acordei com duas árvores amarradas
aos olhos – sonhei com uma floresta de borboletas. todas com várias cores e
formatos. todas voavam sem parar – eram aos milhares. umas para lá. outras para
cá. mas nenhuma deixava de bater as asas – sabem que vivem pouco e cada bater
de asas é um sopro do outro lado do mundo – o relógio é uma invenção do homem para
conseguir apanhar borboletas – voam sem direção. sem tempo. como se o seu mundo
não tivesse fim. como acreditam alguns humanos – soltei-me dos olhos.
amarrei-me às árvores que pareciam tocar o céu e trepei sem olhar para baixo – só
parei no topo. sentei-me num galho imaginário. como uma cadeira sem costas.
pobre. de madeira carunchada. rangendo como todos aqueles que um dia falaram
para mim – olhei. levei as mãos a uma nuvem que por ali passava. lembrou-me o
algodão doce que um dia o meu pai me deu numa procissão da semana santa. jurou
proteger-me das alturas – nunca senti essa proteção. talvez porque havia muitos
meninos mais tristes do que eu. a maior parte deles nunca tinham comido algodão
doce. outros. não tinham pai. nem mãe – talvez por isso a santa no andor nem
reparou em mim. e nas alturas. às costas de uns quantos homens vestidos de
negro – olhei para baixo. que afinal era já ali. na imaginação. minha árvore tocava
o céu – deixei cair as mãos. cortei-as. tive medo de me matar. às vezes ficam
tão magoadas comigo – possivelmente têm razão. nunca as pus a fazer algo de
jeito. a ambição inchou-as. acabaram por cair de gangrena. e para ficar com o
corpo simétrico cortei os pés – estou farto de fugir. para onde vou sem mãos e
pés? – em tempos tive uns sapatos de cordão. eram pretos. com o tempo ficaram
castanho claro. o pó da terra que pisei entranhou-se dentro do couro. os anos
passaram e o pó. que antes estava apenas no couro dos sapatos. acabou por se
entranhar na. e nunca mais tive pele – talvez o melhor fosse morrer. tenho comigo
um machado que amolei no passado. corto umas árvores e faço da minha vida uma
fogueira para náufragos – vivo na costa da morte – aqui. morre-se mais vezes. e
já nem se nota
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
13/07/2010
resistência – até quando. até quando
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Parabéns pelo seu blog, gostei de me sentir bem aqui, encontrei-me em tanta coisa aqui escrita.
ResponderEliminarAbraço de quem sente, que ainda se sente, quando é difícil sentir o que ainda se sente...
Alice Barros
obrigado pela visita - haverá sempre um lugar nas minhas palavras para quem se sente bem com a vida que escrevo - beijo
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