hoje morreu uma gaivota malhada. suicidou-se para
fugir do mar e do vento que trazia dentro de si – chamava-se falhada. tinha nascido
com uma deficiência na ambição. sofria de megalomanismo. queria voar além da
imaginação. além do mundo – todas as tardes. da sua falésia. lançava-se ao
vento olhava – com o bico cerrado. subia até onde nenhuma outra ave ousara. carregava
no peito a força de quem sonhava – sonhava e subia. subia e sonhava. e sempre
que sonhava. voava – ao início. subia para gritar. como se quisesse dizer às
estrelas que ela. dona do mar e do vento. ainda procurava parte de si que não
havia despertado saber se alguma parte de si ainda não tinha despertado – esperava
que éolo. deus do vento. lhe enviaria todas as brisas favoráveis para chegar ao
céu. e que ao escutá-la. entendesse os sonhos que a faziam voar – poderia
explicar o motivo de não poder largar o destino que acreditava estar reservado
para si – o vento norte nunca a conseguiria travar – não compreendia o porquê de
carregar estradas que no vento não existem – tantas vezes quis ser um homem sem
sonhos. um homem simples. de terra batida. com cruzes penduradas no corpo. e braças
a arder sob os pés. mas estava cansado. sem entender o porquê de as noites serem
tão longas. frias. cheias de medos e fantasmas. tampouco o motivo de a lua. sua
única amiga. estar sempre a mudar de forma e lugar – talvez fosse a maneira de
recomeçar uma nova vida. sem que ninguém soubesse que era a mesma lua de sempre
– eu deveria fazer o mesmo. talvez quisesse voar. mas não conseguia? mas uma
gaivota é uma gaivota. e esta. sabia que tinha nascido com o infinito nos
olhos. sabia que é nos dias em que os pescadores se recolhem em terra. com medo
das tempestades que ela mais arrojada e livre – nesses dias. quando o céu
escurece e o vento ganha voz. as folhas caídas tornam-se pássaros vagabundos.
sopra a brisa das brisas – aquela que é capaz de pegar em todos os sonhos. e os
transformar em carne. sangue e dor – era o fim. sem sonhos. restava-lhe partir
– cravaria as memórias nos olhos. cortaria as asas. arrancaria penas e
cicatrizes. e então. afundar-se-ia no oceano. onde a esperava um tubarão – esse
dia ficará marcado com um ponto minúsculo no universo. um barquinho à deriva. com
terra à vista. para que todos soubessem que houve uma gaivota feliz apenas com
os seus sonhos – acabou por silenciar-se. sufocada pelo sonho que nunca
consegui libertar-se – quem sabe um dia voltará a voar. renascida num novo sonho
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
05/07/2010
onde os sonhos caem
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