comecei a chorar. não por que quisesse.
mas porque acabara de comprar estas lágrimas na feira da ladra – o homem de
fato treino que me vendeu as lágrimas calçava umas sapatilhas nike. tinham
pertencido a alguém que correra os cem metros em menos de dez segundos – do seu
corpo franzino pendiam mãos enormes. ossudas. quase mortas. uma barba espessa.
e uns olhos fundos. escavados em granito preto – confiei nele. não estava de
fato e gravata. nem tinha uma pasta de pele confecionada por um qualquer
estilista francês. tinha um banco de praia enferrujado e um cobertor diferente
de todos os que eu conheci: roto. sujo. e cheio de quadrados irregulares.
talvez triângulos isósceles. com ângulos que apenas ele os conhecia –
perguntei-lhe onde tinha colhido estas lágrimas tão transparentes. não me quis
adiantar muito. o segredo é a alma do negócio. tinha um vício para alimentar
que não lhe dava descanso. acordava-o todas as manhãs com as dores de uma
jornada incerta. feita de uma corrida contra um tempo que dói – essa dor.
silenciosa. segreda-lhe todos os dias ao levantar. que agora falta menos um dia
para o dia do juízo final – para ele. o sol está onde sempre esteve. ali. a
nascente. onde. um dia. o pai o levou pela mão para ver a quantidade de ferro
velho que os humanos produzem – talvez tenha sido nesse dia. ternurento e
cruel. que o seu corpo encheu de medo. e se tornou frágil para sempre – quem
sabe. algumas daquelas criaturas venderam a alma ao diabo. e agora estão todos
na feira da ladra. a vender o que lhes sobra da vida – mas foi nesse mundo de
sobras que encontrou a única solidariedade verdadeira. fez dela abrigo. e do
seu corpo uma morada de vida – desesperado com ele e com o mundo que o alberga.
embrenhou-se para sempre nas suas veias que. com o tempo. desfizeram na procura de alívio divino –
olhávamo-nos. eu imaginava a sua vida. e ele imaginava a minha. e cheguei a
simples conclusão: eu podia ser ele. e ele eu – a única diferença é que eu
virei à direita. e ele à esquerda. eu tive a minha família para me amparar. ele
não. eu tive amigos para me amparar nos momentos de dúvidas. ele nunca teve
amigos – quem realmente somos nós para condenar quem quer que seja. para
podermos falar da sua vida teríamos que calçar os seus sapatos. viver na sua
família. ter os seus amigos. e mais importante. pensar pela sua cabeça – queria
falar mais. mas a roupa mostrava que pertencíamos a mundos diferentes – havia
um muro de betão a nosso meio. eu tinha medo de ser arrogante e insensível. ele
talvez tivesse medo de me mostrar como realmente era – ligou um gira-discos de
uma época onde os brinquedos eram de chapa. tinha uma agulha de aço. e uma
orelha enorme por cima do corpo de madeira com manivela – percebi o porquê
daquele homem ter dentro de si todas as dores do mundo. vivia no passado. onde
o gira-discos era um objeto superlativo numa casa. musicava os lares. e as
famílias dançavam à volta de si próprias – este ouvido gigantesco do cantante.
tinha uma caixa capaz de abrigar todos as injustiças que o seu mundo produzia –
e quando a música começava a ficar roufenha. sabia que era altura de dar à
manivela. como se carregasse a caixa de uma nova vida. coisa que não conseguis
fazer em si. estava sem forças. e sozinho num mundo que não tolera as diferentes
– lentamente. a música ergueu-se. encheu o espaço. tocou para si. para mim.
para nós. e ali ficamos. comtemplando-nos. desejando que a melodia nunca cessasse
– começou a gotejar umas pequenas lágrimas. iguais às minhas. só que as dele
estavam cheias de arrependimentos. menos transparentes – ficamos por ali a
conversar. falamos da vida que ainda nos faltava viver. da sua manta de retalhos.
e dos restos do seu mundo. espalhados ali para vender que tinha ali para vender
– em cima de um tabuleiro de casquinha de prata. havia uns cristais italianos
de murano. perguntei-lhe onde os tinha adquirido. disse-me que tinha sido uma
herança. um amigo visconde que tinha acabado morto dentro de uma urna de pinho.
deixou-lhe também uma colher e um limão. que ainda hoje guarda dentro da caixa
de música – era escritor. teimava em escrever o que ninguém lia. nas noites em
que abraçavam o mesmo destino. dizia-lhe com um sorriso. que apenas a dor
conhecia: um dia nasceremos de novo. num mundo mais bonito. sem dor. sem
ostracismo. sem indiferença e sem o peso das sobras da vida: o ferro velho
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
05/07/2010
ferro velho
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