este livro. a bíblia. que trazia toda a
esperança nas primeiras páginas. é afinal um bluff. soube-o com o meu primeiro
choro – quando trazemos a marca do diabo ficamos logo a perceber que viver não
vai ser coisa fácil – já procurei no meu corpo o número da besta. encontrei uma
verruga. procurei um médico que me disse: nenhum mal ao mundo daí virá – não
acreditei – os médicos são como as bíblias. começam a dizer palavras bonitas.
para logo nos dizerem que somos mortais – como se eu não soubesse. eu que nasci
a morrer de mim – cuidei que era na verruga a porta de entrada de toda a crueldade
– aquela verruga tinha mau aspeto. igual a uma cicatriz da minha própria alma.
algo que me lembra constantemente da dor que herdei ao nascer: desassossego e
um cérebro que está sempre à frente das pernas – qual a razão para ficar a saber
das coisas. se ainda não aconteceram? vejo primaveras que serão invernos. corpos
que partiram com dor. e campos de descanso com nomes pregados a mármores – emprestam
dignidade a vidas maltratadas – armei o dedo indicador. agucei-o numa aguça que
guardo desde a escola primária. a primeira que me aguçou a vida. atarraxei-o na verruga maldita. e ali fiquei
para sempre com o indicador a apontar para sul – depois. procurei lúcifer.
tinha esperança de o encontrar pelo inferno. um igual ao meu. sentado num trono.
também eu acreditei que havia um trono dentro de mim. de couro vermelho. com dois
bilros nas costas apontados para uma gurita de luz. que faço questão de preservar
como saída de emergência para uma ideia suicida – mas não. ele tinha-se
ausentado. talvez com medo do meu dedo indicador. deixou apenas um bilhete:
voltaria mais tarde – vou estar atento. sei que um dia terei que abrir a gurita.
por as passadeiras a arejar. e o incenso a queimar contra os maus olhados – ele
sabe o que sou. e ainda assim me observa. esperando que eu me contorça nas
dores que sempre carreguei – nunca me dei bem com este homem. mas pelo menos
não me aldrava. sei ao que vem – não lhe quero mal. já tenho inimigos de sobra.
afinal. raras vezes me visita. tenho um dente de alho ao pescoço – o pior é viver
sabendo que sabe tudo em mim. até daqueles que gravitam à minha volta – já não
posso pecar em segredo – um destes dias tiro o dedo indicador da verruga. será
que está igual? feia. disforme. altiva. ou apenas moribunda – a morte caminha
ao meu lado desde o primeiro respiro. e a cada passo. sussurra-me aos meus
ouvidos – para me manter humano – salvam-se as aparências – estou cansado. hoje
parece-me um dia bonito para ver o mar. aproveito e envio uma mensagem sem
destino dentro de uma garrafa de vodka: a vida é uma complicação. mas eu gosto
do mar – espero que chegue a um destino. e não se perca nos enredos da vida
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
04/07/2010
o lugar da besta
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