.................................................................................não tirem o vento às gaivotas

27/06/2010

sexta-feira







sexta-feira. todos os livros continuam em cima da minha tábua de escrita. tomaram outra forma. sabem que o fim-de-semana chegou. um tempo mais longo e mais livre – é um espaço temporal que dá para ganhar uns pozinhos de bem-estar – estes livros. carne da minha carne. sabem quanto tempo me ocuparam. uns riem. outros continuam sérios. outros incharam. como que a dizer que continuam prenhes. outros ainda. catam os capítulos que podem fazer de mim um pouco mais feliz. como as mães de antigamente. que penteavam os filhos à soleira da porta – outros livros. discretos. assobiam. parecem distantes. gostam de se fazer de difíceis. mas no fundo. no fundo. morreriam por um minuto nas minhas mãos. sabem que guardo para eles sempre um carinho. num bolso escondido por detrás de uma costela. talvez a de adão  – por último. sobressaem os mais ousados. desesperados digo. pelo tempo que sobreviveram na obscuridade. suportaram todos os livros que vivem perto de mim – estes mostram as suas partes mais íntimas. são livros parados no tempo. no tempo deles. e no meu. que se torna cada vez mais escasso. tudo fazem para ter um lugar nas minhas mãos. ávidos de sentir o suor a passar página a página – o meu olhar. no entanto. mantém-se distante. indiferente. como um pai que gosta de todos os filhos – não escolho os livros. eles são tudo o que eu tenho. filhos que adotei para prolongar a vida. a minha de leitor. e a de quem os escreveu – para todos tenho uma leitura. e todos são agora um pouco de mim – é o dia que escolhe um livro. e não o livro que faz o dia – hoje. estou comigo. apareceu um vento quente do sul. vento sudeste. dizem que traz as areias revolvidas pelos homens do saara. beduínos que criam apenas ovelhas e cabras. e carregam nas vestes brancas. que escondem linhagens e todas as histórias de um passado – sabem-no apenas. porque sabem ler o movimento das areias. e ao contrário dos livros. eles fazem passar de boca em boca a história da sua vida – eu terei um livro para contar a minha história. e quando partir em direção ao universo. deixarei o que resta de mim dentro de um monte de areia solta ao vento – já tenho um livro especial: o álbum onde eu cresci. pelas mãos de quem queria registar tudo o que me propus fazer – o primeiro ano com um fato azul e branco às riscas. parecia um marinheiro. talvez tenha começado aí o meu gosto pelo mar. depois a minha primeira comunhão. de joelhos. sobre uma almofada bordeaux. seguro uma cartilha que me garantia para todo o sempre a companhia ao lado de deus – o fotógrafo via-me no futuro. eu olhava para um espaço vazio. tal como eu – e assim fiquei. a olhar para o mundo até aos dias de hoje. ninguém precisava de saber o turbilhão de demónios que já moravam em mim. transfigurados em dor – fui crescendo. e até de cowboy apareci. tinha um ar simpático. trazia um lenço vermelho amarrado ao pescoço. e o chapéu de alguém que nunca tinha sentido o cheiro de uma pradaria – a estrela de xerife mostrava um respeito que eu não sentia. mas as pernas não paravam de crescer. e de todas as fotos. há aquelas que um dia espero ainda vir a gostar. porque mostram o mundo que me fez crescer. não importa se bem. ou mal: a família. os amigos. os carros. os colegas de escola. depois perdi-me. e nunca mais soube onde me procurar – de todas as fotos. há uma que guardo em mim com carinho. estava na praia. tinha a meu lado todos os ingredientes para o meu primeiro sonho: o baldinho. a pá. o engaço. o regador. e até as forminhas para poder construir casas e castelos. com fadas. e talvez até o peter pan – naquele areal o mar era meu. as gaivotas voavam sobre mim. e tudo me parecia imenso diante da minha pequenez. os sons eram como se tivessem nascido dentro de mim: o das marés. a bola que corria de encontro ao mar. que sempre devolvia. como se dentro dele já existisse tudo o que bastava. o homem carregado de línguas da sogra. e a sarronca a anunciar o nevoeiro – dentro desta moldura no tempo. recordo-me nu. nada me protegia. talvez porque nada fosse realmente importante. ou talvez porque foi assim que nasci. e foi este mundo que me trouxe até hoje – se nu estava. nu permaneço.  escrevo esta sexta-feira. diante do vento

 

 


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