11/02/2012
vânia lopez - o silêncio
09/02/2012
alberto caeiro - se eu morrer novo
08/02/2012
a berma do fim
não há caminho diferente – a escolha foi feita
no tempo em que as palavras usavam calções – o tempo andou – agora. agora resta-me
escolher por que berma seguir – a esperança é para outras vidas. noutro espaço
– há dias em que caminho contra os carros. outros dias. quando a ilusão é
doença. caminho a favor dos carros – alguns levam pessoas em silêncio. noutros
dias. só o rádio sufoca as faces-pedra. conformadas – caminho – sempre me
disseram que a vida se faz a caminhar – então caminho – ainda é possível acreditar na estrada? não –
não acredito em estradas onde uns vão para lá e outros vêm para cá – se só há
um fim. como pode haver dois sentidos? fim é morte. morte é descanso – quero
acreditar que o fim é mais fácil por este caminho. por este lado da rua. sigo
atrás deste carro preto. com gente aos berros – vou por aqui. sei que o
precipício é maior e o corpo voa antes de dizer uma única palavra de salvação –
não há arrependimento – sempre quis voar – desde sempre soube que o faria
mário quintana – inscrição para um portão de cemitério
mário quintana
07/02/2012
assim assim
não estou
[escusam de me procurar]
parti
parti assim assim
fui-me em silêncio
esqueci tudo
deixei-me ir
cansado do tempo
abandonei
o corpo
assim assim
bem
quer dizer
não sei
talvez tenha morrido
morrido assim assim
quem sabe
este meu assim assim
seja um erro na linha do tempo
um momento vazio
um segundo eterno
mas não é
agora já não é
o tempo
o tempo consumi-o todo
num corpo assim assim
os chinelos esquecidos
parados. sem pés
guardam o espectro
de um tempo suspenso
assim assim
perdido
nas paredes. os gritos
sufocados pela cor da tinta
branco assim assim
e o corpo
perdido
em busca de outro corpo
e o laço da corda
baloiça assim assim
onde estou se não estou aqui?
para onde fui
se de mim não sou?
nem assim
nem assim assim
diz-me tu
que escreves assim
sou o que não sou
sombra assim assim
se um dia o sol morrer
mesmo que seja assim assim
a sombra será eterna
nesta dor de ser assim
inventei-me todos os dias
numa história
era uma vez
depois…
depois não sei
foi tudo assim assim
dentro do tempo
o corpo assim assim
perdida nas paredes
a vida assim assim
a cabeça assim assim
e aos pés
decapitados pela razão
os olhos caídos
assim. mortos. em pó
amélie nothomb
04/02/2012
il mangiatore di fagioli
pergunto-me:
para onde estará a olhar
o homem? não sei. não é possível saber. o artista esqueceu-se de o deixar
anotado – era tão fácil. uma nota de rodapé bastava para que este meu dia nunca
tivesse acontecido – agora estou aqui. perdido em conjeturas que nunca terão valor
académico – sinto-me também um quadro: sem lógica. irracional. sem cores.
linhas. contornos. sombras. dobras. estilo. iluminação. sem nada. vazio.
perdido no branco da tela ainda virgem –
nunca serei um rococó – sou imaginação e a imaginação não é nada aos
olhos do desconhecido – olho. olho e volto a olhar a pintura e não sei o que
vejo naqueles olhos negros – sei apenas o que o pintor quis revelar: um homem
do povo. chapéu de palha. unhas sujas dentro de mãos rudes. um corpo que
sobrevive do que faz – o que teria levado carraci a pintar um homem do povo? o
que escondia este homem dentro de si de tão importante que obrigasse um artista
a pegar nos pincéis e a dizer: tu viajarás comigo para a eternidade. habitarás
os salões das mansões e compartilharás da companhia dos nobres. dos condes. das
baronesas. dos príncipes. das rainhas. da arcádia e suas paisagens ideais
– serás para sempre o meu homem. o
comedor de feijões – o pão amarrado à mão. preso pela força do pulso como se
dissesse: este é meu. trabalhei por ele. tenho direito a ele. todo o homem que
trabalha tem direito ao seu pão – toalha branca. camisa branca e a jarra de
vinho em tons pastel. rasgada por uns traços finos de quem. um dia. quer ser
cor forte – na mesa a fé. o pão diz-me: estou aqui. não se esqueçam de que eu e
o vinho fazemos a ceia do senhor – havia esperança no cimo daquela mesa. havia
futuro – às vezes gosto de imaginar que este homem é uma fraude. uma invenção
do pintor. não é um jornaleiro. não é um trabalhador do campo substituindo a
carne por um prato de leguminosas – não. este homem é um amigo veneziano seu.
comerciante rico. encomendou-lhe o trabalho apenas para divertimento do seu
excêntrico ego – talvez naquele tempo já houvesse uma espécie de carnaval
veneziano e o seu amigo gostasse de se vestir como um carrejão das docas – quem
sabe. talvez fosse um nobre descendente dos fundadores do condado de bolonha.
ganancioso como quase todos os ricos e poderosos. o prazer vinha-lhe dos longos
passeios de revista pelas suas terras. terras estas que se perdiam de vista.
muito para além do rio pó. e entregues aos cuidados de gente que trabalhava de
sol a sol. gente da terra – jornada sempre cansativa. não estava habituado a
grandes esforços. parava para almoçar num dos seus muitos caseiros – em frente
dele a família que o acolhia observava atentamente o seu amo enquanto comia – a
um canto da sala. um casal; da cinta ao solo de terra batida. a certeza de que
os campos continuarão a florir. meia dúzia de filhos. alinhados pelo tempo de
espera. escutam em silêncio o barulho da boca a sorver os feijões. talvez
quentes. talvez frios. digo eu – só o
barulho da lenha. a queimar a panela de ferro negro. competia com o ranger das
mãos a rasgar o pão – aquele olhar arrasta de dentro de si um silêncio de medo
– dentro daqueles pequenos olhos pretos quero ler: por que estais aí especados
a olhar-me se apenas estou a comer a minha comida? gosto de imaginar o encontro
dos olhos. os que o artista pintou para me afligir no comedor de feijões. e
aqueles que quero alcançar. e que o pintor plantou dentro da minha imaginação –
imagino então. sabendo que nada no quadro mudará com a minha imaginação. mesmo que dentro dos meus olhos veja os olhos
de uma família humilde. honrada pelo trabalho. parada no canto da sala.
deprecada em clemência silenciosa. enquanto dentro do seu corpo cintilava o
orgulho e honra por ter na sua casa o homem mais poderoso da região – gosto de
imaginar: o que seria de um escritor sem imaginação? por isso é que quero ainda
poder ver a mulher do jornaleiro parada em frente à mesa. olhos no chão. à
espera. imóvel. que o seu senhor termine a refeição – ou ainda. uns olhos acabados
já no tempo do romantismo. imagino o comedor de feijões. a meter a colher à
boca. quando. num súbito bater de asas. um passarinho entra pela porta e. de
bicada em bicada. apanha as últimas migalhas de um dia que talvez fosse
especial para aquele lar. e o homem. assustado pela aparição do belo. não
conseguiu esconder o espanto dos olhos – também eu pinto. não era minha
intenção substituir o carracci nesta vontade de dar cor à minha folha de papel
– para ser franco. não sei exatamente o que quero imaginar. às vezes quero
apenas inventar novas tintas – misturo-as. volto a misturar. e vejo uma nova
cor – agora estou a ver a jarra pintada de lilás triste – na minha cabeça.
quero apenas criar quadros como no iluminismo. um movimento de ideias capaz de
reformular conceitos erradamente predeterminados. os mesmos que trouxeram este
mundo até aqui – pintar um jornaleiro na época não era normal. talvez o artista
quisesse ser diferente e dar um murro na mesa das elites – ou então. carregado
de dívidas. com os impostos em atraso. com o subsídio de férias e de natal
cortados e em graves dificuldades económicas. tenha vendido a sua alma ao poder
do capital – carracci sabia que este homem. disfarçado de tragédia. era apenas
uma manobra de marketing de um dos senhores poderosos da região. quis mostrar
que a vida estava má para todos. que era necessário fazer sacrifícios. cortar
custos. reduzir despesas. tornar tudo mais competitivo neste mundo que agora
começa a ser global – quem sabe. o pobre jornaleiro. aquele que não aparece no
quadro. tenha sido despedido. extinção do posto de trabalho – a esperança está
naquele naco de luz que o pintor deixou penetrar no tempo daquela gurita
pendurada ao ombro do jornaleiro. protegida por uma cruz de quem sabe que a
vida é sofrimento – o tempo nada trouxe de novo. para quem trabalha. nada
mudou. tudo se repete – para a história fica apenas o pintor e o seu comedor de
feijões
26/01/2012
a boca fechada
o cadáver
acontece – sem palavra. insignificante. inofensivo. imóvel. inocente. indiferente – tudo agora está escuro
– onde não há palavra não há ruído – as mãos deixaram de escrever. estão
cruzadas. a imaginação suspendeu-se. fixou-se num ponto inventado. o verbo é agora
pretérito perfeito misturado com silêncio – no fato preto. a cor de toda a
minha vida – os olhos fechados. não sei a cor da gravata. nem quem a escolheu.
pode ter sido tirada à sorte daquela última gaveta do guarda-vestidos. sei que
o nó é grosso. sufocante. estranho. falta-me o ar. talvez seja das tábuas.
estão tão juntas aos cotovelos – a boca fechada. presa nos lábios. a cola –
colaram-me os lábios. obrigaram-me ao silêncio. agora nunca mais posso dizer:
olá. como estás – sem palavra não sirvo para nada. não sou vento. nem gaivota.
nem desespero. nem lágrima. sem palavras não se fazem lágrimas – será que
alguém teve medo que eu dissesse alguma coisa desagradável. talvez um amigo
amedrontado. sabem que há palavras que matam mais do que a própria morte – passei
a vida a dizer que não sabia falar. mas assim. fechada? com cola? não era
preciso – nunca imaginei que a morte assentasse na falta de palavra – falava
com gestos. sempre foi assim. os braços para trás e para a frente. a correrem
como loucos. os olhos caídos no chão como piões rodavam entre as pernas também
elas desconsoladas por nunca saberem o caminho do corpo. e a boca sempre ali. morta
por dizer o que nunca sabia dizer. só na cabeça as palavras faziam sentido. e
dentro. a língua. as papilas gustativas. sempre a salivar por um verbo de amor
– só com o meu amor os beijos eram
palavras. podia dizer amo-te sem gastar uma única palavra – que faço sem boca?
que faço vestido de preto? que faço ao corpo velho. enrugado. triste. como
sempre foi. perdido. escondido em projetos. em
esboços. viagens – nunca saía de dentro do meu corpo – abram-me a boca. deixem
entrar o ar mesmo que esteja frio. mesmo que nos côncavos olhos já não veja os
lugares onde me sentei a sorrir. aquela rocha voltada para o mar. na póvoa do
varzim. onde pela primeira vez falei com as gaivotas – que dia: o céu cinza. o
mar cinza. as gaivotas cinzas. tudo estava cinza. os pescadores em terra cosiam
as redes em roupa cinza. e as ondas de agosto abafavam o ruído das pessoas no
passeio alegre – e eu ali. com um agosto jovem. sem nada saber de oceanos. só
mais tarde descobri que o mar lava a alma. mas também a afoga – sozinho. nem ninfa.
apenas as gaivotas. voavam-me em círculos sobre mim. como abutres. já sabiam que mais tarde ou mais cedo a boca
seria a minha morte – não é uma questão de falar convosco. aqui já nada me
resta a dizer. mas para onde vou. donde venho. o que fiz. ou o que gostaria de
ter feito – pensando bem também não sei donde venho. nem o que fiz. ou o que
gostaria de ter feito – há tantas coisas em mim que nunca soube escolher. hoje
queria uma coisa. amanhã outra – talvez não precise da boca. talvez tenha dito
tudo que é permitido a um homem preso a um corpo que nunca para de estar quieto
– não sei falar – mesmo com a boca fechada não tenho silêncio dentro de mim.
nunca tive. há sempre barulho. alguém a querer dizer: tu não és tu – se nunca
sou eu. para que serve viver? – não há forma de manter o corpo dentro da cabeça
e rebolar até aos pés dos que me percebem – preciso de silêncio – ser cadáver
em vida é uma complicação sem nome – quero desaparecer sem que ninguém repare
20/01/2012
então até já
tempo moderno. no homem a máquina e na
máquina o homem – os antepassados não compreenderiam. eu. também passado. ou
quase. compreendo porque ouço vozes a dizer: está tudo bem. correu tudo bem. a
pedra foi dinamitada – raios de pedra. implodiu dentro de mim. onde moram
outros eus: a família. os amigos. os abraços. os cumprimentos. e aqueles que
transformam um simples bom dia numa viagem ao tempo dos bisavós – antigamente. bom
dia era unicamente educação – pum. momentaneamente deitamos as mãos aos
ouvidos. a implosão é sempre uma explosão para os tímpanos – ouvi dizer que os
ouvidos estão presos ao coração por lágrimas que ainda não foram choradas – mas
não. o barulho era enganador. traumas do que ouvimos noutras vidas – aqui. é
festa. é garrafa de dom pérignon. explodiu de alegria enquanto do céu caiam mil
confeitos. mil cores. há quem diga que
são lágrimas secas. outros. com mais fé. dizem que são sorrisos de quem o
espera no passeio da foz – ainda há mar para ver. e um rim finalmente em
descanso
19/01/2012
vasco graça moura - nó cego. o regresso
vasco graça moura
11/01/2012
o senhor do pulmão único
o mar traz
no cimo das ondas gaivotas enlouquecidas. até aquela cinzenta que vive dentro
do meu único pulmão. a única capaz de transformar o caos em confiança – este
pulmão comprei-o a um fidalgo que vagueia dentro de mim – foi com ele que percebi
um sofrimento em mim que nunca iria compreender – é um homem distinto. alto. elegante.
usa cartola. luvas de pelica e um lenço branco. delicadamente recortado. que escapa
do bolso do casaco negro de caxemira. combina com a camisa branca. engomada e
de seda pura. na extremidade das mangas uns botões de punho em ouro com
caveiras encastradas. no dedo anelar. um anel idêntico. enorme. com a mesma
caveira em alto relevo. sela as cartas confidenciais com o lacre da sua própria
vida. que se consome a cada palavra escrita – nunca percebi para quem escreve.
talvez para um familiar perdido em algum canto remoto de mim e que ainda
desconheça – caminha preso à bengala que marca os passos. sempre exatos.
ritmados. como se seguisse uma partitura invisível. talvez marcha militar. nem
depressa. nem devagar. as pernas andam apenas porque andam. move-se apenas para
nunca estar parado. talvez não goste de nenhuma parte do corpo que lhe dá
guarida. ou então. precisa de movimento para manter as costas direitas. sempre
perpendiculares ao sentido de tudo que me passa pela cabeça. como os pêndulos
dos relógios. que oscilam em paredes vazias. marcando um tempo que avança mesmo
sem ponteiros – os sapatos. ah. os sapatos de atacadores brilham. não sei se
são novos ou apenas bem engraxados. mas brilham. brilham como nada mais em mim brilha.
como os olhos dos meus amigos. como as mãos que me cumprimentam. brilham como
os castiçais que seguram velas insistentes em alumiar o que já se apagou. brilham
como as palavras escritas nas paredes em que me encosto para descansar os pés
que me suportam – este cavalheiro. importante. continuo a pensar eu. anda
sempre de um lado para o outro. um dia aqui. outro ali. sempre sugando o ar. indiferente.
que lhe invade a boca em gritos – este “gentlemen”. creio que deve ser de
descendência britânica. nunca se atrasa. àquela hora ali está. batendo ritmadamente
a sua bengala num órgão qualquer – agora percebo que a dor não me pertence. nem
a vida – um dia faço algo que o desagrade. e zás. pancada final – acredito que
é para isso que vive dentro do meu único pulmão – até que um dia. impaciente. simplesmente
diz: acabou-se o tempo
20/12/2011
natal 2011
jacopo bassano
brevemente partirei para dentro da minha família.
amigos e companheiros da arte da literatura – esta é uma quadra de recolha.
meditação e agradecimento pela vivência de tantas coisas belas que a vida
graciosamente me permitiu apreciar – sendo assim. feliz natal. voltarei em 2012.
com a esperança renovada de que o novo ano será ainda melhor para mim e para
todos aqueles que estimo
aos
meus amigos e leitores desejo-lhes um feliz natal e um ano novo cheio de
sucessos pessoais
14/12/2011
cadáver procura-se
as mãos. outrora fortes. crentes na
imortalidade atrofiaram. enroscaram-se nos pulsos – são agora escadas em
caracol para o inferno – subiram. degrau a degrau. até que um dia. envelhecidas
pelo tempo. suicidaram-se no silêncio do corpo – maldito corpo que pariu umas
mãos assim. maldito belzebu. maldita língua – se ao menos soubesses dizer o meu
nome. talvez ainda fosse a tempo de colar a cabeça noutro corpo – aproveitava
os olhos. os ouvidos. a boca. o sabor dos dias nebulosos. das maçãs à porta da
loja. da espiga vermelha. do casaco aos retalhos. dos sapatos de verniz com
aquela fivela dourada. do pente que arrastava o cabelo para trás do nada. do
old spice a fingir o ar do mar – aproveitava tudo. menos o coração – era então
outro – sempre disse que este coração me levaria à morte
13/12/2011
o meu corpo é um lugar de silêncio
é no mar que
submerjo nas noites em que não me encontro. e no silêncio descanso – um dia
entregarei os olhos a uma estrela-do-mar. uma que. por viver tão fundo. nunca soube
o que era um raio de sol – não os entrego por não querer ver mais. não. sou
cego desde que nasci – nunca me vi por fora. só por dentro tenho uma vaga ideia
dos corpos que me ocupam – talvez haja dentro do meu corpo um buraco sem fundo.
onde outros corpos entram porque têm de entrar e depois saem porque têm de sair
– acredito que não encontrem nada que os faça ficar mais um pouco. nem mesmo como
caixeiros viajantes – um banho retemperador. uma refeição. um bom sono para repor
energias e. ao amanhecer. com as primeiras nesgas de luz. arrumam a mala e partem
– muitas vezes dou comigo a imaginar que os corpos são paridos em silêncio. num
qualquer pedaço do meu corpo que ainda desconheço – loucura. só pode ser. às
vezes imagino coisas que não lembram ao diabo – sempre tive corpos a entrar e a
sair – estranho. entram e saem sem uma palavra – nunca percebi porque
atravessam o meu corpo como se fossem donos da minha intimidade – atravessam como
os patos selvagens que cruzam o céu à procura de terras-refúgio. terras
quentes. terras de abrigo – atravessam em formação. como se juntos fossem uma
seta gigante a indicar: é ali que vamos ser felizes – acredito que também estes
corpos silenciosos atravessem o meu corpo para atalhar caminho. para se
acercarem mais depressa de outros corpos. mais quentes. mais abrigados. mais protegidos.
mais espaçosos. mais luminosos. corpos onde finalmente podem ser felizes – o
meu corpo nunca foi grande. sempre me senti acanhado
dentro dele – imagino sempre tanta coisa. e quero guardar tudo. quinquilharias
que só eu vejo como tesouros – no passado dizia-se que tudo trazia saber. em
cada velharia havia vida. o conhecimento. assente em pequenos lingotes de tempo.
partia de boca em boca. de terra em terra. até que um tolo de ouvido tísico.
ávido de saber. escrevia em papel a alma de uma nação: o seu povo em estado
puro – também eu quero guardar tudo. quero fazer parte desta nação virada para
o infinito do mar. destemida. louca. arrojada. altruísta. solidária. crente que
a sua robustez de nação secular advém do acreditar – a força vem das dificuldades.
quanto maior. mais ao ouvido os tambores marcam a marcha: contra os canhões.
marchar. marchar – sempre marchei em dificuldades convencido de que estas
trariam corpos com vozes para dentro de mim – mentira – ninguém ouve o silêncio
– o silêncio traz sempre mais silêncio – silêncio dor. faca. mutilação. até que
um dia damos conta que já não respeitamos o corpo que suporta todos os corpos.
todas as portas. todos os buracos que abro para ter a certeza que. na hora da
morte. não sou comida dos corvos – morte. morte. morte em silêncio. como velho.
como trapo. como pó insignificante – nunca sei nada. e no entanto. quero ainda
saber tanto – tudo me ocupa espaço. aquela história de que o saber não ocupa
lugar é a maior mentira que inventaram até hoje – uma mentira de um aldrabão. de
um estúpido perdido do seu próprio corpo. um destes vultos que gosta de atalhar
caminho pelos corpos. um preguiçoso – as saudades de mim são imensas: dos
calções curtos. da bola. do pião. da carica. do calor das noites de verão. e
dos invernos onde os cobertores da serra. de lã pura. agasalhavam os males da
geada que cobria os campos – das memórias – com os pés encostados a uma botija
de areia quente. rezava ao meu anjo da guarda. pedia-lhe perdão pelas faltas
que não cometia e prometia-lhe que jamais voltaria a ouvir um palavrão.
respeitaria os meus pais e os mais velhos. sempre. iria à missa. não faltaria à
catequese. comungando todos os domingos a palavra do senhor – amém – acabava
sempre com um pedido a deus. se por acaso me levasse durante a noite. que partisse
sem pecado e. no paraíso. me esperasse o descanso eterno – estou cansado. a
idade não para de avançar. e o coração já não encontra espaço para bater com
precisão no meio de tantos corpos – triste e cansado. e os corpos sempre a
passar calados. cada vez em maior número. e com mais silêncio – já arrastam os
pés – ingratos. nunca foram capazes de pronunciar um obrigado por os deixar
passar pelo meu corpo. sem os questionar uma única vez – não adianta. sempre
foi assim. sempre usaram o meu corpo de passagem e. entre mim e eles. há apenas
tempo – tempo feito a relógio – passam uns dias mais devagar. outros mais
depressa – e eu sem nunca saber o que fazer – olho-os. e percebo que os olhos estão
costurados. passajados a linha de seda embebida em cera para resistir ao tempo –
a boca cerrada por um cadeado forte. e nos ouvidos restos de folhas d’os
lusíadas – numa das pontas ainda se pode ler: adamastor – talvez estes corpos sejam
adamastores zangados com o rumo que dei à minha vida
12/12/2011
de nihilo nihil
compreender
estas sombras não me é possível. há uma ordem nas palavras que não domino: dor.
saudade. alegria. recordação. amor. amizade. abraço. lágrima. compreensão.
bondade. resignação – tudo se devora da carne da minha carne – e os olhos calam-se
*de nihilo nihil – nada vem do
nada – nada foi tirado de nada. isto é. nada foi criado. pois tudo o que existe
sempre existiu; este aforismo resume a filosofia de lucrécio e de epicuro
11/12/2011
Sabes, Pai - jorge reis-sá
jorge reis-sá
sabes, pai
o cachecol bege nos muros da foz
cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento
o boné azul, marinheiro nos cabelos louros
sussurrava pequenas frases às silentes águas
o teu sorriso tão leve, enternecia o rosto
esses óculos, teu cabelo nas tardes de sol
ou o barco encalhado na areia breve
junto ao castelo onde nos passeávamos
eu tu a mãe, duas ou três falas e o meu corpo
que se chegava a vós junto à estrada
nestes muros da foz, abertos ao mar
que voava
10/12/2011
08/12/2011
notícia de última hora
a notícia
presa às mãos de quem a vende em segunda mão com o rótulo de nova – fresquinha.
acabadinha de sair do forno. em primeira mão. última hora – e o pobre do homem.
com sorrisos guardados na algibeira. oferece-os aos compradores ávidos de saber
virgem – um vulto que cria a sua vida num círculo num círculo geométrico
imperfeito. perfeito só o seu crânio
circular. tão simétrico que parecia feito a compasso – dentro deste círculo.
tudo se organiza: olhos enormes. redondos. enfeitados por duas orelhas
elípticas. uma boca aberta. um buraco escuro onde as palavras nunca foram
pronunciadas – todos estes círculos estão presos a um tronco retangular.
contraste com o mundo esférico. cai na vertical. e só a boca sabe sorrir na
horizontal. sem pernas capazes de dar passos completos. gira. gira como as
bailarinas dentro de caixas de música. dançando ao som da música captado pelas
orelhas giratórias – sacode os braços. espalha as notícias perdidas no tempo.
transformadas em cortinas de ferro para evitar os maus olhados do exterior. sem
geometria. desbotadas pela luz. marginalizadas. voltam a ganhar vida com o
vento perdido dos seus gestos – é o mundo por detrás da notícia. e ela ali:
editada. estampada. estendida. estatelada. grávida de uma primeira página
virada para o incrédulo – vaidosa pelo tamanho da letra. proclama: sou notícia.
sou nova hoje. mas ontem. já me notícia – vendida em quiosques circulares. sem
princípio ou fim. grita para quem passa. oferecendo-se como se houvesse ainda
assunto para desvirginar. e o rompimento do hímen faz-se por um par de mãos
violentas. que desfolham páginas. manchando as pontas dos dedos de tinta preta
– revistas despontam entre páginas. a ganhar nova cor. agitam-se. oferecem-se
em galanteios que lembram valsas em salões nobres. de um czar fotografado na
intimidade – talvez seja desta que partam pelo mundo. talvez encontrem uns
olhos que as adotem ou um sorriso impresso no corpo que lhes deu vida – dentro
deste círculo geométrico imperfeito. há um escuro que não vem do luto. é o
prédio à frente do sol. ergueu-se de um dia para o outro. como as notícias. só
que o prédio ficou para sempre. e as notícias parecem caixeiros viajantes –
talvez nada disto seja real. este mundo não existe. as notícias não são
verdadeiras. e os homens que as vendem serão finalmente livres. os outros. os
que correm em busca da excentricidade numa folha de papel. é que talvez nunca
tenham existido – todas as notícias são circulares. como a vida. e até o tempo.
aos poucos. se tornou também ele circular – no expositor ponho e reponho a vida
dos outros. prendo-a por molas a arames velhos. que nunca substituo. esticados
no tempo. hirtos. fortes. capazes de aguentar qualquer notícia. qualquer dor.
sorriso ou esperança – o tempo dobrou-os. agora. já bombeiam a meio. estão cansados
do peso da vida que não suportam. dia após dia. ano após ano
– bom dia. o jornal notícias
e a bola
– são dois euros por favor
* citação de fernando pessoa
07/12/2011
retalhos – número de série 07122011s(r)ego01
um dia destes. quando o sol nascer do
outro lado do meu meio corpo. estarei de costas para este meio dia que vejo – há um
descompasso de meio dia dentro do meu meio corpo: meio coração. meio batimento
cardíaco. meio litro de sangue e meia lata de lágrimas guardadas para um aperto
afetivo. um pé-de-meia de quem sabe que a vida se faz de meias verdades –
talvez seja um problema giratório – meio. meio-dia. e uma multidão horrorizada
abala do meio-dia que albergo para outro meio que ainda não sei onde fica –
ouço bach – só a música traz a vida por inteiro até ao meu meio corpo – e eu. sem saber a qual meio dia darei a alma por
inteiro – escreverei até descobrir















