.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

27/06/2010

a morte que sobrevive - I





 


a morte é sempre uma porta de recurso para os desesperados – sinto muitas vezes que não a tenho como inimiga – pelo contrário – traz-me novamente para dentro de mim a incerteza de onde estou e para onde vou – agrilhoar o pensamento da morte à serenidade é alívio. excogitar o seu interior é perceber o caos que existe no exterior – posso então rir das bestas que pensam que viver acorrentado a um palavrão é a solução para não viajar– saio muitas vezes zangado para não dizer fodido – irrito-me pelas promessas que não se cumpriram. é quando preciso de terminar com tudo. e mandar todos para a puta que os pariu – mas é neste horror a preto e branco que me penduro na morte. e encontro conforto dentro de mim – mato-me aos poucos. e quando acordo no enrodilhado dos lençóis. encontro sempre um pedaço de mim sem vida – mas até isso é uma mentira. que já se habituou ao despertar do sol. sempre que necessito desse pedaço morto. faço-o renascer às garras da besta em que me transformei – é assim que saio para a rua: arrependido. mas vivo. pesaroso das mãos de carrasco. e fico sem saber se mataram por ser a única opção. ou porque nasceram assassinas. sedentas de dor em vida e em morte. dentro de mim ou dentro do que não sou – mesmo com esta insatisfação. continuam a ser minhas. e pela manhã. todos os dias. é nelas que deposito toda a esperança que me resta depois da ressurreição – escrever a morte só é possível para quem sobrevive ao terror. ao desconforto. e à mutilação do que carrego em mim por ser quem sou – as mortes também renascem em mim. basta a luz partir e o sol negro aparecer – sobrevivem como repteis. sempre diferentes. sempre iguais. como todas as coisas mutáveis deste mundo – eu também me sinto diferente. todos os dias nasço. e todos os dias me transformo  




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