desviei o olhar para o chão e fui reconhecido por
uma gaivota cinzenta. que viveu no meu mar no passado. conhece-me o rosto. e o
que levo no seu interior – este rosto. que apodrece no tempo. já não quer mais
o que trouxe do passado – não sei se me quer voltar a falar ou apenas rir do
que ainda carrego em mim. talvez as duas coisas… talvez – se soubesse o peso
que esta palavra representa para um rosto atormentado. talvez ninguém mais a
usasse o talvez – talvez algum profissional linguístico a proibisse de ser usada.
a agrilhoasse. ou a lançasse ao meio do universo para transformá-la num cometa.
e assim. talvez eu fosse levado por uma onda gigante. e talvez me tornasse num
peixe de olhos azuis. um peixe de mar só meu. com as mãos ainda maiores que a
indefinição do talvez. e definitivamente me perdoasse – mas também já não me
interessa. soubessem vocês. que tenho agora o mundo ao colo. amarrado às
origens que são minhas. e no bolso. um berlinde que trouxe de um passado onde o
rosto sorria – o problema. é que com a sua transparência. dá para ver o futuro
que um dia terei que enfrentar – tenho medo. a minha esperança é que o berlinde
se transforme num peixe que respire no mar e no ar. e o azul dos olhos seja o
pronúncio de esperança. e talvez construa um mar só para ele. maior e mais azul
– não consigo parar de olhar para o interior do berlinde. é lá que existo. é lá
que me tenho de perdoar. o futuro depende da absolvição. e o desespero oração –
entretanto. com esta face. sei que o futuro é uma bola de fogo. onde o pavor arde
com todas as palavras que não sei pronunciar – o que guardo desse passado? só o
alguém um dia me disse: tenho orgulho em ti – talvez seja pouco. mas é o
suficiente para não fazer de mim um erro. mesmo que cresça com o tempo. e me faça sofrer. sei que vou resistir –
quero morrer. com todas as incertezas. todas as dores. todos os pasmos. apenas
morrer – tenho medo. mas a minha esperança é que o berlinde se transforme num
peixe que respire no mar e no ar – tenho medo de perder o berlinde. mas também
de tê-lo no bolso – tenho medo de quase tudo. principalmente de mim
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
19/07/2010
o berlinde e o talvez
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