trouxe cristo para o centro do meu quarto. tirei-lhe
a cruz e carreguei-o com as minhas dores. segredei-lhe as desilusões e
lavei-lhe os pés com as noites que passei sem dormir – jurou-me amizade para
sempre. disse-lhe que não valia a pena preocupar-se comigo. bastava conversar
um pouco. fazer um pouco de companhia. afinal. em tempos tínhamos sido amigos –
com o passar dos anos deixou de aparecer. só o via em livros e em igrejas que
nunca nos deixam falar alto. dizem que perturba o silêncio – falámos de tudo um
pouco. eu sobre o meu mundo. ele sobre o dele. acabámos por perder a noção do
tempo. culpa dos relógios. o meu está parado há muito tempo – acabou por falhar
a missa matinal das seis – não sei o que vai acontecer. aquelas beatas não
costumam perdoar. e mesmo sabendo que a falha é divina acabarão a cortar na casaca
– espero que não saibam que está em minha casa. já rasgaram há muito tempo o
meu casacão. um de pele que me cobre a carne mutilada – acabamos por tomar o pequeno
almoço juntos. ajudou-me a arrumar a cruz. atrás da porta do quarto de arrumos.
onde meto todos os desesperos que não consigo libertar – coisas que doem apenas
porque doem. assim como o amor que arde sem se ver. merdas complicadas que
prefiro guardar num quarto sem janelas – falámos de tudo um pouco. ele falou do
meu mundo. eu falei do dele – perguntei-lhe se um dia me podia dar o céu aqui
na terra. não me respondeu – perguntei-lhe se todos os que não gostam de mim um
dia viriam a gostar. pediu-me mais uma chávena de café – perguntei-lhe se um
dia serei capaz de explicar aos meus sonhos o motivo porque nunca os farei
reais. pediu-me um pouco mais de açúcar. percebi que a conversa estava azeda. mesmo
assim. perguntei-lhe se me poderia arranjar um lugar na cabeceira da mesa dos
meus antepassados. respondeu-me que estava a fazer-se tarde. tinha medo de não
chegar a tempo para um milagre que tinha sido encomendado por um sujeito que. ajuda
à missa no bairro do senhor dos aflitos – meti a mão ao bolso. tirei trinta
moedas e dei-lhas – tinha-as no bolso desde o dia em que judas foi crucificado
à direita do pai – pediu-me para as entregar caso um dia eu me encontrasse com cristo
– assim fiz. entreguei-lhas em mão. tocámo-nos. apertámo-nos. por fim. olhou-me.
calmamente meteu-as ao bolso. e começou a andar em direção à porta. disse-me
que tinha ouvido no rádio que se aproximava um dia de chuva. olhei para o fundo
da minha chávena. restava ainda uma pergunta – olhei-o nos olhos. e
questionei-o. porque me chamava de filho se nunca me tinha dado um abraço – olhou
para mim e respondeu que talvez fosse melhor sair pela porta de trás. não
queria que ninguém o visse em minha casa – preparei-lhe uma merenda e o aconselhei
a ter cuidado com os carros. andam por aí uns malucos que não respeitam coisa
nenhuma. perderam a fé na vida
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
05/07/2010
conversa com cristo
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