hoje
não me apetece escrever. estou com uma dor de cabeça infernal. nem suporto o
barulho das teclas a bater – olho para trás e não encontro nada que me alivie o
peso dos dias. olho para a frente e sinto o drama do sangue nas pontas dos
dedos. vou acabar frustrado comigo – estou parado diante de um papel que me
parece imaginário. mas eu sei que ele existe. há um fio que traz corrente elétrica.
de dentro desse poste imenso. que um americano visionário vendeu ao mundo. há uma
infinidade de circuitos interligados. faíscam entre si. iluminam tudo – o papel
fica luminoso e as palavras nascem com um pensamento que. afinal mais não é do que
mãos raivosas a excomungar o mundo – eu também sou uma invenção foleira. não de
um punhado de dólares imperialistas. mas de um escudo que deveria ser orgulho.
mas não passa de uma ilusão vazia – tenho aqui uma treta de uns bonecos dentro
de mim que se acendem quando liberto a energia. falta-me um estabilizador de
corrente para manter os neurónios alinhados com os mãos – estes bonecos de
feitios distintos muitas vezes entram em conflito – são implacáveis! uns pensam
que escrevem. outros que sabem ler. outros imaginam-se cientistas de régua e
esquadro. dizem que inventam. mas não vejo futuro no pensamento improdutivo.
outros ainda são uns cabeças de vento que não querem fazer coisa nenhuma – para
estes. onde houver um chaparro alumiado por um fusível de 220 volts. é onde
dormem melhor. apenas se perdem em divagações inúteis – quando estes irmãos fusíveis
se incendeiam. bem. nada segura os bichos dos eletrões e protões. comem-se uns
aos outros – esta bonecada cheia de energia é mais intensa quando acordo irritado.
mando tudo para aquela parte. falo sozinho. a barba são quatro navalhadas com
dois cortes profundos. e até o champô tem um cheiro horrível – o dia vai ser diabólico.
e de toalha à cinta seco o corpo enquanto leio emails. em suma. discuto com
todos e a todos digo que não sou um estorvo – tudo me corre melhor a partir do
momento em que a eletricidade se transforma em faísca no caminho dos outros.
digo cobras e lagartos e viro o mundo de pernas para o ar – os sonetos são um tédio.
os poemas exalam um amor pegajoso. o mar e as ondas enrolam-se na lua cheia.
que nunca conseguiu iluminar coisa alguma. nada me parece interessante – até o jornal
regional que compro pela manhã para saber dos mortos da terra está um desastre.
hoje. não morreu nenhum figurão. vamos ver amanhã – começo a sentir-me mais mortiço.
bebo dois cafés expressos de um só gole e sinto novamente a ira a tomar conta
de mim – sinto todos os nervos em curto-circuito. mas chego à conclusão que sem
a merda desta engrenagem não escrevo coisa nenhuma – começo a ficar triste. as
palavras cada vez são menos minhas. é mais uma dor que chega quando a energia
não é suficientemente forte para alimentar as mãos que teclam – é a maldição da
quarta-feira. o mar está para lá distante. e até as minhas gaivotas estão para
a faina – estas. saem no começo da semana e seguem os barcos para dentro do
nada. sabem apenas que têm que comer para poderem vir a terra de quando em vez
– também eu. saio pela manhã. o livro dos afazeres tem na primeira página em
letras grandes: segue em frente. tens que chegar ao fim-de-semana para reveres
as tuas gaivotas
.................................................................................não tirem o vento às gaivotas
27/06/2010
quarta-feira
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