domingo. o dia está envergonhado. o sol não é sol.
as nuvens não são nuvens. e o vento. não sendo vento. incomoda o suficiente
para me obrigar a procurar abrigo – mas deixo a minha imaginação à cata dos
ventos perdidos – plantei-a num campo que um dia será de milho. vesti-lhe um
espantalho. pus-lhe uma boina que um dia encontrei num sem abrigo – dizia-se
morto há muito. não tinha relógio desde que se encontrou consigo mesmo. do
passado. só guardava a memória da palmada do dia em que nasceu – ajeitei-lhe a
boina. como quem ajeita a vida. apesar das mãos caídas. acredito que viveram o
suficiente para serem mestras – hoje. de casaco roto. virado do avesso. veste umas
calças aos quadrados azuis. cor dum céu que não é o dele. nem o meu – sinto uma
simbiose com este espantalho – visto-me como ele. só não tenho uma boina para
me proteger das noites frias. a ele faltam-lhe uns sapatos. mas para quê. se nunca
sai do mesmo sítio – um dia deram-me umas sapatilhas brancas. diziam que era
para saltar por cima de palavras perversas – atirei-as muitas vezes contra o
destino – mas guardei-as no bolso dos aborrecimentos. e como prova de que continuo a ser resiliente – sem
elas. não teria a funda capaz de matar problemas gigantes – às vezes também me
sinto um espantalho. umas vezes feliz. outras. volto-me para norte. é de lá que
ouço o comboio apitar. avisando do mau tempo. da chuva e do vento – é domingo. e
não enxergo nada – tenho nos olhos duas tâmaras pretas. trazidas por um árabe que
vende cobras dançarinas – são enormes. diamantes que iluminam todos os que se
afundam em palavras presas em areias movediças – as lágrimas são rios submersos
– águas errantes que com o tempo se tornam amarelo terra – formam os oásis.
libertação para qualquer espantalho – um corvo pousa no meu ombro. diz-me o que
vê com olhos verdadeiros – teima em enxergar o que eu nunca consigo – reclamo
da verdade dos meus olhos. mas ele ri-se – já estás cego há muito tempo
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
27/06/2010
domingo
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