas memórias. e ali fico numa desapoquentação absoluta. a trazer à vida todos aqueles que não sou capaz de esquecer – estou algemado. preso às reminiscências. a respirar sofrido. a procurar um atalho que me devolva a serenidade das crianças – e por aqui ando. a recolher despojos da minha guerra. a absolver o erro “da minha culpa. tão grande culpa” batendo com a mão no peito vezes sem conta. afligindo-me. martirizando-me. angustiando-me. gerando dor até que esta se agigante e o erro se torne insignificante – tal como o ulisses se fez passar por mendigo para entrar em ítaca. também eu me farei passar por um ser de luz para entrar no universo – um dia. talvez daqui a um século. esse universo em que acredito. me regurgite novamente neste mundo azul. redondo. com almas. sol e sal. e quem sabe. dessa vez… sem pedras. apanharei uma estrada em vez de um atalho – viver não é fácil. fabricamos toneladas de amor. dia após dia. levamo-lo às árvores. aos animais. às nuvens. às montanhas. aos mares. aos canapés. nas festividades. aos amigos. até aos inimigos em forma de perdão. e quando nos sentamos diante do pôr do sol… chega a noite a galope. e leva-nos tudo: o mundo azul. redondo. com almas. sol. e sal. leva-nos o amor. ficamos solitários. somos o mundo num mundo sem luz. e nenhuma estrela se senta a nosso lado. tornamo-nos mendigos. desabrigados. ficamos tão sozinhos que o universo cabe dentro de nós – só nos resta esperar pelo dia para voltar ao amor. fabricá-lo é sobrevivência    

                

08/10/2022

8 outubro [1924]





no passado. este dia era de festa - a família rodeava a nossa mãe. cantava os parabéns. e pedia uma vida longa - depois. entregávamos beijos. muitos. com sorrisos e carinhos - era um dia bonito. "como direi? era uma família absoluta" reunida em volta de uma mulher absoluta - hoje continuamos uma família absoluta. eu e a maria joão somos agora o estandarte vivo desta família absoluta. e o que peço. é que a nossa memória coletiva seja também ela absoluta. a minha mãe. a vossa avó. a vossa bisavó. foi o esteio absoluto desta família - com a idade começo a acreditar que todas as mulheres são o verdadeiro motivo pelo qual o "mundo pula e avança"  

 

03/10/2022

pedras 3

 




[ao sétimo dia descansa]

 

I.   

em criança. ao domingo. o assado deslizava furtivamente pelo corredor da minha casa-família. *“era uma casa - como direi? - absoluta” – o génio da carne assada. em concertação com a doutrina da igreja católica. e também com a dos meus pais. libertava-se do aparador em folguedo anunciando aleluias: “bendito seja o senhor. que de dia em dia nos cumula de benefícios. salmos 68.19” – assim era a minha casa. de absoluta gratidão: eu. o meu pai. a minha mãe. a minha irmã. o meu irmão. a minha lurdes. todos felizes. todos crentes na senhora do sameiro. e gratos por nos acolher na sua graça e proteção – eram domingos absolutos. numa casa absoluta. num amor também absoluto. com comida melhorada. roupas melhoradas. sorrisos melhorados. e quando nada falta. nem se ralha. nem o pão amarga – a bondade de deus morava na minha casa – eu crescia num quarto enorme: uma cama de bilros parada a norte. duas mesinhas de cabeceira amarradas a dois abajures. e à direita um guarda-vestidos a esfregar-se no teto – a sul. uma cómoda aformoseada com um espelho mágico que. quando lhe perguntava quem era a criança mais feliz do universo respondia: és tu – à esquerda uma cadeira forrada a veludo. e uma janela aberta ao mundo. tudo iluminado por um candeeiro pregado ao teto – era um quarto feliz com uma criança absolutamente feliz. que sonhava sem saber que um dia ia crescer – antes do sino do carmo bater chamamento. já o cheiro à carne assada lembrava que era dia de comungar – depois de percorrer a casa absoluta. divisão a divisão. entra pelo meu quarto. e pé ante pé. toma de assalto o meu sistema olfativo e. delicadamente. desenlaça-me as pálpebras do escuro – as pupilas apanham as primeiras nesgas de luz. o corpo vira-se para um lado. depois para o outro. espreguiça-se até não crescer mais. sorri como quem acaba de nascer pela primeira vez. e abre-se graciosamente como um girassol para mais um dia a medrar

-- toca a levantar. vais chegar atrasado à missa

bradava a minha mãe socorrida pela lurdes

-- menino zé luisinho. levante-se já passa das onze

o sétimo dia era do senhor. e na minha casa as leis do senhor eram levadas a preceito. visitar a igreja fazia parte do cardápio domingueiro juntamente com sustento melhorado. “nem só do pão o homem viverá. mas de toda palavra que procede da boca de deus. mateus 4.4” – já com os olhos acesos de pressa. pulava do ninho e corria em velocidade para a casa de banho. atirava apressadamente duas mãozadas de água para a face. um pente corrido com mestria ao cabelo. e por fim. umas bombadas de laca para fixar a poupa – em espera. aos pés da cama. a roupa domingueira. bem dobrada e passada. a cheirar a sabão e generosidade; aprumava-me ajustando-a ao corpo. calça com vinca. camisa alinhada. e sapato de couro polido a graxa. pronto. bonito e asseado para receber o senhor em mim – de seguida. uma chávena de leite com cevada e uma bucha de pão. e lá ia eu em passo de quem é bem-afortunado – voava em perdão até à casa do meu senhor – mal entrava no templo dava de frente com o meu cristo pregado à cruz. confesso que nunca me habituei à brutalidade daquela imagem. àquele ar sofrido. com os olhos virados para o chão. com uma chapa em cima da cabeça a dizer que era o rei dos nazarenos. e ali pregado com taxas. com espinhos selvagens a magoar mais do que o corpo. e eu sem perceber de onde vinha tanta malvadez – aquela imagem roubava-me a inocência – fazia-lhe então uma vénia respeitosa desenhando com a mão direita uma cruz em mim. cabeça bem encaixada nos ombros. orgulhoso. orgulhoso da minha linhagem. subia até ao altar-mor. ajoelhava-me pesarosamente para o sacrário. onde a píxide. o ostensório. e a eucaristia estavam guardadas. e logo procurava um lugar onde o santíssimo pudesse ver a minha devoção – sentava-me calmamente. e ali ficava estático até que a palavra litúrgica se fizesse ouvir – o sr. padre era um homem de palavra. anunciava a pregação para as onze e trinta. e ao bater da meia. lá vinha ele. sempre com cara de quem era perseguido pelo rei herodes – atrás dele. dois acólitos novinhos que. com as suas túnicas brancas. mais pareciam anjos acabados de sair da cozedura – sisudo. a olhar o chão. ajoelhava-se para onde o senhor estava escondido e. de seguida. abria o livro sagrado – ali estava eu. cheio de fé. sem nada que me pesasse no corpo. nem pedras. nem a consciência. nem pecados mortais. nem omissões – naquele tempo o pecado venial era a minha distração de criança. um palavrão ali. outro acolá. uma mentira à lurdes. uma resmunguice com a minha mãe. mas com o meu pai… não ousava sair da linha. tinha uma mão que parecia uma máquina de lavar. torcia mesmo a frio – velava a missa com devoção. levanta-me sempre que os crentes se levantavam. eles já conheciam o andamento litúrgico de trás para a frente. eu era noviço. mas quando o senhor padre arrancava a plissar com o ato de contrição. e proferia por minha culpa. tão grande culpa. batia com a mão no peito com tanta força que as costelas até rangiam – era um bom miúdo. sem nenhuma pedra às costas. sem culpa de nada. inteiramente crente. já com a primeira comunhão feita. confessado e absolvido por três pai-nossos e duas ave-marias. puro como o branco. e com a alma entregue aos desígnios de deus até ao dia do juízo final – a missa ia andando no seu passo secular. e eu ia fazendo o que era exigido a um bom menino. rezava o pai-nosso. fazia o sinal da cruz com elegância. orava pelos falecidos. pelos santos. pelos infiéis. pelas missões. pela família. pela salvação do mundo. e cobria-me de vergonha sempre que o ministro de deus erguia a hóstia consagrada e dizia: “tomai e comei. isto é o meu corpo que será entregue por vós”. e a sineta. na mão de um acólico. agitava-se a exigir silêncio absoluto – eu também dentro de mim – depois. comungava. sentia deus tomar conta das minhas entranhas. pedia saúde. luz. proteção para toda a família. e esperava ansiosamente pelas últimas palavras do dono daquela gente toda: “ide em paz e o senhor vos acompanhe” – e lá ia eu em passo feliz. agora livre de pecados que nunca tinha tido – hoje. sei que nenhuma criança no mundo é pecadora – acelerava para um assado que não podia esperar. muito menos o meu pai que ao bater da uma hora estava sentado à cabeceira da mesa

 

II.

hoje é domingo. acordo. procurei pelo assado. cheirou-me a pedras. procurei pela minha mãe e não a senti. o meu pai já não vem almoçar há mais de vinte anos. e a lurdes. já não me manda correr para a missa das onze e trinta. sabe que perdi a fé – entreguei-me ao universo. serão as suas forças que me carregarão até a última morada: com fogo vos abandonarei. e em cinzas habitarei o mar – dessa casa absoluta resta-me a lurdes. a conspirar a nosso favor há cinco gerações; tratou dos meus bisavós. avós. dos meus pais. de mim e dos meus irmãos. das minhas sobrinhas. dos meus filhos. e agora é a bisa também dos meus netos – a lurdes ainda mantem a mesma fé. devota da virgem maria. a nossa senhora. a filha de deus pai. a mãe de deus filho. esposa de deus espírito santo – todos os nossos problemas são negociados por ação direta da lurdes com deus. escuta a missa diariamente na rádio renascença. e em troca da sua devoção. pede proteção para todos aqueles que ama – acredito que não haverá ninguém mais influente junto de todo o poderoso do que a lurdes. fala com ele todo o dia. diria que são unha com carne – é a lurdes quem ainda pede perdão para as minhas faltas. jura ao seu deus que ainda sou o mesmo menino. só que envelheci e desencantei-me – este deus da lurdes nunca quis nada comigo. nunca percebi o porquê. nunca lhe fiz nada de mal. mas vá-se lá saber as suas razões. carregou-me de pedras – tempos houve em que acreditava na passagem bíblica - romanos 11.33: “quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” – a lurdes diz que a minha falta de fé é obra do diabo.  coisa de satanás.  que tem mil chifres e mil formas de nos fazer pecar. mas que deus não dorme. está em todo lado. e nunca abandona uma ovelha do seu rebanho – não sei se é ou não verdade. o que sei é que tenho duas hérnias e já não tenho lida para carregar pedras que não mereço – vida severina. o tempo escapa-se de mim. e eu a correr sem saber para onde. como se ainda pudesse chegar a algum lado. como se ainda fosse possível voltar atrás e começar de novo. como se o sino do carmo voltasse a bater o meu nome – nos dias em que me dou ao mundo. olho para as mãos e pergunto: quais são os teus desígnios se o que penso teima em não se fazer palavra? estou agora preso ao universo de aromas. a recordar a minha fé absoluta. numa casa também ela absoluta. a pedir que o sino não bata a defunto enquanto não tiver respostas – preciso de saber se escrevo porque penso. ou escrevo para me fazer existir – agora. começo a habituar-me a viver cada dia como se fosse o último. a resistir. a sobreviver. e por cada raio de luz que colho. desato um sorriso ao universo. às vezes apaixonado. às vezes encantado. às vezes zangado. desiludido também. às vezes apenas por me sentir quase pronto para a invisibilidade. e é quando parto para o lado oposto de mim. e ali fico criança. à espera que o céu me caia nos braços

 

*herberto Hélder


09/09/2022

pedras 2

 




[saudade]

tenho saudade de ser criança. tenho saudade de dar a mão ao senhor meu pai. de me sentar no colo da senhora minha mãe. tenho saudade do tempo em que desejava o que ainda não existia. de querer o impossível. da infinidade do corpo. de me encontrar sem castigos – o tempo voou. e com esse voo chegaram os relógios. os dias. as normas. os valores. os princípios. o amor. a desculpa. a etiqueta. a mentira. a honra. a insegurança. a maldade… e o fim da pureza – tornei-me pecador – a vela do batismo apagou-se. passei a viver entre a noite e o dia. entre o certo e o arrependimento. entre amar os outros e amar o que sou. tornei-me um soldado ao serviço da estupidez. inventei a maior idade. forjei desejos para os castrar com manigâncias. e criei infernos para poder viver o céu – agora. já não desejo o impossível. a minha criança interior é. humildemente. um forasteiro resignado – o que gostava mesmo de saber é se escrevo porque penso. ou se escrevo para me fazer existir. mas não sei. acredito que nunca saberei – agora vivo entre nostalgia e medo. é nesta fraqueza que me sento a escrever. interrogando-me. o que mais virá para fazer de mim um defunto? estou aqui. talvez quase morto. talvez só medo. talvez as duas coisas. talvez… nem sei. estou qualquer coisa. que não sabendo dizer bem que coisa é. digo assim para que me entendam: estou pré-morto – ruy belo no seu poema a mão no arado escreveu: é triste ir pela vida como quem regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro – eu escrevo. sim. é triste – cavei um fosso até ao centro da terra. e é com essa terra que me cubro diariamente – vou de norte para sul. sempre dos pássaros de ruy belo para as minhas gaivotas. sempre de romeu para a julieta. sempre de mim para os que amo ilimitadamente – não se ama muito. ama-se. nenhum amor é demais. por isso me curvo em gratidão para todos aqueles que me ensinaram a amar sem limites – sou um homem perdido de amores. amo os meus pais com saudade. a minha companheira. os meus filhos. as minhas noras. os meus netos. os meus irmãos. os meus amigos. alguns recentes. outros. da minha nascença. amo viver. amo as gaivotas. o mar. os meus cães. e esta sensação de quem ama. às vezes até amo as pedras que carrego – que mais pode um homem viver se não o amor? só a harmonia. os afetos. o perdão. e a compaixão dão sentido à nossa pegada terrestre – beethoven a tocar. a empurrar-me para o tempo dos esquecidos. enquanto as mãos massajam o coração para que não pare sem que o buraco chegue ao outro lado do mundo – pudesse eu ter sido água do rio. e um dia. talvez morasse no fundo do mar – mas não fui água. nem jangada. nem peixe. nem margem para que ao menos pudesse ver a água passar. fui… sei lá bem o quê. fui… às vezes crescido em demasia. outras. parado a olhar a imensidão de tudo o que me rodeava. a interrogar-me. porque há peixes pequenos se o mar é tão grande? carrego o meu próprio destino. e nunca consegui um antídoto para o largar no abismo das coisas sem resposta – somos o que somos. nasci com esta sorte. agora… procurar-me é a minha distração – aqui ando. sem eira nem beira. a avaliar as incertezas. às vezes a olhar o universo. às vezes a contar os dedos dos pés. com as mãos atravessadas no que julgo certo em mim. a suicidar-me pelo que não sei. sem que nenhum rio me queira levar. sem que nenhum pássaro me queira para descansar. sem que nenhum mágico me queira fazer desaparecer – fui por onde atalhei. às vezes como peregrino. às vezes a pé por desgraça. outras a correr por não saber parar sem morrer. mas fui. fui sem nunca perceber que o mundo não pode oferecer a todos o que não chega para alguns – triste destino que me levou como um conto. de pedras me carregou. com atalhos me iludiu – o relógio é carrasco do erro – agora. no tempo que me castiga. só quero saber se escrevo porque penso. ou se escrevo para me fazer existir – somos o que somos. cumpramos então o que somos – o que quero mesmo. sim. o que quero mesmo. é um dia chegar ao mar. mas se nenhum rio me carregar. se nenhum pássaro me levar. irei dependurado num balão. e quando uma onda me exaltar. deixo-me cair até que os olhos se afoguem na escuridão. e se um tubarão me engolir. que me leve em silêncio para o fundo do mundo – preciso de harmonia e paz. preciso de me encontrar novamente com o impossível. acreditar. serenar e aceitar. nada é pior de que um corpo esquartejado de sonhos – estou cansado. sinto as mãos a abrandar. e o corpo a mingar. mas se o meu cérebro tivesse pedais… juro que subia ao santuário da senhora da graça. e quem sabe contar-lhe-ia uma desgraça: falava-lhe de mim e do meu destino. e sem a maçar. mostrava-lhe a gaveta onde me escondo quando me perco em interrogações. fica num baixio. mesmo por detrás do olho esquerdo. ao lado do ouvido. e por baixo da língua. é aqui que todos os dias faço o milagre da incerteza sobreviver ao destino – porque me carregaram as costas de pedras se nem pedi para nascer? estou enfermo. sinto o corpo a bracejar. a resmungar. sinto a loucura a chegar silenciosamente. devagarinho. só para não assustar – e eu por aqui. a pensar. um dia hei de encontrar-me com as palavras e farei o meu epitáfio: aqui. nesta urna de cinzas. vive a única certeza de quem nasce