.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

23/07/2010

autocarro 02.07am









num dia qualquer. apanhei um autocarro. o 02.07 AM – ia sem destino. para mim – todos os outros passageiros pareciam saber o propósito daquela viagem. eu não – algo naquele número me atraiu. o 02.07 AM. parecia-me bem para número de autocarro – em boa verdade poderia ser 072ma. 702 AM ou talvez 2.07 AM. mas não. era o 02.07 AM – parou em frente a um precipício – o motorista. homem com uma farda que levava duas asas bordadas sobre o coração. abriu-me a porta. olhou-me com os olhos fechados. e ouvidos nas mãos. como quem teme as perguntas. “disse-me: espera. mas não desesperes pela tua hora. mais tarde ou mais cedo alguém te virá buscar” – estava sem horas. possivelmente deveria ter apanhado um relógio com AM. daqueles que são feitos no japão. têm os números vermelhos como olhos do demónio que mora na rua 02.07 PM – vive no outro lado de mim. escreve poesia nos dias em que os defuntos são encaminhados para o céu - gosto deste demónio. sei que no fundo não é mau rapaz. gosta apenas do inferno. penso que já nasceu dentro de um inferno. agora. já não se dá sem aquele mal-estar que o faz escrever coisas infernais – raramente o ouço. com o tempo tornou-se silencioso. sabe sofrer para si. anda entretido com aquela mania de escrever os versículos satânicos de almas deprimentes – um dia. um anjo vestido de fato. enviado por um ser que toma conta de todos os homens felizes. “veio-lhe dizer”: pousa a caneta. nem todos nascem para carregar o peso das palavras. talvez lhe arranjasse um lugar numa associação de benfeitores do mundo. junto àqueles que não sofrem o pensamento - mostrou-lhe as mãos. manchadas de negro. negro carvão. e aproximou-se e sussurrou: já não sei escrever com caneta de aparo de ouro – este demónio. já só reconhece as letras. que tal como ele. contorcem-se em silêncio. não pelo tempo que a viagem do 02.07 AM demora a fazer. mas porque está sem horas e vê o tempo a passar – e o precipício sempre ali. mesmo ali. à frente do tempo



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