nem sei como o que te dizer! não contava nunca
estar nesta situação de falar de mim – sou ao contrário dos que comigo
partilham o dia-a-dia. muito reservado. talvez porque duvido sempre do que
penso. e por arrasto. duvido da forma como transformo o pensamento em escrita –
dúvidas que crescem comigo – gostei de deixar-me levar pelo arrasto das tuas
ideias. foi bom saber que alguém é capaz de tentar perceber o contexto das minhas
palavras. tanto na dor. como na esperança. na desilusão. ou até no desabafo
literário – passei a acreditar que ainda é possível entregar a alma em palavras
sem nunca deixar de ser o que sou. principalmente. depois da escrita ser
largada ao vento – és agora. também tu. uma fiel depositária de muito do que
sou nas palavras – um dia. reclamarei de ti a devolução. não das palavras
escritas. mas essencialmente da voz com que as guardas – nesse dia. falaremos
sobre todas as coisas que ainda possamos descobrir com os novos desafios
literários. que por certo virão – com este convite fizeste-me recolher à minha
tábua da escrita. imaginei como seria eu no meio de tanta gente. como evitaria
corar. como vos diria que eu não sou eu – como seria ler sob vosso olhar? sou apenas
a contracapa de um personagem que nasce na escrita e morre ao amanhecer – a luz
desfaz os sonhos dos vampiros das palavras – serei merecedor de uma estaca de
madeira no coração? morrerei continuamente para poder escrever sobre a
desilusão? nesta ilha. que é só minha. cercada de livros e mar. onde as
gaivotas choram por cada barco que parte. o silêncio do mar cumpre-se sempre – aqui
há silêncio mesmo no ruído – o mar sabe que este pedaço de terra que inventei.
serve apenas para repousar o corpo da morte – aqui. as marés obedecem a um
ritual antes de partirem de vez: chamam-me pelo nome. e deste mundo. ao teu
mundo. o mar nunca acaba – o que sei é que até as gaivotas preferem morrer
comigo – conhecemos cada rosto. e em cada um reconhecemos um pouco do nosso rosto
– as faces. aqui. na minha ilha. estão todas rodeadas de mar. mesmo quando coloco
os olhos no chão. com vergonha. tu sabes que escrever é um abismo – a ilha será
sempre o refúgio onde o sal e a humidade se entranham nos ossos – talvez um dia.
eu arranje um barco para me levar desta minha ilha. criada pela imaginação. para
conseguir estender uma passadeira de palavras a este mar que me divide o tempo
– e aí sim. essa tua vontade será também a minha. e mesmo que o mar se revolte na
ilusão. caminharei sobre as palavras. como jesus caminhou nas águas. levando ao
mundo as letras que inventei
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
27/06/2010
sábado
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